29 dezembro, 2008

Bom para a banca, bom para a imprensa

Quando lia jornais portugueses em papel, saltava páginas e páginas cheias de anúncios de tudo o que é organismo público. Sempre pensei que era uma boa fonte de receitas para os jornais. Confirmo agora que representa mais de 10 milhões de euros. Vendo do outro lado do espelho, representa outro tanto de despesa dos contribuintes. Por isto, o Governo criou um portal na internet para publicação dos seus anúncios. Aplaudo, como não podia deixar de ser.

No entanto, há quem não esteja de acordo. Obviamente, a Associação Portuguesa de Imprensa (API). Afinal, não faz mais do que acompanhar, com justo direito, banqueiros, investidores de risco e outra gente respeitável que merece que o Estado (isto é, eu contribuinte e os meus leitores, mais uns tantos milhões) lhes garanta protecção contra qualquer prejuízo e mesmo contra a falência, coisa horrorosa dos malefícios do capitalismo que me deve envergonhar a mim e a todos nós no concerto das nações.

É claro que a API não pode rebater o argumento de que nenhum jornal é de “âmbito nacional”, como exigido na lei para os anúncios oficiais, que no total só são lido por duas centenas de milhar de pessoas e que nos tempos de hoje o acesso a tudo o que é gratuito na net é muito superior.
 
Não o podendo fazer, imagina uma proposta bem compatível com o novo híbrido ou monstro circense ("freak") de neoconservadorismo e de keynesianismo. "Tem que haver um período transitório em que a publicação seja feita também em papel, defende João Palmeiro (API), que reclama, numa fase posterior, a publicação nos sites jornalísticos em paralelo, e com custos idênticos, à publicação no Portal dos Anúncios Públicos. A um maior destaque no site das publicações jornalísticas corresponderia um custo suplementar."

Há gente com muita lata. Ou melhor, com muita falta de vergonha e com tal arrogância que julga que toda a gente é estúpida.

P. S. - Escrevi acima “quando lia jornais”. É verdade, já não leio. Quem me lê regularmente já encontrou aqui escritas razões suficientes para o meu porta-moedas não ser cúmplice com a mediocridade e incompetência da imprensa portuguesa.

24 dezembro, 2008

Nota gastronómica (LXX)

Salada de alho francês e queijo de cabra

Uma receita muito simples, última adição à minha página de novas receitas. Nada que não se tenha à mão na cozinha, para preparação rápida, ao fim do dia de trabalho. Dá para aconchegar o estômago, na minha idade, completando com um chá e uma torrada antes de deitar. Como de costume com saladas, não recomendo vinho. Acho que não vai bem com o tempero de azeite e vinagre ou qualquer vinagreta. Só uma boa água, embora ainda não tenha aderido a essa nova moda das águas por lista de preços avantajados.

Pensamento de Natal

"Se esta noite te cair uma cagadela de pássaro na cabeça, estás com sorte. Lembra-te de que esta noite também há renas a voar".

21 dezembro, 2008

Votos

Feliz Natal e Bom Ano Novo.

Mas, em crise, para o ano novo talvez valha a pena fazer um peditório.



("Peditório do Menino Jesus", música popular de S. Miguel, Açores)

20 dezembro, 2008

18 dezembro, 2008

Nota gastronómica (LXIX)

Bacalhau para o Natal

Esta minha receita de bacalhau não é recente, tem mais de um ano, mas vem a calhar para sugestão nesta época. Como se vê facilmente, é um exemplo de cozinha de fusão com ingredientes tradicionais mas com técnica aperfeiçoada. Pode ser feita com qualquer tipo de bacalhau, mas, para apreciadores da minha idade, saudosos dos sabores de infância, aconselho vivamente o bacalhau de cura amarela. Só se vende nesta época invernal, a preço considerável, mas pode conservar-se no congelador, cortado em postas, durante todo o ano.

A técnica é ajustada por mim, mas corresponde a um padrão hoje muito vulgar de cozinha a baixa temperatura, “cozendo” os alimentos com o máximo de conservação dos sabores e da textura. Com os legumes habituais na nossa cozinha, imaginei o puré. A couve foi substituída pelo meu irmão, e colaborador frequente destas lides culinárias, por uma trouxa de couve lombarda, segundo Gary Rhodes.
Para quatro pessoas: 4 postas de bacalhau, 5 dl de azeite virgem, 4 dentes de alho, 1/4 pimentão verde, 50 g de presunto ou bacon, um ramo pequeno de salsa, 10 grãos de pimenta preta, 4 grãos de pimenta da Jamaica ou 2 cravinhos. 200 g de feijão branco, 200 g de grão de bico, 100 g de feijão frade, leite q. b., flor de sal, pimenta branca e preta moídas a fresco. 1 couve lombarda média (com folhas exteriores escuras com favos), 30 g de manteiga, sal, pimenta branca, noz moscada.
Demolhar o bacalhau, com a pele virada para cima, em várias mudas de água. Retirar a pele e a espinha central, formando pequenas postas, mas sem as lascar. Num tacho tapado, aquecer no azeite, em banho-maria e durante uma hora, os alhos pisados, o bacon ou o presunto em cubos pequenos e o pimentão também em cubos, o ramo de salsa e as pimentas. Arrefecer, coar e passar o azeite para uma assadeira, com as postas de bacalhau. Cobrir com uma folha de alumínio. Assar a 90º durante uma hora. O bacalhau deve ter aspecto de assado mas sem estar lascado nem ter perdido a sua untuosidade característica. Passar as postas para a travessa e regar com um pouco do azeite e um fio de vinagre balsâmico (sem misturar, para realçar o contraste das cores).

Para quem só tem forno de gás, uma alternativa: aquecer bem o forno e apagar. Introduzir a assadeira e deixar assar no forno apagado.

Acompanhar com um puré feito de partes iguais de feijão branco e de grão de bico, com metade dessa dose de feijão frade, e ligado com leite e um pouco do azeite de assar, temperado com sal e as pimentas.

Trouxa de couve lombarda. Separar as folhas exteriores e o coração da couve, retirando os talos mais grossos. Branquear as folhas em água com bastante sal, a ferver alto, durante 5 minutos e passar por água fria. Separadamente, branquear o coração, sem talo, ripado. Escorrer bem, molhar com a manteiga e temperar. Cobrir o fundo de um prato de sopa com película aderente, pincelar com manteiga e forrar com metade das folhas. Rechear com o coração ripado e cobrir com o resto das folhas. Cobrir com película e vedar, em bolo. Calcar com um fundo de forma e outros pratos e levar ao micro-ondas, durante alguns minutos, sem deixar cozer demais. Retirar a película de cima, virar para o prato de servir e retirar a outra película.

Decorar com azeitonas bem demolhadas e polvilhadas com orégãos.

15 dezembro, 2008

Análise política

Não sei se consigo ser isento ao escrever esta nota, devido a velha e forte amizade que me liga à pessoa que vou referir. Vou tentar. A blogosfera, para não falar na comunicação social convencional, está cheia de analistas políticos que prefiro designar apenas como comentadores políticos. Comentar pode ser coisa legítima de conversa de café, até com desabafos e expressões de alguma subjectividade. É perfeitamente legítimo, desde que as regras do jogo sejam claras, que os leitores saibam que estão em pé de igualdade com o autor: cada um exprime, escrevendo, lendo ou escrevendo comentários ao "post", opiniões que podem reflectir em muito identificações ideológicas e políticas, interesses, simpatias. 

Mais complicado é quando este tipo de intervenção, bem claro em muitos blogues, aparece com um outro nível, de análise isenta, mesmo que isto não seja a intenção dos autores. Para referir os dois blogues políticos "de referência", parece-me ser o caso do Causa nossa e do Abrupto.

Diferentemente, há um blogue (sem desmérito de outros) para que quero chamar a atenção, como exemplo de rigor de análise, de uma "exegese" política quase obsessivamente racional e metodologicamente científica, escalpelizando os assuntos até quase à provocação do confronto com coisas "evidentes" do pensamento dito de esquerda. E, note-se bem, sem qualquer traição a uma genuíno posicionamento de esquerda do autor. Estou a falar do Politeia, de José Manuel Correia Pinto. É minha leitura diária obrigatória. 

P. S. 1 - O problema é o JMCP ser muito teimoso e continuar a não incluir no seu "feed" um mínimo de conteúdo dos "posts". Por isto, não assino o "feed", tenho de ir sempre ao blogue.

P. S. 2 - Este Bloco de Notas era para encerramento já anunciado, mas continuo a escrever. Contingências da vida não me têm facultado tempo para a remodelação radical da minha intervenção internética. Espero que seja visível a abrir o ano.

10 dezembro, 2008

Comemorando


Passa hoje o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Comemoro o dia juntamente com muitos outros blogues, em rede, numa iniciativa de "Fênix Ad Aeternum".

(Imagem de Lino Resende)

09 dezembro, 2008

Nota gastronómica (LXVIII)

Vale a pena ir ao Carregado

Julguei que Carregado era terra que só valia pela referência histórica de fim da linha inaugural do caminho de ferro fontista ou, mais recentemente, pelas chaminés da central da EDP que nenhum viajante deixa de notar. Afinal, alguém relacionado com coisas de electricidade levou-me a conhecer o Kottada. Parece que muita gente já descobriu o restaurante, porque o proprietário, Fernando Garcia, galego de boa estirpe gastronómica,  não tem mãos a medir para a sua sábia e comedida vigilância de sala cheia.

Não vou perder tempo com coisas de sala, amesendações, couvert, e passo à substância. Éramos dois e partilhámos dois pratos "banais". Atenção, é muitas vezes na banalidade que se vê a qualidade da técnica culinária. O bacalhau assado era uma excelente posta, no ponto certo, a começar a lascar, ainda com toda a gordura do bicho. Eu costumo conseguir isto em assado a baixa temperatura, demorado. Talvez tenha sido também em assadura da posta embrulhada em qualquer coisa, folha de couve ou até simples folha de alumínio. A regar, um muito bom azeite aromatizado com muito alho, depois retirado. Pequeno senão para mim, teria preferido, juntamente com óptimas batatas, o nosso feijão verde em vez do feijão verde francês. Também teria ido ao éden gastronómico se fosse bacalhau de cura amarela. Fernando Garcia concordou, recordámos os nossos sabores de infância, mas disse que os clientes não apreciam, já estão habituados ao sabor mais suave do bacalhau corrente. 

Depois, um "cochinillo". Não devia dizer nada, só "vão lá e provem". A desfazer-se no palato, com um molho excelente um tudo nada avinagrado e forte de ervas. Batatas fritas em lâmina, a parecer de pacote industrial até se provarem e se ver a diferença.

Vinho recomendado pelo proprietário, muito bom, Quinta de S. Cristóvão 2004. Tenho falado na conquista do nosso mercado pelos vinhos de casta, contra preconceitos enraizados. Neste caso, fica-se a meio caminho, muito bem conseguido. O vinho é aragonês mas com 10% de vinhos de 10 anos. O Ribatejo está a dar cartas.

Coisa importante, 25 euros por pessoa, vinho incluído.

P. S. - Esqueci uma informação importante. Os pratos emblemáticos têm dia certo: o cochinillo  é às terças e sextas, o borreguinho assado às segundas e quartas e o pato assado à quinta.


