Publicado por um grupo de biólogos da Universidade de Stanford, preocupados com a utilização abusiva de “argumentos científicos” na defesa do racismo.
1. Todas as raças são iguais, não há nenhuma base científica para dizer que uma é superior a outra.
2. Dois portugueses podem ter mais diferenças genéticas entre si do que em relação a um chinês: não há uma relação entre a variação genética e a distribuição geográfica.
3. Os genes não definem toda a ascendência de uma pessoa: factores como a cultura e os factores sociopolíticos da sociedade em que se insere podem ser ainda mais importantes.
4. Membros do mesmo grupo étnico ou raça podem ter uma genética muito diferente - há várias populações diferentes que cabem na classificação de "hispânicos", por exemplo.
5. Características comportamentais completas, como os níveis de inteligência ou a tendência para actos violentos, não se podem explicar apenas pela genética.
6. Os cientistas devem ter muito cuidado ao usar grupos raciais para fazer investigação; podem estar apenas a usar estereótipos, e não categorias válidas.
7. A medicina deve concentrar-se no estudo das características de cada indivíduo, e não na sua raça. É uma ideia simplista dizer que a saúde é determinada apenas pelos genes e pode contribuir para atitudes racistas.
8. Os estudos sobre variação genética humana devem ter a contribuição de várias áreas do conhecimento, da biologia à economia e às ciências sociais.
9. Cientistas, jornalistas e outras pessoas com responsabilidades na divulgação da investigação científica devem ter cuidado com simplificações que podem ser usadas para determinados objectivos políticos.
10. Os programas escolares devem incluir não só o estudo da genética como o da história do racismo, para explicar como a ciência já foi usada para promover ideias racistas.
(Público, 20.7.2006)
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21 julho, 2008
Os mandamentos das raças
02 julho, 2008
Palavras para quê?
29 março, 2008
Notas soltas
Contra o que tenho criticado a outros, hoje vão só dois "sound bites" suscitados pela leitura do jornal.
1. Há uns anos, Jaime Gama, na Assembleia da República chamou a Alberto João Jardim, a meu ver muito bem, o Bokassa da Madeira. Ontem, no Funchal, afirmou que ele era "um exemplo supremo na vida democrática do que é um político combativo". Será que é o mesmo Jaime Gama da nossa juventude?
2. Vai ser sequenciado o genoma do sobreiro. Boa ideia, de previsíveis consequências práticas muito importantes para nós. Ficam da notícia é coisas que não percebo. Vão ser sequenciadas 100 milhões de bases, quando o genoma tem pelo menos dez vezes mais. O projecto, para três anos, envolveria cerca de 200.000 operações de sequenciação, uma por dia e por máquina, ou seja, em 300 dias por ano, 600 máquinas em simultâneo. Só isto custaria qualquer coisa como 50.000.000 euros só em equipamento, mais uma verba muito considerável para mão de obra e reagentes. A notícia diz que o financiamento pedido para o projecto foi de 100.000 euros. Bate certo ou alguém está a enganar alguém?
1. Há uns anos, Jaime Gama, na Assembleia da República chamou a Alberto João Jardim, a meu ver muito bem, o Bokassa da Madeira. Ontem, no Funchal, afirmou que ele era "um exemplo supremo na vida democrática do que é um político combativo". Será que é o mesmo Jaime Gama da nossa juventude?
2. Vai ser sequenciado o genoma do sobreiro. Boa ideia, de previsíveis consequências práticas muito importantes para nós. Ficam da notícia é coisas que não percebo. Vão ser sequenciadas 100 milhões de bases, quando o genoma tem pelo menos dez vezes mais. O projecto, para três anos, envolveria cerca de 200.000 operações de sequenciação, uma por dia e por máquina, ou seja, em 300 dias por ano, 600 máquinas em simultâneo. Só isto custaria qualquer coisa como 50.000.000 euros só em equipamento, mais uma verba muito considerável para mão de obra e reagentes. A notícia diz que o financiamento pedido para o projecto foi de 100.000 euros. Bate certo ou alguém está a enganar alguém?
18 fevereiro, 2008
One small step for a man, a giant leap for mankind
Ainda com limitações de escrita, vou publicando, para marcar presença. alguns textos anteriormdente escritos. A maioria dos leitores não se deve ter apercebido de que a última semana (este texto doi escrito em 20 de Janeiro) entra na história com uma das mais promissoras conquistas científicas, a primeira clonagem bem sucedida de um ovo humano. Desculpem alguma explicação, mas que creio necessária. O ovo humano resulta da fertilização de um oócito, feminino, por um espermatozóide, masculino. Cada uma destas células é haploide, só tem 23 cromossomas, em cópia única. Depois da fertilização, o ovo passa a ter um conjunto duplo de cromossomas, em pares. Todos nós, todas as nossas células, depois desta duplicação genética, dizem-se diploides, devendo metade ao pai e metade à mãe. Só em duplicação genética é que se desenvolve a vida
Não é bem verdade, porque afinal mãe é mãe e todos nós devemos mais à mãe do que ao pai. No ovo, o núcleo, com o total diploide dos cromossomas, é paritário, mas todo o resto da célula, de enorme importância, é da mãe. Até há genes, os mitocondriais, que eu e todos os meus amigos homens só recebemos do lado da mãe, os do pai perderam-se pelo caminho difícil da fecundação.
