O último "sound bite" sobre o referendo da despenalização do aborto (não alinho na denominação politicamente correcta de IVG) vem de D. José Policarpo, cardeal patriarca de Lisboa. "Não é um problema religioso, não é um direito da mulher e o Estado não consegue fixar o momento em que um indivíduo é cidadão com direitos, liberdades e garantias. O aborto é um problema real mas, para o resolver, criamos outro." [todas as citações são de o Público de 28.9.2006].
O texto é de grande ambiguidade, tão ao gosto da escolástica de seminário. Não admira que tenha tido reacções paradoxalmente desencontradas. Para o PS, "é uma declaração doutrinariamente muito relevante porque coloca a questão no terreno do debate político". O CDS considera haver antes um apelo implícito aos não-católicos para se envolverem no debate. E, pasme-se, para o BE as palavras do cardeal "permitem admitir uma posição da Igreja de libertar o debate sobre o aborto do preconceito religioso, deixando que os cidadãos católicos se informem, discutam e decidam sem o peso da Igreja". Parece-me um bom exemplo de "wishful thinking".
Para mim, mais do que esta comprovada ambiguidade, as declarações do cardeal contêm principalmente muita hipocrisia. Em primeiro lugar, coloca fora do debate a igreja institucional, a hierarquia, mas não os católicos, a quem apela para se envolverem no debate. Com liberdade de consciência individual? Duvido. Nisto estou acompanhado por um deputado católico do PSD, Emídio Guerreiro (que vota sim à despenalização): "não é tão claro como isso que D. José Policarpo tenha pretendido dar liberdade de consciência aos católicos. Não sei se é uma evolução ou uma forma táctica diferente de abordar o problema".
A segunda hipocrisia vem do que julgo ser a primeira vez em que uma alta autoridade católica não se refere ao "início da vida" como questão religiosa, remetendo-a para a ciência: "Porquê as dez semanas ou as doze ou as dezasseis, quando a ciência diz que há um novo ser desde o primeiro momento?". Nem se trata só de hipocrisia, é também desonestidade intelectual, porque o cardeal não é nenhum ignorante. Aposto tudo o que tenho em como o cardeal não consegue apresentar um único escrito científico defendendo essa posição. A menos que esteja a falar da "ciência" teológica ou filosófica, mas nessa brincadeira não alinho, eu, cientista.
30 setembro, 2006
28 setembro, 2006
Apresentação
Lembram-se do Professorices? Chegou a estar nos top 50. Exterminei-o, porque desviava atenções do meu sítio onde trato de coisas sérias. Distribui os temas do Professorices e instalei no sítio três páginas tipo blogue. Os Apontamentos sobre a educação superior lá ficarão. Gerindo o calendário, tinha outras escritas de fim de semana. Ao sábado, o Bloco de notas, ao domingo o Gosto de bem comer.
Isto só era possível por o meu sítio ser muito largo, diria mesmo que uma charunfada. É o problema de os fornecedores de alojamento só nos darem um domínio. Agora, vou separar mais claramente o sub-sítio universitário do pessoal. Com isto, vou pela recomendação de um dos nossos principais bloguistas, que me desafiou a voltar à comunidade dos blogues.
Com chamada no meu sítio, para os que entretanto se habituaram, criei dois blogues. O Bloco de notas, em princípio mantendo o calendário de sábado, porque não quero voltar a ser escravo de um blogue, vai ser para escrever o que me for saindo. Só o que me parecer importante sobre a sociedade, a política, as grandes questões do nosso viver de hoje. Filosofices?
O outro é O gosto de bem comer. É um blogue de um amador que se preza de ser bom gastrónomo, cozinheiro inventivo e com um livro publicado, com esse título.
Em ambos os blogues inseri uma entrada igual à última do meu sítio. Durante um período de transição, vou escrever duplamente e também, com tempo, passando para os blogues os textos anteriores. Leiam abaixo, para exemplo.
Isto só era possível por o meu sítio ser muito largo, diria mesmo que uma charunfada. É o problema de os fornecedores de alojamento só nos darem um domínio. Agora, vou separar mais claramente o sub-sítio universitário do pessoal. Com isto, vou pela recomendação de um dos nossos principais bloguistas, que me desafiou a voltar à comunidade dos blogues.
Com chamada no meu sítio, para os que entretanto se habituaram, criei dois blogues. O Bloco de notas, em princípio mantendo o calendário de sábado, porque não quero voltar a ser escravo de um blogue, vai ser para escrever o que me for saindo. Só o que me parecer importante sobre a sociedade, a política, as grandes questões do nosso viver de hoje. Filosofices?
O outro é O gosto de bem comer. É um blogue de um amador que se preza de ser bom gastrónomo, cozinheiro inventivo e com um livro publicado, com esse título.
Em ambos os blogues inseri uma entrada igual à última do meu sítio. Durante um período de transição, vou escrever duplamente e também, com tempo, passando para os blogues os textos anteriores. Leiam abaixo, para exemplo.
23 setembro, 2006
Notas soltas
1. No sábado passado alegrei-me com o sol no meu jardim, mas não com o Sol. Comprei-o, por natural curiosidade, mas creio que pela primeira e pela última vez. Não gosto muito do Expresso, que vou comprando pior hábito masoquista, mas muito menos desta sua versão “light”. Tudo é ligeiro e para leitores pouco exigentes, das notícias às análises e às crónicas. Reparem que é o único jornal que se quer digno deste nome que praticamente não tem artigos de opinião. O equivalente ao Actual do Expresso é passado no Sol para o caderno principal, mas tudo num registo ligeiro. A meu ver, o Sol está para o Expresso como o Correio da Manhã está para o Público.
Talvez a minha apreciação tenha logo ficado condicionado pela incrível entrevista de Filomena Mónica, na segunda página. Uma historiadora que disserta sobre as prováveis aventuras amorosas de Mário Soares e sobre o corpinho bem feito de Sócrates desmerece tudo o que possa ter de qualidade académica. E olhem que eu não sou puritano.
Para o provar, confesso que a minha perversidade sessentona me levou a ir ler logo a crónica de sexo da senhora com nome patenteado. Qual sexo, nem pitada de erotismo. Desiludam-se os que acreditam na sua promessa de ir escrever sobre posições, no jornal de hoje, que não vou comprar.
2. Decididamente, Manuel Alegre não sabe o que fazer com o milhão de votos que teve, incluindo o meu. Se calhar, foi coisa que nunca o preocupou. Displicentemente, declarou que “ainda não decidiu se vai intervir ou optar por ficar calado na próxima reunião magna do partido, marcada para Évora: ‘Depende da avaliação que eu fizer na altura e do meu estado de alma’.”
E a expectativa dos que confiaram nele não passa à frente dos seus estados de alma?
Segundo notícia do Público, Manuel Alegre, “insurgindo-se contra ‘a lógica aparelhística, que continua ser muito intensa dentro do PS’, e sublinhando que uma coisa são ‘as batalhas dentro dos aparelhos e outra são as batalhas na opinião pública’, Alegre recusa falar sobre a necessidade de o partido aproveitar o congresso para discutir a matriz ideológica do PS, com alguns dirigentes reclamam, mas mostra-se convencido de que se a questão da Segurança Social for levada à discussão, então o congresso poderá servir para alguma coisa.”
Creio que a maioria dos votantes em Manuel Alegre sempre pensou que, depois, ele ia voltar ao seu partido de há muitos anos. Não só era legítimo como um dever, porque, não tendo ele outro terreno de intervenção (o MIC é um flop utópico), é no partido que ele pode lutar pelas bandeiras que lhe deram o milhão. Este milhão arrisca-se bem a ver-se defraudado.
P. S. 25.9.2006 – Isto merece acrescento a esta nota, uma passagem de um artigo do inefável Mário Pinto, no Público de hoje:
“Ora, a guerra já aí está, e precisamente como "guerra santa" (não comparável às cruzadas, que não foram uma "guerra santa", nem uma guerra de conquista, mas sim uma guerra de reconquista, como foi aqui na Península a "reconquista cristã").”
De facto, há católicos (estou de fora) a quem o apelo papal para um diálogo pessoal entre a razão e a fé não consegue chegar. As cruzadas não foram guerra de conquista mas sim de reconquista. Havia na Palestina, à data da conquista muçulmana, uns muitos milhares de cristãos que tiveram de se refugiar na França e na Alemanha. Saudosos da pátria, reuniram um exército, para grande desagrado dos seus reis europeus e lá foram restaurar (?) o reino de Jerusalém... A um professor de direito exige-se um pouco mais de cultura histórica.
Talvez a minha apreciação tenha logo ficado condicionado pela incrível entrevista de Filomena Mónica, na segunda página. Uma historiadora que disserta sobre as prováveis aventuras amorosas de Mário Soares e sobre o corpinho bem feito de Sócrates desmerece tudo o que possa ter de qualidade académica. E olhem que eu não sou puritano.
Para o provar, confesso que a minha perversidade sessentona me levou a ir ler logo a crónica de sexo da senhora com nome patenteado. Qual sexo, nem pitada de erotismo. Desiludam-se os que acreditam na sua promessa de ir escrever sobre posições, no jornal de hoje, que não vou comprar.
2. Decididamente, Manuel Alegre não sabe o que fazer com o milhão de votos que teve, incluindo o meu. Se calhar, foi coisa que nunca o preocupou. Displicentemente, declarou que “ainda não decidiu se vai intervir ou optar por ficar calado na próxima reunião magna do partido, marcada para Évora: ‘Depende da avaliação que eu fizer na altura e do meu estado de alma’.”
E a expectativa dos que confiaram nele não passa à frente dos seus estados de alma?
Segundo notícia do Público, Manuel Alegre, “insurgindo-se contra ‘a lógica aparelhística, que continua ser muito intensa dentro do PS’, e sublinhando que uma coisa são ‘as batalhas dentro dos aparelhos e outra são as batalhas na opinião pública’, Alegre recusa falar sobre a necessidade de o partido aproveitar o congresso para discutir a matriz ideológica do PS, com alguns dirigentes reclamam, mas mostra-se convencido de que se a questão da Segurança Social for levada à discussão, então o congresso poderá servir para alguma coisa.”
Creio que a maioria dos votantes em Manuel Alegre sempre pensou que, depois, ele ia voltar ao seu partido de há muitos anos. Não só era legítimo como um dever, porque, não tendo ele outro terreno de intervenção (o MIC é um flop utópico), é no partido que ele pode lutar pelas bandeiras que lhe deram o milhão. Este milhão arrisca-se bem a ver-se defraudado.
P. S. 25.9.2006 – Isto merece acrescento a esta nota, uma passagem de um artigo do inefável Mário Pinto, no Público de hoje:
“Ora, a guerra já aí está, e precisamente como "guerra santa" (não comparável às cruzadas, que não foram uma "guerra santa", nem uma guerra de conquista, mas sim uma guerra de reconquista, como foi aqui na Península a "reconquista cristã").”
De facto, há católicos (estou de fora) a quem o apelo papal para um diálogo pessoal entre a razão e a fé não consegue chegar. As cruzadas não foram guerra de conquista mas sim de reconquista. Havia na Palestina, à data da conquista muçulmana, uns muitos milhares de cristãos que tiveram de se refugiar na França e na Alemanha. Saudosos da pátria, reuniram um exército, para grande desagrado dos seus reis europeus e lá foram restaurar (?) o reino de Jerusalém... A um professor de direito exige-se um pouco mais de cultura histórica.
16 setembro, 2006
O referendo sobre a despenalização do aborto
Finalmente, vamos ser chamados a votar, em Janeiro, no referendo sobre a despenalização do aborto. Desde já declaro que votarei indiscutivelmente sim, que vou fazer campanha e que este “bloco de notas” está aberto a quem quiser contribuir neste sentido.
Com uma ressalva, e por isto escrevi a “bold” despenalização. É só isto que está em discussão, não as concepções morais de quem reprova o aborto. Os “pró-vida” vão tentar levar a discussão para um referendo tipo “concorda com o aborto?”. Claro que eu também não concordo, no sentido de o aceitar como forma banal e facilitada de contracepção (mas mesmo isto é complicado, se nos lembrarmos do DIU ou da pílula do dia seguinte).
Os que rejeitam moralmente o aborto estão no seu pleno direito, mas é matéria individual. A despenalização é questão social, em nada violenta a sua consciência individual. O que exijo é que essa moral individual seja coerente. Quantas mulheres “pró-vida” já terão feito um aborto, recatadamente e em boas condições sanitárias, para lá do Caia?
Com uma ressalva, e por isto escrevi a “bold” despenalização. É só isto que está em discussão, não as concepções morais de quem reprova o aborto. Os “pró-vida” vão tentar levar a discussão para um referendo tipo “concorda com o aborto?”. Claro que eu também não concordo, no sentido de o aceitar como forma banal e facilitada de contracepção (mas mesmo isto é complicado, se nos lembrarmos do DIU ou da pílula do dia seguinte).
Os que rejeitam moralmente o aborto estão no seu pleno direito, mas é matéria individual. A despenalização é questão social, em nada violenta a sua consciência individual. O que exijo é que essa moral individual seja coerente. Quantas mulheres “pró-vida” já terão feito um aborto, recatadamente e em boas condições sanitárias, para lá do Caia?
O discurso do Papa
Esta nota sai hoje em horário tardio, em relação ao habitual, por uma razão simples. Não quis basear-me no diz-se ou nas notícias, tive de ler e estudar o discurso do Papa na Universidade de Ratisbona.
É um discurso que dá muito que pensar, mas também despertando muitas dúvidas. Em primeiro lugar, as reacções no mundo islâmico, de esperar, acabam por confirmar o próprio discurso. A mensagem essencial do Papa vai no sentido da rejeição da intolerância religiosa e da violência em nome da fé, bem como da aceitação da racionalidade, em compromisso com as diferentes fés, na vida pública. Talvez simplificando redutoramente, parece-me que o essencial é a recusa das teocracias, coisa não surpreendente num chefe religioso cujos fieis, na sua esmagadora maioria, vivem em sociedades com separação entre o Estado e as igrejas. Parece-me claro que esta mensagem cai fundo em muita gente, crente ou não, especialmente nos tempos de hoje.
Como é hábito nas reacções inflamadas, as reacções contra o discurso encaixam-se na actual lógica mediática dos “sound bites”. De um discurso extenso que poucos leram, extrai-se apenas uma pequena passagem, ainda por cima uma citação de Manuel Paleólogo. Já li que, à margem do texto escrito, o Papa acrescentou duas vezes “eu cito”. Registe-se uma excepção notável, de serenidade e lucidez, a da Comunidade Islâmica de Lisboa (segundo o Público de hoje):
“A Comunidade Islâmica de Lisboa, ficou profundamente surpreendida e triste com os excertos do discurso do Papa Bento XVI divulgados [...]. Tivemos, no entanto o cuidado de não nos precipitar [...]. Conseguimos um exemplar do discurso e, depois da sua leitura, não nos parece que fosse intenção expressa do Papa atacar o islão e os muçulmanos [..]. No entanto, consideramos que, dos muitos diálogos havidos, ao longo dos séculos, entre cristãos e muçulmanos, o Papa foi decerto muito infeliz na sua escolha, sobretudo nos tempos tão conturbados em que vivemos.”
Aqui é que radica a minha dúvida principal. O papa foi infeliz, no sentido de descuidado ou impensado? Não previu estas reacções? Não sabia que as palavras de um papa têm muito maior peso do que os cartoons de um obscuro jornal dinamarquês? Não acredito. A sabedoria romana é imensa e um Papa não diz nada que não seja passado primeiro a pente fino.
Qual foi então o objectivo? Palpita-me que estará próximo daquilo que escreve Renzo Guolo no La Repubblica, que, ao falar do profeta Maomé, o Papa quebrou um tabu. "As religiões podem falar entre elas de ética, de paz, de família ou de secularização", mas "nunca dos dogmas ou dos textos sagrados de outrem, sob pena de provocar um imediato reflexo identitário".
Se é assim, é uma atitude corajosa, que vai contra a hipocrisia de muito “diálogo” que se fica pelo superficial. São assim, muitas vezes, os consensos tão na moda. O mundo nunca avançou por consensos, mas por confrontos dialécticos.
Nota 1 – Declaração de interesses: não sou católico nem muçulmano.
Nota 2 – Ainda no Público, hoje, a notícia do reconhecimento oficial do judaísmo e do islamismo, em Portugal, ao abrigo da lei da liberdade religiosa. Tardou cinco anos, como regulamentação da lei, mas mais vale tarde que nunca. E o protestantismo ou o hinduísmo, com tantos crentes em Portugal?
É um discurso que dá muito que pensar, mas também despertando muitas dúvidas. Em primeiro lugar, as reacções no mundo islâmico, de esperar, acabam por confirmar o próprio discurso. A mensagem essencial do Papa vai no sentido da rejeição da intolerância religiosa e da violência em nome da fé, bem como da aceitação da racionalidade, em compromisso com as diferentes fés, na vida pública. Talvez simplificando redutoramente, parece-me que o essencial é a recusa das teocracias, coisa não surpreendente num chefe religioso cujos fieis, na sua esmagadora maioria, vivem em sociedades com separação entre o Estado e as igrejas. Parece-me claro que esta mensagem cai fundo em muita gente, crente ou não, especialmente nos tempos de hoje.
Como é hábito nas reacções inflamadas, as reacções contra o discurso encaixam-se na actual lógica mediática dos “sound bites”. De um discurso extenso que poucos leram, extrai-se apenas uma pequena passagem, ainda por cima uma citação de Manuel Paleólogo. Já li que, à margem do texto escrito, o Papa acrescentou duas vezes “eu cito”. Registe-se uma excepção notável, de serenidade e lucidez, a da Comunidade Islâmica de Lisboa (segundo o Público de hoje):
“A Comunidade Islâmica de Lisboa, ficou profundamente surpreendida e triste com os excertos do discurso do Papa Bento XVI divulgados [...]. Tivemos, no entanto o cuidado de não nos precipitar [...]. Conseguimos um exemplar do discurso e, depois da sua leitura, não nos parece que fosse intenção expressa do Papa atacar o islão e os muçulmanos [..]. No entanto, consideramos que, dos muitos diálogos havidos, ao longo dos séculos, entre cristãos e muçulmanos, o Papa foi decerto muito infeliz na sua escolha, sobretudo nos tempos tão conturbados em que vivemos.”
