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14 janeiro, 2009

Fraquezas...

Em 31.3.1875, alguém publicou anonimamente na Revista Ocidental uma crítica entusiástica às Odes Modernas, de Antero. O anonimato não esconde uma grande actualidade de cultura poética, alguém que conhecia e apreciava Walt Whitman (não me passava pela cabeça que algum crítico português do fim do séc. XIX conhecesse o poeta americano, quando o fradiquismo orbitava à volta de Paris). Quem seria este apreciador do meu padroeiro Sto. Antero? Adivinhem. Daqui a dias, digo. Entretanto, aqui vai a tal nota de crítica literária.
"Este livro, quando pela primeira vez apareceu, vai em dez anos, levantou no mundo literário não pequena borrasca, borrasca que ao sopro de ventos rijos se transformou na famosa tormenta, conhecida pela Questão Literária, que tantos destroços produziu ... e tantos folhetos! Foram tempos tormentosos esses; e no meio da paixão geral, era naturalíssimo que em nenhum dos dois campos rivais fosse o livro do moço e audacioso poeta, julgado com equidade. Assim sucedeu. O livro, em que uns quase saudavam uma espécie de Messias que vinha abrir uma nova idade literária, e diante do qual velavam outros a face como diante da abominação da desolação da antiga, sã e respeitável poética lusitana, o livro afinal não merecia «ni cet exces d'honneur ni cette indignité». Tudo isto passou. Hoje, em face desta segunda edição, sentimo-nos muito sossegados e podemos dizer, que se o pensamento do autor é por vezes violento e como que profeticamente exaltado, a ponto de transpor não raro os limites da poesia para se precipitar nas declamações ou proclamações revolucionárias, em compensação esse pensamento conserva sempre uma elevação crente e, ainda nos seus excessos, nobremente filosófica, que ninguém confundirá a raiva a frio de um petroleiro sistemático. O sr. Antero é um «revolucionário idealista»: dizendo isto não pretendemos elogiá-lo nem censurá-lo, mas tão-somente definir as tendências do seu espírito. O seu livro teve, quando apareceu, e tem ainda hoje, uma grande novidade (ou, se quiserem, originalidade) pois que este género de poesia de que as Odes Modernas são na literatura portuguesa um exemplo único, em nenhuma das literaturas contemporâneas é muito cultivado: em França, em Inglaterra, nos Estados Unidos, é mais ainda uma tendência do que uma escola, embora essa tendência tenha já inspirado obras como Les Jambes, de Barbier, L’année terrible, de Hugo e Leaves of grass de Walt Whitman. Dizem alguns que as Odes Modernas fizeram escola entre nós. Não nos parece isso. O tom da nossa poesia portuguesa não é bem este: aqui há uma corda mais grave, mas ao mesmo tempo mais rude, e é isso o que nos faz crer que o livro do sr. Antero ficará na literatura portuguesa como um monumento isolado – tanto mais curioso e interessante, por isso mesmo. Nesta segunda edição (onde há que louvar, para quem a cotejar com a primeira, o esforço visível do autor para conseguir a máxima correcção de forma) incluem-se várias composições inéditas, onde nos parece encontrar, ao lado de um estilo mais seguro, mais senhor de si, uma maior harmonia e equilíbrio de pensamento, o que tudo constitui seguramente um progresso digno de ser notado. Esperemos agora esta reincidência do autor, reaparecendo diante do público com o livro escandaloso na mão, se ainda afligir as almas piedosas, pacatas ou satisfeitas, ao menos não levante ruído que incomode os estudiosos."
P. S. - Pensando bem, a mistura complicada de deísmo, espiritualismo e realismo de Whitman estará muito distante de Antero? Provavelmente é mais afastada, no plano formal, a sua liberdade de estilo, comparada com o classicismo de rima e métrica de Antero.

P. S. 2 - Desculpem o snobismo, mas acho que há referências parvamente intelectualoides que podem ter alguma graça. Falei de Antero e, de raspão, aludi a fradiquismo. Lembram-se de que Fradique, como Antero e - já agora - também eu e muitos meus leitores, era parido de lava e mar açorianos? Há anos, tinha eu mordomia de motorista, conversava muito com o impagável JPN, ex-marinheiro convertido a motorista, que dessa situação passada tirava a liberdade de me dizer "agora, prof., vai uma de marinheiro para marinheiro". Outras vezes, reagia quando me falava em alguém e eu dizia que era meu conterrâneo: "prof,  não pode ser, começo a pensar que, aqui em Lisboa, se eu der um pontapé numa pedra saltam logo debaixo três açorianos importantes".