Um amigo a destacar

Nesta ponta final de vida deste blogue, tenho dificuldade em escolher temas de entre muitos que fui acumulando à espera de dia de publicação. Um não pode ficar sem dar de fé, o da "incubadora de amizades". Incubadora de empresas toda a gente sabe o que é. E incubadora de amizades? É uma pessoa que tem muitos amigos, em polos diversos, de gente que não se conhece, mas que a incubadora, conhecendo-os a todos, tece malhas sabedoras de afinidades, histórias comuns, até coisas de casadices e descasadices, ou de copos, ou de músicas. Marca encontros seleccionados de um e outro seu amigo, faz nascer novas amizades, que por vezes até crescem a esquecerem a sua origem. Assim é o meu amigo Manuel Mota.

Boa parte das amizades do MM tem sido feita à volta da música, como amador, mas amador com grande seriedade e sentido da responsabilidade artística. Lá leva atrás os amigos para variados sítios, bares, cafés, coisas interessantes que vou descobrindo (por exemplo, o Melkia em Telheiras), em merecida peregrinação, noites divertidas em que música, histórias de ontem e hoje, amigos divertidos, se misturam em grande festança alegre a acabar antes no derrame já obnubilado da camarata de Guadalupe, que Nª. Sª. dos Almendres haja.

Mistura rica, disse, mas em que se destaca a música, variada. São os blues do conjunto com o Michel Mounier (ex-1111) e o Bagorro, às vezes com o sax do Zé Tó Amaral. Ou a banda a virar para a bossa nova, agora sem a efémera mas magnífica colaboração da voz da Letícia. Mais recentemente, uma nova experiência, muito bem conseguida, dos dois Manueis, Mota e Cintra, só canto de MPB e violão, registo muito comedido, mas de grande qualidade. Manuel Cintra tem uma boa voz, cheia e vibrante e canta/diz com uma expressividade de poeta que lhe dá um registo vincadamente pessoal das canções célebres de Chico, Caetano, Jobim, Caymmi. MM acompanha com o nível muitas vezes difícil de conseguir do volume que se nota, se reconhece, se aprecia, mas que não abafa o parceiro.

MM e amigos, eles andam por aí, vão a todas, tudo por gosto, coisa funda nas memórias cinquentonas. Avisarei quando os puderem ouvir, que vale a pena. E não só ouvir, também o convívio de amigos, comes e bebes, depois da música.

P. S. - Esqueci-me, imperdoavelmente, de referir o nome artístico do Manuel Cintra: M. C. Punhetas e Cardoso.

08 dezembro, 2008

Mal estar social

Em tempos convulsos como os actuais, de crise financeira globalizada, de horror perante acontecimentos como os de Bombaim, talvez passe um pouco despercebido o que se está a passar na Grécia. Não devia passar, porque creio que tem um significado profundo. Aparentemente, violência urbana em protesto contra a morte de um jovem ateniense atingido por um polícia. Mas três noites já de grande violência, com centenas de automóveis incendiados, lojas saqueadas, já não só em Atenas mas também em Salónica e em Creta, são facilmente entendíveis como protesto pelo assassínio de um jovem?

Isto faz-me lembrar a crise de violência em França, há dois ou três anos, com a agravante de ser agora mais difusa, não circunscrita a filhos de imigrantes. Temos estado a prestar maior atenção ao terrorismo, como agora na Índia. De certa forma, acontecimentos como estes de Atenas parecem sugerir que o terrorismo, por horroroso e condenável que seja, pode ser entendido, analisado nas suas raízes e, por isto, relativamente previsível e controlável, apesar do seu componente surpresa. Essa outra violência urbana, sem a "lógica" do terrorismo e sem o seu quadro ideológico fundamentalista, pode prefigurar, ainda como pequenas chamas, um grande incêndio a abrasar muito do nosso modo de viver. Estou convencido de que é sintoma de um cada vez mais profundo e destruidor mal estar social, uma descrença azeda na nossa ordem política, até mesmo, serei exagerado?, nos fundamentos da civilização. Tudo misturado com uma perplexidade e insegurança de valores que parece uma atitude de niilismo ético e ideológico.

Em Portugal, julgo que acontecimentos esporádicos, como conflitos localizados entre grupos étnicos, ainda nos situam longe deste panorama pessimista. No entanto, os sinais desse tal niilismo, dessa descrença generalizada, do sentimento de perda de referências, já aparecem, sendo bem visíveis na net. Muito poderia dizer mas deixo isso à capacidade de observação dos meus leitores. Vejam só, por exemplo, o que por aí vai de comentários, geralmente anónimos, a textos na blogosfera. Mais flagrantemente, note-se o que é o atirar para todas as direcções de lama moral e política, porca, reles, cobarde, mas também possivelmente desesperada e psico-socialmente doente, que é a generalidade dos inúmeros comentários a notícias nos sítios de jornais "online". Não seria de os responsáveis dos jornais reflectirem sobre o que estão a propiciar?

05 dezembro, 2008

Ligeireza ou aldrabice?

O romance histórico não é novidade e tem grandes pergaminhos. Tanto quanto me ocorre, aparece no século XIX como símbolo de um nacionalismo romântico que tem alguma coisa a ver com o ideal do ressurgimento (uso o termo lembrando-me de Itália) de povos e culturas entretanto decaídos. Recordamos logo Alexandre Herculano e Walter Scott. Em ambos os casos, aliam-se a alta qualidade de escrita ao máximo rigor histórico, obviamente em compromisso com a ficção. Mais recentemente, em Portugal, deve realçar-se, nesta tradição, Fernando Campos. Fora fronteiras, obviamente que Umberto Eco.

Entretanto, nos últimos anos, vingou a moda da sandes mista de romance histórico e de “suspense”, ao estilo de Dan Brown. Mesmo neste caso, ao que me apercebo, há a preocupação de rigor, de procura extensiva de informação de base, de correcção dos cenários e fundos históricos e geográficos. Entre nós parece ser diferente, à “tuga” videirinho, para quem tudo vale porque o escritor orelhudo ou nicotínico é muito esperto e não se digna sequer pensar que pode haver um ou outro leitor que se aperceba da ligeireza aldrabona.

Teria alguma dificuldade em escrever isto, porque não leio estas degenerescências nacionais do que já não é grande coisa estrangeira. Há algum tempo fui enganado. A publicidade de “O cavaleiro da ilha do Corvo” fez-me pensar que se tratava de um ensaio histórico, provocador. Por isto o comprei, vendo depois que era um exemplo menor de romance todo ao estilo Dan Brown (um herói académico, uma mulher inteligente mas que também gosta de cama, esoterismo, mistério, perigos, uma hipótese de história transgressora da História convencional).

Repetindo, tudo isto misturado com uma ligeireza e falta de seriedade dificilmente compatível com a situação de professor universitário do autor. Coisas que podiam ter sido evitadas por uma simples leitura prévia por um micaelense medianamente culto. Alguns exemplos (propositadamente não os corrijo, porque seria insulto à cultura dos meus leitores). Ao fim de uma tarde de trabalho no congresso, em Ponta Delgada, os participantes tomam o autocarro para o jantar na Praia da Vitória! Água de Pau é uma vila situada à beira mar! A ilha Sabrina, resultado de uma erupção de dois meses junto à Ponta da Ferraria, ilha depois desaparecida e entretanto efemeramente britânica por o comandante do navio inglês Sabrina dela ter tomado posse, apareceu em 1638, segundo o autor, apesar de as crónicas da época serem de 1811. E mais, mas já chega.

A ligeireza, a raiar a aldrabice, é mesmo sina portuguesa?

04 dezembro, 2008

Incultura snob

Nos últimos dias, a propósito dos acontecimentos dramáticos em Bombaim, só ouço notícias do que se passou em Mubay. Isto não é novo, faz-me lembrar o 11 de Setembro em New York ou até um célebre sine die pronunciado na televisão como saine daie. Mas ainda vai faltando, para grande vergonha da nossa "cultura" jornalística,  atentados em London, carnaval em Venice, os últimos jogos olímpicos em Beijing. Ao menos, como ouvi há dias, já se vai sabendo que não sei o quê se passou na cidade suíça de Genève. O homem deve ter apanhado em tempos uma bebedeira de genebra e ficou com fobia à palavra.

Insisto. A bem da nossa mínima saúde mediática, acabem já com os cursos de comunicação social. Contratem licenciados em letras, em economia, em ciências, em tudo o que quiserem, desde que escrevam bem sobre o que sabem, que sejam minimamente cultos e que, principalmente, não torturem a nossa língua, a nossa pátria mental.

Provocação

Rui Antunes, professor do Instituto Politécnico de Coimbra, escreve hoje no Público um artigo provocador sobre as carreiras docentes do ensino superior, "Um estatuto para recompensar ou para incentivar?". Uma única categoria base com desempenho de funções superiores apenas em comissão de serviço temporária, por concurso? Concorde-se ou não, vale a pena ler e discutir.

28 novembro, 2008

Esquerdas e esquerdas

O Encontro das Esquerdas causa-me sentimentos mistos. Que haja muitos e variados, bem o desejo. É sinal de vontade de diálogo, de exploração de novos caminhos em colaboração, é pequena mas adivinhável luz ao fundo do túnel do nosso bloqueamento político, cristalizado em partidos já muito estabelecidos (até o BE). No entanto, por outro lado, cheira-me muito a jogada política tradicional, nada que signifique uma rotura justificativa de novas esperanças, principalmente por parte de muitos que têm essas esperanças ligadas a um percurso indissociável da rejeição de manobras políticas convencionais. Deles - e não posso honestamente deixar de me incluir, mesmo que imodestamente - falarei adiante.

O primeiro encontro, salvo erro em Maio, aparece sob o foco bipolar de duas personagens marcantes, Francisco Louçã e Manuel Alegre (a ordem dos factores não é arbitrária), obviamente pessoas representativas de uma acção política inteiramente balizada pela intervenção partidária. Não creio que qualquer deles, depois de muitos anos dessa perspectiva, possa guinar para alguma coisa de novo.

Alegre é refém do seu PS, não sabe como agir fora dele, vai aproveitando uma margem de tolerância que o PS lhe vai dando, num negócio confortável em que todos ganham. Ou melhor, ganha o PS em imagem de tolerância, porque Alegre parece não conseguir saber o que fazer dessa oferta, como não soube o que fazer do apoio de um milhão de eleitores, desbaratado num MIC de paróquia.

Louçã, arrisco-me a dizê-lo, é também refém da sua imagem, do jovem muito inteligente e muito gabado (outro Pacheco falado nas barbearias da província), do dirigente trotskista, do fanático impulsivo sempre com trejeitos de Savonarola. Ainda não me conseguiu convencer de que tenha uma grandeza de pensamento político, de projecto de sociedade, que vá para além do que sempre defendeu. A “modernidade” do BE cheira-me muito a instrumental. Nem falo só da componente trotskista, muito menos da herança UDP que nem sei o que é, mas da “herança” do meu MDP que passou por OPA política para a Política XXI. Ainda terei de fazer, com outros amigos, a história da revolução ideológica, fora de tempo, do MDP restante depois da rotura com o PCP.

Neste segundo encontro, há aparentes surpresas, mas nem tanto. São casos isolados que me parecem sinal de algum aproveitamento cauteloso, tipo “deixa-me entalar o pé na porta, para não a deixar fechar”. É Carvalho da Silva, sempre ambíguo no uso dos seus dois chapéus, do PCP e da CGTP, é António José Seguro, um candidato a alternativa no PS mas sempre avaro das suas ideias que ninguém conhece (outra vez o Pacheco) e até, pasme-se, Carlos Carvalhas (claro que certamente a mandado do PCP). Ao lado, com a sua já vista ingenuidade de vigarizados por um aparelho sabido, os renovadores comunistas, coisa que ainda não percebi o que quer dizer. Se o nome aponta para os seus amigos italianos, é melhor irem dar uma volta ao bilhar grande.

