05 dezembro, 2008

Ligeireza ou aldrabice?

O romance histórico não é novidade e tem grandes pergaminhos. Tanto quanto me ocorre, aparece no século XIX como símbolo de um nacionalismo romântico que tem alguma coisa a ver com o ideal do ressurgimento (uso o termo lembrando-me de Itália) de povos e culturas entretanto decaídos. Recordamos logo Alexandre Herculano e Walter Scott. Em ambos os casos, aliam-se a alta qualidade de escrita ao máximo rigor histórico, obviamente em compromisso com a ficção. Mais recentemente, em Portugal, deve realçar-se, nesta tradição, Fernando Campos. Fora fronteiras, obviamente que Umberto Eco.

Entretanto, nos últimos anos, vingou a moda da sandes mista de romance histórico e de “suspense”, ao estilo de Dan Brown. Mesmo neste caso, ao que me apercebo, há a preocupação de rigor, de procura extensiva de informação de base, de correcção dos cenários e fundos históricos e geográficos. Entre nós parece ser diferente, à “tuga” videirinho, para quem tudo vale porque o escritor orelhudo ou nicotínico é muito esperto e não se digna sequer pensar que pode haver um ou outro leitor que se aperceba da ligeireza aldrabona.

Teria alguma dificuldade em escrever isto, porque não leio estas degenerescências nacionais do que já não é grande coisa estrangeira. Há algum tempo fui enganado. A publicidade de “O cavaleiro da ilha do Corvo” fez-me pensar que se tratava de um ensaio histórico, provocador. Por isto o comprei, vendo depois que era um exemplo menor de romance todo ao estilo Dan Brown (um herói académico, uma mulher inteligente mas que também gosta de cama, esoterismo, mistério, perigos, uma hipótese de história transgressora da História convencional).

Repetindo, tudo isto misturado com uma ligeireza e falta de seriedade dificilmente compatível com a situação de professor universitário do autor. Coisas que podiam ter sido evitadas por uma simples leitura prévia por um micaelense medianamente culto. Alguns exemplos (propositadamente não os corrijo, porque seria insulto à cultura dos meus leitores). Ao fim de uma tarde de trabalho no congresso, em Ponta Delgada, os participantes tomam o autocarro para o jantar na Praia da Vitória! Água de Pau é uma vila situada à beira mar! A ilha Sabrina, resultado de uma erupção de dois meses junto à Ponta da Ferraria, ilha depois desaparecida e entretanto efemeramente britânica por o comandante do navio inglês Sabrina dela ter tomado posse, apareceu em 1638, segundo o autor, apesar de as crónicas da época serem de 1811. E mais, mas já chega.

A ligeireza, a raiar a aldrabice, é mesmo sina portuguesa?

5 comentários:

Henrique disse...

Gosto especialmente da ideia de estar em Ponta Delgada, e apanhar o autocarro para ir jantar à Praia da Vitória.
E o que teria ele comido na Praia da Vitória?...

Anónimo disse...

Obviamente que a Praia da Vitória foi um lapso geográfico já reconhecido e corrigido pelo autor. É fantástico, no entanto, que os insignes analistas não hajam reconhecido sequer o labor de inventariação documental que o livro oferece, pela primeira vez,na historigrafia portuguesa. É muito fácil glosar lapsos deste tipo e deixar o resto na sombra. Lamentável, mas tipicamente português.

Anónimo disse...

Ao contrário do que se afirma, não vejo no romance citado nenhuma passagem de exaltação da condição hiper-erótica da jovem historiadora. Onde é que o crítico foi inventar esse detalhe "escabroso" ?!

Anónimo disse...

Onde está escrito que Água de Pau seja à beira-mar plantada ?!

Anónimo disse...

Caro João Costa,

Pese embora o lapso geográfico da Parao da Vitória e outros detalhes que já foram assinalados e registados, acho profundamente injusta e leviana a sua apreciação ao romance "O Cavaleiro da Ilha do Corvo". Mais de uma década de um exaustivo inventário historiográfico deveriam merecer mais atenção do que simples trejeitos de reacção do que é novo e que buscam anular os objectivos centrais da obra: chamar a atenção dos portugueses para os "desvios" patrioteiros da nossa historiografia, marcada pelos aromas nacionalistas do Estado Novo. Ou seja, antes de nós o Dilúvio. A opção ficcional foi a escolhida para evitar a uma maioria de leitores a rejeição do ensaio, mais denso. Mal ou bem na sua concepção global, a obra é suportada por centenas de referências bibliográficas que desmentem, em toda a linha, os apodos que lhe são arremetidos: nunca patriocinei oportunismos nem facilitismos e não tenho problemas alguns em me penitenciar dos laspsos já asssinalados por leitores açorianos, que não deixam por isso de me congratular pelas pistas e hipóteses históricas equacionadas na obra. Injusto duplamente porque expulsa de qualquer discussão as reiteradas observações autorizadas dos nossos mairoes historiadores seiscentistas: estes ( Damião de Góis, Galvão, Barros ) ostensivamente escrevem que ao "Infante D. Henrique coube reabrir rotas de há muito abandonadas", o que se ajusta a todo o arrolamento de indícios de que a controversa "Estátua" encontrada pelos primeiros portugueses a chegar à pequena Ilha do Corvo é apenas um fragmento. Muitos outros factos, que não são risíveis, estão ai plasmados para quiser descobrir pela primeira vez uma outra versão da saga das Descobrtas atlânticas e, se calhar, rever a sua cronologia. Ainda hoje resta por investigar a rocha com alguns caracteres, de reconhecida marca antrópica, "depositada" nas sombasr da delegação da DRC, em Angra do Heroísmo.
Por isso, lamento que o anedótico fácil haja imposto a tentação de deslustrar um trabalho sério que, não pretendendo de ser émulo de Dan Brown nem de Eco, apenas recuperou aquilo que andou adormecido na poeira das nossa bibliotecas e nas nossas certezas" formatadas por gerações de educadores. A História é um livro sempre aberto e as pistas avocadas e reabertas no meu livro o futuro se encarregará de as julgar.
Com os melhores cumprimentos,

Joaquim Fernandes
UFP