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23 setembro, 2008

As duas faces da medalha

Obviamente, não dispenso hoje a net. Com algum sentido crítico e com alguns controlos de qualidade (avaliação da origem da informação, comparação com outras fontes, etc.) é nela que acabo por encontrar mais facilmente a informação que desejo, em vez de horas de procura nos meus livros e papéis. Isto fora o acesso gratuito ou muito barato a jornais estrangeiros em que estou já viciado, à leitura de grandes articulistas, à obtenção de leis que antes tinha de pedir a amigos da função pública, como fotocópias, ou até à reserva de hotéis, de voos, de compra de livros e tanto mais. Tudo isto, evidentemente, já é lapalissada.

No entanto, não há bela sem senão. Hoje dei por um caso exemplar. Ainda ontem tinha recebido um mail de uma amiga minha, culta, bem informada e socialmente muito responsável, a alertar-me e a convidar-me a protestar contra a delapidação de azulejos de Maria Keil em estações do Metro. Esta mensagem via-se que resultava de uma grande cadeia de “forwards”. Hoje, Júlia Coutinho chamou-me a atenção para o abuso que isto representava em relação a uma entrada do seu blogue “As causas da Júlia”. Como não nos conhecemos pessoalmente e nunca nos tínhamos correspondido, imagino que ela deve ter enviado isto a muitos bloguistas. O trabalho que deve ter tido. Mas recomendo que não deixem de ler o seu texto a que me refiro. É um bom exemplo de honestidade e rigor intelectual.

A blogosfera começa a saturar-me e cada vez menos leio blogues. A maioria dos blogues políticos são colecções de “sound bites” ou manifestações de indignação virtuosa, apaixonada e sem objectividade. Os culturais são pobres. Ficam alguns temáticos. Mesmo assim, começo a notar que a leitura e escrita de blogue me prejudicam em relação ao estudo e escrita mais elaborada sobre temas que me são caros e em que penso que posso contribuir com alguma reflexão. Fico também com a impressão de que isto é um exercício um pouco circular, como vejo pelos comentários. Comparando com o número de visitantes, e principalmente com a lista de visitantes regulares, parece-me claro que estou a escrever principalmente para leitores que já pensam como eu, que não têm tempo para comentários de simples concordância, do estilo que por aí se vê, “que lindo, muitos beijinhos”. Aliás, é a minha experiência como leitor de blogues que raramente faz comentários e que, se os faz em relação a coisas que me merecem reparo, ficam submersos no coro de apreciação amiguista.

Esta de comentários evoca-me um exemplo paradigmático, o dos comentários a notícias do Público “online”. São instrutivos. Na sua esmagadora maioria, são desabafos de protesto emotivo e irracional, de mal-dizer, de processos de intenção, de calúnia generalizada sobre a política, a sociedade, o país. São de um primarismo indigente, de óbvia deficiência cultural - a julgar pelos erros de português. Não sei o que o jornal ganha com isto. Minto, estou a ser ingénuo. Deve dar-lhe muitos visitantes ao “site”, coisa que os anunciantes apreciam.

25 julho, 2008

500 euros

Nem sabia que havia notas destas até ler ontem um artigo de jornal. São tão raras que uma vantagem é a de os falsificadores não as quererem, porque qualquer caixa repara bem nelas antes de as aceitar. Mas, afinal, parece que não são assim tão raras. Em Portugal, em 2007, o Banco de Portugal recolheu do público cerca de 910.000 destas notas. A ideia elementar é de que se trata de economia paralela ou de lavagem de dinheiro.

Talvez não. Tenho um amigo, empresário rico, moderno, com um MBA, que evita ao máximo cartões e cheques. Anda sempre com um gordo rolo de notas no bolso, tudo o que paga é "cash". Não é estranho. É filho de judeus refugiados em Lisboa, fugidos do nazismo. Tudo o que lhes valeu foi dinheiro e jóias, porque imóveis, contas bancárias, etc., ficaram na Alemanha. É curioso que estas marcas fiquem culturalmente indeléveis. Este meu amigo reconhece-o e diz que, não sendo religioso, é talvez a sua principal marca identificadora como judeu. Se tivesse acontecido o mesmo aos meus pais, não teria eu exactamente a mesma atitude, por irracional que seja?