Mas há mais esquerda. Há esquerda de gente que não precisou de grandes acontecimentos telejornalísticos para reflectir sobre erros de décadas em muitos casos assumidos pessoalmente, com modéstia e sincero pesar. Há esquerda de gente que não pactua com o papel de instrumentos de luxo dos aparelhos, com vestes de gala de uma independência que não engana ninguém. Há esquerda de gente que vive satisfeita com a sua actividade profissional esgotante, com a sua participação na vida cultural e social e para quem a intervenção política é uma missão nobre mas custosa, nunca uma prebenda. Há esquerda de gente que pode defender abertamente valores e opiniões controversas, porque não precisa de pensar em termos eleitoralistas.

Ninguém desta esquerda poderá dizer que ela é a dos “bons”. É apenas a dos que têm a sorte de poderem ser livres, porque a vida isto lhes permite. E nesta liberdade desempenha papel essencial o facto de as suas roturas terem resultado de caminhos individuais, com sofrimento, quantas vezes silencioso e desconhecido da opinião pública, sem o apoio de movimentações grupais que muitas vezes espartilham a rotura em novas formas de dependência.

Pessoalmente, sinto-me obrigado a elogiar um político que soube dar valor a muita desta gente, que por isto também lhe correspondeu: António Guterres, nos Estados Gerais. Infelizmente, a sequência, nos tempos já de governo, foi frustrante, em termos de intervenção independente e dialogante. As Novas Fronteiras já nem sequer os convidaram. Desconfio de que algum dos meus amigos tivesse aceite.

27 novembro, 2008

Assinando o ponto

Ainda não desapareci, mas tempos muito ocupados têm-me afastado da escrita. Dou sinal de vida, prometendo retomar a minha intervenção dentro de pouco tempo, em outros moldes. Deixarei aviso.

20 novembro, 2008

Violência de género

Há coisas que não gosto de adjectivar ou de qualificar, são más em si. No entanto, por vezes, a qualificação alerta-nos para circunstâncias particularmente favorecedoras do mal. É o caso da violência do homem ainda hoje mais forte para com a mulher ainda hoje mais fraca, com destaque para a violência doméstica.

O Público de hoje traz um número impressionante: este ano, 43 mortes de mulheres por violência doméstica. Extrapolando, quantos casos de agressões com consequências físicas importantes? Mais ainda, quantos casos de "ligeiras agressões" mas com enormes efeitos destrutivos?

Leio também uma coisa muito interessante, uma iniciativa da UMAR para envolver numa petição também os homens que se revoltam contra esta degradação do ser masculino. Boa ideia, generalizar uma luta que corre o risco de ser considerada, redutoramente, como feminista. É pena ainda não ver concretizada a iniciativa, vou ter de estar atento.

Isto faz-me pensar que a virtude pode ser perversa, isolando-nos do que tendemos a ver como distante de nós. Chegar sistematicamente a casa embriagado e bater na mulher? Tirar o cinto para a coça nos filhos? Infelicidades, mas não é comigo... Será que não?

Nota - Um pouco a despropósito, tenho bem para mim que, com uma excepção (um filho bebé que não podia compreender de outra forma que não podia enfiar os dedos na tomada), nunca bati num filho. Porquê, porque sou especial? Sim, sou especial porque tive pais especiais que, nos anos 40 e 50, não me batiam. Estas coisas herdam-se. Não tenho qualquer sinal de que os meus filhos tenham batido nos meus netos. E às vezes talvez precisassem, como quando o André me diz que não vale a pena discutir com o avô porque só tem caca de galinha na cabeça.

17 novembro, 2008

Diletantismo portuga?

Na sua crónica habitual no Público e com a sua habitual displicência, diz hoje Vasco Pulido Valente que Marx, para os seus estudos de economia política que o levaram ao monumento intelectual que é o Capital (concorde-se ou não com as derivações políticas práticas do marxismo) falsificou dados. É a mais grave acusação que se pode fazer a um cientista e é a primeira vez que leio tal coisa em relação a Marx. Das duas uma. Ou VPV é um diletante, não é um pensador rigoroso, não conhece a ética científica e pode-se-lhe desculpar (?) a acusação atirada como barro à parede. Ou é o contrário disto e então exige-se-lhe que demonstre tão grave acusação. 

05 novembro, 2008

Obama

02 novembro, 2008

Recordando (1)

A despedir-me, quando este blogue vai passar a ser chamada de atenção para sítio mais calmo e ponderado de escrita, lembro-me da menina R, minha vizinha da então 28 de Maio, hoje felizmente rebatizada (acordo ortográfico!). A menina R talvez tenha sido o primeiro desafio a alguma abertura mental. Era execrada pela vizinhança do prédio, era muito simpática comigo, provavelmente porque sentia que eu o retribuía, que mais não fosse pelos mimos que fazia ao meu filho bebé.

Era sustentada. Um velho horroroso visitava-a ocasionalmente, mas com menor frequência, bem bom para ela, do que o António Mourão, seu professor de canto, guitarra e talvez de outros instrumentos. Mas também para mal dos meus ouvidos, sempre a ouvir “ó tempo, volta p’ra trás”. E depois de todo este rodeio, onde é que eu ia?, açoriano criado em conversa fiada de serão, ah, lembrei-me, vou olhar para algum passado deste blogue e tirar conclusões de provocação matreira e final.

Tema de grande motivação a escrita minha foi a licenciatura de Sócrates. Ele escapou ileso, até ao encerramento da sua alma mater. É portuga. De facto, nada de ilegal, só videirices de que a imprensa, inabilmente, quis fazer escândalo. Digo inabilmente porque se há coisa de que o portuga gosta, em que se revê, é na videirice, na chiquespertice. O que ele inveja não é o Nobel do Saramago nem os milhões do Jardim Gonçalves, coisa que não percebe. Inveja é o vizinho que aldrabou as finanças, o outro que vigarizou a segurança social, o outro que ficou repentinamente milionário com o euromilhões, sem essa chatice horrorosa que é trabalhar pra ganhar a vida. E eu a olhar com gozo para alguém que me repetia sempre, "aposto o que quiseres, o ministério público não pode deixar de o levar a tribunal". Um mínimo de honestidade proibiu-me de desfrutar dessa aposta.

Por isto, quem é que se importa que Sócrates não tenha vergonha de um título universitário de vão de escada, que não tenha ética de rigor intelectual, que não tenha cultivado o orgulho de reconhecimento académico por uma instituição de qualidade? Só eu e mais uns tantos, que penámos agruras e angústias pessoais de perguntas rigorosas para nós próprios sobre a qualidade do nosso trabalho intelectual e profissional, que temos a paixão e o respeito por uma coisa que transporta um milénio de civilização, a educação superior, que consideramos um grau como um prémio que tem de ser merecido e não como um cartão de visita que se manda imprimir no shopping. Mas quem sou eu e esses outros para falarmos, se qualquer coisa ajuda ao tiro de partida carreirístico na jota (que no caso até foi do PSD), mesmo um grau charunfoso, se calhar até dando competências bolonhesas para vendedor de computadores?

Hoje vai só esta memória de tempos idos do Bloco de Notas. Outras se seguirão.

Keep it simple, stupid

Muitos políticos americanos têm dotes oratórios excelentes. Lincoln, Roosevelt, Kennedy, Martin Luther King, agora Obama. Vêm na tradição do uso sintético, incisivo, da língua, e por isto é que as grandes citações, depois dos romanos, são agora as dos americanos, sem falar na eloquência exemplarmente elegante de Jorge Sampaio! Coisas célebres: “Don´t ask what your country can do for you, ask what you can do for your country”; “Ich bin ein Berliner”; “I have a dream”. Notável é a última de Obama (vai em português, não a consigo no original): “Qualquer parvo faz um filho, mas o que faz um pai é fazer crescer um filho”.

KISS, keep it simple, stupid!

01 novembro, 2008

A muralha de aço de Alcântara

Subscrevi a petição de iniciativa de Miguel Sousa Tavares contra a expansão do parque de contentores de Alcântara. Hesitei muito em o fazer, depois de também ter lido os argumentos da Liscont. Afinal, os 15 m de altura dos contentores empilhados compensam a altura dos armazéns que vão ser demolidos. 

Então, porque assinei? Porque espero que este assunto pontual traga à discussão o problema de fundo, que é o da localização do porto de Lisboa. Vai ser desafio para a minha escrita mais elaborada, como sucessora deste blogue. Para já, fica-me uma dúvida importante: qual o destino da gare de Alcântara? E os painéis de Almada, para já não falar do valor arquitectónico dessa obra de Pardal Monteiro?

Ingenuidade?

Loureiro dos Santos alertou para possíveis disparates a virem a ser praticados por militares descontentes com lesões aos seus interesses corporativos. Creio que ninguém com juízo neste nosso país pode admitir tal hipótese cesarista. Por isto, vindo do general, é alerta civicamente importante, dirão alguns. Não me parece verdade. O general não é ingénuo nem estúpido e sabe bem que o simples facto de escrever sobre tão absurda coisa é dar-lhe publicidade, importância e alento. “Porque no te callaste?”

P. S. - Não é a primeira vez que LS se faz porta-voz encapotado de interesses corporativamente mesquinhos de militares. Aonde quer ir com isto? Não percebo, por parte de um homem que pode envelhecer confortavelmente deitado sobre um bom currículo. Simples vocação populista?

Sócrates, sai um anunciozito?

Já não me bastava estar ontem encravado meia hora no trânsito de hora de ponta, ainda tive de ouvir o discurso de José Sócrates na Cimeira Ibero-Americana. Já há muito tempo que não tinha tanta vergonha de me chamarem português. 

Há por aí uma coisa a que chamam de Magalhães, pretensa invenção nacional. Não é nada, é uma criação da Intel, já posta em prática em alguns países sub-desenvolvidos, a que se destina, e agora montada em Portugal, pelos vistos também um sub-desenvolvido. 

Mas ouvir o primeiro ministro de Portugal fazer de publicitário, durante 10 minutos (!) de um discurso oficial, a enaltecer as virtudes do computadorzinho, a referir que um chefe de estado americano o tinha atirado ao chão sem ele se partir, ultrapassa tudo o que eu julgo ser a dignidade mínima do Estado português, a cumprir pelos seus representantes máximos. Era bem razão para Juan Carlos ter interrompido, “Jose, porque no te callas?”

Autonomia açoriana

Lembram-se do velho professor americano a viver em Roma, personificado por Burt Lancaster no “Conversation Piece” de Visconti? Ou mesmo do mesmo como Príncipe Salina? Distanciamento, algum desgosto pela degenerescência do que nos foi caro, sentido de que a vulgarização nos remete para um buraco íntimo de preservação da qualidade. Elitismo intragável, admito.

Isto vem mesmo a despropósito sobre a actual questão do estatuto dos Açores. Fui autonomista, nos alvores açorianos da minha descoberta política. Fui autonomista com muitos amigos dos tempos difíceis, sendo sempre justo salientar Melo Antunes e Borges Coutinho. Nessa altura, os filhotes de Mota Amaral usavam babete e hoje não se lembram de que ele, por essa época, era deputado e escrevia a favor das multinacionais americanas dominarem a pecuária açoriana. Por tudo isto, sinto-me hoje um pouco como essas personagens viscontianas.