Aqui é que radica a minha dúvida principal. O papa foi infeliz, no sentido de descuidado ou impensado? Não previu estas reacções? Não sabia que as palavras de um papa têm muito maior peso do que os cartoons de um obscuro jornal dinamarquês? Não acredito. A sabedoria romana é imensa e um Papa não diz nada que não seja passado primeiro a pente fino.
Qual foi então o objectivo? Palpita-me que estará próximo daquilo que escreve Renzo Guolo no La Repubblica, que, ao falar do profeta Maomé, o Papa quebrou um tabu. "As religiões podem falar entre elas de ética, de paz, de família ou de secularização", mas "nunca dos dogmas ou dos textos sagrados de outrem, sob pena de provocar um imediato reflexo identitário".
Se é assim, é uma atitude corajosa, que vai contra a hipocrisia de muito “diálogo” que se fica pelo superficial. São assim, muitas vezes, os consensos tão na moda. O mundo nunca avançou por consensos, mas por confrontos dialécticos.
Nota 1 – Declaração de interesses: não sou católico nem muçulmano.
Nota 2 – Ainda no Público, hoje, a notícia do reconhecimento oficial do judaísmo e do islamismo, em Portugal, ao abrigo da lei da liberdade religiosa. Tardou cinco anos, como regulamentação da lei, mas mais vale tarde que nunca. E o protestantismo ou o hinduísmo, com tantos crentes em Portugal?
09 setembro, 2006
O museu de Ponta Delgada
O Museu Carlos Machado, de Ponta Delgada, instalado no magnífico convento de S. André, é uma das minhas memórias de infância. Depois de o meu pai me ter ensinado a apreciá-lo, o museu preencheu-me tardes e tardes de domingo, muitas vezes apenas uma sala de cada vez. Muitos poderão achá-lo um museu generalista, com demasiada diversidade, das artes à etnografia e às ciências naturais. Para mim, é boa razão para o seu encanto especial.Nestas férias, também por imposição da minha mulher que sempre se encantou com aquele museu, lá fui, para algumas gratas surpresas. O museu quase deserto a que estava habituado estava cheio de grupos de turistas, com guia. Todas as salas tinham um tipo especial de vigilantes: jovens estudantes em férias, com bom domínio de inglês e bem informados sobre o que diziam aos visitantes, sem esperarem por eventuais perguntas, eram eles que se dirigiam aos visitantes. Um ficou encantado por tudo o que lhe contei das minhas recordações pessoais de Canto da Maia, pessoa extravagantemente inesquecível.
A secção de etnografia está exactamente como a conheci em miúdo, e muito bem. Não há nada a acrescentar à etnografia, com os anos. A agricultura, com as típicas alfaias micaelenses e o seu arado, com o carro de bois, o sacho de cabo curto, mais adequado à dureza vulcânica do solo mas a exigir força acrescida. A pesca, em que nos comove uma excelente figura em manequim de um pescador no seu barco e em que percebemos o que era, e ainda é, a aventura do pescador solitário, num barco minúsculo. O ambiente doméstico, a refeição familiar, os trajes. Só merece alguma reserva a cama rica que a fotografia mostra. É um exemplo do magnífico mobiliário açoriano (leiam um livro sobre isto, editado pela DR da Cultura). Na generalidade das casas populares, era uma modesta cama de ferro forjado.
Surpresa foi também a secção de artes. O museu sempre viveu de três colecções principais, Canto da Maia, Domingos Rebelo e um pintor micaelense mais antigo, oitocentista, formado em Itália, Marciano Henriques. Com menor representação, dois escultores micaelenses, Xavier Costa e Numídico Bessone, bem como alguns notáveis pintores amadores, como Viçoso May e Duarte Faria e Maia .
Agora, também uma pequena mas significativa colecção de arte moderna portuguesa: Eduardo Nery (um pouco açoriano, por ex-afinidade), Noronha da Costa, João Hogan, Menez, Paula Rego, Cruzeiro Seixas, Cesariny, Nikias, se não estou a esquecer algum. Claro que não podiam faltar os açorianos: António Dacosta, Carlos Carreiro, José Nuno Monteiro, Tomás Vieira, bem merecedores da atenção dos visitantes. Felizmente, Dacosta já é caso à parte de reconhecimento do grande mérito, os outros também merecem. Faltam uma instalação de Ana Vieira e uma maquete de arquitectura de João Rebelo ou de Bernardo Rodrigues. Fiquei com uma curiosidade insatisfeita. Quem terá comprado todos esses quadros, uma fortuna? Da iniciativa, tenho a certeza adivinhada: Nestor de Sousa. Gente de Coimbra da minha geração: alguma vez esquecerão o Nestor como magnífico e comovente Job no “Breve Sumário da História de Deus”?
Não podia faltar o registo da secção de história natural, criada por Carlos Machado. Mal e bem, está na mesma. Mal, porque é coisa indigestível, centenas de bichos empalhados amontoados em armários, com as etiquetas originais do fundador. Mas bem, para este velhadas, porque é a memória exacta das milhentas horas de observação, com o compêndio de ciências naturais na mão.
Com tudo isto, não há bela sem senão, três desgostos. Primeiro, terem removido da secção de história natural os monstros, vitelos com duas cabeças, um feto cíclope, um porco sem olhos, outras coisa que, perfidamente, me deliciavam. Também tiraram do coro alto do convento uma coisa indispensável à curiosidade de um miúdo, a mão esquelética de uma freira setecentista. Finalmente, mas é lei da vida e não culpa do museu, já não há o Chico, macaco ordinário que se masturbava para deleite enrubescido das sopeiras, enquanto os magalas as apalpavam.
PS – Para os micaelenses que me lerem, a lembrança de alguns nomes ligados ao museu: Carlos Machado, Luís Bernardo Ataíde, José Maria Álvares Cabral, Luísa Costa Gomes, António Frias Martins, Nestor de Sousa.
02 setembro, 2006
Geração de 60
Muito se tem escrito sobre a geração de/dos 60 (de, anos do calendário; dos, anos de idade actual). Coisas interessantes e também enojantes "pulido-valentadas", de rejeição da coisa elementar que foi a indissociabilidade do espírito de 60 e do sonho da festa de Abril. Um artigo a merecer discussão é o de Vítor Dias, no Público. O autor, homem dessa também minha geração, aborda uma questão importante: esta discussão não fará esquecer que a força histórica principal que resultou no 25 de Abril foi a luta popular (operária e camponesa, entenda-se)? É óbvio que não enjeito o papel histórico da luta popular, mas creio que há, pelo menos, dois factores adicionais importantes e que têm a ver com os anos 60.
Em primeiro lugar, o descontentamento de uma nova pequena burguesia, principalmente de empregados de serviços. Nos finais dos 60, houve um "boom" económico, só perturbado pela crise do petróleo. Nunca se venderam tantos automóveis ou televisões, especulou-se na bolsa, fez-se dinheiro. Foi toda uma nova camada social muito característica, humoristicamente bem escalpelizada nas saudosas redacções da Guidinha-Sttau, na Mosca – lembram-se dos jaquinzinhos com nata e do Toyota com a almofada bordada pela sogra? Os bancos recrutavam diariamente dezenas de funcionários, abriam-se boas perspectivas de emprego. Os jovens desse grupo eram os mais prejudicados pela guerra, na oportunidade de usufruírem dessas condições favoráveis. É muita desta gente que sai à rua no 25 de Abril. Não fizeram a revolução, mas deram-lhe o indispensável alimento de rua.
Deixei para segundo lugar, por modéstia, o segundo factor, este directamente ligado ao movimento associativo dos anos 60. Trata-se do papel dos oficiais milicianos, não propriamente no movimento militar de Abril (embora muitos tenham participado), mas sim nas suas origens mais remotas. Até quase ao fim da década, é inegável que o PCP teve uma influência determinante no movimento associativo. Com excepção de alguns casos especiais, a palavra de ordem era a de se ir para a guerra colonial, mas como forma de trabalho politico.
Com todo o respeito pelos que escolheram o exílio, creio que foi uma política de enorme alcance. Pela minha experiência, julgo que não teve muito sucesso no que, provavelmente, era a preocupação do PCP, a consciencialização dos soldados e marinheiros. No entanto, estou convencido de que teve efeitos muito mais directamente relacionados com o 25 de Abril. A situação típica era a de um pequeno quartel de mato, com um jovem capitão e três oficiais milicianos, muitas vezes também um médico miliciano. Sei o que eram as conversas intermináveis, noite dentro. Quantos dos capitães de Abril não terão sido acordados politicamente por essas conversas? Alguns dos actuais nefelibatas, que não participaram nessa experiência dolorosa mas, finalmente e por este motivo gratificante, entenderão que eram as suas conversas de tertúlia que eram transmitidas por telepatia aos capitães do mato, futuros capitães de Abril. Não me importo, é preciso que toda a gente seja feliz, mesmo nas suas ilusões.
O título desta nota é um desafio. Para os jovens de hoje, somos uns "kotas". Temos ainda alguma coisa a dizer, principalmente quando os mais novos, para sua e nossa felicidade, não viveram os tempos que desafiaram ao máximo o que tínhamos para dar? É difícil identificarmo-nos só em relação à nossa geração. Os percursos posteriores são variados, mas há um grupo de amigos que, mesmo com posições actuais diversificadas, têm uma memória de resistência sempre presente e que os identifica num padrão comum de ética politica e de valores essenciais de esquerda. Cada um de nós cometeu erros políticos no passado e confessamo-lo sem subterfúgios. Mais importante é que, por vias divergentes, acabámos por nos encontrar hoje num espaço comum, de gente livre mas com forte identidade de valores, lutadores por uma esquerda de hoje. Teremos alguma coisa a transmitir? Pensamos que sim.
Em primeiro lugar, o descontentamento de uma nova pequena burguesia, principalmente de empregados de serviços. Nos finais dos 60, houve um "boom" económico, só perturbado pela crise do petróleo. Nunca se venderam tantos automóveis ou televisões, especulou-se na bolsa, fez-se dinheiro. Foi toda uma nova camada social muito característica, humoristicamente bem escalpelizada nas saudosas redacções da Guidinha-Sttau, na Mosca – lembram-se dos jaquinzinhos com nata e do Toyota com a almofada bordada pela sogra? Os bancos recrutavam diariamente dezenas de funcionários, abriam-se boas perspectivas de emprego. Os jovens desse grupo eram os mais prejudicados pela guerra, na oportunidade de usufruírem dessas condições favoráveis. É muita desta gente que sai à rua no 25 de Abril. Não fizeram a revolução, mas deram-lhe o indispensável alimento de rua.
Deixei para segundo lugar, por modéstia, o segundo factor, este directamente ligado ao movimento associativo dos anos 60. Trata-se do papel dos oficiais milicianos, não propriamente no movimento militar de Abril (embora muitos tenham participado), mas sim nas suas origens mais remotas. Até quase ao fim da década, é inegável que o PCP teve uma influência determinante no movimento associativo. Com excepção de alguns casos especiais, a palavra de ordem era a de se ir para a guerra colonial, mas como forma de trabalho politico.
Com todo o respeito pelos que escolheram o exílio, creio que foi uma política de enorme alcance. Pela minha experiência, julgo que não teve muito sucesso no que, provavelmente, era a preocupação do PCP, a consciencialização dos soldados e marinheiros. No entanto, estou convencido de que teve efeitos muito mais directamente relacionados com o 25 de Abril. A situação típica era a de um pequeno quartel de mato, com um jovem capitão e três oficiais milicianos, muitas vezes também um médico miliciano. Sei o que eram as conversas intermináveis, noite dentro. Quantos dos capitães de Abril não terão sido acordados politicamente por essas conversas? Alguns dos actuais nefelibatas, que não participaram nessa experiência dolorosa mas, finalmente e por este motivo gratificante, entenderão que eram as suas conversas de tertúlia que eram transmitidas por telepatia aos capitães do mato, futuros capitães de Abril. Não me importo, é preciso que toda a gente seja feliz, mesmo nas suas ilusões.
O título desta nota é um desafio. Para os jovens de hoje, somos uns "kotas". Temos ainda alguma coisa a dizer, principalmente quando os mais novos, para sua e nossa felicidade, não viveram os tempos que desafiaram ao máximo o que tínhamos para dar? É difícil identificarmo-nos só em relação à nossa geração. Os percursos posteriores são variados, mas há um grupo de amigos que, mesmo com posições actuais diversificadas, têm uma memória de resistência sempre presente e que os identifica num padrão comum de ética politica e de valores essenciais de esquerda. Cada um de nós cometeu erros políticos no passado e confessamo-lo sem subterfúgios. Mais importante é que, por vias divergentes, acabámos por nos encontrar hoje num espaço comum, de gente livre mas com forte identidade de valores, lutadores por uma esquerda de hoje. Teremos alguma coisa a transmitir? Pensamos que sim.
26 agosto, 2006
Predadores
Com atraso, li durante estas férias o último romance de Pepetela, “Predadores”. Foi uma leitura com sentimentos contraditórios. Por um lado, evidentemente o prazer da leitura de um livro muito bem escrito, com trama romanesca que nos obriga a passar de tempo para tempo com dificuldade em interromper a leitura ao fim de um capítulo, com o interesse de se ler imediatamente o que vem a seguir.
Por outro lado, para quem viveu transitoriamente em Angola e para quem se entusiasmou sempre pela saga da liberdade, é uma leitura bem amarga. Não vou contar em pormenor o que é a história, dizer só que, como o nome indica, é a crónica do apodrecimento dos ideais e do carácter e, logo, a crónica da bem conhecida corrupção. É um livro de grande coragem, para quem vive em Angola e desempenha um cargo público.
Essa amargura foi dupla porque, conhecendo muito bem Pepetela, fui sempre imaginando o que ele deve ter sofrido ao escrever o livro. Não foi certamente para assistir a esta Angola e lá viver que Pepetela foi guerrilheiro (a nossa direita florescente dirá que foi terrorista).
Nota final. Como se compreende no fim do livro, o poder mudou de interlocutores. Os predadores angolanos estão em queda, hoje são principalmente os estrangeiros. Isto fez-me lembrar a recente visita de Sócrates a Angola, com um avião cheio de empresários.
Por outro lado, para quem viveu transitoriamente em Angola e para quem se entusiasmou sempre pela saga da liberdade, é uma leitura bem amarga. Não vou contar em pormenor o que é a história, dizer só que, como o nome indica, é a crónica do apodrecimento dos ideais e do carácter e, logo, a crónica da bem conhecida corrupção. É um livro de grande coragem, para quem vive em Angola e desempenha um cargo público.
Essa amargura foi dupla porque, conhecendo muito bem Pepetela, fui sempre imaginando o que ele deve ter sofrido ao escrever o livro. Não foi certamente para assistir a esta Angola e lá viver que Pepetela foi guerrilheiro (a nossa direita florescente dirá que foi terrorista).
Nota final. Como se compreende no fim do livro, o poder mudou de interlocutores. Os predadores angolanos estão em queda, hoje são principalmente os estrangeiros. Isto fez-me lembrar a recente visita de Sócrates a Angola, com um avião cheio de empresários.
20 agosto, 2006
Geração dos sessenta?
Escrevi hoje um “mail” a uma lista de amigos:
Ela fez-se no sonho da festa de Abril. Sacrifícios, perigos, prisões, clandestinidade, coisas que o preclaro VPV nunca soube o que foram, valeram tudo na festa de Abril e sempre foram assumidos com essa meta.
Cometeram-se erros? Certamente, mas “a festa foi bonita, pá”.
Hoje, eu leitor de muitos blogues, acho que a democracia deve permitir a escrita de blogues assumidamente fascistas. O que não aceito é o reaccionarismo encapotado de mentores disfarçados de “democratas”, educadores do povo. Assumam-se como conservadores reaccionários que são.
De Vasco Pulido Valente, hoje, no Público:Podia ficar por aqui, mas não é possível. Um dos meus defeitos é ser um pouco masoquista e, por exemplo, ainda ler VPV. Não o conhecendo pessoalmente (e não o desejando), não sei como o classificar. Alzheimer precoce? Diletantidsmo? Uma coisa é certa. Apetece-me vomitar esse escrito em nome da minha geração de/dos sessenta.
"Mas não deixou de aparecer uma geração, a "geração de 60", a minha, que entre a "crise académica" de 62, de boa memória, e a "festa de Abril", de má memória, fez de Portugal um país diferente."
Como é que alguém pode invocar a memória da geração de 60 ao mesmo tempo que rejeita a memória de Abril?
Ela fez-se no sonho da festa de Abril. Sacrifícios, perigos, prisões, clandestinidade, coisas que o preclaro VPV nunca soube o que foram, valeram tudo na festa de Abril e sempre foram assumidos com essa meta.
Cometeram-se erros? Certamente, mas “a festa foi bonita, pá”.
Hoje, eu leitor de muitos blogues, acho que a democracia deve permitir a escrita de blogues assumidamente fascistas. O que não aceito é o reaccionarismo encapotado de mentores disfarçados de “democratas”, educadores do povo. Assumam-se como conservadores reaccionários que são.
19 agosto, 2006
Férias em S. Miguel

Vou frequentemente à minha ilha, mas em viagens que deixam sabor amargo, com tempo apenas para uma breve volta por Ponta Delgada. Desta vez foi diferente, duas semanas de reencontro com gentes, cores, sabores, perfumes, memórias. E com a companhia querida de quem sempre se sentiu tão micaelense como eu.
Nesta primeira nota, vou falar do que talvez achem estranho, as estradas. Não há turista que não venha maravilhado com os três panoramas emblemáticos, as lagoas das Sete Cidades, Fogo e Furnas. Ficar por aí é uma pena. S. Miguel é também as suas estradas, com vistas imperdíveis para fora e para dentro. Para fora, a cada curva, um panorama magnífico, sempre diferente na aparente uniformidade da paisagem micaelense. Para dentro, porque em cada curva da estrada também a beleza da própria estrada.
22 julho, 2006
Jorgina e Berta
Descansem que não vou falar de nenhum novo casal homossexual feminino a querer casar-se. A aproximarem-se as férias e o encerramento temporário deste estabelecimento, vou escrever coisa ligeira, lembrando-me de mais duas personagens pitorescas da minha infância, esquecidas no "Mastro das Alminhas". Viviam juntas e creio, mas não garanto, que eram tia e sobrinha.
A Jorgina era um caso espantoso de literacia analfabeta. Já explico o paradoxo aparente. In illo tempore, eu menino, havia a figura da "mulher das compras", encargo excelentemente desempenhado pela Jorgina. Ao fim da tarde, dava a volta pelas freguesas e tomava nota das encomendas para o dia seguinte: talho, mercado do peixe, barraca da hortaliça.