Isto quer dizer que para a formação de um ovo, o oócito feminino (feminino é sempre o "receber"!) está pronto a desenvolver a informação genética diploide resultante da fecundação. mas também pode fazê-lo com um outro núcleo diploide, de células adultas, masculino ou feminino, introduzido num oócito de que previamente se esvaziou o núcleo. É a clonagem. Na prática, o essencial é que este ovo e o animal que dele resultar (lembram-se da ovelha Dolly?) não é a "mistura" de pai e mãe mas sim a cópia de quem forneceu o núcleo e os cromossomas (e assim se pode ser, verdadeiramente, filho da mãe...).
Então vamos produzir seres em série, geneticamente iguais? Tolice, seria a clonagem reprodutiva, só um louco a faria e dificilmente, com todas as regras de bioética que temos hoje. Outra coisa é que este clone, a qualquer momento, me/lhe permite dispor de células estaminais (péssima tradução, vou escrever células indiferenciadas, já explico porquê).
Todas as nossas células contêm o mesmo conjunto de genes, mas a natureza é económica. Porque é que um neurónio há-de produzir um enzima pancreático ou uma célula sanguínea produzir um neuro-transmissor? É o que se chama a diferenciação, cada célula de cada órgão adulto tem uma data de disjuntores genéticos desligados, para "poupar electricidade". No ovo, não pode ser assim, as células têm a capacidade de se orientar para as muitas estradas da diferenciação. Hoje conhecemos bastante bem, e podemos usar, quais os factores biológicos, os "sinais de trânsito", que fazem uma célula ir para célula sanguínea ou para célula do fígado.
Na prática, isto quer dizer que as células indiferenciadas, com esta capacidade de evoluírem em múltiplas direcções, são capazes de produzir novas células onde já tudo parecia morto: num enfarte do miocárdio, numa lesão da medula de um tetraplégico, no pâncreas de um diabético, na retina de um cego, no cérebro de um doente de Parkinson.
É claro que o Vaticano já veio dizer que isto era a mais horrorosa das manipulações da vida humana. Diz da pior maneira, usando argumentos cientificamente insustentados, como o de que é possível obter facilmente células indiferenciadas por outros meios. É extremamente difícil obtê-las de um adulto nos casos típicos em que pode precisar delas (por exemplo, um doente com enfarte do miocárdio). É possível obtê-las por altura do parto, do sangue do cordão umbilical, mas isto significa que cada pessoa teria de ter congelado, toda a vida, um armazém de células indiferenciadas. A clonagem permite é esta coisa simples: ter as minhas células indiferenciadas quando preciso delas.
Infelizmente, receio que não seja só o fundamentalismo religioso a condenar estas enormes explorações do domínio pelo próprio homem da inexorabilidade do seu destino. Há toda uma enorme relutância cultural em relação aos "perigos da ciência". É certo que há razões para receios e a tragédia de Hiroshima deve estar sempre presente. Mas parece-me inegável que o homem tem sabido aprender com cada tragédia. Pior até são as coisas mais pequenas, mas também as que mais devem fazer pensar em termos realistas. Por exemplo, morrem anualmente milhares de pessoas com infecções por bactérias resistentes a antibióticos, na maior parte dos casos por erro humano. Mas quantos milhões de vidas são salvas por antibióticos?
Portanto, nada disto me tolhe o tradicional optimismo generoso (utópico?) dos cientistas. Principalmente porque este optimismo é lúcido e são os cientistas os primeiros a estabelecerem o mais seguro dos sistemas de controlo das suas conquistas. E, já agora, porque, admitindo excepções aberrantes, a ciência é uma acttividade que motiva homens superiores e essa superioridade não fica esquecida quando se apaga a luz do laboratório.
Não é bem verdade, porque afinal mãe é mãe e todos nós devemos mais à mãe do que ao pai. No ovo, o núcleo, com o total diploide dos cromossomas, é paritário, mas todo o resto da célula, de enorme importância, é da mãe. Até há genes, os mitocondriais, que eu e todos os meus amigos homens só recebemos do lado da mãe, os do pai perderam-se pelo caminho difícil da fecundação.
Isto quer dizer que para a formação de um ovo, o oócito feminino (feminino é sempre o "receber"!) está pronto a desenvolver a informação genética diploide resultante da fecundação. mas também pode fazê-lo com um outro núcleo diploide, de células adultas, masculino ou feminino, introduzido num oócito de que previamente se esvaziou o núcleo. É a clonagem. Na prática, o essencial é que este ovo e o animal que dele resultar (lembram-se da ovelha Dolly?) não é a "mistura" de pai e mãe mas sim a cópia de quem forneceu o núcleo e os cromossomas (e assim se pode ser, verdadeiramente, filho da mãe...).
Então vamos produzir seres em série, geneticamente iguais? Tolice, seria a clonagem reprodutiva, só um louco a faria e dificilmente, com todas as regras de bioética que temos hoje. Outra coisa é que este clone, a qualquer momento, me/lhe permite dispor de células estaminais (péssima tradução, vou escrever células indiferenciadas, já explico porquê).
