06 julho, 2007

Um imenso Portugal?

Na minha idade, a memória é brincalhona, está sempre a trocar-nos a volta a cada virar de esquina. De que é que havia de me lembrar hoje? Da minha única e fantástica viagem ao Brasil, a convite de José Coura, director do Instituto Oswaldo Cruz, um dos melhores institutos do mundo em medicina tropical, a festejar o seu centenário. José Coura tinha vindo a Portugal, de propósito, porque ele não admitia que, na grande baralhada de nomes de família, a sua não estivesse ali mesmo em Paredes de Coura.

Ao lembrar-me disto, mandei esta fotografia a amigos, perguntando-lhes se conseguiam localizar coisa tão "portuguesa".



Isto não é mesmo o "imenso Portugal?"

Pensando que talvez não voltasse brevemente ao Brasil, escrevi ao José dizendo-lhe que queria fazer este extra de viagem mas que pagaria eu. A resposta foi que o excesso da viagem já tinha sido pago pelo Pedro Álvares Cabral! LOL!

Gabamo-nos de ser hospitaleiros. Cuidado com isto, só depois de sermos recebidos com a hospitalidade brasileira, coisa que muito me toca porque também é ponto de honra açoriano. Ainda por cima, quando ela se faz logo sobre dois ou três pontos facilmente identificadores de percurso pessoal. O meu amigo Eduardo, carioca, foi guerrilheiro, é cientista, professor universitário, é um amante de tudo o que a vida tem de melhor, é um homem de esquerda sempre a interrogar-se sobre o que é a esquerda. Como é que isto não deixaria de dar um grande convívio carioca, do uisque no bar de Ipanema (o da garota) até à introdução no mais famoso grupo de teatro de vanguarda, passando pelos locais de encontro típicos da resistência contra a ditadura dos coronéis? De longas conversas a encher um aipim com charque, chope um atrás do outro, em tudo o que era esplanada de cervejaria típica? E dos encontros marcados com tudo o que era top da inteligência carioca, que infelizmente já esqueci em boa parte? Há portugueses que recebem assim os seus amigos brasileiros?

Obrigado para sempre, Eduardo. E também um abraço para ti, Zenaide, que manténs um belo Brasil no Alto da Barra. "Este país ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai ser um imenso Portugal". Parvoíce do Chico,"este rectângulo ainda vai ser um pouco desse imenso Brasil tropical, que vai cumprir seu ideal". Fim banal: comparemos Lula e Sócrates!

3 comentários:

Henrique disse...

A última vez que falei com um açoreano sobre o formato de Portugal, ele explicou-me que era um triângulo e não um rectângulo. ;)

JVC disse...

Não, Henrique, é uma enorme elipse no meio do Atlântico, que lançou ferro num pequeno rectângulo continental, deixando uma boiazinha um pouco a sul :-)

JVC disse...

Em sinal muito sincero de arrependimento, aqui deixo a transcrição de uma mensagem de uma amiga angolana muito querida.

"Como pode falar da supremacia da hospitalidade brasileira e açoriana e esquecer-se da angolana? Espírito de sanzala, pata descalça, todos comendo do mesmo prato, durante horas intermináveis, sempre havendo repasto para mais um, debaixo da bananeira, ementa de feijão de azeite palma, muamba, menhandungue, pirão, peixe seco, mangas, maracujá e mamão de sobremesa, uma soneca à sombra da bananeira, as morenas de Angola fazendo companhia, dança pela noite fora, ao som do kizomba e do merengue. Não há hospitalidade nenhuma no mundo igual a esta. E não é que eu gosto mesmo do espírito de sanzala? E só não gosta quem nunca experimentou. Estamos assentes?"

Além do mais, é um texto delicioso e escrito com grande sabor a cravo e canela, que isto de morena é mais de Angola que de salvador.