A cada nota que tomava, ia sempre dizendo "óraites", corruptela calafona do "all right" - um dia destes hei-de escrever sobre o típico vocabulário "calafonês" açoriano, a começar pelo próprio termo "calafona", leia-se "californian". Muito mais divertida era a relação especial da Jorgina com uns amigos íntimos e indispensáveis que viviam no seu couro cabeludo. Às vezes, ficavam indisciplinados que nem meninos das escolas de hoje. A Jorgina dava então umas palmadinhas na cabeça, com meiguice e dizendo "ai, eles hoje estão tão desassossegados!".
Importante era a tal literacia. A Jorgina tomava cuidadosamente nota das encomendas num caderno e nunca se enganava. Mas como, se ela era analfabeta? Muito gostava eu de poder ver ainda um caderno da Jorgina.
A Berta, que era criada, como então se dizia, de uma prima da minha mãe, era uma personagem imperdível de candura tonta, num grande coração. Esta minha prima era mãe de um dos meus mais queridos amigos e primo, já falecido, o Raul Ávila de Vasconcelos – dois nomes sempre ligados na minha família, desde há muitas gerações, mas que eu já perdi. Quando ele veio para a universidade, no Carvalho Araújo, era tempo em que a partida e chegado dos navios merecia notícia da rádio. Assim, disse a minha prima "Berta, o menino Raul já chegou a Lisboa". Resposta, "E a Sra. D. Letícia [a minha tia] estava na doca?".
A Berta era uma solteirona frustrada e deitava sortes de clara de ovo no S. João. Um dia ficou muito feliz por ver finalmente o seu destino: um marinheiro louro, na ponta do barco, de calças azuis e camisa branca, com a mão na testa a aparar o sol!
Também tinha um sentido critico muito pragmático. Foi notícia na minha terra a aventura de dois patrícios meus (lembram-se da série de TV "O barco e o sonho"?) que foram até à sonhada América num pequeno barco à vela que construíram? A Berta não achou aquilo nada de especial. "É só dar a volta ao farol da doca e depois ir sempre rente ao muro". Noção muito especial da geografia!
E vou para férias. Adeus, até ao meu regresso. Divirtam-se também e descansem, pensando numa regra importante de vida, a KISS: "keep it simple, stupid!".
A Jorgina era um caso espantoso de literacia analfabeta. Já explico o paradoxo aparente. In illo tempore, eu menino, havia a figura da "mulher das compras", encargo excelentemente desempenhado pela Jorgina. Ao fim da tarde, dava a volta pelas freguesas e tomava nota das encomendas para o dia seguinte: talho, mercado do peixe, barraca da hortaliça.
A cada nota que tomava, ia sempre dizendo "óraites", corruptela calafona do "all right" - um dia destes hei-de escrever sobre o típico vocabulário "calafonês" açoriano, a começar pelo próprio termo "calafona", leia-se "californian". Muito mais divertida era a relação especial da Jorgina com uns amigos íntimos e indispensáveis que viviam no seu couro cabeludo. Às vezes, ficavam indisciplinados que nem meninos das escolas de hoje. A Jorgina dava então umas palmadinhas na cabeça, com meiguice e dizendo "ai, eles hoje estão tão desassossegados!".
Importante era a tal literacia. A Jorgina tomava cuidadosamente nota das encomendas num caderno e nunca se enganava. Mas como, se ela era analfabeta? Muito gostava eu de poder ver ainda um caderno da Jorgina.
A Berta, que era criada, como então se dizia, de uma prima da minha mãe, era uma personagem imperdível de candura tonta, num grande coração. Esta minha prima era mãe de um dos meus mais queridos amigos e primo, já falecido, o Raul Ávila de Vasconcelos – dois nomes sempre ligados na minha família, desde há muitas gerações, mas que eu já perdi. Quando ele veio para a universidade, no Carvalho Araújo, era tempo em que a partida e chegado dos navios merecia notícia da rádio. Assim, disse a minha prima "Berta, o menino Raul já chegou a Lisboa". Resposta, "E a Sra. D. Letícia [a minha tia] estava na doca?".
A Berta era uma solteirona frustrada e deitava sortes de clara de ovo no S. João. Um dia ficou muito feliz por ver finalmente o seu destino: um marinheiro louro, na ponta do barco, de calças azuis e camisa branca, com a mão na testa a aparar o sol!
Também tinha um sentido critico muito pragmático. Foi notícia na minha terra a aventura de dois patrícios meus (lembram-se da série de TV "O barco e o sonho"?) que foram até à sonhada América num pequeno barco à vela que construíram? A Berta não achou aquilo nada de especial. "É só dar a volta ao farol da doca e depois ir sempre rente ao muro". Noção muito especial da geografia!
E vou para férias. Adeus, até ao meu regresso. Divirtam-se também e descansem, pensando numa regra importante de vida, a KISS: "keep it simple, stupid!".
15 julho, 2006
Dan Brown
Há tempos, escrevi uma nota sobre o que me parecia ser um excesso de reacção contra coisa que não é para levar a sério, o "Código da Vinci". Talvez paradoxalmente, vou cair no erro de levar a sério, desta vez o autor. É que agora, ele já não é criticado só pela Igreja. Manifestou-se também o Congresso internacional de historiadores medievalistas, acusando Dan Brown (DB) de prejudicar fortemente a credibilidade da investigação histórica.
É uso dizer-se que "à terceira é de vez". Comigo, com DB, foi à quarta, depois de ler, fora da ordem cronológica, "Fortaleza Digital". Só não digo que DB é uma fraude porque nunca o ouvi intitular-se de grande escritor. Basta-lhe ser milionário da escrita. Também Agatha Christie (AC) certamente nunca pensou ser candidata ao Nobel. Talvez fosse até mais honesta e não justificasse tanto a mais que compreensível e ética atitude de Umberto Eco, ao recusar um encontro com DB.
Parece-me óbvio que só se pode falar de subliteratura ao ler um livro com esta preciosidade, logo na primeira página (dou desconto a uma eventual má tradução):
Falei de AC, com respeito – devo-lhe bons momentos de leitura descontraída de praia – e podia também falar, sem respeito, de margarida Rebelo Pinto, a propósito do que veio a lume no seu recente caso judiciário: a técnica da repetição. Em AC, ela não engana o leitor, quase que é indispensável. Já sabemos, e talvez desejemos, que vamos encontrar jardins ingleses, moral vitoriana, desprezo pela Europa do lado de lá, chá e scones e os clichês de Poirot. Mas isto faz parte das regras de AC. O leitor compra ou não compra.
DB não assume a repetição de um esquema bem construído, mas ela é evidente, em todos os livros. Começo pela construção dos cenários. Já a Globo a tinha inventado nas suas telenovelas: três cenários principais (pior, DB só usa dois) que alternam em contraponto, cada um com um conjunto de personagens distintos, apenas com dois elos de ligação, os pivôs da história. Estes pivôs, com ligeiras nuances, seguem o mesmo estereotipo: um académico americano da área das humanidades, que se revela depois um super-homem de capacidades aventureiras (não inventou nada, copiou e mal o Indiana Jones), e uma mulher profissional de topo, muito inteligente e que, na última página, se revela um portento sexual a premiar o herói. Aqui é que inovou, mas não sei se melhorou, porque as parceiras do Indiana eram deliciosamente tontas.
O tema foge inteligentemente ao mundo das tias de Cascais da nossa literatura leve, sabendo muito bem DB ir directo a um moderno imaginário público, principalmente desafiado pelo mistério cultivado ou natural de algumas instituições, a Igreja católica, a NASA, as agencias secretas americanas. Não arrisca nada, porque se alimenta desse secretismo. O que é desonesto é confundir o leitor, dando-lhe claramente a noção de que DB tem "inside information" que garante algum fundo de verdade.
Curiosamente, joga com pau de dois bicos. No decurso dos livros, parece devastar os seus alvos institucionais, mas salva-os à última hora. Neste último livro que li, a solução final é inconcebível, aliando o politicamente correcto ao securitarismo "Patriot act". O supercomputador que podia espiar a net é destruído, mas o seu computador paralelo, que guarda a base de dados da "pax americana" é miraculosamente salvo na última página. Desculpem, última não, porque esta é a tal da recompensa sexual dos heróis.
A galeria de personagens é estereotipada. Não vou falar dos vilões, porque DB tem um talento especial para os retratar primariamente, como assassinos frios e mecânicos (nunca temos deles a expressão de um simples sentimento), curiosamente albinos ou surdos, novamente grandes ideias literárias. Para além dos bons, há os que recorrem a eles, figuras eminentes e muito responsáveis das tais instituições. Normalmente, ocupam posição de vice, deixando os dirigentes supremos para melhor altura. Estes só aparecem a meio do livro, anunciam-se cada vez mais a cada capítulo e, finalmente, são os que permitem o final feliz. Bonito, a autoridade suprema. E quem é o culpado, coisa que, em qualquer bom policial, só adivinhamos no último capítulo? Com DB é elementar. É um dos tais incorruptíveis de segunda linha, mas cujo carácter ou ideologia é extremado em sentido de "missão", como DB tem o cuidado de nos revelar logo.
No entanto, não deixo de elogiar, tecnicamente, as construções de DB: boa técnica de suspense, a fazer apetecer passar para o capítulo seguinte, aparência de boa informação "científica", embora não resista a qualquer abano, como a inconcebível bomba de antimatéria; esoterismo cuidadosamente quanto baste, sem ser daquele que nos faz logo dizer "tolice", como os extra-terrestres nas aparições de Fátima; cenários que dizem muito à cultura híbrida americana, desde coisas "high-tec" domésticas até aos mitos artísticos europeus, Louvre, Roma, Bernini.
E "assim se fazem as cousas".
É uso dizer-se que "à terceira é de vez". Comigo, com DB, foi à quarta, depois de ler, fora da ordem cronológica, "Fortaleza Digital". Só não digo que DB é uma fraude porque nunca o ouvi intitular-se de grande escritor. Basta-lhe ser milionário da escrita. Também Agatha Christie (AC) certamente nunca pensou ser candidata ao Nobel. Talvez fosse até mais honesta e não justificasse tanto a mais que compreensível e ética atitude de Umberto Eco, ao recusar um encontro com DB.
Parece-me óbvio que só se pode falar de subliteratura ao ler um livro com esta preciosidade, logo na primeira página (dou desconto a uma eventual má tradução):
"Deitada de costas na cama de dossel, ela levantou os olhos e soube que ele era "o tal". E enquanto estava assim, de olhar preso àqueles olhos verde-escuros, algures ao longe uma campainha ensurdecedora começou a tocar. A campainha atraiu-o e afastou-o. Estendeu os braços para o agarrar, mas as suas mãos encontraram apenas ar.""Campainha ensurdecedora", nunca tinha lido expressão tão imaginativa!
Falei de AC, com respeito – devo-lhe bons momentos de leitura descontraída de praia – e podia também falar, sem respeito, de margarida Rebelo Pinto, a propósito do que veio a lume no seu recente caso judiciário: a técnica da repetição. Em AC, ela não engana o leitor, quase que é indispensável. Já sabemos, e talvez desejemos, que vamos encontrar jardins ingleses, moral vitoriana, desprezo pela Europa do lado de lá, chá e scones e os clichês de Poirot. Mas isto faz parte das regras de AC. O leitor compra ou não compra.
DB não assume a repetição de um esquema bem construído, mas ela é evidente, em todos os livros. Começo pela construção dos cenários. Já a Globo a tinha inventado nas suas telenovelas: três cenários principais (pior, DB só usa dois) que alternam em contraponto, cada um com um conjunto de personagens distintos, apenas com dois elos de ligação, os pivôs da história. Estes pivôs, com ligeiras nuances, seguem o mesmo estereotipo: um académico americano da área das humanidades, que se revela depois um super-homem de capacidades aventureiras (não inventou nada, copiou e mal o Indiana Jones), e uma mulher profissional de topo, muito inteligente e que, na última página, se revela um portento sexual a premiar o herói. Aqui é que inovou, mas não sei se melhorou, porque as parceiras do Indiana eram deliciosamente tontas.
O tema foge inteligentemente ao mundo das tias de Cascais da nossa literatura leve, sabendo muito bem DB ir directo a um moderno imaginário público, principalmente desafiado pelo mistério cultivado ou natural de algumas instituições, a Igreja católica, a NASA, as agencias secretas americanas. Não arrisca nada, porque se alimenta desse secretismo. O que é desonesto é confundir o leitor, dando-lhe claramente a noção de que DB tem "inside information" que garante algum fundo de verdade.
Curiosamente, joga com pau de dois bicos. No decurso dos livros, parece devastar os seus alvos institucionais, mas salva-os à última hora. Neste último livro que li, a solução final é inconcebível, aliando o politicamente correcto ao securitarismo "Patriot act". O supercomputador que podia espiar a net é destruído, mas o seu computador paralelo, que guarda a base de dados da "pax americana" é miraculosamente salvo na última página. Desculpem, última não, porque esta é a tal da recompensa sexual dos heróis.
A galeria de personagens é estereotipada. Não vou falar dos vilões, porque DB tem um talento especial para os retratar primariamente, como assassinos frios e mecânicos (nunca temos deles a expressão de um simples sentimento), curiosamente albinos ou surdos, novamente grandes ideias literárias. Para além dos bons, há os que recorrem a eles, figuras eminentes e muito responsáveis das tais instituições. Normalmente, ocupam posição de vice, deixando os dirigentes supremos para melhor altura. Estes só aparecem a meio do livro, anunciam-se cada vez mais a cada capítulo e, finalmente, são os que permitem o final feliz. Bonito, a autoridade suprema. E quem é o culpado, coisa que, em qualquer bom policial, só adivinhamos no último capítulo? Com DB é elementar. É um dos tais incorruptíveis de segunda linha, mas cujo carácter ou ideologia é extremado em sentido de "missão", como DB tem o cuidado de nos revelar logo.
No entanto, não deixo de elogiar, tecnicamente, as construções de DB: boa técnica de suspense, a fazer apetecer passar para o capítulo seguinte, aparência de boa informação "científica", embora não resista a qualquer abano, como a inconcebível bomba de antimatéria; esoterismo cuidadosamente quanto baste, sem ser daquele que nos faz logo dizer "tolice", como os extra-terrestres nas aparições de Fátima; cenários que dizem muito à cultura híbrida americana, desde coisas "high-tec" domésticas até aos mitos artísticos europeus, Louvre, Roma, Bernini.
E "assim se fazem as cousas".
08 julho, 2006
Para quê chamar a ciência à discussão do aborto?
Revogando uma decisão judicial anterior, no chamado caso de Aveiro, algumas mulheres acabaram por ser condenadas pelo crime de aborto. Parece-me sobeja razão para reflexão de todos aqueles que têm a consciência tranquila porque, "na prática, ninguém é penalizado por este crime". Ele lá está no código penal e ao alcance de algum juiz mais "escrupuloso". Também reflexão para mim, atento ao que me rodeia e solidário por natureza e ideologia. É uma reflexão desafiante, porque pode suscitar duas ordens de questões, em que a minha situação é oposta: uma discussão jurídica e social, em que só falo como cidadão e pensante; outra científica, em que me sinto no dever de ser muito cuidadoso em relação a alguma influência pública.
Não sei nada de filosofia do direito, mas tenho algumas ideias de senso comum. Para mim, talvez um pouco esquematicamente, há três tipos de crimes. O primeiro é o que atenta contra os direitos, a liberdade, a segurança e a propriedade do outro. É o que chamo um crime absoluto, que não é afectado por nenhuma circunstância sociológica. Se o roubo ou a agressão física começarem a ser prática corrente, isto não justifica nenhuma desculpa social para a despenalização. A realidade social não faz lei, neste caso.
O segundo caso é o de crimes que configuram atentados gerais à ordem sócio-política. Também entendo que se baseiam na valorização abstracta de coisas essenciais da nossa vida civilizada: a incitação à violência ou ao racismo, a ofensa à identidade nacional, o desrespeito aos tribunais, a desobediência, a espionagem, a evasão fiscal, etc.
Caso muito diferente, em que insiro exemplarmente o do aborto, é o dos crimes que reflectem uma visão transitória dos valores éticos e sociais, muitas vezes até dependentes de ideologias sectoriais. São casos em que, claramente, não está em causa a defesa dos interesses de outrem: por exemplo, o consumo de drogas (não o tráfico), a prostituição (não o proxenetismo), a homossexualidade (já foi crime e não há tanto tempo como se possa julgar), o adultério (questão privada, mas não no tempo de Camilo), etc. Nestes casos, considero que a penalização é frágil e contingente, muito determinada pelo nível de aceitação social e de prática, sempre a evoluir. Se milhares de mulheres praticam o aborto, quem tem uma escala de medida para avaliar se é condenável (juridicamente) ou não? Não é como o assassínio, em que, mesmo que não houvesse nenhum caso, nunca deixaria de ser crime.
Uma nota sobre a participação indirecta: distingui consumo e tráfico, prostituição e proxenetismo. Devo distinguir, no caso do aborto, a mulher e o abortador? Tenho muitas dúvidas. Considerem este caso: um médico é a favor do aborto, quer ajudar as mulheres a fazerem-no nas melhores condições (já que, de qualquer forma, o farão, no vão da escada) e, para se situar bem e marcar posição, não leva um tostão por essa operação. Se eu fosse obstreta, é o que faria. Podiam depois acusar-me de tudo, mas nunca de interesse de negócio.
Quero deixar algum espaço para um tema que me interessa muito, cientificamente, o da vida humana. O tema foi suscitado, ainda há dias, pelo bastonário da Ordem dos Médicos: "Os códigos de ética dos médicos proíbem a eliminação de uma vida humana. (…) Deve-se centrar o debate no diagnóstico do início da vida. (…) A sociedade portuguesa deveria ter a coragem de definir a fronteira a partir da qual não será possível eliminar a vida humana." Desculpe a brutalidade, estimado colega, mas tudo isto é tolice e falta de bagagem científica.
A ciência não sabe lidar com definições de "senso comum". Lembro-me, tantos anos depois, de uma aula do meu inesquecível Ilídio Sardoeira (aula de biologia!) em que nos desafiou a definir força. É a qualidade de se ser forte (definição circular), é o que vence a inércia, é o que faz mexer, etc. No fim, a conclusão aceite foi a de que força é "apenas" o produto da massa pela aceleração. E se, depois, ele nos tivesse perguntado o que era a massa? Para os meus amigos físicos, talvez eu esteja a dizer grande asneira. Desculpem-me.