Todas as nossas células contêm o mesmo conjunto de genes, mas a natureza é económica. Porque é que um neurónio há-de produzir um enzima pancreático ou uma célula sanguínea produzir um neuro-transmissor? É o que se chama a diferenciação, cada célula de cada órgão adulto tem uma data de disjuntores genéticos desligados, para "poupar electricidade". No ovo, não pode ser assim, as células têm a capacidade de se orientar para as muitas estradas da diferenciação. Hoje conhecemos bastante bem, e podemos usar, quais os factores biológicos, os "sinais de trânsito", que fazem uma célula ir para célula sanguínea ou para célula do fígado.
Na prática, isto quer dizer que as células indiferenciadas, com esta capacidade de evoluírem em múltiplas direcções, são capazes de produzir novas células onde já tudo parecia morto: num enfarte do miocárdio, numa lesão da medula de um tetraplégico, no pâncreas de um diabético, na retina de um cego, no cérebro de um doente de Parkinson.
É claro que o Vaticano já veio dizer que isto era a mais horrorosa das manipulações da vida humana. Diz da pior maneira, usando argumentos cientificamente insustentados, como o de que é possível obter facilmente células indiferenciadas por outros meios. É extremamente difícil obtê-las de um adulto nos casos típicos em que pode precisar delas (por exemplo, um doente com enfarte do miocárdio). É possível obtê-las por altura do parto, do sangue do cordão umbilical, mas isto significa que cada pessoa teria de ter congelado, toda a vida, um armazém de células indiferenciadas. A clonagem permite é esta coisa simples: ter as minhas células indiferenciadas quando preciso delas.
Infelizmente, receio que não seja só o fundamentalismo religioso a condenar estas enormes explorações do domínio pelo próprio homem da inexorabilidade do seu destino. Há toda uma enorme relutância cultural em relação aos "perigos da ciência". É certo que há razões para receios e a tragédia de Hiroshima deve estar sempre presente. Mas parece-me inegável que o homem tem sabido aprender com cada tragédia. Pior até são as coisas mais pequenas, mas também as que mais devem fazer pensar em termos realistas. Por exemplo, morrem anualmente milhares de pessoas com infecções por bactérias resistentes a antibióticos, na maior parte dos casos por erro humano. Mas quantos milhões de vidas são salvas por antibióticos?
Portanto, nada disto me tolhe o tradicional optimismo generoso (utópico?) dos cientistas. Principalmente porque este optimismo é lúcido e são os cientistas os primeiros a estabelecerem o mais seguro dos sistemas de controlo das suas conquistas. E, já agora, porque, admitindo excepções aberrantes, a ciência é uma acttividade que motiva homens superiores e essa superioridade não fica esquecida quando se apaga a luz do laboratório.
08 janeiro, 2008
A ciência e tecnologia vistas de um outro angulo
Hoje, é só para divulgar, aos meus caros e raros leitores, duas publicações interessantes, que achei no sítio do GPEARI (ex OCES):
1ª - Dotações Orçamentais para C&T e I&D - 2008
2ª - "recursos humanos e financeiros afectos a actividades de investigação científica e desenvolvimento tecnológico (I&D) em Portugal para os quatro sectores de execução: Empresas, Estado, Ensino Superior e Instituições Privadas sem Fins Lucrativos (IPSFL)":
Sumários Estatísticos IPCTN.05 Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional 2005 [edição revista] ou aqui (ficheiros excel, bastante pormenorizados)
Apenas um levíssimo comentário - o financiamento, previsto para o subsistema politécnico público, ascende a nada mais nada menos que, vejam lá, 8% do total - magnanimidade!
1ª - Dotações Orçamentais para C&T e I&D - 2008
2ª - "recursos humanos e financeiros afectos a actividades de investigação científica e desenvolvimento tecnológico (I&D) em Portugal para os quatro sectores de execução: Empresas, Estado, Ensino Superior e Instituições Privadas sem Fins Lucrativos (IPSFL)":
Sumários Estatísticos IPCTN.05 Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional 2005 [edição revista] ou aqui (ficheiros excel, bastante pormenorizados)
Apenas um levíssimo comentário - o financiamento, previsto para o subsistema politécnico público, ascende a nada mais nada menos que, vejam lá, 8% do total - magnanimidade!
Tecnologia portuguesa
Aos poucos, vou relendo recortes de jornais que me mereceriam notas, agora atrasadas. Mas, às vezes, requentar a comida não lhe tira o gosto. Há já algumas semanas, uma missão do Atlantis levou para a ISS um módulo europeu, o laboratório de investigação Columbus.
Claro que Portugal, que contribui com muito dinheiro para a Associação Espacial Europeia (ESA), não podia deixar de participar. O Columbus inclui coisa decisiva portuguesa, um termómetro. Claro que um termómetro especial. Mereceu notícia destacada nos jornais, mas não consegui perceber uma coisa importante: qual é o valor percentual desse termómetro no total do investimento feito no Columbus?
E qual foi também o valor (económico e/ou científico) dos instrumentos de medida com que se tem contribuído para o CERN, comparado com o total dessas mega-experiências de aceleração de partículas?
Já agora, o que é feito do PoSat-1? O que se obteve dele, em conhecimento científico ou em resultados de interesse económico? E haverá mais alguma ilusão de um PoSat-2? Deve ser difícil, agora que acabou a UnI.
Com tudo isto, apetece-me repetir o que era meu hábito como conclusão de apontamentos deste género: o rei vai nu!
