21 outubro, 2007

Com pés de barro (II)

Volto às declarações de James Watson, a propósito de um editorial de hoje de José Manuel Fernandes, no Público. JMF tem alguma responsabilidade. Embora não tenha terminado o curso, foi estudante de biologia. A sua tese de hoje é que não se deve calar Watson, que as suas declarações escandalosas merecem reflexão, que a ciência exige uma atitude interrogativa permanente. Não é verdade absoluta, tem de ser entendida nos seus termos. A ciência interroga-se permanentemente mas no plano estrito da ciência. A ciência questiona a ciência, não a irracionalidade e a fraude mental. Para dar um exemplo muito em voga, a ciência só se nega se estiver aberta à discussão do criacionismo. Concorda, JMF?

E ninguém está a fazer calar Jim Watson. O que aconteceu, e para mim sem margem para crítica, foi que algumas instituições inglesas da máxima reputação anularam as conferências que ele ia proferir. Se o Público convidasse para uma conferência com destaque o maior jornalista do mundo e ele, na véspera, dissesse que liberdade de imprensa só houve no nazismo, o Público mantinha a conferência? Aliás, fica-se na dúvida se não terá sido o próprio Watson a decidir regressar a penates.

Aproveito para acrescentar que se podia falar de muitas outras coisas disparatadas em que Watson é useiro e vezeiro: que a beleza feminina é governada por genes e por isso deve ser melhorada, que deve ser identificado o gene da homossexualidade, para as mães que querem ter netos não se arriscarem a filhos com esse gene, etc.

Tudo isto é vigarice científica ou, para ser mais benevolente, sinal de senilidade. Começando pelo caso mais em evidência, o da inteligência dos pretos, ninguém sabe qual ou quais os genes que comandam a pigmentação da pele. Muito menos que relação têm com outros genes, centenas, que se segregaram com a evolução no ambiente especial de África e naquela população humana. É impossível, cientificamente, estabelecer alguma correlação entre a pigmentação e seja qual for outra marca genética (a não ser, condescendo, o cabelo encarapinhado mas mesmo isto não vale para muitos indianos muito escuros e de cabelo bem liso). JMF vem com um exemplo óbvio, o do atletismo, mas falha. O que têm a ver os genes “responsáveis” pela contracção muscular ultraefiente dos velocistas negros americanos ou jamaicanos com os genes, também de negros quenianos ou etíopes, “responsáveis” pelas suas proezas na resistência das corridas de fundo, coisas bem opostas?

E o que são os genes da inteligência? O que é, biologicamente (porque genética só vale no terreno estrito da biologia), a inteligência isolada do campo socio-cultural e educacional? Quantos genes estão envolvidos na inteligência? Presumo que muitos mais do que na hipertensão, na diabetes ou na dislipidémia, e nem nestes casos temos a menor ideia. Para mim, a nível de rigor intelectual, entenda-se!, as ideias de Watson estão ao nível da genética alemã do nazismo.

Desde há muito que Watson dá sinais de um evidente desequilíbrio entre a sua qualidade científica e a sua qualidade de carácter. Começou logo pelo seu célebre livro de divulgação do seu trabalho, “A dupla hélice” (“The double helix”). Esteve para se chamar “Honest Jim”. Teria sido bom, porque, aparte o trocadilho dos significados de “honest”, ter-nos-ia interrogado sobre se, de facto, Watson é “honest”, no sentido literal da palavra. Já há trinta anos, o livro deu grande polémica. O seu ego exuberante até seria aceitável, se não misturasse uma apreciação totalmente injusta em relação a colegas importantes no seu trabalho, com destaque para o próprio Crick. Pior, e já a mostrar a qualidade moral de Watson, são as repetidas apreciações execravelmente machistas em relação a Rosalind Franklin, sem cujo trabalho experimental o trabalho teórico de Crick e Watson não teria sido possível.

Já agora, embora com alguma relutância, transmito uma impressão pessoal, ainda que superficial. Conheci os dois, Watson e Crick, separadamente, em anos diferentes, em ambos os casos com alguma demora de conversa, de várias horas. Não pensem que é gabarolice. No meu tempo de vida científica, e hoje muito mais, conhecem-se nobéis por toda a parte, não significa nada, já não é como nos velhos tempos em que entrava para o currículo. Watson não me impressionou especialmente, não retive da conversa nada que hoje possa recordar. Crick sim, que inteligência acutilante, que nível intelectual! E também que cordialidade e estímulo para com um jovem cientista anónimo. “That´s Cambridge, stupid”.

Nota final - Aconselho a leitura deste artigo devastador e, já agora, a votação nas hipóteses apresentadas. Eu vou com os comentadores que perguntam porque é que não é válida a hipótese (c).

2 comentários:

gustavo disse...

A afirmação de Watson pode ter pés de barro pois não está apoiada por nenhum tipo de análise. Porém, é uma hipótese de partida que não deveria ser descartada.

É óbvio que, em média, os negros possuem qualidades físicas superiores aos brancos. E porquê?

Uma possibilidade é que os mecanismos de selecção natural tenham, no passado e continuem no presente, a favorcer estes "traits" nas populações africanas.

Há muito que no mundo ocidental deixámos de estar sujeitos aos mecanismos de selecção natural que prevaleceram na maior parte da história da humanidade. Nas nossas sociedades tanto se reproduzem os fortes como os fracos pelo que não existe nenhum mecanismo que garanta que os mais aptos do ponto de vista físico sejam os que vinguem geneticamente.

Porém, desde o neolíticoque outros "traits" têm sido favorecidos. E quais são esses? Por exemplo a riqueza! E a riqueza é uma característica que é mais fácil de obter quando se é inteligente pelo que não é aberrante colocar a hipótese de que certas civilizações tenham desenvolvidos mecanismos de selecção dos mais inteligentes, enquanto outras favorecam os mais fortes.

Pode esta hipótese estar errada? Com certeza que sim mas o verdadeiro espírito científico deveria estimular a curiosidade mais do que o assombro ideológico.

JVC disse...

Ora aqui está um comentário importante que, a meu ver, tem total correcção científica. Coloca uma hipótese minimamente plausível, suscita um estudo científico a sério. O que presumo é que, com este comentário, Gustavo não se aproxima obrigatoriamente da opinião de que "quem contrata um empregado preto conhece a diferença de inteligência". A meu ver, tal afirmação é de uma indigência mental (não falo de moral) que só posso atribuir a senilidade. E isto para ser bondoso.