Por isto, creio ter autoridade para me escandalizar com alguns excessos do estatuto de autonomia dos Açores e, por isto, quem diria, concordar com Cavaco Silva. O que mais me choca é a disposição aberrante segundo a qual a Assembleia da República não pode legislar sobre a autonomia a não ser sobre propostas da Assembleia Legislativa Regional. Não consigo perceber como é que tal disposição, só possível num estado federal (e nem sei se mesmo neste caso, na realidade) não é declarada liminarmente como inconstitucional.

Sou autonomista, nem de longe sou federalista ou independentista. Como costumo dizer, sou muito açoriano porque sou muito português e sou muito português porque sou muito açoriano.

Nota gastronómica (LXVII)

Um chefe que fornece as suas receitas

Vivi largos anos na Amoreira, à ilharga norte do Monte Estoril, burgo “piplar” típico, contraponto do vizinho, mesmo que este decadente. Nunca pensei que a Amoreira viesse a ser pousio de restaurante de qualidade, gabado por amigos meus gastrónomos exigentes, o “Vin Rouge”, dirigido por um jovem chefe promissor, João Antunes. É coisa já registada, a fazer engordar a minha lista iPhonica de “to do”.

É hoje tema na revista do Expresso. O que me faz escrever esta nota é uma coisa espantosa que li na revista. João Antunes não faz segredo das suas receitas e troca-as com os seus clientes. Notável! Ou, então, grande sentido de marketing. Seja como for, vou lá um dia destes mas com uma meia dúzia de receitas minhas no bolso, esperando vir de volta com outras tantas de João Antunes. E que sejam da qualidade com que ele hoje, no Expresso, disserta sobre a carne de veado, coisa de que gosto muito desde tempos idos na Suíça.

31 outubro, 2008

No creo en brujas...


...pero que las hay, hay!

O Público é useiro e vezeiro em desprezar o rigor da associação entre texto e imagem. Lembro-me de que a primeira vez em que protestei foi quanto a uma rememoração do episódio, no 25 de Abril, da fragata Pereira da Silva hesitante, defronte do Terreiro do Paço, enquanto os oficiais não controlaram o comandante Louçã. A fotografia do jornal era de uma fragata Meko, ainda nem nascida nessa altura. Respondeu-me um responsável editorial que as fotografias são só ilustrações evocativas. Como se um artigo sobre Sócrates pudesse ser evocado com uma foto de Salazar, também ele primeiro ministro.

Depois deste caso, muitos outros, até ao de hoje, que considero grave. Vejam a fotografia que ilustra uma notícia sobre o tema suscitado há dias pelo general Loureiro dos Santos, do perigo de "aventuras" antidemocráticas decorrentes do mal estar entre os militares. Vejam a parte superior da imagem: pode ser só uma atitude de vigilância de prisioneiros mas não será desonesto nem exagerado suspeitar de que é uma simulação de execução.

Das duas uma. Não é uma fotografia de exercícios do exército português, é de qualquer outro exército? Então, pelo menos, é enorme leviandade do jornal associar esta imagem a uma tal notícia que, já de si, suscita preocupações em relação às nossas forças armadas. Ou é mesmo uma fotografia de exercícios portugueses? Então, pior, o dever do jornal é levantar a questão da gravidade de tais exercícios.

Errata (2.11.2008) - Não sei como me saiu Pereira da Silva em vez de Gago Coutinho. Talvez por me ocorrer o nome da classe a que pertencia a Gago Coutinho. As minhas desculpas aos leitores.

Museu dos coches

Está anunciada a construção de um novo museu, projecto de vulto, claro que também financeiramente. Pus-me a pensar recorrendo a coisa que infelizmente tenho pouco, a sabedoria chã do Zé Povinho. Ora bem. Se eu tiver uma mercearia de bairro com tanta clientela que não me dê para as minhas capacidades familiares de atendimento e eu não quero ter empregados, se os seus lucros me chegam e sobram até para todos os meus luxos que só vão até ao bilhete semanal para o futebol ou para o livrinho a 1 euro que acompanha o Correio da Manhã de sábado, porque raio me hei-de dar ao trabalho e ao risco financeiro de transformar a mercearia num supermercado todo modernaço?

Isto vem a propósito do novo Museu dos Coches. É o museu mais visitado de Portugal, nenhum turista se queixa de não obedecer aos padrões museológicos da moda, aos desafios intelectuais do acto sexual entre observador esteticamente titilado e objecto museológico observado. Dá grandes lucros. Não tem reservas não exibidas.  Porque raio vou pagar dos meus impostos para refazer este museu (para mim, ainda por cima, de uma arte respeitável mas menor), quando há tantos outros em condições verdadeiramente precárias e sem condições de expor ricas colecções guardadas em armazém?

Admito uma razão, a utilização imaginativa das actuais instalações no picadeiro de Belém. Por exemplo, para espectáculos equestres da escola de Alter, ou, com aplicação temporária de pavimento adequado, para concertos barrocos ou variados "eventos", públicos ou em aluguer a privados. Mas ainda não vi isto discutido.


Notícia importante


Nesta ponta final, em que ajusto contas, não podia deixar de vir o Público à baila. Segundo o pasquim, faz hoje anos sua sereníssima alteza a infanta D. (perdão, Dona) Leonor, três aninhos viçosos a prometerem cultivo desde já das mais ínclitas virtudes geneticamente acumuladas de apuramento da raça lusitana. Desculpem, é confusão, estou a trescrever, passei para Alter.  

Seja como for, a regra a mesma, toda a gente sabe, o segredo do apuramento é o fomento da consanguinidade, tudo primos. Olhem lá para a cara do pai Duarte e não digam que não é feição vigorosa e expressão inteligente herdadas de D. Afonso Henriques e da pressão selectiva das bordoadas aos mouros, agora convertidas em conversas de chazinho com as suas velhas inquilinas do Chiado, quando lhes vai cobrar a renda.

Voltando ao Público. Despedi-me dele porque, salvaguardados alguns focos de resistência interna, é cada vez mais, por via do seu director, conservador, economicamente neoliberal, reaccionário em relação à evolução dos costumes, faccioso (veja-se hoje o tratamento da questão angolana, em que admito que haja muita coisa podre mas em que desconfio da fúria já antiga do Público), voz do dono, simpatizante do Opus Dei. Será que também monárquico?

Nome de família

Cada povo, seu costume. Nórdicos só usam o nome de família do pai. Latinos, de ambos os pais, mas paterno em último lugar, à nossa maneira, ou materno no fim, à espanhola. Usar só o nome da mãe é, tradicionalmente e em relação ao nosso pejorativo "filho da mãe", coisa invulgar. Saiu-me isto em sorte, mas por inteligência de sentido de "marketing", de uma filha artista que aproveita o exotismo do nome de família da sua mãe, em desprimor do meu banal Costa. Nunca me queixei, dá-me gozo a rapariga ser esperta, tem a quem sair...

Diferente, já aqui escrevi, é o caso de quem parece ter vergonha do pai ou o diminui para valorizar uma herança que não merece. Por isto, nesta lide final, eu que tanto critiquei aqui António Vilarigues, não deixo de concordar com ele em que Vasco Pulido Valente, aliás Correia Guedes de seu muito honrado e notável pai, era assim que devia assinar, não envergonhando a memória do seu outro avô Pulido Valente.

O João e a amiga

Boa tarde, é tudo o que dizemos, mas já somos amigos de todos os depois do almoço, no café da minha vizinhança, mesas lado a lado. Já nenhum de nós encomenda, é bem sabido da casa, café com adoçante para mim, uisque para ele. Depois é ouvir o seu desbobinar da vida.

Conheço muito dele, o seu passado até recentemente na Figueira, o estabelecimento comercial bem sucedido mas que foi à falência, a vinda para Carcavelos onde se amanha com um emprego precário, o apartamento onde se sente triste, a porcaria da televisão que já o enfada. Tudo isto é desabafado em longas conversas monológicas, em voz alta que nenhum vizinho pode ter o recato de não ouvir, desabafado com expressão de muita ternura, para quem se adivinha logo que é a sua amiga fiel, muito especial, que à sua mesa o olha com ternura retribuída.

Sei que, meu homónimo, ele se chama João, ouço do empregado do café. Só não consegui ainda saber o nome da sua amiga, uma linda cadela perdigueira.

Morte anunciada

Este blogue acordou hoje esquisito, cara angustiada, afilada, ensimesmada, embaciada. Pior, dedos enclavinhados nos lençóis, puxando-os desesperadamente para o queixo tremente. Sinais óbvios, na cultura popular da minha gente ilhoa, de morte próxima, "filhe, vá já chamá o padre, tê pá tá-se finande".

Podia fingir atraso de coisa inevitável, mascarado de cavaleiro medieval, jogando com a horrorosa da gadanha xadrez sobre muro dando para o mar. Podia negociar faustianamente com essa velha. Mas não, vou aceitar o destino, dando apenas um último sopro "desta luz celeste à qual as almas restitui, restituindo à terra o pó que as veste", escrevendo hoje a meu bel-prazer, em despedida.

28 outubro, 2008

Escola e laicidade


Na escola pública que o meu filho mais novo frequenta e que o mais velho também frequentou, situada no centro da cidade do Porto, existem crucifixos em todas as salas de aula. Nas duas extremidades do corredor principal pode ver-se uma figura da Nossa Senhora de Fátima e numa delas uma fotografia dos videntes Francisco e Jacinta Marto. No decurso do mês de Maio um conjunto de senhoras idosas desloca-se à escola para rezar diariamente o terço. Aparentemente trata-se de uma tradição com muitos anos. Em 2004, sem que os pais tivessem previamente conhecimento, realizou-se uma missa no recinto da escola por ocasião da reforma de duas funcionárias muito devotas. Eu e a minha mulher contactámos a responsável da escola, depois da realização da missa, demonstrando-lhe o nosso desagrado pelo facto de o nosso filho ter participado numa cerimónia religiosa dentro de uma escola pública e de os crucifixos continuarem expostos, mesmo sabendo que isso constituía uma violação da lei, incluindo a Constituição da República. Desde essa altura nada mudou.

Alguns afirmam, hipocritamente, que o Estado é laico mas não a sociedade. Esquecem-se de que a separação das igrejas e do Estado é uma conquista civilizacional cujos alicerces são o sangue de gerações e de séculos de lutas e combates. A união entre o Estado e as religiões degrada o Estado e degrada as religiões. 

25 outubro, 2008

Cartas anónimas

A crónica semanal de hoje do provedor do DN, Mário Bettencourt Resendes, aborda os problemas deontológicos da atitude dos jornais em relação a cartas anónimas. Assunto importante, mas certamente menos do que a importância a dar às denúncias anónimas com implicação criminal. Devem ser postas no caixote do lixo? Mas não terão às vezes substância, sendo o anonimato justificável por defesa?

Falo em causa própria. Era eu director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e recebi uma delegação da Inspecção Geral de Finanças, para uma auditoria. Considerei isto como uma rotina num Estado que deve aos contribuintes a fiscalização, aleatória, do uso dos dinheiros públicos pelas instituições.  Penso ter dado aos auditores todas as condições de trabalho. No fim, o seu relatório foi muito favorável, sem qualquer acusação relevante de responsabilidades minhas, excepto algumas pequenas irregularidades administrativas de que nenhum dirigente se escapa, se aconselhado por dirigentes medianos da função pública.