Claro que Portugal, que contribui com muito dinheiro para a Associação Espacial Europeia (ESA), não podia deixar de participar. O Columbus inclui coisa decisiva portuguesa, um termómetro. Claro que um termómetro especial. Mereceu notícia destacada nos jornais, mas não consegui perceber uma coisa importante: qual é o valor percentual desse termómetro no total do investimento feito no Columbus?
E qual foi também o valor (económico e/ou científico) dos instrumentos de medida com que se tem contribuído para o CERN, comparado com o total dessas mega-experiências de aceleração de partículas?
Já agora, o que é feito do PoSat-1? O que se obteve dele, em conhecimento científico ou em resultados de interesse económico? E haverá mais alguma ilusão de um PoSat-2? Deve ser difícil, agora que acabou a UnI.
Com tudo isto, apetece-me repetir o que era meu hábito como conclusão de apontamentos deste género: o rei vai nu!
17 dezembro, 2007
Transgénicos
A todos os que se interessaram pelas minhas notas na altura do "Verde Eufémia" (estupidez de nome!...), recomendo este esclarecimento/petição, a meu ver muito bem feito, legível por leigos e subscrito por cientistas idóneos.
27 outubro, 2007
Desporto de Reis
Salvo erro, por volta do dia 15 de Outubro de 2007, vi anunciado no menu, nas notícias ou destaques, da página do Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, a realização de um Workshop no ambito da Presidência Europeia, salvo erro, dedicado aos politécnicos - Lisbon Research & Policy Workshop: Revisiting polytechnic and vocational education?
Podem crer, nesse dia, fiquei em comoção até às lágrimas - isto seria uma honra para o subsistema, fora a perspectiva, mesmo que remota, de esclarecimentos. Claro que, a minha eminente choradeira não passou de um meio soluço, quando vi a lista de participantes - estavam efectivamente representadas instituições politécnicas de 5 ou 6 países e também Portugal. Só que, Portugal estava representado, não por uma instituição politécnica, e sim por um centro de investigação - CIPES - Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior - e, inevitavelmente, uma comedida apresentação em "powerpoint".
Perguntam-me os meus caros e raros leitores se "acho" mal essa representação?
Claro que não, de forma nenhuma- até porque, do que me recordo do trabalho mencionado, faltava-lhe, a meu ver, só a alma - era uma modesta compilação estatística e mais uma meia dúzia das pequenas, de verdades de La Palisse.
Ontem lembrei-me do desconforto que senti nesse dia e que se prolongou por mais de uma semana, porque alguém me perguntou, à queima roupa, que comentários faria à investigação no (subsistema) politécnico, e eu emudeci!
Mais de 24 horas depois teria respondido:
"A Investigação num politécnico português, é como querer participar no Grand National, só com umas quantas pilecas lazarentas, coxas e anãs, "jokeys peso-deveras pesados", e com os donos de quase todos os Haras tão "excessivamente distraídos" que não conseguem enxergar as diferenças de requisitos necessários."
Podem crer, nesse dia, fiquei em comoção até às lágrimas - isto seria uma honra para o subsistema, fora a perspectiva, mesmo que remota, de esclarecimentos. Claro que, a minha eminente choradeira não passou de um meio soluço, quando vi a lista de participantes - estavam efectivamente representadas instituições politécnicas de 5 ou 6 países e também Portugal. Só que, Portugal estava representado, não por uma instituição politécnica, e sim por um centro de investigação - CIPES - Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior - e, inevitavelmente, uma comedida apresentação em "powerpoint".
Perguntam-me os meus caros e raros leitores se "acho" mal essa representação?
Claro que não, de forma nenhuma- até porque, do que me recordo do trabalho mencionado, faltava-lhe, a meu ver, só a alma - era uma modesta compilação estatística e mais uma meia dúzia das pequenas, de verdades de La Palisse.
Ontem lembrei-me do desconforto que senti nesse dia e que se prolongou por mais de uma semana, porque alguém me perguntou, à queima roupa, que comentários faria à investigação no (subsistema) politécnico, e eu emudeci!
Mais de 24 horas depois teria respondido:
"A Investigação num politécnico português, é como querer participar no Grand National, só com umas quantas pilecas lazarentas, coxas e anãs, "jokeys peso-deveras pesados", e com os donos de quase todos os Haras tão "excessivamente distraídos" que não conseguem enxergar as diferenças de requisitos necessários."
21 outubro, 2007
Com pés de barro (II)
Volto às declarações de James Watson, a propósito de um editorial de hoje de José Manuel Fernandes, no Público. JMF tem alguma responsabilidade. Embora não tenha terminado o curso, foi estudante de biologia. A sua tese de hoje é que não se deve calar Watson, que as suas declarações escandalosas merecem reflexão, que a ciência exige uma atitude interrogativa permanente. Não é verdade absoluta, tem de ser entendida nos seus termos. A ciência interroga-se permanentemente mas no plano estrito da ciência. A ciência questiona a ciência, não a irracionalidade e a fraude mental. Para dar um exemplo muito em voga, a ciência só se nega se estiver aberta à discussão do criacionismo. Concorda, JMF?