10 janeiro, 2009

A notícia mais importante do dia


Uderzo decidiu que Astérix vai continuar

Público, 10.01.2009, Carlos Pessoa

As aventuras de Astérix continuarão depois da morte de Uderzo, anunciaram ontem as Éditions Albert René, editor francês do herói. Esta empresa cedeu a autorização de publicar a série ao grupo Hachette, número um da edição em França que adquiriu recentemente 60 por cento da editora criada por Uderzo e pela filha de René Goscinny após a morte deste, em 1977. Durante muito tempo, o desenhador hesitou quanto à decisão a tomar, enquanto Anne Goscinny era favorável à continuidade do personagem. "É óptimo para Astérix", disse esta última à AFP, lembrando que o herói é um "notável sobrevivente" que foi prosseguido por Uderzo após a morte do seu pai. A decisão dos dois detentores dos direitos de autor do herói põe termo às especulações quanto ao futuro de Astérix após o negócio com a Hachette, que passou a controlar integralmente a vertente editorial do herói, assim como os direitos derivados do personagem.

P. S. - Quando estava na Suíça (1972-74) coleccionei no Le Monde um álbum do Astérix que perdi e de que já não recordo o nome. Ficou-me a memória de um dos mais espantosos desenhos que já vi: um cavalo que apanha meio metro à frente com um menhir atirado pelo Obélix. O cavalo está nem sei o quê, esbugalhado, siderado, tremente, fremente, esbaforido, a babar ranho medroso. Alguém me ajuda a localizar este desenho?

P. S. (11.1.2009) - Sim, ajudou-me José Carlos Santos (ver os comentários), permitindo-me publicar a tal imagem fantástica de "un caballo al borde de un ataque de niervos".

03 janeiro, 2009

Máxima

Não me ocorre ter lido esta máxima, mas estou absolutamente certo de que já alguém a escreveu. Ninguém reinventa a roda.

"Uma das principais características de um homem superior é a capacidade de se rir de si próprio"

02 janeiro, 2009

Perante a crise

Neste início de 2009, a inevitabilidade da crise, a pequenez do cidadão comum para a defrontar, a preocupação dos governos com os grandes – os especuladores, os que se passaram do neoliberalismo "hardcore" para um keynesianismo hipócrita – levam-me, em quase protesto subconsciente, a "filosofar barato". Ao menos isto ninguém me tira. Hoje lembrei-me de uma passagem do Cyrano de Bergerac que dá uma luz interessante, talvez ajustada à minha idade, ao sentido das lutas.
"Que dites-vous?. . . C'est inutile?. . . Je le sais!
Mais on ne se bat pas dans l'espoir du succès!
Non! non!
c'est bien plus beau lorsque c'est inutile!"
Já agora, sem ter tanto a ver com a crise, as últimas frases de Cyrano, de que me lembro sempre:
"Oui, vous m'arrachez tout, le laurier et la rose!
Arrachez! Il y a malgré vous quelque chose
Que j'emporte, et ce soir, quand j'entrerai chez Dieu,
Mon salut balaiera largement le seuil bleu,
Quelque chose que sans un pli, sans une tache,
J'emporte malgré vous, et c'est. . .
(...)
Mon panache."

09 dezembro, 2008

Um amigo a destacar

Nesta ponta final de vida deste blogue, tenho dificuldade em escolher temas de entre muitos que fui acumulando à espera de dia de publicação. Um não pode ficar sem dar de fé, o da "incubadora de amizades". Incubadora de empresas toda a gente sabe o que é. E incubadora de amizades? É uma pessoa que tem muitos amigos, em polos diversos, de gente que não se conhece, mas que a incubadora, conhecendo-os a todos, tece malhas sabedoras de afinidades, histórias comuns, até coisas de casadices e descasadices, ou de copos, ou de músicas. Marca encontros seleccionados de um e outro seu amigo, faz nascer novas amizades, que por vezes até crescem a esquecerem a sua origem. Assim é o meu amigo Manuel Mota.

Boa parte das amizades do MM tem sido feita à volta da música, como amador, mas amador com grande seriedade e sentido da responsabilidade artística. Lá leva atrás os amigos para variados sítios, bares, cafés, coisas interessantes que vou descobrindo (por exemplo, o Melkia em Telheiras), em merecida peregrinação, noites divertidas em que música, histórias de ontem e hoje, amigos divertidos, se misturam em grande festança alegre a acabar antes no derrame já obnubilado da camarata de Guadalupe, que Nª. Sª. dos Almendres haja.