31 maio, 2008

Cabeça fria ou sangue de barata

Peço desculpas aos meus caros e raros leitores, porque tenho andado muito pouco, por aqui, mas já sabem, porque preso muitíssimo a opinião de todos os que se interessam genuinamente pela educação superior, sobrevivo mesmo mal sem a vossa companhia - é que estou a ser vítima de blogger-jacking... para, em alternativa, eu fazer o quê?
E,...e, eu sei? Ando só para aqui...
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Hoje, aproveitei uma pequena distracção dos meus sequestradores, evadi-me, e vim para aqui fazer um pequeno tour blogosférico.
Dei logo de caras com uma notícia, de há dez dias, do blog de Campus, intitulada "muita cabeça fria, muita paciência, e mais emprego próprio". Na verdade, até já a tinha lido e, de certa forma registado, mas não sei porquê, hoje, por causa da situação aflitiva das pescas e de ter ouvido por um dos seus representantes, as dúvidas dos pescadores, acerca das "parcerias científicas" para o sector, ao juntar ao anúncio que: Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior preside à cerimónia de assinatura dos acordos de constituição de quatro Laboratórios Associados, segunda-feira, 2 de Junho, pelas 11:00" (Isto, só em salários para doutorados - e eles terão que consumir mais recursos para poderem fazer alguma coisinha... - vai custar, com certeza, para cima 17,0 M€/ano) fiquei assim, meio que borocochó, e resolvi desenterrar defuntos velhos.
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De volta, à "cabeça fria", afinal, nem uma meia dúzia de empresas privadas como a Unicer, Roche, Qimonda, etc... estão a valorizar os desenvolvimentos da educação superior, porque recomendam aos formandos enveredarem por iniciativas próprias - empreendedorismo; nem uma modesta actividade produtiva que sustenta só 1/3 do abastecimento nacional do pescado, parece identificar-se com as estratégias nacionais para a ciência e/ou a educação superior nacional....
Bom, mas com incongruências como estas - ao fim de 3 anos e tal - já nos habituámos...

Enquanto isso, vamos insistindo em opções (exclusivamente) políticas, e sem conteúdo, que parecem pouco consentâneas com as perspectivas dos mercados nacionais, e até internacionais.

Por uma busca ligeira, não sistemática, de informações sobre a pesca, fica-se a saber que:
- O sector das pescas da União Europeia é o segundo maior do mundo, fornecendo anualmente cerca de 7,3 milhões de toneladas de peixe proveniente da pesca e da aquicultura. A pesca e a transformação do pescado dão trabalho a 360 000 pessoas (aqui).
- Three (EU) Member States (Estonia 15%, Portugal 25%, Spain 39%) accounted for 80% of the EU-27 catches in 2006. (aqui)
- O emprego nas pescas em Portugal evoluiu assim: 38 700(1990); 30 937 (1995); 25 021 (2000); 18 085 (2005) e 17 261 (2006);
- O que irá fazer esta gente, bem como os seus filhos e familiares, quando a pesca acabar?
- O que faremos nós para nos desabituarmos de comer peixe? Nós comemos, 59 kg/"bico" e por ano, mais que duas vezes o que a média dos 25 europeus comem... Bom, aqui temos sempre a opção dos hamburguers da cadeia MacDonalds (a título de Declaração de interesses: não gosto, mas, no mais a mim, dá-me jeito). E, neste indicador, ainda estamos longe de noruegueses e islandeses...
- Também para se consultar alguma coisa sobre o sector das pescas portuguesas, no panorama económico nacional, através das estatísticas do INE, é de facto preciso ter vários doutoramentos, em ciências ocultas e pés de cabra, ou, será melhor ainda, termos paciência de chinês... Haja muita....

Afinal, parece que não sou só eu, que não sei bem o que ando a fazer...

Como nos aconselhava o artigo do Blog de Campus, diante deste quadro, é preciso manter a cabeça fria, .....sim, é verdade,...... ou isso, ou termos sangue de barata!

Bom, meus amigos, se puderem, fiquem bem!
Eu vou regressar ao cativeiro, não vão os meus personal-carcereiros dar pela minha ausência!