E ninguém está a fazer calar Jim Watson. O que aconteceu, e para mim sem margem para crítica, foi que algumas instituições inglesas da máxima reputação anularam as conferências que ele ia proferir. Se o Público convidasse para uma conferência com destaque o maior jornalista do mundo e ele, na véspera, dissesse que liberdade de imprensa só houve no nazismo, o Público mantinha a conferência? Aliás, fica-se na dúvida se não terá sido o próprio Watson a decidir regressar a penates.
Aproveito para acrescentar que se podia falar de muitas outras coisas disparatadas em que Watson é useiro e vezeiro: que a beleza feminina é governada por genes e por isso deve ser melhorada, que deve ser identificado o gene da homossexualidade, para as mães que querem ter netos não se arriscarem a filhos com esse gene, etc.
Tudo isto é vigarice científica ou, para ser mais benevolente, sinal de senilidade. Começando pelo caso mais em evidência, o da inteligência dos pretos, ninguém sabe qual ou quais os genes que comandam a pigmentação da pele. Muito menos que relação têm com outros genes, centenas, que se segregaram com a evolução no ambiente especial de África e naquela população humana. É impossível, cientificamente, estabelecer alguma correlação entre a pigmentação e seja qual for outra marca genética (a não ser, condescendo, o cabelo encarapinhado mas mesmo isto não vale para muitos indianos muito escuros e de cabelo bem liso). JMF vem com um exemplo óbvio, o do atletismo, mas falha. O que têm a ver os genes “responsáveis” pela contracção muscular ultraefiente dos velocistas negros americanos ou jamaicanos com os genes, também de negros quenianos ou etíopes, “responsáveis” pelas suas proezas na resistência das corridas de fundo, coisas bem opostas?
E o que são os genes da inteligência? O que é, biologicamente (porque genética só vale no terreno estrito da biologia), a inteligência isolada do campo socio-cultural e educacional? Quantos genes estão envolvidos na inteligência? Presumo que muitos mais do que na hipertensão, na diabetes ou na dislipidémia, e nem nestes casos temos a menor ideia. Para mim, a nível de rigor intelectual, entenda-se!, as ideias de Watson estão ao nível da genética alemã do nazismo.
Desde há muito que Watson dá sinais de um evidente desequilíbrio entre a sua qualidade científica e a sua qualidade de carácter. Começou logo pelo seu célebre livro de divulgação do seu trabalho, “A dupla hélice” (“The double helix”). Esteve para se chamar “Honest Jim”. Teria sido bom, porque, aparte o trocadilho dos significados de “honest”, ter-nos-ia interrogado sobre se, de facto, Watson é “honest”, no sentido literal da palavra. Já há trinta anos, o livro deu grande polémica. O seu ego exuberante até seria aceitável, se não misturasse uma apreciação totalmente injusta em relação a colegas importantes no seu trabalho, com destaque para o próprio Crick. Pior, e já a mostrar a qualidade moral de Watson, são as repetidas apreciações execravelmente machistas em relação a Rosalind Franklin, sem cujo trabalho experimental o trabalho teórico de Crick e Watson não teria sido possível.
Já agora, embora com alguma relutância, transmito uma impressão pessoal, ainda que superficial. Conheci os dois, Watson e Crick, separadamente, em anos diferentes, em ambos os casos com alguma demora de conversa, de várias horas. Não pensem que é gabarolice. No meu tempo de vida científica, e hoje muito mais, conhecem-se nobéis por toda a parte, não significa nada, já não é como nos velhos tempos em que entrava para o currículo. Watson não me impressionou especialmente, não retive da conversa nada que hoje possa recordar. Crick sim, que inteligência acutilante, que nível intelectual! E também que cordialidade e estímulo para com um jovem cientista anónimo. “That´s Cambridge, stupid”.
Nota final - Aconselho a leitura deste artigo devastador e, já agora, a votação nas hipóteses apresentadas. Eu vou com os comentadores que perguntam porque é que não é válida a hipótese (c).
E ninguém está a fazer calar Jim Watson. O que aconteceu, e para mim sem margem para crítica, foi que algumas instituições inglesas da máxima reputação anularam as conferências que ele ia proferir. Se o Público convidasse para uma conferência com destaque o maior jornalista do mundo e ele, na véspera, dissesse que liberdade de imprensa só houve no nazismo, o Público mantinha a conferência? Aliás, fica-se na dúvida se não terá sido o próprio Watson a decidir regressar a penates.
Aproveito para acrescentar que se podia falar de muitas outras coisas disparatadas em que Watson é useiro e vezeiro: que a beleza feminina é governada por genes e por isso deve ser melhorada, que deve ser identificado o gene da homossexualidade, para as mães que querem ter netos não se arriscarem a filhos com esse gene, etc.
Tudo isto é vigarice científica ou, para ser mais benevolente, sinal de senilidade. Começando pelo caso mais em evidência, o da inteligência dos pretos, ninguém sabe qual ou quais os genes que comandam a pigmentação da pele. Muito menos que relação têm com outros genes, centenas, que se segregaram com a evolução no ambiente especial de África e naquela população humana. É impossível, cientificamente, estabelecer alguma correlação entre a pigmentação e seja qual for outra marca genética (a não ser, condescendo, o cabelo encarapinhado mas mesmo isto não vale para muitos indianos muito escuros e de cabelo bem liso). JMF vem com um exemplo óbvio, o do atletismo, mas falha. O que têm a ver os genes “responsáveis” pela contracção muscular ultraefiente dos velocistas negros americanos ou jamaicanos com os genes, também de negros quenianos ou etíopes, “responsáveis” pelas suas proezas na resistência das corridas de fundo, coisas bem opostas?