Vida humana. Eu, biólogo, não sei o que isso é! Nem a ciência deve ser chamada a alicerçar decisões que são apenas do plano social e, admito, ético (mas ético de cada um, não de toda uma sociedade). Até vou ser provocador: considero menos grave "matar" um embrião do que matar um chimpanzé. Justificarei adiante.
Vida humana. Começa por ser necessário discutir separadamente o substantivo e o adjectivo. Comecemos por vida. É um conceito abstracto. O que há é seres vivos e mesmo isto abre grandes discussões. Os vírus são seres vivos? Organismos não são, mas entendo que são seres vivos, embora haja quem os coloque na fronteira. É um desafio que coloco sempre aos meus alunos, para um trabalho de duas páginas, e de que recebo opiniões muito interessantes. Posso dar muitas definições caracterizadoras de ser vivo, nem todas compatíveis entre si: a velha descrição fenomenológica, desactualizada, a definição termodinâmica, até mesmo uma definição "informática". A ciência pode facilitar mas não determina conceitos filosóficos e éticos.
Depois o adjectivo humano, e aqui é que vêm todas as discussões. A atitude mais fácil é a de alguns católicos, com maior formação científica, que se vêem obrigados a enfatizar a ligação ao adjectivo "potencial". Não consigo entrar nesta discussão, que não é científica. A ciência lida com factos, não com potencialidades. Aliás, essa discussão parece-me perigosa, em termos jurídicos, apesar de leigo. Um potencial assassino deve ser condenado à prisão? Não falo de esquizofrénicos violentos, legalmente internáveis, mas de personalidades psicopáticas imputáveis. O potencial permite tudo. Porque é que um espermatozóide não é um elemento potencial de um futuro ser humano? Afinal, é isto que justifica a condenação católica da masturbação, se não erro. Um embrião in vitro é um ser humano potencial? Queria vê-lo crescer e diferenciar-se no laboratório! Mesmo um ovo fertilizado in vivo é real, em capacidade de concretização, antes da nidação? Fico à espera das respostas do bastonário.
Voltando ao humano, o que o define? Ou, para começar, qual é o momento em que isso se define? A embriogénese é um contínuo e creio que ninguém sabe exactamente qual o momento em que ficam definitivamente adquiridos os traços humanos. A activação dos primeiros genes exclusivos do homem? Quem sabe quais eles são, "uma dúzia"? O estabelecimento das primeiras sinapses? Também todos os animais as têm e, no homem, essa rede só é verdadeiramente construída pela experiência, não geneticamente. As relações in utero com a mãe? Idem. A consciência, a mente e a linguagem? Então o aborto podia ir até aos dois anos de idade!
Seguindo a provocação que referi, vou falar de primatas, que todos somos, nós e os nossos primos chimpanzés. Imaginemos que é agora descoberta uma tribo de paleolíticos remotos, que só usam instrumentos rudimentares, umas pedras lascadas, e uma linguagem de sons primitivos. Alguém negará que são humanos? Mas os chimpanzés, nosso divertimento de zoo? Partilhamos com eles a quase totalidade do nosso genoma. Em relação a algumas marcas genéticas, há por vezes maior proximidade entre grupos humanos e chimpanzés do que entre grupos humanos diferentes. Estes primos têm consciência, noção do "self", reconhecem-se ao espelho. Usam instrumentos, também as pedras e mesmo outros por vezes mais elaborados do que os do homem paleolítico, comunicam, têm afectividade, são solidários, resolvem problemas com a nossa inteligência. No limite, podemos definir uma característica exclusivamente humana, a fala. Isto só depende de duas coisas, que só se processam depois do nascimento, a descida da laringe e do osso hióide (um dos nossos mais pequenos e mais importantes ossos, na língua). Ora os chimpanzés também fazem a descida da laringe, só lhes faltando a do hióide. Afinal, talvez seja esta coisa banal a definição científica do homem!
Toda esta história de primatas pode parecer parvoíce de fim de semana mas tem um fim provocatório. Os nossos "defensores da vida" não se ficam pelo seu direito legítimo de condenarem o aborto. A única conclusão será a de que não o devem praticar (nunca o praticam?). Invocam argumentos científicos, até imagens horrorosas como as que eu, fumador, vou ter de ver nas minhas cigarrilhas. A minha provocação é a de que sejam coerentes: defendam a libertação de todos os chimpanzés!
Não sei nada de filosofia do direito, mas tenho algumas ideias de senso comum. Para mim, talvez um pouco esquematicamente, há três tipos de crimes. O primeiro é o que atenta contra os direitos, a liberdade, a segurança e a propriedade do outro. É o que chamo um crime absoluto, que não é afectado por nenhuma circunstância sociológica. Se o roubo ou a agressão física começarem a ser prática corrente, isto não justifica nenhuma desculpa social para a despenalização. A realidade social não faz lei, neste caso.
O segundo caso é o de crimes que configuram atentados gerais à ordem sócio-política. Também entendo que se baseiam na valorização abstracta de coisas essenciais da nossa vida civilizada: a incitação à violência ou ao racismo, a ofensa à identidade nacional, o desrespeito aos tribunais, a desobediência, a espionagem, a evasão fiscal, etc.
Caso muito diferente, em que insiro exemplarmente o do aborto, é o dos crimes que reflectem uma visão transitória dos valores éticos e sociais, muitas vezes até dependentes de ideologias sectoriais. São casos em que, claramente, não está em causa a defesa dos interesses de outrem: por exemplo, o consumo de drogas (não o tráfico), a prostituição (não o proxenetismo), a homossexualidade (já foi crime e não há tanto tempo como se possa julgar), o adultério (questão privada, mas não no tempo de Camilo), etc. Nestes casos, considero que a penalização é frágil e contingente, muito determinada pelo nível de aceitação social e de prática, sempre a evoluir. Se milhares de mulheres praticam o aborto, quem tem uma escala de medida para avaliar se é condenável (juridicamente) ou não? Não é como o assassínio, em que, mesmo que não houvesse nenhum caso, nunca deixaria de ser crime.
Uma nota sobre a participação indirecta: distingui consumo e tráfico, prostituição e proxenetismo. Devo distinguir, no caso do aborto, a mulher e o abortador? Tenho muitas dúvidas. Considerem este caso: um médico é a favor do aborto, quer ajudar as mulheres a fazerem-no nas melhores condições (já que, de qualquer forma, o farão, no vão da escada) e, para se situar bem e marcar posição, não leva um tostão por essa operação. Se eu fosse obstreta, é o que faria. Podiam depois acusar-me de tudo, mas nunca de interesse de negócio.
Quero deixar algum espaço para um tema que me interessa muito, cientificamente, o da vida humana. O tema foi suscitado, ainda há dias, pelo bastonário da Ordem dos Médicos: "Os códigos de ética dos médicos proíbem a eliminação de uma vida humana. (…) Deve-se centrar o debate no diagnóstico do início da vida. (…) A sociedade portuguesa deveria ter a coragem de definir a fronteira a partir da qual não será possível eliminar a vida humana." Desculpe a brutalidade, estimado colega, mas tudo isto é tolice e falta de bagagem científica.
A ciência não sabe lidar com definições de "senso comum". Lembro-me, tantos anos depois, de uma aula do meu inesquecível Ilídio Sardoeira (aula de biologia!) em que nos desafiou a definir força. É a qualidade de se ser forte (definição circular), é o que vence a inércia, é o que faz mexer, etc. No fim, a conclusão aceite foi a de que força é "apenas" o produto da massa pela aceleração. E se, depois, ele nos tivesse perguntado o que era a massa? Para os meus amigos físicos, talvez eu esteja a dizer grande asneira. Desculpem-me.
Vida humana. Eu, biólogo, não sei o que isso é! Nem a ciência deve ser chamada a alicerçar decisões que são apenas do plano social e, admito, ético (mas ético de cada um, não de toda uma sociedade). Até vou ser provocador: considero menos grave "matar" um embrião do que matar um chimpanzé. Justificarei adiante.
Vida humana. Começa por ser necessário discutir separadamente o substantivo e o adjectivo. Comecemos por vida. É um conceito abstracto. O que há é seres vivos e mesmo isto abre grandes discussões. Os vírus são seres vivos? Organismos não são, mas entendo que são seres vivos, embora haja quem os coloque na fronteira. É um desafio que coloco sempre aos meus alunos, para um trabalho de duas páginas, e de que recebo opiniões muito interessantes. Posso dar muitas definições caracterizadoras de ser vivo, nem todas compatíveis entre si: a velha descrição fenomenológica, desactualizada, a definição termodinâmica, até mesmo uma definição "informática". A ciência pode facilitar mas não determina conceitos filosóficos e éticos.
Depois o adjectivo humano, e aqui é que vêm todas as discussões. A atitude mais fácil é a de alguns católicos, com maior formação científica, que se vêem obrigados a enfatizar a ligação ao adjectivo "potencial". Não consigo entrar nesta discussão, que não é científica. A ciência lida com factos, não com potencialidades. Aliás, essa discussão parece-me perigosa, em termos jurídicos, apesar de leigo. Um potencial assassino deve ser condenado à prisão? Não falo de esquizofrénicos violentos, legalmente internáveis, mas de personalidades psicopáticas imputáveis. O potencial permite tudo. Porque é que um espermatozóide não é um elemento potencial de um futuro ser humano? Afinal, é isto que justifica a condenação católica da masturbação, se não erro. Um embrião in vitro é um ser humano potencial? Queria vê-lo crescer e diferenciar-se no laboratório! Mesmo um ovo fertilizado in vivo é real, em capacidade de concretização, antes da nidação? Fico à espera das respostas do bastonário.
Voltando ao humano, o que o define? Ou, para começar, qual é o momento em que isso se define? A embriogénese é um contínuo e creio que ninguém sabe exactamente qual o momento em que ficam definitivamente adquiridos os traços humanos. A activação dos primeiros genes exclusivos do homem? Quem sabe quais eles são, "uma dúzia"? O estabelecimento das primeiras sinapses? Também todos os animais as têm e, no homem, essa rede só é verdadeiramente construída pela experiência, não geneticamente. As relações in utero com a mãe? Idem. A consciência, a mente e a linguagem? Então o aborto podia ir até aos dois anos de idade!
Seguindo a provocação que referi, vou falar de primatas, que todos somos, nós e os nossos primos chimpanzés. Imaginemos que é agora descoberta uma tribo de paleolíticos remotos, que só usam instrumentos rudimentares, umas pedras lascadas, e uma linguagem de sons primitivos. Alguém negará que são humanos? Mas os chimpanzés, nosso divertimento de zoo? Partilhamos com eles a quase totalidade do nosso genoma. Em relação a algumas marcas genéticas, há por vezes maior proximidade entre grupos humanos e chimpanzés do que entre grupos humanos diferentes. Estes primos têm consciência, noção do "self", reconhecem-se ao espelho. Usam instrumentos, também as pedras e mesmo outros por vezes mais elaborados do que os do homem paleolítico, comunicam, têm afectividade, são solidários, resolvem problemas com a nossa inteligência. No limite, podemos definir uma característica exclusivamente humana, a fala. Isto só depende de duas coisas, que só se processam depois do nascimento, a descida da laringe e do osso hióide (um dos nossos mais pequenos e mais importantes ossos, na língua). Ora os chimpanzés também fazem a descida da laringe, só lhes faltando a do hióide. Afinal, talvez seja esta coisa banal a definição científica do homem!
Toda esta história de primatas pode parecer parvoíce de fim de semana mas tem um fim provocatório. Os nossos "defensores da vida" não se ficam pelo seu direito legítimo de condenarem o aborto. A única conclusão será a de que não o devem praticar (nunca o praticam?). Invocam argumentos científicos, até imagens horrorosas como as que eu, fumador, vou ter de ver nas minhas cigarrilhas. A minha provocação é a de que sejam coerentes: defendam a libertação de todos os chimpanzés!
Para quê chamar a ciência à discussão do aborto?
Revogando uma decisão judicial anterior, no chamado caso de Aveiro, algumas mulheres acabaram por ser condenadas pelo crime de aborto. Parece-me sobeja razão para reflexão de todos aqueles que têm a consciência tranquila porque, "na prática, ninguém é penalizado por este crime". Ele lá está no código penal e ao alcance de algum juiz mais "escrupuloso". Também reflexão para mim, atento ao que me rodeia e solidário por natureza e ideologia. É uma reflexão desafiante, porque pode suscitar duas ordens de questões, em que a minha situação é oposta: uma discussão jurídica e social, em que só falo como cidadão e pensante; outra científica, em que me sinto no dever de ser muito cuidadoso em relação a alguma influência pública.
Não sei nada de filosofia do direito, mas tenho algumas ideias de senso comum. Para mim, talvez um pouco esquematicamente, há três tipos de crimes. O primeiro é o que atenta contra os direitos, a liberdade, a segurança e a propriedade do outro. É o que chamo um crime absoluto, que não é afectado por nenhuma circunstância sociológica. Se o roubo ou a agressão física começarem a ser prática corrente, isto não justifica nenhuma desculpa social para a despenalização. A realidade social não faz lei, neste caso.
O segundo caso é o de crimes que configuram atentados gerais à ordem sócio-política. Também entendo que se baseiam na valorização abstracta de coisas essenciais da nossa vida civilizada: a incitação à violência ou ao racismo, a ofensa à identidade nacional, o desrespeito aos tribunais, a desobediência, a espionagem, a evasão fiscal, etc.
Caso muito diferente, em que insiro exemplarmente o do aborto, é o dos crimes que reflectem uma visão transitória dos valores éticos e sociais, muitas vezes até dependentes de ideologias sectoriais. São casos em que, claramente, não está em causa a defesa dos interesses de outrem: por exemplo, o consumo de drogas (não o tráfico), a prostituição (não o proxenetismo), a homossexualidade (já foi crime e não há tanto tempo como se possa julgar), o adultério (questão privada, mas não no tempo de Camilo), etc. Nestes casos, considero que a penalização é frágil e contingente, muito determinada pelo nível de aceitação social e de prática, sempre a evoluir. Se milhares de mulheres praticam o aborto, quem tem uma escala de medida para avaliar se é condenável (juridicamente) ou não? Não é como o assassínio, em que, mesmo que não houvesse nenhum caso, nunca deixaria de ser crime.
Uma nota sobre a participação indirecta: distingui consumo e tráfico, prostituição e proxenetismo. Devo distinguir, no caso do aborto, a mulher e o abortador? Tenho muitas dúvidas. Considerem este caso: um médico é a favor do aborto, quer ajudar as mulheres a fazerem-no nas melhores condições (já que, de qualquer forma, o farão, no vão da escada) e, para se situar bem e marcar posição, não leva um tostão por essa operação. Se eu fosse obstreta, é o que faria. Podiam depois acusar-me de tudo, mas nunca de interesse de negócio.
Quero deixar algum espaço para um tema que me interessa muito, cientificamente, o da vida humana. O tema foi suscitado, ainda há dias, pelo bastonário da Ordem dos Médicos: "Os códigos de ética dos médicos proíbem a eliminação de uma vida humana. (…) Deve-se centrar o debate no diagnóstico do início da vida. (…) A sociedade portuguesa deveria ter a coragem de definir a fronteira a partir da qual não será possível eliminar a vida humana." Desculpe a brutalidade, estimado colega, mas tudo isto é tolice e falta de bagagem científica.
A ciência não sabe lidar com definições de "senso comum". Lembro-me, tantos anos depois, de uma aula do meu inesquecível Ilídio Sardoeira (aula de biologia!) em que nos desafiou a definir força. É a qualidade de se ser forte (definição circular), é o que vence a inércia, é o que faz mexer, etc. No fim, a conclusão aceite foi a de que força é "apenas" o produto da massa pela aceleração. E se, depois, ele nos tivesse perguntado o que era a massa? Para os meus amigos físicos, talvez eu esteja a dizer grande asneira. Desculpem-me.
Vida humana. Eu, biólogo, não sei o que isso é! Nem a ciência deve ser chamada a alicerçar decisões que são apenas do plano social e, admito, ético (mas ético de cada um, não de toda uma sociedade). Até vou ser provocador: considero menos grave "matar" um embrião do que matar um chimpanzé. Justificarei adiante.
Vida humana. Começa por ser necessário discutir separadamente o substantivo e o adjectivo. Comecemos por vida. É um conceito abstracto. O que há é seres vivos e mesmo isto abre grandes discussões. Os vírus são seres vivos? Organismos não são, mas entendo que são seres vivos, embora haja quem os coloque na fronteira. É um desafio que coloco sempre aos meus alunos, para um trabalho de duas páginas, e de que recebo opiniões muito interessantes. Posso dar muitas definições caracterizadoras de ser vivo, nem todas compatíveis entre si: a velha descrição fenomenológica, desactualizada, a definição termodinâmica, até mesmo uma definição "informática". A ciência pode facilitar mas não determina conceitos filosóficos e éticos.
Depois o adjectivo humano, e aqui é que vêm todas as discussões. A atitude mais fácil é a de alguns católicos, com maior formação científica, que se vêem obrigados a enfatizar a ligação ao adjectivo "potencial". Não consigo entrar nesta discussão, que não é científica. A ciência lida com factos, não com potencialidades. Aliás, essa discussão parece-me perigosa, em termos jurídicos, apesar de leigo. Um potencial assassino deve ser condenado à prisão? Não falo de esquizofrénicos violentos, legalmente internáveis, mas de personalidades psicopáticas imputáveis. O potencial permite tudo. Porque é que um espermatozóide não é um elemento potencial de um futuro ser humano? Afinal, é isto que justifica a condenação católica da masturbação, se não erro. Um embrião in vitro é um ser humano potencial? Queria vê-lo crescer e diferenciar-se no laboratório! Mesmo um ovo fertilizado in vivo é real, em capacidade de concretização, antes da nidação? Fico à espera das respostas do bastonário.
Voltando ao humano, o que o define? Ou, para começar, qual é o momento em que isso se define? A embriogénese é um contínuo e creio que ninguém sabe exactamente qual o momento em que ficam definitivamente adquiridos os traços humanos. A activação dos primeiros genes exclusivos do homem? Quem sabe quais eles são, "uma dúzia"? O estabelecimento das primeiras sinapses? Também todos os animais as têm e, no homem, essa rede só é verdadeiramente construída pela experiência, não geneticamente. As relações in utero com a mãe? Idem. A consciência, a mente e a linguagem? Então o aborto podia ir até aos dois anos de idade!