Afinal, só nesse último momento é que soube que toda a auditoria tinha sido pedida pelo PGR, Cunha Rodrigues, com base numa denúncia anónima, sobre sacos azuis e outras fantasias. Esse senhor, pelos vistos, não tinha cesto do lixo.

Ficou-me deste episódio também a impressão de que muitas vezes as coisas não são tão anónimas como parecem. Analisando a informação que está por detrás da denúncia, pode-se chegar a uma quase certa identificação do denunciante. Neste caso, nunca disse a ninguém qual era o meu palpite/certeza, e até aproveito agora para dizer a muitos que julgo que estão enganados quando pensam na mais evidente pessoa minha inimiga.

Disse que me acusaram de pequenas irregularidades administrativas. Isto leva-me a outra questão, a da responsabilidade de dirigentes de organismos muito especializados em que o director, como eu, é um cientista ou um técnico sem conhecimento da legislação. Está totalmente dependente dos quadros da administração pública, muitas vezes incompetentes. No entanto, é ele que assume a responsabilidade civil extra-contratual e tem de pagar ao Estado, do seu bolso, tudo o que de irregular tenha sido gasto pelo organismo que dirige. Quem é que quer ser dirigente e pôr o espírito de missão à frente da simples segurança do seu conforto financeiro pessoal e familiar? Resultado, a actividade pública, a política, é uma rotina medíocre, defensista, sem risco, sem grandeza.

Literatura pimba

Não sou masoquista e julgo ter bom gosto, nunca li nada de Margarida Rebelo de Andrade, juro. No entanto, vivo no meu mundo real e não deixo de "valorizar", se calhar de invejar, quem é capaz de aproveitar bem o pimbismo nacional. E nem é só nacional, porque dizem os entendidos que Paulo Coelho é o escritor mais lido em todo o mundo.

Nada de mal se esta gente se situar honestamente na sua vida "intelectual". Diferente é o caso de José Rodrigues dos Santos, escritor pimba medíocre (se é que isto não é pleonasmo) que numa entrevista recente (lamento não ter a referência) se permite comparações com Saramago e Lobo Antunes, com base no volume de vendas e até com entrelinhas sobre aspirações a um Nobel. Até onde pode ir o delírio desta "sociedade de sucesso"!

O menino ficou famoso por uma prodigiosa imaginação para cenas eróticas estranhas. Se não fosse o sucesso literário, também o teria na "Maria". Num "romance" anterior, imaginou uma cena amorosa que começa por um jantar de sopa de peixe aromatizada com leite da menina (nem sempre funcionará, é preciso que ela esteja lactente, coisa difícil de compatibilizar com uma cena erótica).

Neste último livro, de há dias, vai a supremos, não posso deixar de experimentar um dia destes, se conseguir arranjar uma parceira disponível para coisa tão estranha. É uma cena de amor num curral, em que "os gemidos de Amélia misturam-se [sic, em vez do correcto "se misturam"] com os grunhidos dos porcos." Pode haver coisa mais eroticamente excitante? Já estou cá com uma pica...

Cada um tem o escritor que merece.

P. S. (por chamada de atenção, 18:59) - Garanto que um meu erro acima não é truque, trocar Pinto por Andrade. É mesmo sinal da importância que a senhora tem para mim.

Verdade ou mentira?


Era eu miúdo, habituei-me ao rito diário de ler o jornal da parvónia, quatro pobres páginas, que o ardina madrugador nos passava por debaixo da porta. Mais tarde, também o Primeiro de Janeiro que o meu pai assinava e que lá chegava à ilha requentado de uma semana de vapor a oito nós. Com isto, criei um respeito reverencial pelos jornais, símbolo da verdade absoluta, eu que não sabia o que era a censura. Mais tarde, vindo para vida minha para além da vida familiar, foi o meu saudoso Diário de Lisboa. Por tudo isto, uma das mais difíceis decisões da minha vida, muito recente, foi a de deixar de comprar jornais, que hoje mancham este meu passado de devoção.

Mas os pecados são irresistíveis e hoje caí num, comprei um jornal. Para me penitenciar e merecer absolvição, aqui vai um bom pedaço de página do DN de hoje, com a pergunta: ainda há alguma razão, pequenina que seja, para se acreditar que os jornais são a moeda de ouro da verdade?

(clicar na imagem para ver aumentada)

Old things die hard...

Em 20 de Setembro último Pacheco Pereira escrevia no Público uma das suas habituais crónicas intitulada “O ataque ao "neo-liberalismo" e o "bacalhau a pataco". Nela se podia ler:

"O desastre ocorrido na banca de investimento americana, da crise do subprime à falência do Lehman Brothers, passando pelas sucessivas intervenções sobre os gigantes do crédito hipotecário, a Fannie Mae e a Freddie Mac, e pela seguradora AIG, associado às crises bolsistas, tem sido pasto para inúmeros comentários. Estes são distribuídos por todo o espectro político, mas mais estridentes à medida que se caminha para a esquerda, para a esquerda socialista, já que a comunista e a extrema-esquerda alter-mundialista sempre disseram o mesmo, contra a "economia do casino", a "loucura do neoliberalismo", a "ganância das grandes empresas", a crise da regulação, a falta de intervenção do Estado no mercado, as "imperfeições do mercado", a necessidade de subordinação da "economia" à "política". E é decretado o "fim duma época", aquela em que supostamente o "neoliberalismo" triunfou impante e a abertura de outra, em que a mão pesada do Estado e dos governos vai "controlar" os mercados para lhes dar a "perfeição" que eles não têm naturalmente. (…)
Naturalmente, como muita gente acha, os "mercados" são maus e injustos, esquecendo-se que são os mercados que estão a acabar com o Lehman Brothers e bem, que são os mercados que estão a fazer aquilo que autores clássicos da economia liberal como Schumpeter sempre disseram que faziam, destruir, que a destruição provocada pelas crises é um mecanismo fundamental de crescimento e de inovação, de pujança do modelo económico do capitalismo. A "crise" não é o sinal da crise do liberalismo, mas sim do seu normal funcionamento, em sociedades e economias que incorporam o risco e os custos como parte do seu funcionamento normal, das regras do jogo dessa mão que Adam Smith dizia ser "invisível"."

Ora, eu devo estar distraído mas o que está a suceder é tudo menos a destruição criadora e o triunfo do capitalismo. Se o Lehman Brothers foi à falência, outros bancos e instituições foram salvas com dinheiros públicos. Isto parece-me uma abordagem muito pouco capitalista, mas poderei estar enganado.

Ontem o Público noticiava que Alan Greenspan tinha testemunhado perante o Congresso manifestando-se chocado com a dimensão da crise financeira. Segundo afirmou: "Há 40 anos ou mais que tinha uma evidência muito clara de que o mercado livre funcionava muito bem. Presumi, erradamente, que o interesse próprio das organizações, nomeadamente dos bancos, era suficiente para que eles protegessem os seus accionistas."

Hoje, novamente o Público, tem como notícia de primeira página a crise económica mundial: SEVERA, PERSISTENTE, PROFUNDA.

Há muitas formas de encarar os acontecimentos que contrariam as nossas crenças. Uma delas é negá-los. Pacheco Pereira faz-me lembrar o senador americano do Partido Republicano, George Aiken, que, em 1966, propôs que a melhor política para o envolvimento americano na guerra do Vietname era simplesmente declarar vitória e retirar as tropas. Talvez possamos fazer algo de semelhante: injectemos quantidades astronómicas de dinheiros públicos nos mercados e proclamemos o triunfo do capitalismo liberal tal como este tem sido entendido nos últimos 25 anos.

23 outubro, 2008

Da ignorância dos alunos do ensino superior

Há 20 anos atrás Luís de Mascarenhas Gaivão publicou a História de Portugal em Disparates, uma recolha de frases sobre história de Portugal que o autor foi coleccionando a partir da sua experiência de professor.
Pessoalmente também tenho a minha pequena colecção e, ouvindo colegas meus, partilho o riso e, mais raramente a tristeza, face às frases que vamos lendo nos exames e nos trabalhos dos nossos alunos. Aqui vai uma pequena amostra.

• Uma colega, numa das suas aulas, referindo-se a um determinado acontecimento, classificou-o como uma revolução coperniciana. Um dos alunos, por sinal um daqueles que, com espírito solidário, empresta os seus apontamentos das aulas aos seus colegas, percebeu e escreveu revolução com persiana…E assim, no exame, várias foram as respostas que trataram de colocar persianas à referida revolução! 

• Num exame eram apresentados num quadro as vítimas civis da 1ª e da 2º Guerras Mundiais, e pedida uma análise das causas do aumento das referidas vítimas. Um dos alunos começou a sua resposta afirmando que na 2ª Guerra Mundial, por comparação com a anterior, as vítimas civis tinham aumentado gastronomicamente!

• Numa aula um professor descreveu Viriato como resistente à invasão romana, descrevendo-o como um bandoleiro. Uma aluna escreveu no exame que Viriato era um paneleiro!

• Os três exemplos anteriores fora-me contados. Este passou-se comigo. Numa das minhas aulas explicava que as transições para a vida adulta em tribos primitivas se processavam através de rituais de iniciação, por contraponto às nossas sociedades em que os marcadores dessa transição são muito mais difusos e difíceis de delimitar. Mostrava um documentário sobre esses rituais em duas tribos africanas e colocava os alunos a trabalhar em grupo com base no material visionado. Afirmava que os rituais assumiam formas muito diversas, mas que era relativamente vulgar em determinadas zonas do globo que o ingresso na vida adulta no caso de homens se fizesse por intermédio de cerimónias em que a circuncisão ocupava um lugar central. 
Uma aluna escreveu-me no exame que os rituais masculinos envolviam frequentemente a castração! Esta mesma aluna pediu-me para ver o exame e mostrei-lhe o comentário que tinha escrito  na  margem  da  sua folha de resposta. “Coitados dos membros desta tribo. Extinguiram-se no espaço de uma geração.” Disse-lhe que se tinha enganado ao escrever castração mas ela afirmou-me que a sua resposta estava certa até porque tinha visto um documentário na televisão sobre o assunto. Pedi-lhe que consultasse o dicionário para perceber diferença entre castração e circuncisão. Não sei se fui bem sucedido… 

   