28 maio, 2008

Acordo ortográfico

Ainda ninguém me convenceu de que o acordo ortográfico vai ser uma desgraça e a nossa submissão ao país que “ainda vai ser um império colonial”. Também ainda ninguém me convenceu de que o acordo ortográfico é essencial para a afirmação da nossa língua. Eu passei anos de vida profissional a escrever diferentemente o inglês para revistas americanas e para revistas inglesas e não são assim tão poucas as diferenças. Será por isto que o inglês é língua hoje tão irrelevante?…

O que mais estranho por bizarro é o argumento do respeito pela etimologia. Se assim fosse, nunca estaríamos a escrever como hoje, depois da reforma de 1911. Nem os italianos teriam cometido o “crime” do abandono do h, por exemplo, em “uomo”. A ortografia é simples convenção e como tal deve ser prática. Claro que pode haver os países tradicionalistas que mantêm ortografias seculares, complicadíssimas, como os de língua inglesa. Mas repare-se que não são estúpidas as suas criancinhas, não precisam de acentos para saber acentuar as palavras. No campo oposto, uma língua como o russo para a qual só muito tarde foi criado o alfabeto cirílico. Quem aprende as regras básicas sabe interpretar qualquer texto, porque a relação letra-som é quase inequívoca. Por isto, tem bastante mais letras do que o nosso alfabeto, para identificar ditongos ou sons como o nosso "nh".

Hoje, ainda por cima, as peculiaridades ortográficas têm significado tecnológico, e tempo é dinheiro, até a teclar no computador. Não seria bem mais barato apenas um tipo de teclado? Em português, passaria a fazer corresponder cada som apenas a uma letra. Abro excepção para ão, õe, nh, lh, rr entre vogais e para o n anasalante. Também, por algum sinal de respeito para com a tradição, para o s final do plural, senão ficava todo o texto cheio de j.

Aqui vai um exemplo de uma reforma ortográfica radical.

“Xamo-me João, sou asoriano, coisa importante para estas istorias, tenho sesenta anos saudozos das orijens e presizo de ejcrever. Acordo tarde e mal dormido, com o gato Peugas a cosar-se-me nas pernas. Comeso por pensar e no cafe e na sigarrilha ce me faltam dejde a vejpera, leio o jornal, cuantas vezes para meu dejgojto e vejo o correio eletronico. Faso planos para o dia, coizas bem ordenadas, do arrumar o ejcritorio ao tratar de um dejleixado asunto bancario, do corte de cabelo ao preparar uma aula. Vão falhar as boas intensões, ja sei, porce persebo ce presizo de ejcrever. “

25 maio, 2008

Modernização

Tive hoje uma surpresa agradável, logo pela matina, estremunhado. À minha ilharga fica a igreja de um convento, convento misterioso talvez de reclusas, porque nunca lhe vislumbrei uma freira.

Mas vamos lá à surpresa. A igreja tem sinos electrónicos, daqueles que por toda a parte tocam a Avé Maria. Esta também, até hoje, porque deve ter mudado a abadessa. Hoje passou a tocar o bem conhecido motivo da 9ª de Beethoven. Agora, de hora a hora, vou estar de ouvido atento. Viva a alegria! "O Freude, nicht diese Töne!"

19 maio, 2008

Higiene internética

Na sua página de sábado no Expresso (online só para assinantes) Miguel Sousa Tavares conta uma história incrível - ou talvez não - de uma difamação de que foi vítima, a partir de um blogue anónimo e depois amplificada por muitos outros. Por isto, contesta a ideia que se faz da blogosfera como o maior espaço actual de liberdade de expressão. Não concordo com o termo. Acho que é, em muitos casos, é um espaço de libertinagem de expressão.

Por isto, e sendo bloguista, obrigo-me a algumas regras, para além da mais elementar, a de assinar sempre com o meu nome. Raramente aceito comentários anónimos, a menos que os considere relevantes e correctos. Por questão de princípio, não leio blogues anónimos, como não leio cartas anónimas. Não leio blogues, mesmo com autor identificado, se ele não fornecer um meio de o contactar para comentários ou protestos, mesmo que em privado no caso de o blogue não permitir comentários.

A internet está a precisar de alguma higiene, começa a cheirar muito a autocarro em hora de ponta.

26 abril, 2008

Tenho pena

Um número significativo de blogues que tenho classificados nos meus favoritos como blogues de esquerda, alguns de amigos estimados, não assinala minimamente a passagem de mais um aniversário do 25 de Abril. Já não se lhes justifica? No entanto, não deixam nunca esquecido o "post" de Bom Natal.