Seguindo a provocação que referi, vou falar de primatas, que todos somos, nós e os nossos primos chimpanzés. Imaginemos que é agora descoberta uma tribo de paleolíticos remotos, que só usam instrumentos rudimentares, umas pedras lascadas, e uma linguagem de sons primitivos. Alguém negará que são humanos? Mas os chimpanzés, nosso divertimento de zoo? Partilhamos com eles a quase totalidade do nosso genoma. Em relação a algumas marcas genéticas, há por vezes maior proximidade entre grupos humanos e chimpanzés do que entre grupos humanos diferentes. Estes primos têm consciência, noção do "self", reconhecem-se ao espelho. Usam instrumentos, também as pedras e mesmo outros por vezes mais elaborados do que os do homem paleolítico, comunicam, têm afectividade, são solidários, resolvem problemas com a nossa inteligência. No limite, podemos definir uma característica exclusivamente humana, a fala. Isto só depende de duas coisas, que só se processam depois do nascimento, a descida da laringe e do osso hióide (um dos nossos mais pequenos e mais importantes ossos, na língua). Ora os chimpanzés também fazem a descida da laringe, só lhes faltando a do hióide. Afinal, talvez seja esta coisa banal a definição científica do homem!
Toda esta história de primatas pode parecer parvoíce de fim de semana mas tem um fim provocatório. Os nossos "defensores da vida" não se ficam pelo seu direito legítimo de condenarem o aborto. A única conclusão será a de que não o devem praticar (nunca o praticam?). Invocam argumentos científicos, até imagens horrorosas como as que eu, fumador, vou ter de ver nas minhas cigarrilhas. A minha provocação é a de que sejam coerentes: defendam a libertação de todos os chimpanzés!
Não sei nada de filosofia do direito, mas tenho algumas ideias de senso comum. Para mim, talvez um pouco esquematicamente, há três tipos de crimes. O primeiro é o que atenta contra os direitos, a liberdade, a segurança e a propriedade do outro. É o que chamo um crime absoluto, que não é afectado por nenhuma circunstância sociológica. Se o roubo ou a agressão física começarem a ser prática corrente, isto não justifica nenhuma desculpa social para a despenalização. A realidade social não faz lei, neste caso.
O segundo caso é o de crimes que configuram atentados gerais à ordem sócio-política. Também entendo que se baseiam na valorização abstracta de coisas essenciais da nossa vida civilizada: a incitação à violência ou ao racismo, a ofensa à identidade nacional, o desrespeito aos tribunais, a desobediência, a espionagem, a evasão fiscal, etc.
Caso muito diferente, em que insiro exemplarmente o do aborto, é o dos crimes que reflectem uma visão transitória dos valores éticos e sociais, muitas vezes até dependentes de ideologias sectoriais. São casos em que, claramente, não está em causa a defesa dos interesses de outrem: por exemplo, o consumo de drogas (não o tráfico), a prostituição (não o proxenetismo), a homossexualidade (já foi crime e não há tanto tempo como se possa julgar), o adultério (questão privada, mas não no tempo de Camilo), etc. Nestes casos, considero que a penalização é frágil e contingente, muito determinada pelo nível de aceitação social e de prática, sempre a evoluir. Se milhares de mulheres praticam o aborto, quem tem uma escala de medida para avaliar se é condenável (juridicamente) ou não? Não é como o assassínio, em que, mesmo que não houvesse nenhum caso, nunca deixaria de ser crime.
Uma nota sobre a participação indirecta: distingui consumo e tráfico, prostituição e proxenetismo. Devo distinguir, no caso do aborto, a mulher e o abortador? Tenho muitas dúvidas. Considerem este caso: um médico é a favor do aborto, quer ajudar as mulheres a fazerem-no nas melhores condições (já que, de qualquer forma, o farão, no vão da escada) e, para se situar bem e marcar posição, não leva um tostão por essa operação. Se eu fosse obstreta, é o que faria. Podiam depois acusar-me de tudo, mas nunca de interesse de negócio.
Quero deixar algum espaço para um tema que me interessa muito, cientificamente, o da vida humana. O tema foi suscitado, ainda há dias, pelo bastonário da Ordem dos Médicos: "Os códigos de ética dos médicos proíbem a eliminação de uma vida humana. (…) Deve-se centrar o debate no diagnóstico do início da vida. (…) A sociedade portuguesa deveria ter a coragem de definir a fronteira a partir da qual não será possível eliminar a vida humana." Desculpe a brutalidade, estimado colega, mas tudo isto é tolice e falta de bagagem científica.
A ciência não sabe lidar com definições de "senso comum". Lembro-me, tantos anos depois, de uma aula do meu inesquecível Ilídio Sardoeira (aula de biologia!) em que nos desafiou a definir força. É a qualidade de se ser forte (definição circular), é o que vence a inércia, é o que faz mexer, etc. No fim, a conclusão aceite foi a de que força é "apenas" o produto da massa pela aceleração. E se, depois, ele nos tivesse perguntado o que era a massa? Para os meus amigos físicos, talvez eu esteja a dizer grande asneira. Desculpem-me.
Vida humana. Eu, biólogo, não sei o que isso é! Nem a ciência deve ser chamada a alicerçar decisões que são apenas do plano social e, admito, ético (mas ético de cada um, não de toda uma sociedade). Até vou ser provocador: considero menos grave "matar" um embrião do que matar um chimpanzé. Justificarei adiante.
Vida humana. Começa por ser necessário discutir separadamente o substantivo e o adjectivo. Comecemos por vida. É um conceito abstracto. O que há é seres vivos e mesmo isto abre grandes discussões. Os vírus são seres vivos? Organismos não são, mas entendo que são seres vivos, embora haja quem os coloque na fronteira. É um desafio que coloco sempre aos meus alunos, para um trabalho de duas páginas, e de que recebo opiniões muito interessantes. Posso dar muitas definições caracterizadoras de ser vivo, nem todas compatíveis entre si: a velha descrição fenomenológica, desactualizada, a definição termodinâmica, até mesmo uma definição "informática". A ciência pode facilitar mas não determina conceitos filosóficos e éticos.
Depois o adjectivo humano, e aqui é que vêm todas as discussões. A atitude mais fácil é a de alguns católicos, com maior formação científica, que se vêem obrigados a enfatizar a ligação ao adjectivo "potencial". Não consigo entrar nesta discussão, que não é científica. A ciência lida com factos, não com potencialidades. Aliás, essa discussão parece-me perigosa, em termos jurídicos, apesar de leigo. Um potencial assassino deve ser condenado à prisão? Não falo de esquizofrénicos violentos, legalmente internáveis, mas de personalidades psicopáticas imputáveis. O potencial permite tudo. Porque é que um espermatozóide não é um elemento potencial de um futuro ser humano? Afinal, é isto que justifica a condenação católica da masturbação, se não erro. Um embrião in vitro é um ser humano potencial? Queria vê-lo crescer e diferenciar-se no laboratório! Mesmo um ovo fertilizado in vivo é real, em capacidade de concretização, antes da nidação? Fico à espera das respostas do bastonário.
Voltando ao humano, o que o define? Ou, para começar, qual é o momento em que isso se define? A embriogénese é um contínuo e creio que ninguém sabe exactamente qual o momento em que ficam definitivamente adquiridos os traços humanos. A activação dos primeiros genes exclusivos do homem? Quem sabe quais eles são, "uma dúzia"? O estabelecimento das primeiras sinapses? Também todos os animais as têm e, no homem, essa rede só é verdadeiramente construída pela experiência, não geneticamente. As relações in utero com a mãe? Idem. A consciência, a mente e a linguagem? Então o aborto podia ir até aos dois anos de idade!
Seguindo a provocação que referi, vou falar de primatas, que todos somos, nós e os nossos primos chimpanzés. Imaginemos que é agora descoberta uma tribo de paleolíticos remotos, que só usam instrumentos rudimentares, umas pedras lascadas, e uma linguagem de sons primitivos. Alguém negará que são humanos? Mas os chimpanzés, nosso divertimento de zoo? Partilhamos com eles a quase totalidade do nosso genoma. Em relação a algumas marcas genéticas, há por vezes maior proximidade entre grupos humanos e chimpanzés do que entre grupos humanos diferentes. Estes primos têm consciência, noção do "self", reconhecem-se ao espelho. Usam instrumentos, também as pedras e mesmo outros por vezes mais elaborados do que os do homem paleolítico, comunicam, têm afectividade, são solidários, resolvem problemas com a nossa inteligência. No limite, podemos definir uma característica exclusivamente humana, a fala. Isto só depende de duas coisas, que só se processam depois do nascimento, a descida da laringe e do osso hióide (um dos nossos mais pequenos e mais importantes ossos, na língua). Ora os chimpanzés também fazem a descida da laringe, só lhes faltando a do hióide. Afinal, talvez seja esta coisa banal a definição científica do homem!
Toda esta história de primatas pode parecer parvoíce de fim de semana mas tem um fim provocatório. Os nossos "defensores da vida" não se ficam pelo seu direito legítimo de condenarem o aborto. A única conclusão será a de que não o devem praticar (nunca o praticam?). Invocam argumentos científicos, até imagens horrorosas como as que eu, fumador, vou ter de ver nas minhas cigarrilhas. A minha provocação é a de que sejam coerentes: defendam a libertação de todos os chimpanzés!
01 julho, 2006
Notas soltas
1. Josep Borrell, Presidente do Parlamento Europeu, escreveu, para minha estupefacção, que "os europeus têm uma percepção escassa dos benefícios globais da sua União. A Europa surge menos pelas vantagens do que pelos problemas que coloca ou as soluções que não tem. Continua a ser necessária uma enorme tarefa pedagógica."
Alguma coisa está mal nesta UE, quando os seus "cidadãos" não se apercebem de vantagens na união. Catalães, bascos e galegos fazem o possível por salientarem as suas identidades nacionais, mas não pretendem abandonar a "união espanhola". Os genebrinos pagam para os cantões mais pobres mas sabem bem o que lhes é vantajoso em ser suíços. E até a jardinesca figura sabe bem até onde levar os impropérios independentistas.
É claro que há uma diferença essencial: estas e muitas outras situações são históricas, assentes numa consciência colectiva de séculos, mas não deixam de traduzir uma noção sempre actual das vantagens práticas. A meu ver, as vantagens da UE são intangíveis para o comum dos mortais, que não tem biblioteca nem sabe nada de finanças.
Uma grande construção política tem de ser ensinada aos seus indivíduos? Há certamente um fosso entre essa construção e a consciência colectiva dela. Não é altura de desacelerar o alargamento inevitável desse fosso e garantir ao projecto europeu a sua verdadeira base de sustentação, o apoio dos povos? Ou a tal pedagogia continuará a ser exercida em fuga para a frente?
Para que não fiquem dúvidas: esta pergunta é feita por alguém que se sente profundamente europeísta.
2. José Vítor Malheiros tem uma coluna semanal que não perco. Na última, "Discutir na escola", escreve:
P. S. (13:48) - da leitura do jornal de hoje: um "responsável judiciário" declarou, a respeito do caso Gisberta - a transsexual seviciada e morta por um grupo de adolescentes - que "são miúdos, aquilo foi uma brincadeira que correu mal". Sem comentários!
Alguma coisa está mal nesta UE, quando os seus "cidadãos" não se apercebem de vantagens na união. Catalães, bascos e galegos fazem o possível por salientarem as suas identidades nacionais, mas não pretendem abandonar a "união espanhola". Os genebrinos pagam para os cantões mais pobres mas sabem bem o que lhes é vantajoso em ser suíços. E até a jardinesca figura sabe bem até onde levar os impropérios independentistas.
É claro que há uma diferença essencial: estas e muitas outras situações são históricas, assentes numa consciência colectiva de séculos, mas não deixam de traduzir uma noção sempre actual das vantagens práticas. A meu ver, as vantagens da UE são intangíveis para o comum dos mortais, que não tem biblioteca nem sabe nada de finanças.
Uma grande construção política tem de ser ensinada aos seus indivíduos? Há certamente um fosso entre essa construção e a consciência colectiva dela. Não é altura de desacelerar o alargamento inevitável desse fosso e garantir ao projecto europeu a sua verdadeira base de sustentação, o apoio dos povos? Ou a tal pedagogia continuará a ser exercida em fuga para a frente?
Para que não fiquem dúvidas: esta pergunta é feita por alguém que se sente profundamente europeísta.
2. José Vítor Malheiros tem uma coluna semanal que não perco. Na última, "Discutir na escola", escreve:
"O documento "Organização do ano lectivo de 2006/07" (disponível no site do Ministério da Educação num irritante PDF em "bitmap" que não permite copiar o texto) sugere que as aulas de substituição sejam dadas por outro professor do mesmo grupo com base no plano de aulas do professor titular. Mas o mesmo documento admite que, na impossibilidade de fazer isso, o período de aulas seja ocupado por "actividades de enriquecimento e complemento curricular".Também me parece ser muito difícil a substituição de um professor em falta por um da mesma disciplina, a dar continuidade ao programa. Que o substituto dê uma aula da sua competência específica não me parece fazer sentido. Restam as tais "actividades de enriquecimento e complemento curricular". Estou inteiramente de acordo com JVM no que ele escreve sobre a sua importância. Só não concordo, se percebi a sua ideia, com a necessidade de formação específica para tais actividades. A meu ver, elas só exigem coisas que não se ensinam: o gosto pelo despertar da inteligência dos alunos e uma sólida formação cultural. Vamos treinar professores a saberem ler o jornal e transmitirem aos alunos o interesse de um tema de actualidade?
Ora é possível e proveitoso transformar essas aulas (em vez de aulas curriculares de segunda) em aulas de debate de primeira. A prática é comum na escola anglo-saxónica, mas é boa e pode ser explorada. É evidente que, para fazer isto de forma séria, é indispensável que todos os professores recebam alguma formação - mas essa formação seria útil na sua actividade lectiva quotidiana. Isto permitiria proporcionar aos alunos um espaço simultaneamente de livre expressão e de lúdico confronto intelectual, de prática de exposição e discussão públicas e de exercício de cidadania. Essas aulas poderiam partir da discussão organizada de um tema da actualidade e poderiam criar um espaço pedagógico enriquecedor para professores e alunos."
P. S. (13:48) - da leitura do jornal de hoje: um "responsável judiciário" declarou, a respeito do caso Gisberta - a transsexual seviciada e morta por um grupo de adolescentes - que "são miúdos, aquilo foi uma brincadeira que correu mal". Sem comentários!
24 junho, 2006
Um poema para a botica
Já muito escrevi sobre o meu avô José da Costa, que, ainda há dias, em bonita cerimónia açoriana, retratei sentidamente, reconhecido à minha numerosa família por me ter designado como seu representante.O prof. José da Costa era um portento de rica multidimensionalidade, aliando uma espantosa cultura, seriedade e exigência intelectual, a um grande prazer de viver e a um finíssimo humor.
Nessa evocação solene do meu avô, terminei dizendo: "E chego ao fim, depois de toda esta sentida evocação do meu avô, com uma queixa: não nos devias ter deixado o desafio desse exemplo, porque, nos tempos de hoje, já não somos capazes de te seguir."
Chegou-me agora às mãos uma carta invulgar, escrita aos 80 anos, 6 meses e 10 dias, precisos. Estava acamado com bronquite, mas isto não o limitou em relação a esta invulgar encomenda à botica. "Clique" na imagem, para a ampliar. Obrigado ao farmacêutico que teve o bom gosto de guardar esta carta e agora a fazer chegar à família.
Nota importante: esta carta-poema cómico, coisa em que ele era excelente, com um longo poema heróico-satírico publicado, a "Saltapíada", foi escrita por um quase cego, com um glaucoma gravíssimo, que tinha de usar uma forte lupa para ler ou escrever, palavra a palavra, quase letra a letra.
E outra nota: há na carta uma palavra obscura, pelingrinas. Era, para os grandes amigos, a alcunha do meu avô. Entre muitas coisas que ele fazia primorosamente, estava o canto sacro, com especial gosto por Palestrina. Um colega, provavelmente fracote mental, fazia a corruptela para pelingrinas, que se colou ao meu avô. Já agora, sobre o canto, uma anedota verídica. O meu avô, muito religioso, cantava frequentemente "a cappela" em missas solenes na matriz de S. Sebastião. Um dia, duas beatas vieram agradecer-lhe, muito sensibilizadas, ele ter evocado o seu, delas, mano Eugénio, recém-falecido. Então o meu avô não tinha cantado o "Humani generis"?
17 junho, 2006
Casa da Música
Ryuishi Sakamoto veio dar concertos a Portugal, no Porto e em Lisboa. Que horror, abrir as nossas principais salas de concerto a tal músico menor! "Muito mal", protestou um professor da Universidade do Porto, em carta enviada à direcção da Casa da Música. Tal casa deve estar vedada a música menor e "contra o bom gosto". Inacreditável!
Que pena que eu tenho de não o poder ter ouvido. Sou fã de Sakamoto. Descobri-o tarde, em situação contraditória, ao ver o magnífico "Feliz Natal, Mr. Lawrence". Actor banal, mas excelente autor da banda sonora, situação reproduzida em "O Último Imperador". Desde então, comprei o que pude: O "Grande amor", as bandas sonoras de "O pequeno Buda" e "O último imperador", "Lost child", "Raw life", e o magnífico "Casa", um álbum de um japonês que assimila e reinterpreta a bossa nova e António Jobim.
Não vou falar mais de Sakamoto, mas dos preconceitos que temos em relação à música. Clássica e ligeira? Fui vítima disto. Na minha juventude, nada "abaixo" de Beethoven ou Mozart. Lamentavelmente, com isto, só muito mais tarde apreciei, por exemplo, a grande qualidade musical dos Beatles e fiquei em condições de me maravilhar com aquela magnífica melodia, tão curta e tão simples, dos "Encontros Imediatos do Terceiro Grau". É inferior a outras célebres melodias ou motivos curtos, como o da quadragésima de Mozart, o motivo tão simples do concerto de violino de Beethoven ou as célebres quatro, só quatro, notas da sua sétima, tan tan tan tannnn?