E o que são os genes da inteligência? O que é, biologicamente (porque genética só vale no terreno estrito da biologia), a inteligência isolada do campo socio-cultural e educacional? Quantos genes estão envolvidos na inteligência? Presumo que muitos mais do que na hipertensão, na diabetes ou na dislipidémia, e nem nestes casos temos a menor ideia. Para mim, a nível de rigor intelectual, entenda-se!, as ideias de Watson estão ao nível da genética alemã do nazismo.
Desde há muito que Watson dá sinais de um evidente desequilíbrio entre a sua qualidade científica e a sua qualidade de carácter. Começou logo pelo seu célebre livro de divulgação do seu trabalho, “A dupla hélice” (“The double helix”). Esteve para se chamar “Honest Jim”. Teria sido bom, porque, aparte o trocadilho dos significados de “honest”, ter-nos-ia interrogado sobre se, de facto, Watson é “honest”, no sentido literal da palavra. Já há trinta anos, o livro deu grande polémica. O seu ego exuberante até seria aceitável, se não misturasse uma apreciação totalmente injusta em relação a colegas importantes no seu trabalho, com destaque para o próprio Crick. Pior, e já a mostrar a qualidade moral de Watson, são as repetidas apreciações execravelmente machistas em relação a Rosalind Franklin, sem cujo trabalho experimental o trabalho teórico de Crick e Watson não teria sido possível.
Já agora, embora com alguma relutância, transmito uma impressão pessoal, ainda que superficial. Conheci os dois, Watson e Crick, separadamente, em anos diferentes, em ambos os casos com alguma demora de conversa, de várias horas. Não pensem que é gabarolice. No meu tempo de vida científica, e hoje muito mais, conhecem-se nobéis por toda a parte, não significa nada, já não é como nos velhos tempos em que entrava para o currículo. Watson não me impressionou especialmente, não retive da conversa nada que hoje possa recordar. Crick sim, que inteligência acutilante, que nível intelectual! E também que cordialidade e estímulo para com um jovem cientista anónimo. “That´s Cambridge, stupid”.
Nota final - Aconselho a leitura deste artigo devastador e, já agora, a votação nas hipóteses apresentadas. Eu vou com os comentadores que perguntam porque é que não é válida a hipótese (c).
19 outubro, 2007
Com pés de barro
Para qualquer biólogo, como eu, Jim Watson é um mito. Com Francis Crick, em 1953, descobriu a estrutura do DNA e com isto abriram o caminho à maior revolução de sempre da biologia. Simplesmente, nem sempre a qualidade humana acompanha a científica e Watson já tem dado bastantes sinais disto. Lastimável foi o mais recente, afirmando que, “como toda a gente sabe”, os negros são menos inteligentes do que os brancos.
Não deixa de ser irónico que isto tenha sido afirmado por Watson. Foi ele o grande responsável pelo projecto do genoma humano, que veio pôr em causa a validade científica do conceito tradicional de raças humanas.
Não deixa de ser irónico que isto tenha sido afirmado por Watson. Foi ele o grande responsável pelo projecto do genoma humano, que veio pôr em causa a validade científica do conceito tradicional de raças humanas.
10 setembro, 2007
Narcisismo
Craig Venter ficará na história da ciência. Por uma excelente razão: foi o homem que imaginou uma estratégia alternativa e muito eficaz para o enorme sucesso que foi a grande epopeia científica da última década do século XX, a segunda "conquista do espaço", isto é, a conquista do conhecimento do genoma humano.
Também vai ficar por más razões. É um megalómano, empresário tanto ou mais do que cientista. A última foi ter gasto e feito gastar uma fortuna para a coisa mais narcísica que já vi: a sequenciação do seu próprio genoma. A não ser que o homem seja uma infeliz acumulação de todas as doenças genéticas, o seu genoma não me aquece nem arrefece. Claro que seria diferente se ele fosse Einstein.
Também vai ficar por más razões. É um megalómano, empresário tanto ou mais do que cientista. A última foi ter gasto e feito gastar uma fortuna para a coisa mais narcísica que já vi: a sequenciação do seu próprio genoma. A não ser que o homem seja uma infeliz acumulação de todas as doenças genéticas, o seu genoma não me aquece nem arrefece. Claro que seria diferente se ele fosse Einstein.
21 agosto, 2007
Terrorismo ecologista (III)
1. Vou tentar explicar da forma mais simples. Transgénico, ou organismo geneticamente modificado (OGM) é uma planta (ainda não se põe, na prática, a questão dos animais - a não ser o seu uso em investigação -, mas vai-se pôr) em cujo genoma se insere um gene estranho, que vai fazer com que a planta produza uma nova proteína. Pode ser um pesticida, um insecticida, um factor de resistência à secura do solo, etc. Até pode ser, como já exemplifiquei, uma vacina. Uma consequência óbvia é que isto dispensa o uso de pesticidas e de insecticidas químicos, muitas vezes de alta toxicidade.