Mistura rica, disse, mas em que se destaca a música, variada. São os blues do conjunto com o Michel Mounier (ex-1111) e o Bagorro, às vezes com o sax do Zé Tó Amaral. Ou a banda a virar para a bossa nova, agora sem a efémera mas magnífica colaboração da voz da Letícia. Mais recentemente, uma nova experiência, muito bem conseguida, dos dois Manueis, Mota e Cintra, só canto de MPB e violão, registo muito comedido, mas de grande qualidade. Manuel Cintra tem uma boa voz, cheia e vibrante e canta/diz com uma expressividade de poeta que lhe dá um registo vincadamente pessoal das canções célebres de Chico, Caetano, Jobim, Caymmi. MM acompanha com o nível muitas vezes difícil de conseguir do volume que se nota, se reconhece, se aprecia, mas que não abafa o parceiro.

MM e amigos, eles andam por aí, vão a todas, tudo por gosto, coisa funda nas memórias cinquentonas. Avisarei quando os puderem ouvir, que vale a pena. E não só ouvir, também o convívio de amigos, comes e bebes, depois da música.

P. S. - Esqueci-me, imperdoavelmente, de referir o nome artístico do Manuel Cintra: M. C. Punhetas e Cardoso.

05 dezembro, 2008

Ligeireza ou aldrabice?

O romance histórico não é novidade e tem grandes pergaminhos. Tanto quanto me ocorre, aparece no século XIX como símbolo de um nacionalismo romântico que tem alguma coisa a ver com o ideal do ressurgimento (uso o termo lembrando-me de Itália) de povos e culturas entretanto decaídos. Recordamos logo Alexandre Herculano e Walter Scott. Em ambos os casos, aliam-se a alta qualidade de escrita ao máximo rigor histórico, obviamente em compromisso com a ficção. Mais recentemente, em Portugal, deve realçar-se, nesta tradição, Fernando Campos. Fora fronteiras, obviamente que Umberto Eco.

Entretanto, nos últimos anos, vingou a moda da sandes mista de romance histórico e de “suspense”, ao estilo de Dan Brown. Mesmo neste caso, ao que me apercebo, há a preocupação de rigor, de procura extensiva de informação de base, de correcção dos cenários e fundos históricos e geográficos. Entre nós parece ser diferente, à “tuga” videirinho, para quem tudo vale porque o escritor orelhudo ou nicotínico é muito esperto e não se digna sequer pensar que pode haver um ou outro leitor que se aperceba da ligeireza aldrabona.

Teria alguma dificuldade em escrever isto, porque não leio estas degenerescências nacionais do que já não é grande coisa estrangeira. Há algum tempo fui enganado. A publicidade de “O cavaleiro da ilha do Corvo” fez-me pensar que se tratava de um ensaio histórico, provocador. Por isto o comprei, vendo depois que era um exemplo menor de romance todo ao estilo Dan Brown (um herói académico, uma mulher inteligente mas que também gosta de cama, esoterismo, mistério, perigos, uma hipótese de história transgressora da História convencional).

Repetindo, tudo isto misturado com uma ligeireza e falta de seriedade dificilmente compatível com a situação de professor universitário do autor. Coisas que podiam ter sido evitadas por uma simples leitura prévia por um micaelense medianamente culto. Alguns exemplos (propositadamente não os corrijo, porque seria insulto à cultura dos meus leitores). Ao fim de uma tarde de trabalho no congresso, em Ponta Delgada, os participantes tomam o autocarro para o jantar na Praia da Vitória! Água de Pau é uma vila situada à beira mar! A ilha Sabrina, resultado de uma erupção de dois meses junto à Ponta da Ferraria, ilha depois desaparecida e entretanto efemeramente britânica por o comandante do navio inglês Sabrina dela ter tomado posse, apareceu em 1638, segundo o autor, apesar de as crónicas da época serem de 1811. E mais, mas já chega.

A ligeireza, a raiar a aldrabice, é mesmo sina portuguesa?