Vamos clarificar águas e afastar desta discussão a música pimba. Ficam 99% de pop/rock e o pequeno resto de música erudita, Já vou discutir este adjectivo. Esses 99% são difíceis de definir. Vou tentar uma definição pragmática. É a música que enche os festivais, que mais se vende, as que os jovens descarregam para o iPod. Mas que variedade, quando a ouvimos! O meu filho ofereceu-me há tempos um disco de uma banda pouco conhecida, de grandes amigos seus. Ouvi-a sem preconceito e a minha conclusão, conhecendo os jovens, foi "porque é que eles, com este enorme talento, não vão estudar música?". Isto é meu critério. Ouço coisas excelentes, mas com má técnica. Sem que a corrijam, não a considero grande música. Fico a aguardar.
Espaço estanque entre a "música clássica" e aquela que não sei como chamar? A minha colecção de CD, e até de velhinhos vinil que ainda não tive tempo de copiar, não é má. Mas ninguém me obriga a deitar para o lixo as minhas preciosidades das canções francesas, das canções de cabaret berlinense (Kurt Weil era clássico ou ligeiro?), de zarzuelas, até algumas cantadas por Plácido Domingo.
O que é isto de música clássica? Os lieder de Schubert foram escritos para serem cantados no café. Os Strauss compuseram música que eram ouvidas entre conversas nos parques de Viena e que hoje têm as honras do célebre concerto de Ano Novo. O jazz era música de bar e os espirituais ou gospell música de pequenas comunidades religiosas. E se, no fim de um concerto, o maestro resolver dar, como pequeno extra, o can-can de Offenbach, creio que tanto a audiência como os músicos se divertirão bastante.
Para terminar, uma provocação. Estou a comprar discos de um bom músico português das últimas décadas. Imaginam quem? António Variações!
Que pena que eu tenho de não o poder ter ouvido. Sou fã de Sakamoto. Descobri-o tarde, em situação contraditória, ao ver o magnífico "Feliz Natal, Mr. Lawrence". Actor banal, mas excelente autor da banda sonora, situação reproduzida em "O Último Imperador". Desde então, comprei o que pude: O "Grande amor", as bandas sonoras de "O pequeno Buda" e "O último imperador", "Lost child", "Raw life", e o magnífico "Casa", um álbum de um japonês que assimila e reinterpreta a bossa nova e António Jobim.
Não vou falar mais de Sakamoto, mas dos preconceitos que temos em relação à música. Clássica e ligeira? Fui vítima disto. Na minha juventude, nada "abaixo" de Beethoven ou Mozart. Lamentavelmente, com isto, só muito mais tarde apreciei, por exemplo, a grande qualidade musical dos Beatles e fiquei em condições de me maravilhar com aquela magnífica melodia, tão curta e tão simples, dos "Encontros Imediatos do Terceiro Grau". É inferior a outras célebres melodias ou motivos curtos, como o da quadragésima de Mozart, o motivo tão simples do concerto de violino de Beethoven ou as célebres quatro, só quatro, notas da sua sétima, tan tan tan tannnn?
Vamos clarificar águas e afastar desta discussão a música pimba. Ficam 99% de pop/rock e o pequeno resto de música erudita, Já vou discutir este adjectivo. Esses 99% são difíceis de definir. Vou tentar uma definição pragmática. É a música que enche os festivais, que mais se vende, as que os jovens descarregam para o iPod. Mas que variedade, quando a ouvimos! O meu filho ofereceu-me há tempos um disco de uma banda pouco conhecida, de grandes amigos seus. Ouvi-a sem preconceito e a minha conclusão, conhecendo os jovens, foi "porque é que eles, com este enorme talento, não vão estudar música?". Isto é meu critério. Ouço coisas excelentes, mas com má técnica. Sem que a corrijam, não a considero grande música. Fico a aguardar.
Espaço estanque entre a "música clássica" e aquela que não sei como chamar? A minha colecção de CD, e até de velhinhos vinil que ainda não tive tempo de copiar, não é má. Mas ninguém me obriga a deitar para o lixo as minhas preciosidades das canções francesas, das canções de cabaret berlinense (Kurt Weil era clássico ou ligeiro?), de zarzuelas, até algumas cantadas por Plácido Domingo.
O que é isto de música clássica? Os lieder de Schubert foram escritos para serem cantados no café. Os Strauss compuseram música que eram ouvidas entre conversas nos parques de Viena e que hoje têm as honras do célebre concerto de Ano Novo. O jazz era música de bar e os espirituais ou gospell música de pequenas comunidades religiosas. E se, no fim de um concerto, o maestro resolver dar, como pequeno extra, o can-can de Offenbach, creio que tanto a audiência como os músicos se divertirão bastante.
Para terminar, uma provocação. Estou a comprar discos de um bom músico português das últimas décadas. Imaginam quem? António Variações!
10 junho, 2006
O Código da Vinci
Escrever estas notas apenas uma vez por semana tem as suas vantagens. Vou acumulando diariamente uma lista de temas, depois escolho o que quero e não escrevo à pressão. Os escritos podem é perder oportunidade, como no caso de hoje. Já está esquecida a polémica sobre o Código da Vinci. Começa por ser muito significativo que a polémica, tardia, só tenha surgido em força com o filme e não com o livro, apesar de muito vendido. Tempos de menorização da leitura!
Não vi o filme, levando-me pelas muitas criticas negativas, mas li o livro. Claro que não como grande obra de literatura, mas com o mesmo interesse com que sempre li livros policiais, coisa menor mas relaxante – com pedido de desculpas a Patrícia Highsmith, Raymond Chandler e Simenon. Não gostam desta literatura? Também eu acho que aquilo está mal escrito (pelo menos na tradução portuguesa, ao nível da antiga colecção Vampiro), não há uma ideia que nos ensine qualquer coisa ou nos faça pensar e, no entanto, começada a primeira página, não houve minuto que não aproveitasse para devorar o livro. É um exemplo de como, muitas vezes, a técnica dá mais resultado do que a arte. Dan Brown tem uma técnica extraordinária para prender qualquer leitor, diria mesmo que para prender especialmente os leitores com alguma base cultural.
A Igreja católica reagiu, mesmo que em termos muito mais civilizados do que a polémica dos "cartoons" de Maomé. Reacção que, para mim, foi sinal de fraqueza. Para quem falava? Para os não crentes, não valia a pena; para os católicos, devia ter mais confiança na sua fé. Surpreendeu-me a atitude inteligente do Opus Dei português. Não são nada parvos, como se sabe.
Sobre tudo isto, não posso secundarizar um aspecto fundamental, o de um "espiritualismo" emergente ou reemergente, sempre sinal de insatisfação com os limites aparentes da racionalidade. E é curioso que sejam principalmente os não católicos a discutirem apaixonadamente se Cristo foi para a cama ou não, se havia apóstolos do sexo feminino e coisas do mesmo teor. Não consigo compreender bem o que é que isto interessa a quem não é crente. São coisas que deixo para os católicos. Reflicto sobre o cristianismo em termos civilizacionais, sobre a sua posição no mundo, mas só me interessam as suas posições com impacto político e social, como a moral sexual ou a bioética. O resto é a ganga dogmática da sua religião.
Vem a propósito um exemplo semelhante, o do Evangelho segundo Judas, coisa evidentemente gnóstica. Discutir o gnosticismo extravasa a religião e interessa-me. Mas melhor fariam muitos dos actuais "esotéricos" se estudassem um pouco. Entre muitas outras coisas, o gnosticismo é visceralmente antifeminino e anti-sensualidade. O que é que tem a ver com Madalena, como vi escrito?
Conheci ao longo da vida três períodos relativamente distintos em relação ao irracionalismo. Ao princípio, nos anos 60, era segmentado. Havia espíritas, astrólogos, ovnicrentes, tarotianos, rosacrucistas, etc., mas eram coisas isoladas. Nos anos 80, apareceu uma tendência sincrética de todas essas correntes, com afirmação vincadamente antirracionalista, talvez uma manifestação de um pós-modernismo nascente. O que vemos hoje é outra coisa. Como disse, parece-me uma busca de uma "nova atitude religiosa", mas não tradicional e com algum gosto por uma justificação racional pseudo-científica.
O novo esoterismo, à Dan Brown, é quanto baste, sem ser daquele que nos faz logo dizer "tolice", como os extra-terrestres nas aparições de Fátima. O secretismo refere-se a instituições que nos causam alguma interrogação mas que são reais, como o Opus Dei, a Maçonaria ou os arquivos secretos do Vaticano. Aproveitando-se do próprio secretismo dessas organizações, Dan Brown está à vontade para inventar o que quer, porque não temos informação para o contradizer.
Recordo-me, sem saber precisar, de ter lido qualquer coisa sobre "ética" da criação literária, como o não direito de aplicar a ficção a pessoas ou instituições reais. Em relação ao ensaio politico, social ou histórico, é óbvio; mas em relação à ficção, que toda a gente reconhece como tal? Parece-me caminho perigoso. Começa-se com estas limitações e acaba-se nas fogueiras de livros.
Em tudo há aspectos positivos. Disse-me ontem um aluno que, se não tivesse lido o Código da Vinci, nunca teria sabido o que é a série de Fibonacci.
Não vi o filme, levando-me pelas muitas criticas negativas, mas li o livro. Claro que não como grande obra de literatura, mas com o mesmo interesse com que sempre li livros policiais, coisa menor mas relaxante – com pedido de desculpas a Patrícia Highsmith, Raymond Chandler e Simenon. Não gostam desta literatura? Também eu acho que aquilo está mal escrito (pelo menos na tradução portuguesa, ao nível da antiga colecção Vampiro), não há uma ideia que nos ensine qualquer coisa ou nos faça pensar e, no entanto, começada a primeira página, não houve minuto que não aproveitasse para devorar o livro. É um exemplo de como, muitas vezes, a técnica dá mais resultado do que a arte. Dan Brown tem uma técnica extraordinária para prender qualquer leitor, diria mesmo que para prender especialmente os leitores com alguma base cultural.
A Igreja católica reagiu, mesmo que em termos muito mais civilizados do que a polémica dos "cartoons" de Maomé. Reacção que, para mim, foi sinal de fraqueza. Para quem falava? Para os não crentes, não valia a pena; para os católicos, devia ter mais confiança na sua fé. Surpreendeu-me a atitude inteligente do Opus Dei português. Não são nada parvos, como se sabe.
Sobre tudo isto, não posso secundarizar um aspecto fundamental, o de um "espiritualismo" emergente ou reemergente, sempre sinal de insatisfação com os limites aparentes da racionalidade. E é curioso que sejam principalmente os não católicos a discutirem apaixonadamente se Cristo foi para a cama ou não, se havia apóstolos do sexo feminino e coisas do mesmo teor. Não consigo compreender bem o que é que isto interessa a quem não é crente. São coisas que deixo para os católicos. Reflicto sobre o cristianismo em termos civilizacionais, sobre a sua posição no mundo, mas só me interessam as suas posições com impacto político e social, como a moral sexual ou a bioética. O resto é a ganga dogmática da sua religião.
Vem a propósito um exemplo semelhante, o do Evangelho segundo Judas, coisa evidentemente gnóstica. Discutir o gnosticismo extravasa a religião e interessa-me. Mas melhor fariam muitos dos actuais "esotéricos" se estudassem um pouco. Entre muitas outras coisas, o gnosticismo é visceralmente antifeminino e anti-sensualidade. O que é que tem a ver com Madalena, como vi escrito?
Conheci ao longo da vida três períodos relativamente distintos em relação ao irracionalismo. Ao princípio, nos anos 60, era segmentado. Havia espíritas, astrólogos, ovnicrentes, tarotianos, rosacrucistas, etc., mas eram coisas isoladas. Nos anos 80, apareceu uma tendência sincrética de todas essas correntes, com afirmação vincadamente antirracionalista, talvez uma manifestação de um pós-modernismo nascente. O que vemos hoje é outra coisa. Como disse, parece-me uma busca de uma "nova atitude religiosa", mas não tradicional e com algum gosto por uma justificação racional pseudo-científica.
O novo esoterismo, à Dan Brown, é quanto baste, sem ser daquele que nos faz logo dizer "tolice", como os extra-terrestres nas aparições de Fátima. O secretismo refere-se a instituições que nos causam alguma interrogação mas que são reais, como o Opus Dei, a Maçonaria ou os arquivos secretos do Vaticano. Aproveitando-se do próprio secretismo dessas organizações, Dan Brown está à vontade para inventar o que quer, porque não temos informação para o contradizer.
Recordo-me, sem saber precisar, de ter lido qualquer coisa sobre "ética" da criação literária, como o não direito de aplicar a ficção a pessoas ou instituições reais. Em relação ao ensaio politico, social ou histórico, é óbvio; mas em relação à ficção, que toda a gente reconhece como tal? Parece-me caminho perigoso. Começa-se com estas limitações e acaba-se nas fogueiras de livros.
Em tudo há aspectos positivos. Disse-me ontem um aluno que, se não tivesse lido o Código da Vinci, nunca teria sabido o que é a série de Fibonacci.
03 junho, 2006
Crime e castigo
Esta será, provavelmente, a nota mais polémica alguma vez aqui publicada. Vou falar da viagem do Papa à Polónia, em particular a Auschwitz-Birkenau. Despertou reacções opostas, entre os que, judeus incluídos, elogiaram a sua condenação explícita do Holocausto como uma monstruosidade e os que criticaram que ele tenha circunscrito essa monstruosidade a um "grupo de criminosos" que, pela demagogia e pelo terror, "abusou" do povo alemão "como instrumento da sua sede de destruição e de dominação".
É claro que esta discussão só emergiu por o Papa estar condicionado e em foco, em virtude da sua nacionalidade. Teoricamente, creio que não há razão para isto. Joseph Ratzinger era um cardeal alemão mas, a partir do momento em que passou a ser papa, não tem nacionalidade e não pode falar pelos alemães, como Kofi Annan não pode falar pelos nigerianos. São homens cuja pátria deve ser o mundo inteiro. Outra coisa é o Papa falar em nome da Igreja, e, neste caso, bem podia falar, finalmente, da responsabilidade da "diplomacia" de Pio XII em relação aos nazis.
Mas o que me interessa discutir é a questão da responsabilidade de um povo. Neste caso, o alemão, até nem é da minha especial simpatia, embora reconhecendo o que a cultura germânica deu de génios à humanidade, em todos os domínios. Qualquer juiz é treinado para avaliar a culpa e a responsabilidade individual. Os juízes de Nuremberga não tiveram qualquer dificuldade em condenar aquela colecção de monstros que vemos sentados no banco dos réus, até a rirem-se, assim como fizeram os juízes de Eichmann (que pena que também não Mengele!), Mas como se julga a culpa de um povo?
No caso alemão, até há muitos "indícios". Hitler foi eleito, já bem depois de publicar o Mein Kampf e de as suas SA se passearem pelas ruas em distúrbios. A resistência, praticamente limitada aos dois grandes partidos operários, foi massacrada sem que ninguém protestasse (lembram-se do célebre poema de Brecht?). A partir daí, foi vestigial, com a Capela Vermelha, com meia dúzia de resistentes no exterior, como Willy Brandt, e uma ou outra conspiração no interior, a mais conhecida das quais até com muitos aspectos marcantes de corporativismo militar. Saíam à rua multidões para vitoriar Hitler. Os alemães, na sua quase totalidade, aplaudiram um regime totalitário e criminoso, mas aqui deve-se ter cautela com o termo. Crime, para o homem comum, é matar ou roubar. Mas quantos alemães conheciam Auschwitz?
Agora é que me vou meter por caminhos apertados, pensando em Portugal. Quero deixar bem claro que me horroriza qualquer branqueamento do nosso fascismo. Começo logo por realçar que ainda uso o termo fascismo. É certo que com algumas características particulares, mas não tão particulares como se julga, quando se pensa apenas no nível quantitativo de monstruosidade da repressão. De facto, esse nível só se verificou na Alemanha e, de certa forma, em Espanha, bem como nos países ocupados pelo Japão (mas tenho dificuldade teórica em rotular de fascismo essa realidade tão distante da nossa cultura). O próprio fascismo original, italiano, foi um "mimo", se comparado com o alemão. De resto, os fascismos souberam cometer o grande crime de "genocídio moral e político" de milhões de pessoas, mais "recatadamente", como em Portugal, na Hungria, na Roménia, até no Brasil. Mas entendamo-nos bem: isto em nada diminui a responsabilidade criminosa desses regimes.
Ao longo de décadas, o fascismo português não foi matéria de responsabilidade nacional por agressão a outros povos, com excepção da exploração colonial. É questão interna, mas deixa de o ser com a guerra colonial. Tivemos Wiriamu, mas também incontáveis torturas e assassinatos pela Pide em África, para além das mortes que causámos em combate, da desculturação de populações inteiras transferidas para as aldeias estratégicas, do abafamento da cultura desses povos hoje nossos irmãos.
Mas é responsabilidade do povo português? Questão muito difícil. Eu bem gostaria de ver um presidente da República ir homenagear os mortos do PAIGC, do MPLA, da Frelimo e pedir perdão em nome do estado português, mas não obrigatoriamente do povo português.
No entanto, em relação a Portugal, também não vou automaticamente pela tese ratzingeriana do "bando de criminosos". Com o 25 de Abril, com o povo na rua (Lisboa e Porto, alguns milhares), é certo que muitos mais no magnífico 1º de Maio de 74, redimimo-nos das responsabilidades colectivas em relação ao fascismo.
Será que Delgado, como afirmam muitos, ganhou de facto as eleições de 1958? Tenho muitas dúvidas. Toda a gente que saía à rua a saudar o "venerando almirante" era obrigada? Todos os jovens da Mocidade Portuguesa eram uns oposicionistas precoces, ansiosos por se verem livres de coisas que até eram atraentes para jovens, como o campismo? Os milhares, é certo que poucos, activistas das CDEs e CEUDs de 1969 que percentagem eram da população? Mesmo no meio especial de elite que era a universidade, qual era a percentagem de votantes para as associações? E os milhões que iam à missa ouvir o padre rezar por Salazar pensavam que era uma instrumentalização dos católicos? Apoiavam Cerejeira ou apoiavam o bispo do Porto, o padre Mário da Lixa e o grupo do Rato? E os muitos milhares que foram fazer a guerra colonial estavam contra ela, ou apenas e legitimamente desgostosos com o afastamento da família e com os prejuízos profissionais?
Não me interpretem mal. O povo português não era apaixonadamente fascista, mas era-o, em boa parte, do ponto de vista do adormecimento, da passividade, da ignorância, afinal a grande "arte" do fascismo. Até pode ser considerado ofensivo para todos os resistentes dilui-los numa enorme massa de "antifascistas" por quem nunca dei.