2. Uma das coisas que mais costuma surpreender os meus alunos de biologia molecular é que parece haver uma aberração na dimensão total dos códigos genéticos. O maior é o humano, mas só se esquecermos o caso especial do trigo e do milho, mais ricos geneticamente do que o homem. Só porque, desde há milhares de anos, o homem cultiva cereais com o dobro do número inicial de cromossomas. A biotecnologia não é coisa moderna! Com isto, ninguém hoje é capaz de dizer o que era o milho primitivo.
3. Há riscos? Claro que sim, mas controlados. Não posso esgotar a lista, mas vou dar alguns exemplos. Obviamente que, ao comermos cereais transgénicos ou carne de animais alimentados com eles, não estamos a incorporar no nosso genoma o gene estranho. Não estranhem eu começar por isto, é porque já li este disparate. O que estamos a ingerir é a proteína estranha. Isto poderia ser significativo no caso do cereal, mas este serve maioritariamente é para rações. No caso da carne, a dose é negligível. Toxicidade não há, em testes muito mais exigentes do que os utilizados para numerosos produtos da nossa vida corrente (as meninas verdeufémias não usam cosméticos?). Fica, não negligivelmente, a possibilidade de alergias, mas estas são por natureza individuais e não testáveis com facilidade. Claro que há outros problemas; não me acusem de ignorância, é que tenho de me cingir ao espaço de um “post”. De qualquer forma, nem tem importância, porque a maioria destes activistas é iletrada e cientificamente ignorante (excepto na sua certeza de que os cientistas, por natureza, são uns malfeitores e génios horrorosamente frankensteinianos).
4. Diverte-me ver os seus cartazes de milho tóxico e milho doente. Lembra-me a velha criada preta do “Bem vindo, Mr. Chance” que dizia que ele só tinha papas de milho na cabeça. Há por aí gente que, infelizmente, parece ter é papas de milho doente ou de milho tóxico. Os seus patronos políticos e ideológicos, que não têm papas nenhumas na cabeça, não percebem isto, ou são desonestos política e intelectualmente?
5. Caso especial é o do potencial risco para a biodiversidade. Estas culturas não vão dominar as outras? Estes activistas tão bem informados desconhecem que, cada vez mais, os cereais transgénicos serão estéreis, não haverá pólen fértil a esvoaçar pelos campos. A cada sementeira, obrigatoriamente novas sementes. Mesmo assim, por precaução, é obrigatório actualmente manter uma distância de segurança entre culturas normais e culturas transgénicas.
6. Dizem que ainda não está provado que não haja riscos. Cientificamente, isto é uma estupidez. Não pode haver demonstração absoluta, apenas a aceitação de uma certa probabilidade significativa. Hoje, nos EUA, 90% da soja cultivada, um principal ingrediente das rações, é transgénica. Onde é que há alguma suspeita de risco? Insisto: a discussão sobre os transgénicos é irracional, ideológica e política, e principalmente dominante na Europa porque os alemães ainda não souberam digerir os seus pecados históricos.
7. E há risco zero, em alguma coisa da nossa vida? Só metendo-me num buraco para não ser atropelado, não naufragar num cruzeiro, não me ir num acidente de avião, deixar-me morrer com um AVC por não tomar anti-hipertensivos, que têm efeitos secundários não negligíveis. Mesmo assim, o buraco teria de ser à prova de raio e de terramoto. E, já agora, à prova do risco mais absoluto que há, o de morrer, seja quando e como.
8. Finalmente, uma pequena nota suscitada por um artigo de Vasco Graça Moura (Público, 21.8.2007) em que ele afirma que a invocação de Eufémia indica logo quem está por detrás disto. Se está a pensar no PCP, creio que se engana. Sobre isto, veja-se a argumentação sólida de Tiago Barbosa Ribeiro, no Contratempos. Também não digo que seja o BE mas, se não é, muito puxão de orelhas vai levar Miguel Portas.
À margem. Um amigo criticou o título destas notas, por exagerado. Prefere ecovandalismo. O que é preciso para que seja terrorismo, que haja mortos? Creio que a diferença é outra. Vandalismo é selvajaria gratuita, sem motivação que não seja pura e simples patologia psíquica e social. Terrorismo é o mesmo acto praticado como meio consciente de afirmação ideológica ou política. Neste sentido, mesmo que o acto tenha sido “soft”, para mim é terrorismo.
2. Uma das coisas que mais costuma surpreender os meus alunos de biologia molecular é que parece haver uma aberração na dimensão total dos códigos genéticos. O maior é o humano, mas só se esquecermos o caso especial do trigo e do milho, mais ricos geneticamente do que o homem. Só porque, desde há milhares de anos, o homem cultiva cereais com o dobro do número inicial de cromossomas. A biotecnologia não é coisa moderna! Com isto, ninguém hoje é capaz de dizer o que era o milho primitivo.