04 dezembro, 2008

Incultura snob

Nos últimos dias, a propósito dos acontecimentos dramáticos em Bombaim, só ouço notícias do que se passou em Mubay. Isto não é novo, faz-me lembrar o 11 de Setembro em New York ou até um célebre sine die pronunciado na televisão como saine daie. Mas ainda vai faltando, para grande vergonha da nossa "cultura" jornalística,  atentados em London, carnaval em Venice, os últimos jogos olímpicos em Beijing. Ao menos, como ouvi há dias, já se vai sabendo que não sei o quê se passou na cidade suíça de Genève. O homem deve ter apanhado em tempos uma bebedeira de genebra e ficou com fobia à palavra.

Insisto. A bem da nossa mínima saúde mediática, acabem já com os cursos de comunicação social. Contratem licenciados em letras, em economia, em ciências, em tudo o que quiserem, desde que escrevam bem sobre o que sabem, que sejam minimamente cultos e que, principalmente, não torturem a nossa língua, a nossa pátria mental.

17 novembro, 2008

Diletantismo portuga?

Na sua crónica habitual no Público e com a sua habitual displicência, diz hoje Vasco Pulido Valente que Marx, para os seus estudos de economia política que o levaram ao monumento intelectual que é o Capital (concorde-se ou não com as derivações políticas práticas do marxismo) falsificou dados. É a mais grave acusação que se pode fazer a um cientista e é a primeira vez que leio tal coisa em relação a Marx. Das duas uma. Ou VPV é um diletante, não é um pensador rigoroso, não conhece a ética científica e pode-se-lhe desculpar (?) a acusação atirada como barro à parede. Ou é o contrário disto e então exige-se-lhe que demonstre tão grave acusação. 

02 novembro, 2008

Keep it simple, stupid

Muitos políticos americanos têm dotes oratórios excelentes. Lincoln, Roosevelt, Kennedy, Martin Luther King, agora Obama. Vêm na tradição do uso sintético, incisivo, da língua, e por isto é que as grandes citações, depois dos romanos, são agora as dos americanos, sem falar na eloquência exemplarmente elegante de Jorge Sampaio! Coisas célebres: “Don´t ask what your country can do for you, ask what you can do for your country”; “Ich bin ein Berliner”; “I have a dream”. Notável é a última de Obama (vai em português, não a consigo no original): “Qualquer parvo faz um filho, mas o que faz um pai é fazer crescer um filho”.

KISS, keep it simple, stupid!

25 outubro, 2008

Literatura pimba

Não sou masoquista e julgo ter bom gosto, nunca li nada de Margarida Rebelo de Andrade, juro. No entanto, vivo no meu mundo real e não deixo de "valorizar", se calhar de invejar, quem é capaz de aproveitar bem o pimbismo nacional. E nem é só nacional, porque dizem os entendidos que Paulo Coelho é o escritor mais lido em todo o mundo.

Nada de mal se esta gente se situar honestamente na sua vida "intelectual". Diferente é o caso de José Rodrigues dos Santos, escritor pimba medíocre (se é que isto não é pleonasmo) que numa entrevista recente (lamento não ter a referência) se permite comparações com Saramago e Lobo Antunes, com base no volume de vendas e até com entrelinhas sobre aspirações a um Nobel. Até onde pode ir o delírio desta "sociedade de sucesso"!

O menino ficou famoso por uma prodigiosa imaginação para cenas eróticas estranhas. Se não fosse o sucesso literário, também o teria na "Maria". Num "romance" anterior, imaginou uma cena amorosa que começa por um jantar de sopa de peixe aromatizada com leite da menina (nem sempre funcionará, é preciso que ela esteja lactente, coisa difícil de compatibilizar com uma cena erótica).

Neste último livro, de há dias, vai a supremos, não posso deixar de experimentar um dia destes, se conseguir arranjar uma parceira disponível para coisa tão estranha. É uma cena de amor num curral, em que "os gemidos de Amélia misturam-se [sic, em vez do correcto "se misturam"] com os grunhidos dos porcos." Pode haver coisa mais eroticamente excitante? Já estou cá com uma pica...

Cada um tem o escritor que merece.

P. S. (por chamada de atenção, 18:59) - Garanto que um meu erro acima não é truque, trocar Pinto por Andrade. É mesmo sinal da importância que a senhora tem para mim.

04 outubro, 2008

Pérolas jornalísticas

Tendo decidido não comprar mais o Público, passei a escrutinar com cuidado o DN, possível alternativa para quem desde há muitos anos o jornal em papel é tão obrigatório como o café (valha que já não a cigarrilha). Nanja, como diz o meu povo. Aqui vão algumas pérolas, parafraseando o meu amigo Pedro Aniceto.

