01 outubro, 2007

Farmácias

Há algum tempo, já não me lembro quando nem porquê, falei das tertúlias de farmácia. Foram coisa importantíssima por toda a província, nos finais do século XIX, a par com a sua versão mais popular, o barbeiro. Eça, que falava era dos cafés, esquece as farmácias embora, se não me engano, fale de uma em Leiria, no Crime do Padre Amaro.

A cidade de província, ao entardecer, "na tal soturnidade", cumprido o expediente de duas folhas de almaço do juiz, do procurador, do presidente da câmara, de um ou outro letrado desterrado, implodia para a farmácia. Lá estava a gazeta, por lá tinha passado um viajante apressado a deixar as últimas notícias, lá chegavam os elogios ao Pacheco e ao seu grande talento.

Eu ainda conheço uma farmácia destas, com excelentes armários de boa madeira, potes de cerâmica e, principalmente, um grande banco de jardim de portas a dentro, para a tertúlia. Fica em Castelo de Vide e devia ser monumento nacional!

O meu tio avô Chico Fagundes foi um desses farmacêuticos, em Angra do Heroísmo. Não fez mais do que a sua obrigação, só deu instrumento de grande actividade política ao seu pai, meu bisavô, também Chico Fagundes. Paixão política, só dele, Chico sénior, nos confins do mar. Imaginam o que era a minha avó contar-me as graças que, ao colo dele, ela miúda, lhe contava o "Zé Luciano", como ela sempre disse? Sabem quem foi?

Esse José Luciano de Castro, dirigente por muitos anos do Partido Progressista, no rotativismo, era visita frequente em casa do meu bisavô Fagundes, politico fanático na Praia da Vitória. Da sua paixão pela política fica-me o que me contava a minha avó, com o pai quase moribundo, "pai, é regenerador ou progressista?". Tremia-lhe o bigode e vinha-lhe de profundis um grande berro, "progressista!".

4 comentários:

Vítor Sousa disse...

João, por agora, só para deixar um grande abraço, a cruzar todo o Atlântico. Intriga-me a aparente extinção da "mailing list"

JVC disse...

Meu caro, só falta de tempo, mas os amigos são sempre lembrados.

Vítor Sousa disse...

Nunca duvidei disso. Grande abraço. Espero revê-lo quando regressar, em Janeiro.

VeeGee disse...

Ainda sobre as tertúlias
Em cada visita a uma qualquer povoação perdida no “país profundo”, por mão de um avô andarilho, foi-me ensinado a perguntar a quem sabia. Em terras onde não havia farmácia, as perguntas deveriam ser feitas, ao cura, ao mestre escola e ao barbeiro. As três fontes de conhecimento da cultura local a que não seriam alheias as tertúlias de cada povoação.
Fui muito acautelado para os devaneios dos naturais sobre as grandezas da sua terra, sobretudo com os barbeiros: “Não há caçador ou pescador que consiga ser mais exagerado no tamanho da presa, do que um barbeiro a contar as histórias e a História da sua terra!”