No entanto, a concluir, regresso à minha questão essencial. Alguma coisa disto tudo justifica que o povo português, colectivamente, como nação, carregue com uma culpa colectiva pelos crimes do seu fascismo? Creio que não.
É claro que esta discussão só emergiu por o Papa estar condicionado e em foco, em virtude da sua nacionalidade. Teoricamente, creio que não há razão para isto. Joseph Ratzinger era um cardeal alemão mas, a partir do momento em que passou a ser papa, não tem nacionalidade e não pode falar pelos alemães, como Kofi Annan não pode falar pelos nigerianos. São homens cuja pátria deve ser o mundo inteiro. Outra coisa é o Papa falar em nome da Igreja, e, neste caso, bem podia falar, finalmente, da responsabilidade da "diplomacia" de Pio XII em relação aos nazis.
Mas o que me interessa discutir é a questão da responsabilidade de um povo. Neste caso, o alemão, até nem é da minha especial simpatia, embora reconhecendo o que a cultura germânica deu de génios à humanidade, em todos os domínios. Qualquer juiz é treinado para avaliar a culpa e a responsabilidade individual. Os juízes de Nuremberga não tiveram qualquer dificuldade em condenar aquela colecção de monstros que vemos sentados no banco dos réus, até a rirem-se, assim como fizeram os juízes de Eichmann (que pena que também não Mengele!), Mas como se julga a culpa de um povo?
No caso alemão, até há muitos "indícios". Hitler foi eleito, já bem depois de publicar o Mein Kampf e de as suas SA se passearem pelas ruas em distúrbios. A resistência, praticamente limitada aos dois grandes partidos operários, foi massacrada sem que ninguém protestasse (lembram-se do célebre poema de Brecht?). A partir daí, foi vestigial, com a Capela Vermelha, com meia dúzia de resistentes no exterior, como Willy Brandt, e uma ou outra conspiração no interior, a mais conhecida das quais até com muitos aspectos marcantes de corporativismo militar. Saíam à rua multidões para vitoriar Hitler. Os alemães, na sua quase totalidade, aplaudiram um regime totalitário e criminoso, mas aqui deve-se ter cautela com o termo. Crime, para o homem comum, é matar ou roubar. Mas quantos alemães conheciam Auschwitz?
Agora é que me vou meter por caminhos apertados, pensando em Portugal. Quero deixar bem claro que me horroriza qualquer branqueamento do nosso fascismo. Começo logo por realçar que ainda uso o termo fascismo. É certo que com algumas características particulares, mas não tão particulares como se julga, quando se pensa apenas no nível quantitativo de monstruosidade da repressão. De facto, esse nível só se verificou na Alemanha e, de certa forma, em Espanha, bem como nos países ocupados pelo Japão (mas tenho dificuldade teórica em rotular de fascismo essa realidade tão distante da nossa cultura). O próprio fascismo original, italiano, foi um "mimo", se comparado com o alemão. De resto, os fascismos souberam cometer o grande crime de "genocídio moral e político" de milhões de pessoas, mais "recatadamente", como em Portugal, na Hungria, na Roménia, até no Brasil. Mas entendamo-nos bem: isto em nada diminui a responsabilidade criminosa desses regimes.
Ao longo de décadas, o fascismo português não foi matéria de responsabilidade nacional por agressão a outros povos, com excepção da exploração colonial. É questão interna, mas deixa de o ser com a guerra colonial. Tivemos Wiriamu, mas também incontáveis torturas e assassinatos pela Pide em África, para além das mortes que causámos em combate, da desculturação de populações inteiras transferidas para as aldeias estratégicas, do abafamento da cultura desses povos hoje nossos irmãos.
Mas é responsabilidade do povo português? Questão muito difícil. Eu bem gostaria de ver um presidente da República ir homenagear os mortos do PAIGC, do MPLA, da Frelimo e pedir perdão em nome do estado português, mas não obrigatoriamente do povo português.
No entanto, em relação a Portugal, também não vou automaticamente pela tese ratzingeriana do "bando de criminosos". Com o 25 de Abril, com o povo na rua (Lisboa e Porto, alguns milhares), é certo que muitos mais no magnífico 1º de Maio de 74, redimimo-nos das responsabilidades colectivas em relação ao fascismo.
Será que Delgado, como afirmam muitos, ganhou de facto as eleições de 1958? Tenho muitas dúvidas. Toda a gente que saía à rua a saudar o "venerando almirante" era obrigada? Todos os jovens da Mocidade Portuguesa eram uns oposicionistas precoces, ansiosos por se verem livres de coisas que até eram atraentes para jovens, como o campismo? Os milhares, é certo que poucos, activistas das CDEs e CEUDs de 1969 que percentagem eram da população? Mesmo no meio especial de elite que era a universidade, qual era a percentagem de votantes para as associações? E os milhões que iam à missa ouvir o padre rezar por Salazar pensavam que era uma instrumentalização dos católicos? Apoiavam Cerejeira ou apoiavam o bispo do Porto, o padre Mário da Lixa e o grupo do Rato? E os muitos milhares que foram fazer a guerra colonial estavam contra ela, ou apenas e legitimamente desgostosos com o afastamento da família e com os prejuízos profissionais?
Não me interpretem mal. O povo português não era apaixonadamente fascista, mas era-o, em boa parte, do ponto de vista do adormecimento, da passividade, da ignorância, afinal a grande "arte" do fascismo. Até pode ser considerado ofensivo para todos os resistentes dilui-los numa enorme massa de "antifascistas" por quem nunca dei.
No entanto, a concluir, regresso à minha questão essencial. Alguma coisa disto tudo justifica que o povo português, colectivamente, como nação, carregue com uma culpa colectiva pelos crimes do seu fascismo? Creio que não.
31 maio, 2006
Os salários da função pública
Foi manchete há alguns dias: "os salários na função pública portuguesa são 50% superiores aos privados". Há muito tempo que não lia título tão cretino. Mas não terá entrado logo na cabeça de milhares de leitores? Não vai logo ao encontro da ideia ventilada de que os funcionários públicos são privilegiados? Começo por esclarecer que só fui funcionário público durante curtos quatro anos da minha vida, o que nem chega para os aproveitar para a reforma.
Muito se fala da nossa "incapacidade" para a matemática. O que há é uma pasmosa inumeracia na nossa educação. Como falamos de jornalistas, tive curiosidade em ir ver o que são os nossos cursos de comunicação social. Alguns não apresentam os currículos. Dos que pude ver, sete, só um inclui a estatística (lá tenho sempre de aterrar na Madeira!). Não é importante para a formação dos jornalistas e para a sua critica a coisas como esta notícia ou as sondagens eleitorais? Ou para valorizar as oscilações do Psi-20, os "rankings" das escolas, etc. Já agora, também a maioria dos cursos despreza o português, a história e a geografia, em relação a coisas muito bonitas, como a teoria da comunicação, a semiótica, a psicossociologia da comunicação, o marketing político (se calhar o Carrilho tem alguma razão), etc. Nos EUA, os jornalistas são em maioria, coitados, simples bacharéis em humanidades! Mas sabem escrever e ter uma visão critica, que não depende do seu conhecimento da teoria da comunicação. Entre nós, as universidades continuam a "gozar com o pagode".
E nem falo do correlacionado cálculo de probabilidades, tão essencial na nossa vida corrente e que surpreende sempre a minha gestora de conta quando eu tiro a calculadora antes de aceitar uma sua proposta de investimento. Ou quando peço ao meu médico para chegarmos a uma conclusão final de probabilidade de efeitos e custos, em relação a uma determinada terapia. Imaginam quanta gente instruída já me respondeu que é igualmente provável, no totobola, acertar em todos os jogos e errar todos os jogos? É um teste que me diverte sempre. Já agora, desafio a comentários sobre este problema tão simples.
Não vou transformar esta nota em lição de estatística elementar, mas vou lembrar uma regra básica: uma média não significa nada, se não vier acompanhada pelo desvio padrão, com o que facilmente se calcula o intervalo de confiança. Vou dar um exemplo. No meu último exame, a média foi de 14. Noutra disciplina do meu colega X a média foi de 12. Conclusão jornalística: JVC é melhor professor ou então menos exigente do que X. Nada disto. O meu desvio padrão foi de 3 e, para uma probabilidade de 95%, o que é preciso comparar é o meu intervalo de confiança que é, grosso modo, de 14±6. Se ele se sobrepuser, mesmo que minimamente ao do meu colega X, nenhuma conclusão é possível.
Lembram-se de uma velha piada de um humorista que agora não recordo? "A estatística serve para demonstrar que se eu comer um frango e tu ficares em jejum, cada um se regalou com meio frango". Neste caso, o desvio padrão é igual à média, 0,5, o que significa que o intervalo de confiança dessa média está entre -0,5 e +1,5. Tentem lá fazer estatística com isto!
Voltando à notícia, logo uma coisa estranha que devia logo ter alertado os jornalistas, em simples termos de sentido critico, quando se vê a imagem que a acompanha. Ordenados pela relação entre salário médio da função pública e da actividade privada, estamos à cabeça, progredindo a série do Eurostat, para baixo, de acordo com a ideia que temos da riqueza e do desenvolvimento dos vários países europeus. Na cauda, estão os pobrezinhos da Suécia e do Reino Unido, com 101, da Finlândia, com 94, e do Luxemburgo, com 93. Tenho pena dos seus funcionários públicos, que ganham tão mal! Ou são os outros seus trabalhadores que, em média, ganham muito mais do que os nossos?
Sem entrar em questões técnicas, é preciso começar por ter em conta a distorção do que chamamos de população normal, ou, se quiserem saber o termo matemático, gaussiana. Tomemos como exemplo a altura de uma população. Calculamos a média. Em princípio, porque a população é homogénea, o que fica abaixo da média é sensivelmente igual ao que fica acima da média. Mas a população dos salários é assimétrica. Há muito mais abaixo da média (trabalhadores com menores qualificações) do que fica acima (quadros superiores). Esta assimetria é diferente na função pública e na actividade privada. Na primeira, pesam muito os administrativos intermédios e os técnicos e quadros intermédios qualificados. Na privada, pesam os infelizes milhares de operários e serventes da construção civil, com salário mínimo.
Nestas distribuições assimétricas, é muito útil decompor a amostra. Neste caso, por sectores sócio-económicos. Gostava de saber qual é a tal relação só para o grande contingente dos funcionários intermédios, administrativos e de actividade técnica reduzida. Palpita-me que é de cerca de 1. Mas gostava muito mais de saber se os quadros superiores e dirigentes da função pública ganham vez e meia a mais do que os colegas da privada!
Muito se fala da nossa "incapacidade" para a matemática. O que há é uma pasmosa inumeracia na nossa educação. Como falamos de jornalistas, tive curiosidade em ir ver o que são os nossos cursos de comunicação social. Alguns não apresentam os currículos. Dos que pude ver, sete, só um inclui a estatística (lá tenho sempre de aterrar na Madeira!). Não é importante para a formação dos jornalistas e para a sua critica a coisas como esta notícia ou as sondagens eleitorais? Ou para valorizar as oscilações do Psi-20, os "rankings" das escolas, etc. Já agora, também a maioria dos cursos despreza o português, a história e a geografia, em relação a coisas muito bonitas, como a teoria da comunicação, a semiótica, a psicossociologia da comunicação, o marketing político (se calhar o Carrilho tem alguma razão), etc. Nos EUA, os jornalistas são em maioria, coitados, simples bacharéis em humanidades! Mas sabem escrever e ter uma visão critica, que não depende do seu conhecimento da teoria da comunicação. Entre nós, as universidades continuam a "gozar com o pagode".
E nem falo do correlacionado cálculo de probabilidades, tão essencial na nossa vida corrente e que surpreende sempre a minha gestora de conta quando eu tiro a calculadora antes de aceitar uma sua proposta de investimento. Ou quando peço ao meu médico para chegarmos a uma conclusão final de probabilidade de efeitos e custos, em relação a uma determinada terapia. Imaginam quanta gente instruída já me respondeu que é igualmente provável, no totobola, acertar em todos os jogos e errar todos os jogos? É um teste que me diverte sempre. Já agora, desafio a comentários sobre este problema tão simples.
Não vou transformar esta nota em lição de estatística elementar, mas vou lembrar uma regra básica: uma média não significa nada, se não vier acompanhada pelo desvio padrão, com o que facilmente se calcula o intervalo de confiança. Vou dar um exemplo. No meu último exame, a média foi de 14. Noutra disciplina do meu colega X a média foi de 12. Conclusão jornalística: JVC é melhor professor ou então menos exigente do que X. Nada disto. O meu desvio padrão foi de 3 e, para uma probabilidade de 95%, o que é preciso comparar é o meu intervalo de confiança que é, grosso modo, de 14±6. Se ele se sobrepuser, mesmo que minimamente ao do meu colega X, nenhuma conclusão é possível.
Lembram-se de uma velha piada de um humorista que agora não recordo? "A estatística serve para demonstrar que se eu comer um frango e tu ficares em jejum, cada um se regalou com meio frango". Neste caso, o desvio padrão é igual à média, 0,5, o que significa que o intervalo de confiança dessa média está entre -0,5 e +1,5. Tentem lá fazer estatística com isto!
Voltando à notícia, logo uma coisa estranha que devia logo ter alertado os jornalistas, em simples termos de sentido critico, quando se vê a imagem que a acompanha. Ordenados pela relação entre salário médio da função pública e da actividade privada, estamos à cabeça, progredindo a série do Eurostat, para baixo, de acordo com a ideia que temos da riqueza e do desenvolvimento dos vários países europeus. Na cauda, estão os pobrezinhos da Suécia e do Reino Unido, com 101, da Finlândia, com 94, e do Luxemburgo, com 93. Tenho pena dos seus funcionários públicos, que ganham tão mal! Ou são os outros seus trabalhadores que, em média, ganham muito mais do que os nossos?
Sem entrar em questões técnicas, é preciso começar por ter em conta a distorção do que chamamos de população normal, ou, se quiserem saber o termo matemático, gaussiana. Tomemos como exemplo a altura de uma população. Calculamos a média. Em princípio, porque a população é homogénea, o que fica abaixo da média é sensivelmente igual ao que fica acima da média. Mas a população dos salários é assimétrica. Há muito mais abaixo da média (trabalhadores com menores qualificações) do que fica acima (quadros superiores). Esta assimetria é diferente na função pública e na actividade privada. Na primeira, pesam muito os administrativos intermédios e os técnicos e quadros intermédios qualificados. Na privada, pesam os infelizes milhares de operários e serventes da construção civil, com salário mínimo.
Nestas distribuições assimétricas, é muito útil decompor a amostra. Neste caso, por sectores sócio-económicos. Gostava de saber qual é a tal relação só para o grande contingente dos funcionários intermédios, administrativos e de actividade técnica reduzida. Palpita-me que é de cerca de 1. Mas gostava muito mais de saber se os quadros superiores e dirigentes da função pública ganham vez e meia a mais do que os colegas da privada!
27 maio, 2006
A lei da RMA
Finalmente, vamos ter uma lei da reprodução medicamente assistida (RMA). Era uma lacuna clamorosa, ao fim de tantos anos de prática da RMA em Portugal. Por um lado, parece-me óbvio que a RMA coloca questões éticas que não podem ficar ao critério dos médicos e das instituições. Por outro lado, a falta de lei pode, perversamente, ter efeitos mais constritivos do que uma lei até limitadora, porque os médicos e outros profissionais, sem orientação legal, podem ser tentados a uma auto-limitação defensiva.
Não conheço a lei e vou confiar no que tem sido escrito na imprensa. Uma lei deste tipo deve ser o mais consensual possível. É pena que, apesar de o PSD ter visto contempladas as suas objecções, tenha acabado por votar contra.
É neste sentido que aceito bem as limitações, que me desagradam, à aplicação da RMA. Já outro aspecto muito significativo não me parece ter sido motivado por divergências éticas e traduz provavelmente um certo atavismo. Trata-se da assimetria na aceitação de dadores. Posso compreender que a prevalência do psico-social sobre o biológico leve à rejeição da hipótese de doação dupla e que um dos gâmetas tenha de ser de um dos membros do casal (não falo em sentido legal). Mas não compreendo porque é que só pode ser admitida a doação de esperma e não a de óvulos a fecundar com o esperma do parceiro. Não li também qualquer referência à idade máxima para a RMA. Não é despiciendo, quando já lemos notícias de RMA em mulheres de mais de 60 anos.
A minha maior reserva vai para a impossibilidade de RMA em mulheres sós ou em vida lésbica, embora aceite ser um preço para a possibilidade de aprovação da lei. Tenho até uma posição pragmática, porque é uma inferiorização em relação a uma situação perfeitamente natural. Nada impede uma mulher nestas condições de engravidar, se puder, por meios naturais. Pode é não ser muito agradável para uma lésbica. A lei não devia impedir, no caso da RMA, o que pode ser obtido livremente por via natural. Ficam em desvantagem injusta as mulheres inférteis que não o podem fazer.
Um aspecto positivo desta lei, de grandes implicações para muitas outras questões, como o aborto, é a admissão da ideia de embriões inviáveis, que podem ser usados para investigação médica. Assim sendo, não me parece continuar a haver qualquer justificação para o atafulhamento de congeladores com embriões já com muitos anos. Por outro lado, e mais importante, é uma machadada num princípio extremo de respeito pela "vida humana" desde a fecundação. A questão do aborto vai ganhar muito com este precedente legal.
Finalmente, é notável que, desta vez, a AR tenha assumido as suas responsabilidades perante uma questão que suscitou uma petição com um número significativo de assinaturas. Sou adepto do referendo em questões de formulação simples e compreensível e sem grandes problemas técnicos. Parece-me evidente que, nestes termos, a RMA não é referendável.
Não conheço a lei e vou confiar no que tem sido escrito na imprensa. Uma lei deste tipo deve ser o mais consensual possível. É pena que, apesar de o PSD ter visto contempladas as suas objecções, tenha acabado por votar contra.