11 abril, 2008

Ai, as mães...

Não sou muito de usar o truque das remissões para outros blogues, sítios ou YouTube quando falta a inspiração. Mas desta vez vale a pena ouvir esta divertida versão semicantada da abertura do Guilherme Tell. Nunca nenhum de nós ouviu a nossa mãe a dizer aquilo?

22 março, 2008

29 dezembro, 2007

Notas soltas

1. Leio hoje, com surpresa, que só cerca de um quinto da população portuguesa com mais de 10 anos é que fuma. Não é a impressão com que fico do café aqui ao pé de casa. Até há um ano, eu era um pequeno elemento individual dessa população. Isto tira-me todo o direito de ser um fundamentalista antitabágico, mas reconforta-me numa decisão difícil que tive de tomar. Para já, uma nota importante, experiência que me é transmitida por amigos americanos, numa época em que a imagem social é muito importante. Foi muito eficaz nos EUA a ampla difusão de uma certa "imagem" do fumador: indivíduo de classe baixa, sem preocupações de "correcto", sem força de carácter para dominar um vício. Importantíssimo, tudo isto define um "looser"! Porque não centrarmos uma campanha neste aspecto, embora com adequação à nossa cultura? Se calhar, é mais eficaz do que fazer pensar nos prejuízos causados ao anónimo fumador passivo.

2. Tem-se defendido a tese Portela+1, mas em que a Portela seria o aeroporto internacional, principal e o +1, eventualmente Alcochete, o aeroporto para os voos "low cost". Por experiência familiar, conheço um caso equivalente, o de Estocolmo, em que o aeroporto "low cost" é mais distante da cidade do que o internacional de Arlanda. No entanto, embora não percebendo nada do assunto, pergunto-me, instintivamente, se não faria mais sentido o contrário. Queremos atrair turistas, mas turista para Portugal, reconheçamos, é em boa parte turista que quer "low cost", em tudo, incluindo na ligação entre o aeroporto e a cidade. Não faria mais sentido que o "low cost" fosse a Portela, limitada, com eventual aproveitamento ambiental, lúdico ou outro de estruturas e espaços entretanto tornados desnecessários? O mesmo para os voos domésticos, embora com garantia de boas ligações para os passageiros em trânsito no novo aeroporto.

3. No seu artigo semanal do Público, José Pacheco Pereira (JPP) discorre sobre "A cultura de blogue nacional". Claro que subcultura, irreflectida, sem regras de rigor intelectual, apressada, com tudo o que Eça denunciou em relação ao jornalismo português, a começar pelo Palma Cavalão. "Os blogues são apenas mais uma câmara de ressonância da pobreza da nossa vida cívica". Mas JPP não tem um blogue? Ou será que ele é aquele recruta que deliciava a mãezinha, "vejam, tanta gente a marchar e o meu filho é o único com o passo certo".? Espantoso é que critique a blogosfera por ser avessa à crítica. O Abrupto aceita comentários?

19 dezembro, 2007

Europa?

Se voltasse aos meus tempos de liceu, chumbaria em geografia. Aprendi que a fronteira entre a Europa e a Ásia era desenhada pelos Urais. De Gaulle também o julgava, quando defendia a Europa do Atlântico aos Urais. Ainda por cima, é coisa que tem boa base científica, em termos de formação da crosta terrestre.

Mas está errado. Ainda há pouco tempo, para se apurar para um campeonato europeu de futebol, a selecção portuguesa teve de jogar no Azerbeijão e, pasme-se, até no Casaquistão. Agora, leio que a Organização para a Segurança e Cooperação Europeias (OSCE) supervisou as eleições (europeias) no Quirguistão. Um dia destes, a Mongólia está a pedir a entrada na UE.

Nota - A propósito, sabiam que as ilhas açorianas das Flores e do Corvo são americanas, não europeias como a minha ilha micaelense?

15 dezembro, 2007

Só é mesmo difícil dizermos que não, a nós mesmos!