1. Ontem, noticia-se que "para combater a poluição microbiológica vão (JVC - itálico meu) haver novas normas".

2. Hoje, um jornalista escreve uma peça correcta em que refere com frequência o Tribunal de Contas como TC, identificando claramente a abreviatura logo na primeira linha. A notícia não permite qualquer ambiguidade, por se referir a coimas aplicadas a autarcas por irregularidades de contas. No entanto, quem depois escreveu a epígrafe e a legenda da fotografia entendeu que era o Tribunal Constitucional.

3. Mais grave, também hoje, o título e o texto de uma pequena notícia sobre um assalto realça que se trata de assaltantes romenos. Se fossem portugueses, tal facto teria tido honras de chamada de atenção?

Será que ainda vou ter de experimentar o Correio da Manhã? 

23 setembro, 2008

As duas faces da medalha

Obviamente, não dispenso hoje a net. Com algum sentido crítico e com alguns controlos de qualidade (avaliação da origem da informação, comparação com outras fontes, etc.) é nela que acabo por encontrar mais facilmente a informação que desejo, em vez de horas de procura nos meus livros e papéis. Isto fora o acesso gratuito ou muito barato a jornais estrangeiros em que estou já viciado, à leitura de grandes articulistas, à obtenção de leis que antes tinha de pedir a amigos da função pública, como fotocópias, ou até à reserva de hotéis, de voos, de compra de livros e tanto mais. Tudo isto, evidentemente, já é lapalissada.

No entanto, não há bela sem senão. Hoje dei por um caso exemplar. Ainda ontem tinha recebido um mail de uma amiga minha, culta, bem informada e socialmente muito responsável, a alertar-me e a convidar-me a protestar contra a delapidação de azulejos de Maria Keil em estações do Metro. Esta mensagem via-se que resultava de uma grande cadeia de “forwards”. Hoje, Júlia Coutinho chamou-me a atenção para o abuso que isto representava em relação a uma entrada do seu blogue “As causas da Júlia”. Como não nos conhecemos pessoalmente e nunca nos tínhamos correspondido, imagino que ela deve ter enviado isto a muitos bloguistas. O trabalho que deve ter tido. Mas recomendo que não deixem de ler o seu texto a que me refiro. É um bom exemplo de honestidade e rigor intelectual.

A blogosfera começa a saturar-me e cada vez menos leio blogues. A maioria dos blogues políticos são colecções de “sound bites” ou manifestações de indignação virtuosa, apaixonada e sem objectividade. Os culturais são pobres. Ficam alguns temáticos. Mesmo assim, começo a notar que a leitura e escrita de blogue me prejudicam em relação ao estudo e escrita mais elaborada sobre temas que me são caros e em que penso que posso contribuir com alguma reflexão. Fico também com a impressão de que isto é um exercício um pouco circular, como vejo pelos comentários. Comparando com o número de visitantes, e principalmente com a lista de visitantes regulares, parece-me claro que estou a escrever principalmente para leitores que já pensam como eu, que não têm tempo para comentários de simples concordância, do estilo que por aí se vê, “que lindo, muitos beijinhos”. Aliás, é a minha experiência como leitor de blogues que raramente faz comentários e que, se os faz em relação a coisas que me merecem reparo, ficam submersos no coro de apreciação amiguista.

Esta de comentários evoca-me um exemplo paradigmático, o dos comentários a notícias do Público “online”. São instrutivos. Na sua esmagadora maioria, são desabafos de protesto emotivo e irracional, de mal-dizer, de processos de intenção, de calúnia generalizada sobre a política, a sociedade, o país. São de um primarismo indigente, de óbvia deficiência cultural - a julgar pelos erros de português. Não sei o que o jornal ganha com isto. Minto, estou a ser ingénuo. Deve dar-lhe muitos visitantes ao “site”, coisa que os anunciantes apreciam.

19 setembro, 2008

Finlândia

Desde há algum tempo, somos bombardeados com coisas internéticas variadas produzidas no Brasil. Algumas têm piada, outras são umas lamechices intragáveis, outras ainda, pior, são autênticas fraudes. No entanto, e sem garantir o rigor da apresentação, recebi um ficheiro PowerPoint com belas imagens da Finlândia e com o texto que se segue. Vale a pena dar-lhe uma olhada.

"A Finlândia não tem muitos recursos naturais. O hino nacional já diz: ...somos um país pobre, que não tem ouro. O recurso que temos é o nosso povo.