21 outubro, 2008

"DESDOBRÁVEL" desdobrado do OE2009 - Ministério 15

Financiamento médio (€) previsto para 2009, por aluno inscrito em 2007/2008

ESCOLA SUPERIOR DE ENFERMAGEM DE COIMBRA - 5.846
ESCOLA SUPERIOR DE ENFERMAGEM DE LISBOA - 7.156
ESCOLA SUPERIOR DE ENFERMAGEM DO PORTO - 6.222
ESCOLA SUPERIOR DE HOTELARIA E TURISMO DO ESTORIL - 5.461
ESCOLA SUPERIOR NÁUTICA INFANTE D.HENRIQUE - 8.848
INSTITUTO POLITÉCNICO BRAGANCA - 5.008
INSTITUTO POLITÉCNICO DA GUARDA - 4.827
INSTITUTO POLITÉCNICO DE BEJA - 6.254
INSTITUTO POLITÉCNICO DE CASTELO BRANCO - 5.365
INSTITUTO POLITÉCNICO DE COIMBRA - 5.080
INSTITUTO POLITÉCNICO DE LEIRIA - 5.500
INSTITUTO POLITÉCNICO DE LISBOA - 3.159
INSTITUTO POLITÉCNICO DE PORTALEGRE - 6.152
INSTITUTO POLITECNICO DE SANTARÉM - 6.051
INSTITUTO POLITÉCNICO DE SETUBAL - 4.659
INSTITUTO POLITÉCNICO DE TOMAR - 3.379
INSTITUTO POLITÉCNICO DE VIANA DO CASTELO - 5.706
INSTITUTO POLITÉCNICO DE VISEU - 4.520
INSTITUTO POLITÉCNICO DO CAVADO E DO AVE - 3.627
INSTITUTO POLITÉCNICO DO PORTO - 3.029
INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS DO TRABALHO E DA EMPRESA - 3.938
INSTITUTO SUPERIOR DE ENGENHARIA DE LISBOA - 4.244
INSTITUTO SUPERIOR DE ENGENHARIA DO PORTO - 3.846 ________________________
UCOIMBRA - FACULDADE DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA - 6.240
UCOIMBRA - FACULDADE DE MEDICINA - 8.900
ULISBOA - FACULDADE DE BELAS-ARTES - 4.462
ULISBOA - FACULDADE DE CIÊNCIAS - 7.539
ULISBOA - FACULDADE DE DIREITO - 2.278
ULISBOA - FACULDADE DE FARMÁCIA - 6.322
ULISBOA - FACULDADE DE LETRAS - 4.619
ULISBOA - FACULDADE DE MEDICINA - 6.528
ULISBOA - FACULDADE DE MEDICINA DENTÁRIA - 8.750
ULISBOA - FACULDADE PSICOLOGIA E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO - 4.323
ULISBOA - INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS* - 120.994
ULISBOA - REITORIA - 993 UNIVERSIDADE ABERTA - 2.095
UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR - 5.517
UNIVERSIDADE DA MADEIRA - 5.522
UNIVERSIDADE DE AVEIRO - 6.922
UNIVERSIDADE DE COIMBRA - 6.669
UNIVERSIDADE DE ÉVORA - 7.237
UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO - 5.533
UNIVERSIDADE DO ALGARVE - 6.577
UNIVERSIDADE DO MINHO - 5.971
UNIVERSIDADE DOS AÇORES* - 13.160
UNL - ESCOLA NACIONAL DE SAÚDE PUBLICA* - 13.618
UNL - FACULDADE DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA - 7.318
UNL - FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS - 8.968
UNL - FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS - 4.160
UNL - FACULDADE DE DIREITO - 3.563
UNL - FACULDADE DE ECONOMIA - 5.248
UNL - INSTITUTO DE TECNOLOGIA QUIMICA E BIOLOGICA* - 62.308
UNL - INSTITUTO HIGIENE E MEDICINA TROPICAL* - 87.057
UNL - INSTITUTO SUPERIOR ESTATISTICA E GESTÃO DA INFORMAÇÃO - 5.827
UNL - REITORIA - 363
UP - FACULDADE CIÊNCIAS DO DESPORTO E EDUCAÇÃO FISICA - 4.424
UP - FACULDADE DE ARQUITECTURA - 4.650
UP - FACULDADE DE BELAS-ARTES - 4.694
UP - FACULDADE DE CIÊNCIAS - 6.442
UP - FACULDADE DE CIÊNCIAS DA NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO - 4.115
UP - FACULDADE DE DIREITO - 2.693
UP - FACULDADE DE ECONOMIA - 4.149
UP - FACULDADE DE ENGENHARIA - 6.945
UP - FACULDADE DE FARMACIA - 5.623
UP - FACULDADE DE LETRAS - 3.839
UP - FACULDADE DE MEDICINA - 8.872
UP - FACULDADE DE MEDICINA DENTÁRIA - 8.266
UP - FACULDADE DE PSICOLOGIA E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO - 6.557
UP - INSTITUTO CIÊNCIAS BIOMÉDICAS ABEL SALAZAR - 6.843
UP - REITORIA - 1.062
UTL - FACULDADE DE ARQUITECTURA - 5.046
UTL - FACULDADE DE MEDICINA VETERINARIA - 9.021
UTL - FACULDADE DE MOTRICIDADE HUMANA - 6.731
UTL - INSTITUTO SUPERIOR CIÊNCIAS SOCIAIS POLITICAS - 3.110
UTL - INSTITUTO SUPERIOR DE AGRONOMIA* - 11.550
UTL - INSTITUTO SUPERIOR DE ECONOMIA E GESTÃO - 4.599
UTL - INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO* - 11.948
UTL - REITORIA - 319

______________________________________
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DA GUARDA - 637
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE BEJA - 307
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANCA - 323
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE CASTELO BRANCO - 273
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE COIMBRA - 178
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE LEIRIA - 493
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE LISBOA - 262
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE PORTALEGRE - 432
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE SANTAREM - 288
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE SETÚBAL - 217
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE TOMAR - 178
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE VIANA DO CASTELO - 483
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DE VISEU - 263
SAS - INSTITUTO POLITÉCNICO DO PORTO - 131
SAS - UNIVERSIDADE BEIRA INTERIOR - 460
SAS - UNIVERSIDADE DA MADEIRA - 534
SAS - UNIVERSIDADE DE AVEIRO - 437
SAS - UNIVERSIDADE DE COIMBRA - 587
SAS - UNIVERSIDADE DE ÉVORA - 388
SAS - UNIVERSIDADE DE LISBOA - 299
SAS - UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO - 460
SAS - UNIVERSIDADE DO ALGARVE - 337
SAS - UNIVERSIDADE DO MINHO - 472
SAS - UNIVERSIDADE DO PORTO - 291
SAS - UNIVERSIDADE DOS AÇORES - 568
SAS - UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA - 229
SAS - UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA - 267.


Financiamento global (previsto 2009) - €

ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO DE LISBOA - 5.680.000
FUNDAÇÃO PARA A CIÊNCIA E TECNOLOGIA, I.P. - 654.236.704
INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA E TROPICAL, I.P. - 8.059.561
INSTITUTO DE METEOROLOGIA, I.P. - 16.380.000


OE TOTAL- 2.550.655.869 €
________________________________
Observações:
a) os valores indicados foram encontrados com base nas informações constantes no número de alunos INSCRITOS na instituição, em 2007/2008, e não directamente nos registos do DIMAS - base de inscritos em 31 de Dezembro de 2007, como deveriam ter sido estimados.
b) Há uns quantos registos (*) muito fora dos valores encontrados para as restantes instituições ou entidades, pressuponho que o financiamento previsto e proposto leva em consideração outros factores para além do número de alunos inscritos...
c) Comentários sobre os "shares" seguirão logo que possível.
_____________________

Fontes:
1- http://www.dgo.pt/oe/2009/Proposta/Mapas/map07-2009.pdf
2- Inscritos no ensino superior no ano lectivo de 2007-2008 (por estabelecimento e curso)

20 outubro, 2008

Eutanásia e suicídio assistido (II)

As questões subjacentes à utilização da eutanásia e do suicídio assistido são fascinantes. Se desejarmos tomar uma posição sobre a legitimidade moral de colocar termo a uma vida humana ou aceitar que uma pessoa coloque fim à sua existência com a ajuda de terceiros, teremos que meditar em questões morais profundas para as quais não existem respostas fáceis ou imediatas. 

Gostaria de assinalar um paralelismo com a interrupção voluntária da gravidez (IGV). Os adversários da IGV por norma argumentavam que praticar um aborto era moralmente equivalente a matar uma pessoa. Se sustentarmos que um embrião é uma pessoa humana esta conclusão é perfeitamente aceitável. Pessoalmente não creio que assim seja, embora reconheça que existe algo de arbitrário em definir um tempo de gestação a partir do qual a IGV é proibida e moralmente censurável. Os argumentos religiosos foram raramente invocados. 


No que respeita à eutanásia e ao suicídio assistido os argumentos religiosos estão lá, embora com outras vestes. Como disse na entrada anterior sobre este tema, o Presidente Nicolas Sarkozy afirmou a Rémy Salvat que "por razões filosóficas pessoais (…) não temos o direito a interromper voluntariamente a vida." Ora, isto não é um argumento filosófico. Poderá ser a conclusão ou a introdução a uma argumentação filosófica, nunca a sua substância. A razão pela qual sustento que o principal argumento contra a eutanásia e o suicídio assistido é de natureza religiosa é que ele pode ser formulado da seguinte forma: temos o dever de viver independentemente da nossa qualidade de vida. E por que razão temos esse dever? Basicamente porque a nossa vida não nos pertence, mas pertence ao nosso criador, ou seja, a Deus.


É óbvio que existem outros argumentos que são invocados contra a eutanásia e o suicídio assistido. O mais comum é o de que as pessoas em situação terminal, como Chantal Sébire, não desejariam morrer caso tivessem acesso a cuidados paliativos que minorassem o seu sofrimento. Mas este argumento não responde à questão moral que está em jogo.


Pessoalmente defendo o suicídio assistido em casos em que os indivíduos se encontram em estado de sofrimento físico ou psíquico, em função de circunstâncias várias, com base no seguinte argumento: os seres humanos não têm o dever de viver mas sim o direito de viver. E tendo esse direito podem suspendê-lo caso se encontrem na plena posse das suas faculdades mentais e se a sua decisão resultar de um processo longamente amadurecido. Por outras palavras, defendo a autodeterminação consciente da vida de cada um, incluindo a possibilidade de lhe colocar cobro.
Esta posição resolve alguns problemas mas cria outros. Por exemplo, se uma determinada pessoa não está em condições de escolher de forma consciente, quem toma a decisão por ela? Penso, em concreto, no caso de crianças que sofrem de doenças graves, incuráveis e geradoras de grande sofrimento ou mesmo no caso de adultos que, padecendo das mesmas doenças, são incapazes de tomar uma decisão consciente (pessoas com debilidade mental profunda, por exemplo). Nesse caso sustento que as decisões devem ser tomadas por quem tem a custódia legal sobre a pessoa, como sucedeu no caso de Terri Schiavo, embora neste caso a morte tenha surgido na sequência da falta de alimentação e hidratação.

Universidade de Nobeis

Uma pequena notícia no DN de hoje:
O ex-presidente do BCP Paulo Teixeira Pinto defende que Portugal deveria apostar em colocar uma universidade no topo dos rankings internacionais das melhores instituições de ensino superior, "bastando" para isso contratar vários Prémios Nobel. "O conceito não é uma universidade portuguesa para portugueses, seria uma universidade em Portugal para o mundo", disse à Lusa Paulo Teixeira Pinto, que tinha já defendido a mesma ideia numa entrevista recente ao DN. Na visão do antigo docente universitário, essa universidade teria capacidade de "atracção de talentos, de cérebros, os melhores investigadores. Independentemente dos países onde estejam". Para Paulo Teixeira Pinto, deviam procurar-se "os melhores entre os melhores de todas as áreas do saber", entre os quais alguns Prémio Nobel. "Um Prémio Nobel custa menos que um razoável jogador de futebol." "Não me parece uma tarefa impossível".
Concordo no essencial, embora não veja muito bem o que é que Portugal pode oferecer como atracção a um Nobel. Em todo o caso, isto não se afasta muito da proposta que fiz há anos a um grande grupo empresarial português. Mas o que pensava sobre isto Paulo Teixeira Pinto quando presidia ao BCP? Como é fácil dizer “bocas” quando se está na reforma dourada!