A frase que dá o título a este "post" é uma tradução rústica, de uma observação que escutei centenas de vezes - a uma senhora irlandesa que conheci em criança, entre os meus 5 e 15 anos - dita num vocabulário de impossível reconstrução constituído por, proporções variáveis de Gaeltacht, inglês e português muito macarrónicas. Só cerca de 20 anos depois, é que me apercebi da importância e alcance daquelas convictas, insistentes e incansáveis palavras.
Nestes últimos tempos, acabei por conferir um significado muito especial à citada frase, por causa das tristes consequências de inconsciências momentâneas - de que todos padecemos de vez em quando - mas que, para simplificar, vêm sendo atribuídas a "excessos de praxes académicas".
Para mim, também é muito triste e extremamente preocupante ver a forma como a tutela percebeu e abordou, tão superficialmente, essas questões, como podem ler aqui:
"O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago, segue com preocupação estes casos, tendo sido já contactados os responsáveis das instituições envolvidas para o cabal esclarecimento da situação. Sem prejuízo do necessário apuramento de responsabilidades civil e criminais, recorda-se que o novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) já em vigor determina que constitui igualmente infracção disciplinar «a prática de actos de violência ou coacção física ou psicológica sobre outros estudantes, designadamente no quadro das 'praxes académicas'»".

Considero deficitária a percepção que essas declarações denunciam, quando indirectamente expressam uma expectativa de que as causas remotas desses, efectivamente, gravíssimos acidentes sejam controladas de raiz se as identificarmos como infracções disciplinares, até precavida e cuidadosamente, previstas e contempladas no RJIES.

Perguntaria, hoje, tal como já o fiz, em 5 de Julho se ao invés de sequer sugerirmos processos disciplinares não deveríamos tentar mobilizar, induzir e motivar todas instituições de educação superior a adoptarem Códigos de Boas Práticas, nas suas múltiplas dimensões e facetas.

Questionam-se alguns dos meus caros e raros leitores: e aí? grande coisa... qual é a diferença?

Na verdade, para mim, a diferença é abismal, porque a construção de raiz de Códigos de Boas Práticas obriga à participação efectiva daqueles a quem se destina e, em consequência, a uma auto-responsabilização, pelas opções tomadas, e sobre o que se pode e deve ou não fazer em circunstancias específicas devidamente ponderadas - trata-se de uma produção de documentos educativos (obrigam a pensar) redigidos com base em posturas reflexivas e integradas, e não de simples instrumentos mais ou menos legais, soltos e repressivos, vindos sabe-se lá porque motivos da cabeça de um iluminado e incógnito quem.
Pelos vistos, até hoje, ninguém ou muito poucos deram a devida atenção à redacção do RJIES, em geral e, muito particularmente, deram ainda menos crédito a essa passagem específica sobre a infracção disciplinar.

Entretanto, contentemos-nos com uns "responsos" esporádicos, agitados lá do alto, sobre uns hipotéticos responsáveis institucionais, exibindo uma certa tranquilidade de espírito que resulta da existência de umas quantas regras disciplinares avulsas escritas aqui ou ali... Por outro lado, indirectamente, expressando a preferência por manter jovens pessoas, sob receios repressivos, mas sem nenhum respeito, por umas quantas regras disciplinares, ao invés de se empenharem e auto obrigarem a prestar muita atenção aos seus actos, e à consideração de consequências sobre as suas ideias, opiniões, decisões e acções, que muitas das vezes imporiam que disséssemos que não a nós mesmos, especialmente, quando nos é difícil.

Dizem-me, que esta minha manifestação é demasiado serôdia - têm razão, estava até para não dizer nada sobre o assunto, mas ultimamente todos os dias, ou quase, venho assistindo à prática de actos de violência ou coacção (....) psicológica sobre outros e não têm a assinatura de jovens ou se podem explicar, candidamente, por excessos de praxes académicas.

10 dezembro, 2007

O espírito médico

Uma colega minha lida frequentemente com doentes de SIDA. Há dias, contou-me uma sua experiência, de que ressalto uma pequena nota. Teve uma conversa com um homem que não sabia que era portador do vírus. Não sei, mas adivinho, porque a conheço bem, como terá sido a conversa. O que sei é a reacção do homem, de grande gratidão pela afectividade com que tinha decorrido aquela conversa, com uma médica que nunca o tinha visto. "Só consigo aguentar por me lembrar da maneira como a doutora me disse isto".