Assim, investimos no nosso povo. Toda a pessoa tem de receber formação, educação, para ir tão longe quanto a sua capacidade permitir. 

Não é suficiente que uma sociedade possua algumas pessoas muito capacitadas. Toda a sociedade tem de ter a possibilidade de formação durante toda a vida. Não basta que uma criança pobre receba alguma formação quando pequena. Ela tem de poder estudar o quanto quiser. E a Finlândia tem sido um dos países mais competitivos nas estatísticas internacionais com só 5 milhões de habitantes. Imagine o que fariam com 190 milhões.

Se o Brasil busca inspiração para enfrentar dois de seus principais problemas (educação e corrupção), dificilmente poderíamos deixar de visitar um lugar mais apropriado que a Finlândia.

A presidente finlandesa, Tarja Halonen, adianta algumas dicas: “investimento maciço em educação
(6% do PIB na Finlândia, sem contar pesquisa); transparência no governo; e fidelidade partidária”; "É muito importante ter a coragem de alocar os recursos para a educação básica", ressalta ela.

Um povo educado elegerá dirigentes honestos e competentes. Estes escolherão os melhores assessores. Um povo educado não tolera corrupção. Um povo educado sabe muito bem diferenciar um discurso sério e uma falação demagógica. 

Um povo ignorante desperdiça seus recursos e empobrece. Um povo ignorante vive de se iludir.

Um povo educado prospera mesmo em condições adversas!

A Finlândia possui uma economia de mercado altamente industrializada, com produção per capita maior que a do Reino Unido, França, Alemanha e Itália. O padrão de vida finlandês é elevado. O setor chave de sua economia é a indústria - principalmente madeireira, metalurgia, engenharia, telecomunicações (destaque para a Nokia) e produtos eletrônicos. O comércio externo é importante, representando cerca de 1/3 do PIB. Com exceção de madeira e de vários minérios, a Finlândia depende de importações de matérias primas, energia, e alguns componentes de bens manufaturados."

P. S. - Por falar em fraudes na net, recebi hoje uma apresentação muito bonita com imagens de propaganda turística de Cabo Verde. Simplesmente, uma delas era da lagoa do Fogo, da minha ilha de S. Miguel!

09 setembro, 2008

Adeus, Público

Chega. Não sei porque é que ainda ia lendo o Público. Ia aturando o conservadorismo ex-maoista do director, as calinadas de ignorância cultural, factual e linguística de muitos jornalistas, a farsa "cultural" do suplemento P2, o enviesamento descarado da opinião dita isenta, contra a objectividade mínima (por exemplo, a actual campanha presidencial americana, tudo o que diz respeito a Angola, a atitude geral em relação aos costumes e à ética médica, com relevo recente para a posição anti-lei do divórcio), nos últimos dias uma série ainda a continuar de escandalosos artigos "de opinião" da mais descabelada propaganda da China (alguém paga?). 

O caso da lei do divórcio é bem significativo, na edição de hoje. O PS até vai descontrair a situação, alterando um artigo, quando, para mim e outros bloguistas, a única resposta à atitude de Cavaco devia ser pura e simplesmente a reaprovação integral da lei, votada por maioria absoluta dos nossos representantes parlamentares. Com isto, o Público lembra, com destaque, parecendo ser um aviso a Belém, que o PR fica novamente com poder de veto, como se alguém imaginasse que tal fosse possível, politicamente. Claro que, logo a seguir, escreve que não parece que isso venha a acontecer. Então para quê a sugestão?

Há pouco, li esta notícia espantosa, cúmulo da estupidez ou da leviandade profissional, que fala por si. Nem faço comentários.
Procurador da República pede absolvição de Fátima Felgueiras 
O Procurador da República Pinto Bronze pediu hoje a absolvição de Fátima Felgueiras de seis crimes de corrupção passiva e três de prevaricação. O magistrado preconizou a condenação da autarca e principal arguida do processo do "Saco Azul de Felgueiras" pela prática de cinco crimes de participação económica em negócio.
Com isto, ao fim de 48 anos de hábito diário obrigatório de compra de um jornal, vou mudar de vida, porque o DN também não me parece que valha a pena. Mas não vou perder nada. Vou ter mais tempo para ler na net os meus jornais estrangeiros e dar uma olhadela a alguns sites de notícias caseiras.

29 agosto, 2008

Fundamentalismo Cristão?