19 outubro, 2008

Nota gastronómica (LXVI)

Risoto de cogumelos e bacon

Uma cara amiga minha é grande cozinheira, com um toque especial de origem para cozinha africana. Mas ninguém pode saber de tudo e escreveu-me a dizer que um dos seus filhos, em lua de mel italiana, apesar disto se lembrou de que a mãe é lambareira e trouxe-lhe um pequeno pacote de risoto pronto a servir. O desafio é aproveitar esta oferta, cheia de valor afectivo, mas acrescentá-la para um jantar a quatro. Aqui vai a sugestão. E fico a pensar porque é que ela me pede uma receita para quatro, afinal para ela e para os dois filhos. Será que está a preparar-se para me convidar para a prova? Não vou, nunca vou a experiências sempre falhadas de quem não consegue reproduzir as minhas receitas!...

Acho que não correspondi mal ao pedido. Vejam!

18 outubro, 2008

Eutanásia e suicídio assistido (I)

Hoje a CNN noticiava a investigação lançada sobre a morte de Daniel James, um jovem britânico de 23 anos, paraplégico desde que tinha sofrido um acidente desportivo, que morreu na Suíça alegadamente na sequência de um suicídio assistido.

Em Agosto deste ano os jornais noticiaram a morte de Rémy Salvat, um jovem francês, também de 23 anos, que sofria desde os 6 anos de uma doença degenerativa rara, que o estava a conduzir à incapacidade total. Rémy tinha escrito ao Presidente Nicolas Sarkozy solicitando uma alteração da legislação que visasse a despenalização do suicídio assistido. A resposta do Presidente francês foi a seguinte: "Por razões filosóficas pessoais (…) não temos o direito a interromper voluntariamente a vida." O jovem suicidou-se sozinho em Valmondois, a norte de Paris.

Ainda em França suicidou-se em Março deste ano Chantal Sébire, de 52 anos, que sofria de um estesioneuroblastoma, um tumor raro do sinus e das cavidades nasais. O seu rosto estava gravemente deformado e tinha perdido o paladar, o olfacto e a visão. As dores físicas que sofria eram atrozes. Após mais de 6 anos a lutar contra a doença Chantal Sébine apelou ao Presidente Sarkozy e ao Tribunal da Grande Instance de Dijon para que um médico, da Association pour le Droit de Mourir dans la Dignité, fosse autorizado a administrar-lhe pentotal. Chantal desejava morrer juntos dos seus filhos, que apoiavam a sua vontade. O tribunal recusou a sua pretensão, propondo-lhe em alternativa a aplicação da Lei Léonetti, que consistia em mergulhá-la em coma, não a alimentando e hidratando durante um período previsível de 10 a 15 dias, no final do qual morreria. Dois dias após a sentença Chantal aparecia morta na sua casa. Tinha-se suicidado com recurso ao pentobarbital sódico.


Pelo menos nos dois últimos casos as pessoas que reclamaram o direito a morrer junto dos seus tiveram uma morte solitária e indigna. Vem-me à memória a frase final de O Processo, de Franz Kafka, quando Joseph K. é executado sem saber porquê:
"‑ Como um cão! ‑ disse. Era como se a vergonha devesse sobreviver‑lhe."

17 outubro, 2008

cortar, dobrar, soldar e furar

Hoje, no Diário Económico, Edição impressa, Margarida Peixoto subscreve um artigo, com o incinerante título Empresas não querem Licenciados, redigido com base num Estudo da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP).
O referido artigo corrobora um outro, datado de 19 de Novembro de 2007, pelo qual Luís Reis Ribeiro, do mesmo Jornal nos dizia: Portugal perdeu 167 mil empregos qualificados.
Os dois textos parecem desmoralizantes, mas - pensando melhor - são consistentes, alinham e traduzem o espírito e a cota empresarial, possível no nosso país; começa a valer a pena prestar atenção a afirmações como estas, porque são cíclicas.

Nem de propósito, ouvi eu ontem a um empresário: lá na minha zona precisamos só de enquadrar e organizar com rigor as nossas competências tácitas - cortar, dobrar, soldar e furar. Penso que se referia às vantagens de rentabilizar a tradição regional na preparação e treinos, quase inatos, a bem dizer hereditários, de excelentes serralheiros mecânicos...

15 outubro, 2008

Separação total de bens e «adquiridos»

Ora bem, pois muito lhes posso contar: hoje foi um grande dia para o subsistema politécnico. Ocorreu um acontecimento verdadeiramente excepcional - O MCTES deu-se ao incomodo de ir à sessão de abertura do Ano lectivo 2008/2009, de um politécnico. Estaremos finalmente no bom caminho, o termo politécnico começou a entrar no vocabulário subconsciente da nossa governação? parece mesmo haver já um certo entendimento da governance que também possa ter alguma coisa a ver com a sua política de desenvolvimento...
Não lhes digo qual o politécnico visitado não Senhores.
Têm que advinhar....
Não vale!....Como é que adivinharam? É esse politécnico mesmo!
Os meus caros e raros leitores são génios!

Sabem o que o MCTES por lá disse?
De acordo com o que aqui consta, o Senhor Ministro disse que há agora quase o mesmo número de alunos nos Politécnicos e nas Universidades. Sim senhores! Pareceu satisfeito, porque está «tudo» a portar-se como «manda o figurino»!
Bom tudo, tudo, tudo... nem por isso! Esta cindarela tem um lado negro... Através do jornal Público (aqui) o Senhor Ministro até deixou um recado, para alguns outros politécnicos que andam a «pular um bocado as cercas».
Para resolver o assunto dessas instituições sem fronteiras - não só dos politécnicos - proponho algumas medidas de persuasão:
- Uso de Espantalhos. Esta não é muito boa ideia... pois não? [E, os meus caros e raros leitores, ainda me perguntam porquê? ... Oh meus amigos, está bem de ver, porque....]
- Cercas resistentes munidas de equipamentos de electrocução - os cercados que existem estão a precisar de manutenção urgente, mas não será só do lado dos politécnicos...; Sabem como é? A galinha da minha vizinha...
- Engodos e iscos certos distribuídos dos lados corretos das cercas e nas proporções adequadas e por objectivos. É que, bem vistas as coisas, houve durante este tempo bens adquiridos de ambos os lados das cercas de dunas... quero dizer, uma cerca que se preze precisa de ser fixada de través e não de cutelo.

Esta última proposta, não desfazendo, seria uma ENORME ideia, mas aqui temos um busiliszinho: O MCTES também disse que «apresento o orçamento na Assembleia da República quando lá for» -, avançou, contudo, que o documento «contempla um aumento muito significativo de verbas para o ensinou superior público em Portugal». Mas não falou no mais importante - dos montantes e sobretudo de «shares», que seria o que interessa!
Queremos que Politécnicos leccionem cursos CET? Pague-se-lhes muito bem para isso! E muito mal o resto.
Queremos que Universidades leccionem bem Doutoramentos? Pague-se-lhes muito bem para isto! E muito mal o resto.

Um destes dias - que não hoje - vou ter que voltar à proposta dos Espantalhos! fica para depois...

Orgulhosamente nós

Um amigo meu, professor universitário, quis apresentar um projecto a Bruxelas, mas só podia fazê-lo por intermédio de uma direcção geral portuguesa. O formulário implicava uma justificação, que ele entendeu, e muito bem, que ficava fortalecida se fosse um excerto de um projecto já aprovado. Enganou-se, a tal direcção geral não aceitou, porque estava em inglês.

Mas a cereja no bolo foi a pomposa afirmação de um alto quadro dessa direcção geral: "A Constituição não me obriga a saber ler inglês". Pobre Constituição, já para isto és chamada. Que dizes, meu caro Vital?

IF-THEN-ELSE

Só quem não se lembra das peripécias que aconteciam quando nem há uma década ainda se usavam infernosas linguagem de "programação" - FORTRAN e familiares, é que é insensível e pode pensar que um Orçamento de Estado de um país está, actualmente, imune aos estados de espírito de Drive-pens e lap-tops com personalidades vincadas...
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Claro que ninguém percebeu nada do OE 2009.
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No entanto, fui ouvindo a abalizada opinião da oposição sobre o assunto, e percebi que as «coisas» estão mais ou menos neste pé:
SE tudo estiver bem no FIM.
ENTÃO estará tudo OK.
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Também já equacionei e transcrevi os meus passos de programação sobre o assunto mas - como sou um bom pedaço mais lerda - gasto mais que o dobro dos passos e das linhas:
SE tudo estiver bem no FIM.
ENTÃO estará tudo OK.
SE NÃO!
ENTÃO não chegámos ao FIM!
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Um apelo:
Valha-nos o Plano Tecnológico...
e, pelo menos, emprestem um "Magalhães" ao Ministro das Finanças.

12 outubro, 2008

Nota gastronómica (LXV)


David Lopes Ramos, ontem, no Fugas do Público, recordou-me a moreia. No continente, nunca vi moreia à venda e sei que muitos amigos meus nunca comeram este peixe. É muito popular nos Açores e na Madeira e tem para mim um significado especial, apesar de normalmente, em miúdo, não a comer. O meu pai gostava muito de moreia e era pescador amador. Pescar uma moreia dava-lhe prazer, porque o bicho faz-se difícil. Vivendo normalmente nos interstícios entre rochas, e sendo afilado, enrosca-se nas pedras e luta muito contra o pescador. Pescador vencedor e ainda por cima apreciador do peixe, como o meu pai, regalava-se depois ao almoço. Nanja a descendência, influenciada por avó e mãe que achavam que aquele peixe repelente parecia cobra.

Na minha terra, moreia come-se frita. O senão é que, já de si, a moreia é muito gorda. Nunca experimentei, mas iria antes para um assado bastante seco ou, melhor, para a preparação a seco numa sertã ou numa chapa. Mesmo assim, molho e guarnição a “cortar” a gordura. Com isto, proponho uma receita.

Moreia assada na sertã sobre cama de legumes azedos e com crocante de batatas
1 moreia (normalmente, dá para 6 pessoas), 2 dl de vinho branco seco, 1 limão, 1 cebola, 3 dentes de alho, 1 folha de louro, 1 ramo pequeno de salsa, sal grosso, pimenta branca e preta, moídas a fresco, em partes iguais. Farinha de milho, q. b.
2 cebolas médias, 3 tomates grandes, 3 caiotas (chuchus), 4 c. sopa de azeite, 1/2 dl de vinho generoso (verdelho açoriano ou Madeira meio seco), 1/2 dl de sumo de limão galego (na falta, de sumo de lima) e 1/2 dl de sumo de laranja, sal, pimenta, pimenta da Jamaica.
4 batatas, 3 batatas doces.
Cortar de véspera a moreia às postas e deixar no frigorífico a marinar com o vinho, o sumo de limão, a cebola e o alho às rodelas finas, o louro e a salsa, sal e pimenta. Quando tudo o resto estiver quase pronto, polvilhar ligeiramente a sertã com farinha de milho e aquecer bem. Escorrer as postas de peixe e secar com pano ou papel absorvente. Assar dos dois lados, a lume bem forte e reservar.

Cortar em brunesa a cebola, o tomate sem pevides e a caiota e saltear no azeite a lume forte, durante um minuto. Regar com o vinho e sumos, temperar, tapar, baixar o lume e estufar até amolecerem bem. No fim, se necessário e a gosto, um toque de mel ou de melaço de cana a compensar a acidez. Esmagar ligeiramente, a misturar os legumes, como um "concassé" grosseiro. 