A medicina está difícil. Os meninos dos 18 valores não são obrigatoriamente as mentes e os afectos médicos. Eu sou autor de uma proposta de um curso de medicina em que me preocupo muito com a formação para a "compassionate medicine". Mas cuidado com a tradução à letra. Não é compaixão caritativa para com o coitadinho do doente, é empatia, partilha fraterna de sentimentos e vivências, a intuição de um gesto de ternura que vale mais do que mil palavras segundo a ordenança e o código.

É por isto que tenho muita pena de não ter sido convidado para o jantar de há dias preparado por cozinheiros infectados com HIV.

30 novembro, 2007

A mão à palmatória

Ontem critiquei os "flashes" bloguístico. Penitencio-me por hoje fazer isso mesmo.

1. O inefável Alberto João Jardim acusa o Tribunal Constitucional de estar a fazer terrorismo de estado. Nada lhe acontece. O líder da oposição acusa AJJ de fazer terrorismo de estado e a Assembleia regional levanta-lhe a imunidade para ele responder em tribunal em processo de difamação, por queixa de AJJ. Não há mesmo forma de acabar com esta nódoa insular na democracia portuguesa? Os meus bons amigos madeirenses mereciam-no.

2. António Valpaços, estudante da Faculdade de Letras da U. Porto, declara no jornal que "a entrada dos 'privados' [presumo que queira referir-se aos membros externos dos conselhos gerais] nos órgãos de gestão das universidades vai criar escolas de primeira e de segunda". Não entendo patavina desta afirmação, mas o direito à asneira é sagrado e bem divertido. A não ser que ele queira dizer que uma universidade com Artur Santos Silva ou Rui Vilar como presidente é mais de primeira do que uma presidida por Joe Berardo. Mas isto é que é mesmo a lógica do modelo dos conselhos gerais ("boards").

3. Clara Barata, jornalista do Público, ficou tristemente célebre por um caso de plágio. Ao menos, quando plagia, escreve acertadamente. Quando escreve da sua cabecinha, dá asneira. Em notícia sobre trabalhos acerca do plasmódio, o parasita causador da malária, diz que eles são estudados em culturas celulares, em "pratinhos de laboratório". Parti o coco! Imaginei pratinhos de pastelaria, com scones a acompanhar o meu chá. Placas de Petri, ignorante!

26 novembro, 2007

Contrapúblico (V)

O título é enganador. Desta vez, não vou apontar nenhum erro do jornal, mas creio que o título é simbólico. Nos últimos tempos, troquei alguma correspondência com Rui Araújo, provedor do Público e ganhei grande consideração por ele. Não teve tarefa fácil, tantas foram as queixas a que teve de atender, sempre solícito, acutilante mas com objectividade e imparcialidade. Chegou a defrontar-se com uma questão muito grave e delicada, um caso de plágio.

Foi com pena que li ontem a sua última crónica. Dela extraio, como homenagem e sinal de reconhecimento pelo que RA me aturou, este trecho que bem merece reflexão.

"(...) Tenho consciência de que o jornalismo não é uma ciência exacta e um jornal não é uma enciclopédia. Também eu, muitas vezes, fui vítima da pressão do tempo, da compressão do espaço, do cansaço, do humano cansaço. São factores que não justificam as falhas, mas permitem explicá-las. E se assim era no meu tempo de jovem repórter, pior é ainda hoje, porque maiores são os constrangimentos e as ameaças: a competição desenfreada, o desemprego, a contenção de custos e o impacto das novas tecnologias. O sistema pressiona o jornalista, esmaga o jornalismo. A informação era um serviço. Passou a ser mais uma mercadoria, é promovida como tal. Os cidadãos ficaram reduzidos a meros consumidores. A opção lógica é, portanto, dar-lhes o que querem, já que o freguês tem sempre razão. O infotainment alastrou, invadiu as páginas dos jornais. É provável que a confusão de géneros acabe por fomentar a apatia. É uma perspectiva preocupante, porquanto a democracia não depende só da eficácia das instituições e do desenvolvimento tecnológico, mas também e sobretudo dos cidadãos. E a informação é vital. É por isso que os jornalistas não podem ser acríticos, inofensivos, irresponsáveis e objectivos."