Consta que uma escultura de madeira, com um sapo verde crucificado, se encontra exposto no Museion, Museu de Arte Contemporânea em Bolzano, no norte de Itália.

Consta, igualmente, que o Papa Bento XVI não terá gostado da escultura e que terá escrito ao museu solicitando a sua remoção. Razão? A obra constitui uma blasfémia e insulto aos cristãos.

Mas que raio! Não tínhamos já aprendido que a censura de conteúdos na arte e na ciência dá asneira? Que nem a religião nem a política o justificam? Que os gostos não se discutem e que contra o alegado mau gosto a melhor resposta é a indiferença?

Afinal que diferença existe entre este sapo e as famosas caricaturas de Maomé?

19 agosto, 2008

Silly season

Todos sabemos que ela existe, que é um problema para os jornais, à míngua de notícias e de artigos de qualidade por gente que está de férias. Na falta, já é costume o inquérito, normalmente da maior marca de cretinice. Afinal, a culpa é de quem se presta a isto. Leiam só a tristeza de um inquérito do Público a Irene Pimentel, prémio Pessoa. Gente ilustre pode não ter a noção do ridículo?

Nascer do Sol ou pôr do Sol?
O segundo, porque nunca assisto ao primeiro.

Qual é a sua ideia de felicidade?
Não consigo responder a uma palavra tão complexa.

Qual é o livro que tem vergonha de não ter lido?
Ulisses, de James Joyce.

Que língua gostava de falar?
Russo.

Como se imagina a envelhecer?
Exactamente como está a ser na realidade.

A quem atira a primeira pedra?
Não atiro pedras.

Obama ou McCain?
Obama.

Sócrates ou Ferreira Leite?
Sócrates.

Qual é a cidade de que mais gosta?
Lisboa.

Lê o seu e-mail nas férias?
Sempre.

Qual é o sal da vida?
É o sal da terra.

Que Caixa de Pandora nunca abriria?
A da Pandora.

Qual o assunto de que já não pode ouvir falar?
Dos anti-semitas que não se dizem anti-semitas.

Três coisas que gostava de transmitir ao seu filho/sua filha
Liberdade, Responsabilidade e Igualdade.

Onde está o diabo?
Em lado nenhum.

Quem mandava para Marte?
Ninguém. Coitadinhos dos marcianos.

Trocava Portugal por outro país para viver?
Não.

Qual é o seu museu preferido?
O museu judaico de Berlim

Como gostava de ser recordado(a)?
A prazo, ninguém é recordado.

Que pergunta gostava que lhe tivesse sido feita neste inquérito?
"Já tomou seu Toddy, hoje?"

Tristezas portuguesas

Évora é a cidade central de uma vasta região portuguesa, tem para cima de 40.000 habitantes, tem uma boa tradição cultural e um património invejável, tem uma companhia de teatro, tem uma universidade com vários cursos na área cultural e com uma população jovem educada e certamente com apetência para a cultura. Mas só tem duas salas de cinema e que talvez fechem daqui a dias. Não dá para acreditar.

06 agosto, 2008

Arte colonialista?

Nos meus dois anos de vida em Angola, entre 1970 e 1972, impus-me a regra de tentar fazer desse prejuízo para a minha vida profissional e familiar um desafio a ficar-me na memória aquela terra. Acho que consegui, ainda hoje me sinto muito angolano, contraste extremo com ser muito açoriano. Entre muitas coisas desse aproveitar Angola, destaca-se a conquista de amizades com gente notável, de muitos e variados tipos, brancos e pretos, elite e povo.

Um foi o “velho”, exemplo de qualidade intelectual e moral, de juventude e abertura de espírito. A minha então mulher, sua colega jovem de ofício, trabalhou com ele e partilhava comigo a admiração por esse homem que já é altura de identificar: Vasco Vieira da Costa, arquitecto, radicado em Angola há muitos anos, depois de um percurso profissional notável que incluiu um estágio com Le Corbusier.

Não sou arquitecto, mas é arte que me fascina e em que julgo poder opinar acertadamente. Costumo dizer que, ao contrário do turista das compras que só olha para o rés-do-chão, as cidades só me provocam o olhar a partir do 1º andar. Ora, da influência de Corbusier em Portugal, fora o Hotel Casino no Funchal e o casino, do seu discípulo Niemeyer, ressalta o mercado do Kinaxixi (Quinachiche) em Luanda, com a demais-valia de um excelente trabalho de adaptação ao calor e à luz tropical.