3. Há riscos? Claro que sim, mas controlados. Não posso esgotar a lista, mas vou dar alguns exemplos. Obviamente que, ao comermos cereais transgénicos ou carne de animais alimentados com eles, não estamos a incorporar no nosso genoma o gene estranho. Não estranhem eu começar por isto, é porque já li este disparate. O que estamos a ingerir é a proteína estranha. Isto poderia ser significativo no caso do cereal, mas este serve maioritariamente é para rações. No caso da carne, a dose é negligível. Toxicidade não há, em testes muito mais exigentes do que os utilizados para numerosos produtos da nossa vida corrente (as meninas verdeufémias não usam cosméticos?). Fica, não negligivelmente, a possibilidade de alergias, mas estas são por natureza individuais e não testáveis com facilidade. Claro que há outros problemas; não me acusem de ignorância, é que tenho de me cingir ao espaço de um “post”. De qualquer forma, nem tem importância, porque a maioria destes activistas é iletrada e cientificamente ignorante (excepto na sua certeza de que os cientistas, por natureza, são uns malfeitores e génios horrorosamente frankensteinianos).
4. Diverte-me ver os seus cartazes de milho tóxico e milho doente. Lembra-me a velha criada preta do “Bem vindo, Mr. Chance” que dizia que ele só tinha papas de milho na cabeça. Há por aí gente que, infelizmente, parece ter é papas de milho doente ou de milho tóxico. Os seus patronos políticos e ideológicos, que não têm papas nenhumas na cabeça, não percebem isto, ou são desonestos política e intelectualmente?
5. Caso especial é o do potencial risco para a biodiversidade. Estas culturas não vão dominar as outras? Estes activistas tão bem informados desconhecem que, cada vez mais, os cereais transgénicos serão estéreis, não haverá pólen fértil a esvoaçar pelos campos. A cada sementeira, obrigatoriamente novas sementes. Mesmo assim, por precaução, é obrigatório actualmente manter uma distância de segurança entre culturas normais e culturas transgénicas.
6. Dizem que ainda não está provado que não haja riscos. Cientificamente, isto é uma estupidez. Não pode haver demonstração absoluta, apenas a aceitação de uma certa probabilidade significativa. Hoje, nos EUA, 90% da soja cultivada, um principal ingrediente das rações, é transgénica. Onde é que há alguma suspeita de risco? Insisto: a discussão sobre os transgénicos é irracional, ideológica e política, e principalmente dominante na Europa porque os alemães ainda não souberam digerir os seus pecados históricos.
7. E há risco zero, em alguma coisa da nossa vida? Só metendo-me num buraco para não ser atropelado, não naufragar num cruzeiro, não me ir num acidente de avião, deixar-me morrer com um AVC por não tomar anti-hipertensivos, que têm efeitos secundários não negligíveis. Mesmo assim, o buraco teria de ser à prova de raio e de terramoto. E, já agora, à prova do risco mais absoluto que há, o de morrer, seja quando e como.
8. Finalmente, uma pequena nota suscitada por um artigo de Vasco Graça Moura (Público, 21.8.2007) em que ele afirma que a invocação de Eufémia indica logo quem está por detrás disto. Se está a pensar no PCP, creio que se engana. Sobre isto, veja-se a argumentação sólida de Tiago Barbosa Ribeiro, no Contratempos. Também não digo que seja o BE mas, se não é, muito puxão de orelhas vai levar Miguel Portas.
À margem. Um amigo criticou o título destas notas, por exagerado. Prefere ecovandalismo. O que é preciso para que seja terrorismo, que haja mortos? Creio que a diferença é outra. Vandalismo é selvajaria gratuita, sem motivação que não seja pura e simples patologia psíquica e social. Terrorismo é o mesmo acto praticado como meio consciente de afirmação ideológica ou política. Neste sentido, mesmo que o acto tenha sido “soft”, para mim é terrorismo.
16 agosto, 2007
Um exemplo notável
Esta nota é-me suscitada por um anúncio recente de recrutamento de 24 doutorados para os Açores, como bolseiros. Para além dos fundos comunitários distribuídos por todas as regiões portuguesas, as regiões autonómas ainda dispõem de fundos próprios, que podem usar com grande flexibilidade.
Com estes recursos, o governo açoriano deu importância à ciência e tecnologia, não só ao betão. Criou uma direcção regional, que inicialmente até estava na dependência do presidente do governo regional. Entre outros domínios de acção, destacou-se o das tecnologias da informação, de tal forma que os Açores eram recentemente a segunda região portuguesa em taxas de implantação e utilização das TI.
Ao lado da direcção regional, funciona um fundo regional da ciência e tecnologia, uma mini-FCT regional, com papel de relevo no apoio a projectos regionais. É este fundo que agora abre concurso de bolsas para 24 doutorados. Para uma região de 250.000 habitantes, é de assinalar. Mais ainda se considerarmos que o principal acolhedor será a Universidade dos Açores. Estes novos doutorados representarão 14% dos actuais professores e investigadores da universidade.
Chapeau!
Com estes recursos, o governo açoriano deu importância à ciência e tecnologia, não só ao betão. Criou uma direcção regional, que inicialmente até estava na dependência do presidente do governo regional. Entre outros domínios de acção, destacou-se o das tecnologias da informação, de tal forma que os Açores eram recentemente a segunda região portuguesa em taxas de implantação e utilização das TI.
Ao lado da direcção regional, funciona um fundo regional da ciência e tecnologia, uma mini-FCT regional, com papel de relevo no apoio a projectos regionais. É este fundo que agora abre concurso de bolsas para 24 doutorados. Para uma região de 250.000 habitantes, é de assinalar. Mais ainda se considerarmos que o principal acolhedor será a Universidade dos Açores. Estes novos doutorados representarão 14% dos actuais professores e investigadores da universidade.
Chapeau!
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