Semi-cozer as batatas, com sal. Com um laminador, cortar em lascas pequenas, amassar separadamente e espalmar, em camadas alternadas. Cortar bolos cilíndricos com uma forma e levar ao forno a acabar a cozedura, sobre tapete siliconado. 

Enfeitar com um raminho de salsa frisada e um fio de aveludado de peixe com bastante sumo de limão e um toque de caramelo, malagueta e pimenta da Jamaica moída.

Enquanto não encontro um sapo ou um príncipe desencantado que desperte a nossa FCT da sua sestazinha plurianual, pelo menos, para publicar os resultados das Avaliações das Unidades de Investigação pertinentes ao longínquo triénio 2004-2006,... já lá vão 9 meses e muito tal (já um verdadeiro «parto de égua») das avaliações pelos júris internacionais, «achei» muito boa ideia enriquecer um portfólio restrito de projectos inovadores, à nossa moda - isto é, copiar umas quantas as ideias dos outros pela internet afora!
A «minha» genial e «originalíssima» ideia incluía ocupar todas as cotas disponíveis dos possíveis eixos dos zzzz... com plantações horto-frutícolas ou horto floricultura em arranha-céus, na progressista linha da vertical farming; um skyscraper, de 20 a 100 andares, por cada sub e hipermercado - façam lá as vossas continhas...
Depois, para além do entusiasmo característico dos empreendedores nacionais, pensava atrair para esta «minha ideia totalmente inovadora» investidores de nomeada, e tinha até colocado a Sonae num lugar cimeiro da minha lista de potenciais parcerias para o efeito.
Queria à viva força também - o que me está a cheirar tornar-se no objectivo nacional dominante, um sub-prime só meu, ...vá lá,... quanto muito... magnanimamente só «nosso»...Mas... Mas... depois de executar uma exaustiva pesquisa sobre o estado da arte do assunto cá do sítio, verifiquei que afinal esse meu potencial parceiro para aquele «meu projecto», estava já engajado com a Quercus, numa linha concorrente, a da «nova agricultura urbana nacional» mas a tradicional dos eixos x e y.
Bom,... Agora vou mudar o meu objecto de investigação - vou «desenvolver» um vinho frutado qualquer, com um flavor de umas bagas em extinção...desde que seja muito caro!
Não precisa sequer de ser uma zurrapa razoável, basta ser muito caro, e ter um rótulo catita colado ou apenso!
Desmoralizante?
Não!
São contingências estruturais, estas sim, são exclusivamente nossas!

Hipocrisia

Morreu, num acidente destinado a quem conduz a alta velocidade, o bem conhecido pró-nazi austríaco, Jörg Haider. Ainda há poucos anos, quando integrou um governo austríaco, originou quase um corte de relações geral com o seu país, por parte da UE.

Agora, segundo o DN, "as principais figuras da política austríaca lamentaram a "tragédia humana" que foi a perda "de um homem político de grande talento", que suscitou "entusiasmo mas também críticas duras", afirmou o Presidente Heinz Fischer. Por seu lado, o primeiro-ministro indigitado, o social--democrata Werner Faymann, definiu Haider como "um político de excepção". Também o actual presidente do Partido da Liberdade (FPÖ), Heinz-Christian Strache, a quem Haider foi forçado a ceder a liderança, considerou este "como uma das figuras mais marcantes da II República" austríaca."

É sabido que para muitos portugueses, que não eu, o respeito pelos mortos faz calar as críticas. Parece que é o mesmo na Áustria e levado a ponto extremo, neste caso. Aliás, quanto a coisas relacionadas com este caso, a Áustria é "interessante": um dos casos de maior impacto da extrema direita, voto muito considerável de jovens nessa extrema direita, mas também coisas provavelmente marcantes como herança histórica, como seja um apoio entusiástico ao Anschluss, um número considerável de figuras destacadas do nazismo de origem austríaca, a começar por Hitler.

10 outubro, 2008

It’s only Porta da Ravessa but I like it…

Agosto de 2006. Os Rolling Stones chegam ao Porto, cidade na qual dariam um concerto integrado na Bigger Band Tour. À volta da mítica banda inglesa instala-se o circo mediático do costume. Os músicos são seguidos por todo o lado, descrevem-se os pormenores dos seus aposentos nos hotéis da cidade, conta-se, pela enésima vez, os pormenores da sua longa carreira.

Numa das noites Mick Jagger decidiu, após uma visita às caves de vinho do Porto, ir jantar ao D. Tonho, um dos restaurantes de referência da Invicta. Jagger e os seus convidados optaram por um Robalo ao Sal, uma das especialidades do D. Tonho. Depois de encomendada a comida a pessoa que tomou nota dos pedidos aproxima-se com a monumental carta de vinhos do restaurante. Jagger disse simplesmente: “I want a bottle of Porta da Ravessa.” Perante a situação o chefe de mesa ainda tenta sugerir uma alternativa mais sofisticada mas o músico manteve-se firme na exigência do vinho alentejano.

Parece que o vocalista dos Stones gostou da experiência gastronómica portuense. No dia seguinte, antes do concerto, todos os membros da banda foram de novo jantar no D. Tonho. Não sei se tornaram a pedir Porta da Ravessa…  

08 outubro, 2008

Sarilhos Grandes

Hoje, no IC 32, o trânsito esteve cortado entre a Moita e Montijo devido a um camião-cisterna que derramou ácido clorídrico. O acidente ocorreu ao início da manhã, no sentido Moita-Montijo, a seguir à saída de Sarilhos Grandes… 

Não consigo imaginar nenhuma localidade em Portugal com um nome tão apropriado para acidentes desta natureza. 

05 outubro, 2008

Possibilidades ou Utopias?

Vale a pena LER E PENSAR sobre o post publicado hoje, por Cadima Ribeira, no seu Blog Universidade Alternativa:

Princípios de boa gestão de uma universidade (enunciados a partir de uma vivência particular)

04 outubro, 2008

Querem ver que não consigo explicar "a energia negativa"?

Hoje, venho aqui só de passagem, não como é meu hábito, para pedir compreensão aos meus caros e raros leitores perante uma ausência justificável, antes porém, por mor de lhes conceder uma ou duas satisfações, para ausências um pouco mais prolongadas…
É simples e assim: Durante bem mais do que 15 dias, consegui uma proeza digna de um Nobel qualquer, por ser um caso inédito no campo da optimização de coisas, diria que, e passe a imodéstia, atingi o patamar de cota mínima no ranking da escala anti-divina - rigorosamente, consegui, nesse intervalo de tempo, não estar, nem ir a lado nenhum, e não fazer nada de nada!

Acham impossível? Ai acham? Mas não foi!

Esse meu prodígio pessoal é irrelevante se o compararmos com a altíssima frequência de outras improbabilidades: mantêm-se as mesmíssimas lamentações dos responsáveis institucionais de educação superior à-cerca das situações financeiras deficitárias; e, estas meus amigos são só nano dificuldades, se as compararmos com a manutenção ad eternum das condições que originam esses eternos deficits, e que nos levam a todos à conclusão que a exeguidade financeira é único problema da nossa educação…analisem outras exiguidades e concluímos que o deficit financeiro é só café dos pequenos... o problema "são" os Outros deficits....
Experimentem perceber as fundamentações e decisões do MCTES para as suas opções, experimentem compreender a distribuição de tarefas e de funções do pessoal das nossas instituições de ensino superior, experimentem iniciativas para lançar estratégias de actuação nos vossos pequenos círculos de intervenção…Experimentem ainda estimar o deficit de racionalidade e de lógica necessárias para se resolver de forma mais sistemática essas queixinhas constantes, cujas causas não são meras circunstâncias, e sim debilidades de estruturas das pesadas, e tudo isso aponta para onde?

Deficit de Finanças? Ou Deficit de Recursos Humanos?....

Pois...

Penso que a nossa eternidade nacional vai, obrigatoriamente, tornar-se um pouco maiorzinha e mais perpétua do que a Outra. Assim, manter-se-ão, entre nós, e por sinal bastante frequentes, episódios de «probabilidades e energia negativas»… Acham que reze?

Mas onde é que nós estamos?
Óh meu Deus tem dó da gente.
Mundo velho já deu flor carunchou toda a semente
virou um rolo de cobra, serpente engole serpente.
quem vive lesando outro dando pulo de contente,
o pobre trabalhador..... é o escravo na corrente

Estão matando e roubando, é conflito permanente
um bandido entrou no banco armado até os dentes
chorou no colo da mãe a criancinha inocente
mas ele achou que a criança perturbava o ambiente,
matou a mãe e a filha... foi um quadro comovente

Tem família num bagaço fingindo viver contente
a alegria é só por fora mas por dentro é diferente
é filha desmiolada que casou com delinqüente
é um genro pé-de-cana que não gosta do batente,
onde tem ovelha negra.... desmorona um lar decente

O mundo virou um vulcão e cada vez fica mais quente
não há nada que esfrie quero ver quem me desmente
um grande estoque de bombas crescendo diariamente
quando estourar todas as bombas ninguém fica pra semente
mundo velho não tem jeito... vira cinza brevemente

O mundo já está encardido e não adianta detergente
a sujeira desafia até soda e água quente
num lugar morre de sede e no outro morre de enchente
ó mestre lá nas alturas meu senhor onipotente,
seu poder é infinito..... protegei a nossa gente

Tião Carreiro e Pardinho

Nota gastronómica (LXIV)

Ingredientes açorianos

No Expresso deste fim de semana escreve-se sobre o interesse de compra nos supermercados continentais dos produtos ilhéus. Concordo, são muitos os meus leitores a perguntarem-me onde encontrar produtos de que falo. No entanto, em relação à gastronomia açoriana, ficamo-nos cá pelos lacticínios.

Ao lado, conseguimos cá comprar coisas típicas açorianas mas com outras origens: batata doce, inhames, caiotas (chuchus), tomate de capucho (fisálias) e até, creio que exclusivamente no Corte Inglês, o bolo lêvedo.

Ficam de fora os vinhos, principalmente os três brancos, de excelente relação preço/qualidade, o Frei Gigante, do Pico e os Donatário e Da Resistência, da Terceira (Biscoitos, Casa Brum).

Depois, ou talvez antes, os produtos de porco, vendidos aos quilos todos os dias em qualquer supermercado de Ponta Delgada, é só metê-los no avião: morcela, linguiça, debulho, pé de torresmo. E, imprescindivelmente a massa de malagueta e a açaflor.

Eutanásia

Diz hoje no Expresso o presidente da Associação Portuguesa de Bioética, Rui Nunes, que 40% dos oncologistas portugueses apoiam a eutanásia. Conhecendo o meio médico, e até ver o estudo que tira esta conclusão, custa-me a acreditar. Infelizmente.

Mas isto suscita-me uma reflexão: porque são os médicos portugueses tão conservadores, em matéria deontológica? Dou por mim a pensar que, de entre os que conheço, boa parte dos "progressistas" trabalham em exclusividade no SNS, ou são académicos ou estão envolvidos em coisas de saúde pública sem interesses privados. Não será que o conservadorismo deontológico é um álibi para disfarçar, mesmo que inconscientemente, a promiscuidade ambígua e desconfortável com os interesses da medicina privada? Isto pode parecer extremo, mas recordo que muito do que legitima a privada são coisas do tipo "relação médico-doente", que alimentam o código deontológico.