É esta obra que está a ser demolida. Protesto, com a autoridade de sempre ter tido uma posição anticolonial e de me ter batido publicamente por ela. Isto não significa uma concordância acéfala, se calhar complexada, como me parece ver em muitos casos, com o desprezo dos novos países pela obra que os portugueses lá fizeram e que deve fazer parte do seu património cultural. Os pecados da dominação política, da exploração económica, não devem escamotear o que se deixou de bom, inclusivamente como, neste caso, feito por homens que se opunham ao colonialismo. E eu testemunho isto, meu caro “velho”, como lhe chamava sempre o nosso comum amigo Valério.

21 julho, 2008

Os mandamentos das raças

Publicado por um grupo de biólogos da Universidade de Stanford, preocupados com a utilização abusiva de “argumentos científicos” na defesa do racismo.

1. Todas as raças são iguais, não há nenhuma base científica para dizer que uma é superior a outra.

2. Dois portugueses podem ter mais diferenças genéticas entre si do que em relação a um chinês: não há uma relação entre a variação genética e a distribuição geográfica.

3. Os genes não definem toda a ascendência de uma pessoa: factores como a cultura e os factores sociopolíticos da sociedade em que se insere podem ser ainda mais importantes.

4. Membros do mesmo grupo étnico ou raça podem ter uma genética muito diferente - há várias populações diferentes que cabem na classificação de "hispânicos", por exemplo.

5. Características comportamentais completas, como os níveis de inteligência ou a tendência para actos violentos, não se podem explicar apenas pela genética.

6. Os cientistas devem ter muito cuidado ao usar grupos raciais para fazer investigação; podem estar apenas a usar estereótipos, e não categorias válidas.

7. A medicina deve concentrar-se no estudo das características de cada indivíduo, e não na sua raça. É uma ideia simplista dizer que a saúde é determinada apenas pelos genes e pode contribuir para atitudes racistas.

8. Os estudos sobre variação genética humana devem ter a contribuição de várias áreas do conhecimento, da biologia à economia e às ciências sociais.

9. Cientistas, jornalistas e outras pessoas com responsabilidades na divulgação da investigação científica devem ter cuidado com simplificações que podem ser usadas para determinados objectivos políticos.

10. Os programas escolares devem incluir não só o estudo da genética como o da história do racismo, para explicar como a ciência já foi usada para promover ideias racistas.

(Público, 20.7.2006)

07 julho, 2008

Bons ventos de Espanha

O Público de ontem traz uma notícia talvez insólita para muitos, mas não tanto se nos lembrarmos que a Espanha está a demonstrar avanços culturais bem reflectidos em medidas políticas e jurídicas julgo que únicas em países latinos, como seja a legalização de casamentos de homossexuais. Leia-se então a notícia:

“O Comité de Ambiente do Parlamento espanhol aprovou na semana passada resoluções para que chimpanzés, gorilas e orangotangos tenham alguns direitos actualmente apenas aplicados a humanos. Será a primeira vez que um organismo legislativo nacional toma uma medida deste género, diz a revista Science. As resoluções deverão ser aprovadas como lei pelo Parlamento dentro de um ano. Pretendem dar aos parentes biológicos mais próximos dos humanos o direito à vida, à liberdade e a protecção de tortura.”

Mesmo quem não for um fundamentalista extremo dos “direitos dos animais”, se tiver um mínimo de conhecimentos, alcançará o significado destas resoluções. Há animais e animais, desculpe-se-me a lapalissada. Os chimpanzés partilham connosco exactamente 96% do nosso genoma e, se considerarmos pequenas variações, quase 99%. Têm hábitos culturais, resolvem problemas e inventam utensílios. Têm consciência, se a definirmos essencialmente como a capacidade de se reconhecer a si próprios, por exemplo ao espelho ou numa fotografia.

Note-se que se inclui nos seus direitos o direito à liberdade. Isto tem duas importantes consequências, mas com uma reserva. Em primeiro lugar a proibição de cativeiro nos zoos, mas provavelmente sem efeitos para os seus actuais ocupantes, que dificilmente se adaptariam ao meio natural se fossem libertados. Depois, a enorme resistência que haverá, se este direito for generalizado, por parte da investigação biomédica, designadamente a das indústrias farmacêuticas, porque a tal semelhança genética tem outro lado da moeda: o chimpanzé é em muitos casos o único animal de experiência para doenças humanas e teste de novos medicamentos ou vacinas.