18 novembro, 2007

Não fumador

Deixei passar ontem sem nota uma data importante, corrijo hoje: o dia do não fumador. Fez exactamente um ano que deixei de fumar. Não o registo como sinal de qualidade minha, muito pelo contrário. Não se espera pelos 62 anos para se deixar de fumar, mas mais vale tarde do que nunca. Deixo aqui registo do feito apenas como alento a quem queira fazer o mesmo. Espero que ontem, ao simbolizarem o dia, tenham sido muitos.

10 novembro, 2007

Contrapúblico (V)

Uma boa jornalista, que estimo, mete hoje "a pata na poça", escrevendo "soundbyte". É coisa que não existe. "Byte" é uma invenção recente da língua inglesa, aliás bem humorada, para um aumentativo/múltiplo de "bit", um pedacinho, a unidade de informação (também "with a little bit of luck", lembram-se?). O que ela devia ter escrito era "sound bite", dentada sonora, coisa perfeitamente adequada ao sentido com que é usada a expressão, em diversos domínios da comunicação/manipulação e, infelizmente, cada vez mais na política.

08 novembro, 2007

Adivinha


Esta vai principalmente para a minha gente, de/dos 60s. Tentem imaginar estas caras há 40 anos e digam por que nome eram chamados.

05 novembro, 2007

Nota solta (2)


Às vezes, apetece-me escrever coisas ligeiras, para relaxar. Vem isto a propósito da crónica de hoje de Rui Tavares, no Público. Critica a ideia de Vital Moreira de se referendar apenas coisas tão gerais e de entendimento comum como "queremos permanecer na UE?".  Rui Tavares, com razão, entende que isto seria um exercício gratuito, sem significado, com resposta assegurada e até com alta probabilidade de uma baixíssima votação, por desinteresse.

A seguir, escreve que isto seria como referendar a república ou as cores da bandeira. Aqui é que não estou de acordo. Creio que, de facto, as cores da bandeira não dizem nada a muita gente, mas continuo a achar que a bandeira portuguesa é horrorosa! Qualquer das que estão na imagem não é mais bonita, e respeitando as nossas cores tradicionais?

Deontologia médica

Quem escreve sobre deontologia de outras profissões devia preocupar-se um pouco com a deontologia de quem tem a comunicação social à sua disposição. Não é o que faz António Bagão Félix (ABF), num artigo de há dias no Público, "Aborto: ética e lei". Protesta contra a intenção do governo de fazer consagrar no código deontológico médico (CDM) a adequação à actual lei do aborto, deixando de ele ser considerado, como hoje, praticamente em todos os casos, como uma violação ao CDM.

Escreve ABF que "é habitual a confusão entre a lei e a ética. Mas o que é certo (e elementar) é que nem tudo o que é legal tem automaticamente o estatuto de conformidade ética e nem todo o enquadramento ético é regulado pela lei". Isto é verdadeiramente elementar, como ABF escreve.

A grande confusão, que me custa a compreender numa pessoa com a cultura de ABF, é entre ética e deontologia. São coisas completamente diferentes. A ética, embora com raízes sociais e culturais colectivas, é essencialmente do domínio individual. Neste sentido, a lei vai-lhe como companheira de caminho, mas com marchas diferentes. E a lei até é generosa, permitindo, neste caso como em muitos outros, a objecção de consciência, que, lembre-se, é um acto estritamente individual.

Deontologia é diferente. Embora assente em valores éticos, traduz-se num código imperativo, que já não tem a ver com a ética individual mas sim com o conjunto de regras que rege a prática profissional, numa determinada situação histórica, cultural e social. E, sendo um código, implica penalização pelo seu não cumprimento, independentemente da opção ética individual.

Lembremo-nos de que foi esta a opinião do bastonário. Em declarações que agora não posso reproduzir literalmente, disse que esse "valor deontológico" (não percebo: a deontologia tem regras exactas ou valores?) é milenar, já vem do juramento de Hipócrates e deve manter-se. Isto é espantoso, que um velho grego ainda continue a mandar nos tempos de hoje, mas adiante. Disse também o bastonário que, apesar disto, a Ordem não tencionava processar nenhum médico que cumprisse a nova lei. Raramente tenho lido maior exemplo de hipocrisia!

P. S. (10:00) - Acabo de ler um texto sobre o mesmo assunto de Vital Moreira, no causa nossa.