É neste sentido que aceito bem as limitações, que me desagradam, à aplicação da RMA. Já outro aspecto muito significativo não me parece ter sido motivado por divergências éticas e traduz provavelmente um certo atavismo. Trata-se da assimetria na aceitação de dadores. Posso compreender que a prevalência do psico-social sobre o biológico leve à rejeição da hipótese de doação dupla e que um dos gâmetas tenha de ser de um dos membros do casal (não falo em sentido legal). Mas não compreendo porque é que só pode ser admitida a doação de esperma e não a de óvulos a fecundar com o esperma do parceiro. Não li também qualquer referência à idade máxima para a RMA. Não é despiciendo, quando já lemos notícias de RMA em mulheres de mais de 60 anos.
A minha maior reserva vai para a impossibilidade de RMA em mulheres sós ou em vida lésbica, embora aceite ser um preço para a possibilidade de aprovação da lei. Tenho até uma posição pragmática, porque é uma inferiorização em relação a uma situação perfeitamente natural. Nada impede uma mulher nestas condições de engravidar, se puder, por meios naturais. Pode é não ser muito agradável para uma lésbica. A lei não devia impedir, no caso da RMA, o que pode ser obtido livremente por via natural. Ficam em desvantagem injusta as mulheres inférteis que não o podem fazer.
Um aspecto positivo desta lei, de grandes implicações para muitas outras questões, como o aborto, é a admissão da ideia de embriões inviáveis, que podem ser usados para investigação médica. Assim sendo, não me parece continuar a haver qualquer justificação para o atafulhamento de congeladores com embriões já com muitos anos. Por outro lado, e mais importante, é uma machadada num princípio extremo de respeito pela "vida humana" desde a fecundação. A questão do aborto vai ganhar muito com este precedente legal.
Finalmente, é notável que, desta vez, a AR tenha assumido as suas responsabilidades perante uma questão que suscitou uma petição com um número significativo de assinaturas. Sou adepto do referendo em questões de formulação simples e compreensível e sem grandes problemas técnicos. Parece-me evidente que, nestes termos, a RMA não é referendável.
20 maio, 2006
Leituras bíblicas
Missa é coisa própria dos católicos. Mas muitas vezes os não crentes são confrontados com elas: um casamento, o baptizado de um neto, uma missa de corpo presente. Nestes casos, deixam de ser apenas um acontecimento religioso e reservado, são actos de homenagem. É claro que um não crente não tem de saber participar, assiste com compostura e com respeito. Alguns padres é que podem não saber isto. Há anos, assisti à missa de corpo presente de um familiar muito querido. Obviamente, até por não saber, não disse as orações e não me benzi. O padre interrompeu a missa para dizer que quem não soubesse seguir uma missa devia abandoná-la.
Felizmente, tenho duas histórias pessoais em contrário, com padres por quem tenho hoje grande estima.
Os meus pais casaram-se com toda a modéstia dos tempos difíceis de S. Jorge, Açores, em plena guerra. A minha mãe nem um decente vestido de noiva conseguiu comprar. O seu grande gosto sempre foi compensar isto com uma grande festa, também religiosa como eles, das suas bodas de ouro. Todos os três filhos se empenharam ao máximo. Felizmente, a minha mãe sobreviveu por largos anos mas, para o meu pai, falecido pouco depois, deve ter sido a sua última ocasião feliz.
Hoje, descubro no espólio da minha mãe, com comoção, uma carta de ambos dirigida a mim e nunca entregue, sobre esse acontecimento, em que manifestam um agradecimento escusado por uma minha atitude nessa ocasião. Nada de especial. Manifestaram ao filho mais velho, não crente, o gosto por que fizesse a leitura da missa. Para mim foi um orgulho. Não crente, mas a religião é um componente da minha educação. O padre, católico progressista como eram os meus pais, dizendo-me que eu baptizado era filho da Igreja, ficou muito satisfeito por eu dar esse prazer aos meus pais, como se eu pudesse tê-lo negado. Concordei logo com a escolha dos meus pais, da primeira carta de João, sobre o amor e a sua transcendência.
Muitos anos depois, lembrei-me disto na missa de corpo presente da minha mãe. Então, fui eu que me dirigi ao padre, por minha iniciativa. Com a sua total concordância, voltei a participar, eu não crente, numa liturgia católica. Não gostei do texto do dia e perguntei ao padre se podia escolher outro, um texto do Livro da Sabedoria, o mais adequado à minha mãe. Desta vez, a escolha foi minha e o padre João, que conhecia bem a minha mãe, ficou muito satisfeito com essa escolha, feita por um não católico.
Felizmente, tenho duas histórias pessoais em contrário, com padres por quem tenho hoje grande estima.
Os meus pais casaram-se com toda a modéstia dos tempos difíceis de S. Jorge, Açores, em plena guerra. A minha mãe nem um decente vestido de noiva conseguiu comprar. O seu grande gosto sempre foi compensar isto com uma grande festa, também religiosa como eles, das suas bodas de ouro. Todos os três filhos se empenharam ao máximo. Felizmente, a minha mãe sobreviveu por largos anos mas, para o meu pai, falecido pouco depois, deve ter sido a sua última ocasião feliz.
Hoje, descubro no espólio da minha mãe, com comoção, uma carta de ambos dirigida a mim e nunca entregue, sobre esse acontecimento, em que manifestam um agradecimento escusado por uma minha atitude nessa ocasião. Nada de especial. Manifestaram ao filho mais velho, não crente, o gosto por que fizesse a leitura da missa. Para mim foi um orgulho. Não crente, mas a religião é um componente da minha educação. O padre, católico progressista como eram os meus pais, dizendo-me que eu baptizado era filho da Igreja, ficou muito satisfeito por eu dar esse prazer aos meus pais, como se eu pudesse tê-lo negado. Concordei logo com a escolha dos meus pais, da primeira carta de João, sobre o amor e a sua transcendência.
Muitos anos depois, lembrei-me disto na missa de corpo presente da minha mãe. Então, fui eu que me dirigi ao padre, por minha iniciativa. Com a sua total concordância, voltei a participar, eu não crente, numa liturgia católica. Não gostei do texto do dia e perguntei ao padre se podia escolher outro, um texto do Livro da Sabedoria, o mais adequado à minha mãe. Desta vez, a escolha foi minha e o padre João, que conhecia bem a minha mãe, ficou muito satisfeito com essa escolha, feita por um não católico.
13 maio, 2006
Antes era melhor?
Volto a textos que apareceram na lista de correio electrónico do Pedro Aniceto, e que muito o devem ter agoniado no seu dever de as publicar.
1. "Em Portugal só houve um fascismo light"
A esta, o PA não resistiu e perguntou: qual é a sua régua para medir fascismos? Esqueçamo-nos, por exercício de discussão, do componente holocáustico do nazismo. Fica a haver grande diferença? Muito mais mortos de socialistas e comunistas nos campos de concentração hitlerianos, mas a partir de quantos mortos é que começa o fascismo? Para mim, de um único. O fascismo italiano até não foi tão assassino, não se compara aos milhares de mortos pela repressão franquista. Em Portugal, algumas dezenas: os mortos à fome e à doença do Tarrafal, Alex e Dias Coelho baleados em plena rua. E, já agora, o preso incógnito em Angola, na minha unidade de fuzileiros, entregue à Pide e cujos gritos só me permitiram o sono ao se extinguirem, não tendo eu compreendido logo que era porque o homem tinha morrido. E aqueles de cujo nome não me lembro agora, que se "suicidaram" lançados do terceiro andar da sede da Pide, de que o seu proprietário, o pobre "rei", quer fazer um hotel de luxo?
E as torturas? Afinal, hoje banais em Guantánamo, a privação do sono e a "estátua". Sabem o que isto é? Também há uma régua com medida para a tortura? Há torturas aceitáveis e inaceitáveis? E por onde andam hoje, neste pais de brandos costumes, São José Lopes, Sachetti, Passos, Cardoso e muitos mais? Talvez tenham filhos e sobrinhos a quem o 25 de Abril tenha dado a liberdade de poderem – e muito bem – despejar alarvidades na net, desde que haja sempre quem lhes responda, sem se acomodar com o pântano ideológico actual.
Também leio as desculpas ao salazarismo, como não-fascismo, por falta da encenação politica. Estupidez! Claro que a tivemos, com toda a encenação do império, mas também, nos anos 40, com as típicas paradas, Marcelo Caetano fardado à fascista, a Legião e a Mocidade Portuguesa, a exposição dos centenários (com a cumplicidade de "futuristas" como Almada). Se são filatelistas, vão ver os célebres selos "Tudo pela nação", desenhados pelo Almada. A diferença foi que tudo isto desapareceu nos perdedores, Alemanha e Itália, e Salazar compreendeu que os tempos tinham mudado. Mas, ainda em 1960, as comemorações henriquinas trouxeram a Portugal, num acampamento no Jamor e com muitos pagodes festivos, a nata das juventudes fascistas europeias.
Concluindo esta parte, vou ao essencial: fascismo é a violência contra os opositores mas também toda a castração da alma de um povo. Censura rigorosa e até estúpida, proibição da venda de livros que fazem parte do património cultural da humanidade, indoutrinação pela comunicação social oficial, demissões da nata dos professores intelectuais, proibição de exercício profissional de jovens licenciados, etc., etc. Isto é fascismo light?!
2. "Antes vivia-se melhor"
Esta é uma versão mais envergonhada do neo-salazarismo, que prefere omitir a politica, mas que ainda é mais facilmente desmontável, porque há números.
Vou falar só dos anos 60. Vivia-se muito bem! As pessoas demonstravam-no com os pés: engrossavam os novos bairros de lata de Lisboa e davam o salto para a França e a Alemanha. É claro que vivia muito bem, no obscurantismo, quem ia pela cartilha rural e de pároco de aldeia de Salazar: "se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida", "Deus, Pátria e família"; "o vinho dá de comer a um milhão de portugueses". Toda a gente da minha geração tinha estas coisas e muitos mais afixadas nas paredes dos nossos liceus.
Lia eu isto, no meu liceu, porque morava a dois passos. Mas lembro-me dos meus amigos residentes a 20 km da cidade que tinham que lá se hospedar porque, à hora do fim das aulas, já não havia camioneta para o Pico da Pedra. Neo-salazaristas de hoje, bem gostava de vos mandar para uma viagem ao passado!
E isto era para quem andava no liceu, obrigatoriamente só nas capitais de distrito. O resto, já esqueceram. Porque é que as campanhas rurais, depois do 25 de Abril, se centraram muito nas infra-estruturas básicas? Porque grande parte do nosso povo vivia em condições inimagináveis (que valia a pena dar a experimentar, em estilo "Quinta das celebridades", aos actuais escribas): sem electricidade, sem esgotos, sem telefone, água só do poço, caminhos de lameiro.
Os possíveis pais licenciados desses escribas provavelmente lhes dizem que, no seu tempo, tinham emprego assegurado. É verdade, mas esquecem-se de que, no meu tempo, esses estudantes universitários não ultrapassavam 20.000, hoje são quase 400.000. Isto chama-se democracia, também económica e social, e é por isto que o 25 de Abril ainda está no coração de muita gente.
Muito mais me apetecia escrever, mas não vale a pena gastar mais cera com tão ruins defuntos.
1. "Em Portugal só houve um fascismo light"
A esta, o PA não resistiu e perguntou: qual é a sua régua para medir fascismos? Esqueçamo-nos, por exercício de discussão, do componente holocáustico do nazismo. Fica a haver grande diferença? Muito mais mortos de socialistas e comunistas nos campos de concentração hitlerianos, mas a partir de quantos mortos é que começa o fascismo? Para mim, de um único. O fascismo italiano até não foi tão assassino, não se compara aos milhares de mortos pela repressão franquista. Em Portugal, algumas dezenas: os mortos à fome e à doença do Tarrafal, Alex e Dias Coelho baleados em plena rua. E, já agora, o preso incógnito em Angola, na minha unidade de fuzileiros, entregue à Pide e cujos gritos só me permitiram o sono ao se extinguirem, não tendo eu compreendido logo que era porque o homem tinha morrido. E aqueles de cujo nome não me lembro agora, que se "suicidaram" lançados do terceiro andar da sede da Pide, de que o seu proprietário, o pobre "rei", quer fazer um hotel de luxo?
E as torturas? Afinal, hoje banais em Guantánamo, a privação do sono e a "estátua". Sabem o que isto é? Também há uma régua com medida para a tortura? Há torturas aceitáveis e inaceitáveis? E por onde andam hoje, neste pais de brandos costumes, São José Lopes, Sachetti, Passos, Cardoso e muitos mais? Talvez tenham filhos e sobrinhos a quem o 25 de Abril tenha dado a liberdade de poderem – e muito bem – despejar alarvidades na net, desde que haja sempre quem lhes responda, sem se acomodar com o pântano ideológico actual.
Também leio as desculpas ao salazarismo, como não-fascismo, por falta da encenação politica. Estupidez! Claro que a tivemos, com toda a encenação do império, mas também, nos anos 40, com as típicas paradas, Marcelo Caetano fardado à fascista, a Legião e a Mocidade Portuguesa, a exposição dos centenários (com a cumplicidade de "futuristas" como Almada). Se são filatelistas, vão ver os célebres selos "Tudo pela nação", desenhados pelo Almada. A diferença foi que tudo isto desapareceu nos perdedores, Alemanha e Itália, e Salazar compreendeu que os tempos tinham mudado. Mas, ainda em 1960, as comemorações henriquinas trouxeram a Portugal, num acampamento no Jamor e com muitos pagodes festivos, a nata das juventudes fascistas europeias.
Concluindo esta parte, vou ao essencial: fascismo é a violência contra os opositores mas também toda a castração da alma de um povo. Censura rigorosa e até estúpida, proibição da venda de livros que fazem parte do património cultural da humanidade, indoutrinação pela comunicação social oficial, demissões da nata dos professores intelectuais, proibição de exercício profissional de jovens licenciados, etc., etc. Isto é fascismo light?!
2. "Antes vivia-se melhor"
Esta é uma versão mais envergonhada do neo-salazarismo, que prefere omitir a politica, mas que ainda é mais facilmente desmontável, porque há números.
Vou falar só dos anos 60. Vivia-se muito bem! As pessoas demonstravam-no com os pés: engrossavam os novos bairros de lata de Lisboa e davam o salto para a França e a Alemanha. É claro que vivia muito bem, no obscurantismo, quem ia pela cartilha rural e de pároco de aldeia de Salazar: "se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida", "Deus, Pátria e família"; "o vinho dá de comer a um milhão de portugueses". Toda a gente da minha geração tinha estas coisas e muitos mais afixadas nas paredes dos nossos liceus.
Lia eu isto, no meu liceu, porque morava a dois passos. Mas lembro-me dos meus amigos residentes a 20 km da cidade que tinham que lá se hospedar porque, à hora do fim das aulas, já não havia camioneta para o Pico da Pedra. Neo-salazaristas de hoje, bem gostava de vos mandar para uma viagem ao passado!
E isto era para quem andava no liceu, obrigatoriamente só nas capitais de distrito. O resto, já esqueceram. Porque é que as campanhas rurais, depois do 25 de Abril, se centraram muito nas infra-estruturas básicas? Porque grande parte do nosso povo vivia em condições inimagináveis (que valia a pena dar a experimentar, em estilo "Quinta das celebridades", aos actuais escribas): sem electricidade, sem esgotos, sem telefone, água só do poço, caminhos de lameiro.
Os possíveis pais licenciados desses escribas provavelmente lhes dizem que, no seu tempo, tinham emprego assegurado. É verdade, mas esquecem-se de que, no meu tempo, esses estudantes universitários não ultrapassavam 20.000, hoje são quase 400.000. Isto chama-se democracia, também económica e social, e é por isto que o 25 de Abril ainda está no coração de muita gente.
Muito mais me apetecia escrever, mas não vale a pena gastar mais cera com tão ruins defuntos.
07 maio, 2006
E outra nota de fim de semana
Um artigo de Jorge Braga de Macedo (JBM) sobre Galbraith, no Expresso, fez-me lembrar uma velha conversa do agudíssimo Corino de Andrade.
"Na ciência e na vida académica, continuamos os comerciantes do sec. XVI [JVC: eu acrescentaria, e o Oliveira de Figueira do Tintim]. Vamos a um congresso e trazemos uma ideia e um novo conhecido sem significado. Regressamos e usamos isto internamente para efeitos curriculares. Voltamos a outro congresso, com efeito multiplicador, em que essa informação anterior e esse contacto nos granjeiam outros, e assim sucessivamente".O artigo de JBM é muito à nossa moda. É uma evocação sobre a importância da obra de Galbraith, mas misturada com recordações das suas amizades, das viagens conjuntas, da mulher de Galbraith, de algumas coisas que dão a entender que se trata de confidências a um amigo português muito especial. Em Portugal, não é necessário ser-se alguém, mas amigo de alguém, JBM de Galbraigth, o inefável Espada de Karl Popper. Não se vale por si mas pelos amigos, mesmo que só auto-apregoados e de impossível confirmação.
06 maio, 2006
Notas soltas
As notas de hoje ocorrem-me pela leitura do Público de ontem.
1. A crise no Irão está a originar artigos, notícias e colunas dando uma no cravo e outra na ferradura. Insiste-se na necessidade de conversações bilaterais, em posições e sanções da ONU. Mas, pelo meio, vêm as ameaças de intervenção militar. Começo por deixar claro que não simpatizo nada com o regime iraniano e que não vou na conversa, à PCP ou BE, de que o programa nuclear "pacífico" do Irão não representa nenhuma ameaça à paz mundial. Mas lembro o Iraque. Ninguém aprendeu? E, comparado, o Irão, militarmente, não é pêra doce.
A acompanhar uma notícia, o jornal publica uma infografia de origem americana com alvos, armas, aviões. É para, subliminarmente, irem preparando os leitores?
2. Foi lançado um livro de Livro de Maria Inácia Rezola que desmonta algumas ideias feitas sobre o 25 de Abril, nomeadamente sobre a "prepotência" do Conselho da Revolução. Há uma passagem da notícia que me interessou:
Daí também a prudência do PCP no dia 25 de Novembro.
3. Na última página, vem a notícia de uma senhora de 63 anos que está grávida, por inseminação artificial, depois de um tratamento que lhe repôs (?) a sua fisiologia pré-menopáusica. É por estas e outras que hoje há tanta desconfiança pública em relação às magníficas conquistas da biomedicina reprodutiva. São médicos e cientistas, frequentemente, os piores malfeitores à sua ciência e arte. Não brinquem com a natureza!
4. Ainda na última página, fez-me pensar a crónica habitual de Vasco Pulido Valente. Como de costume, niilista, derrotista, sobranceiro. Mas não será que este retrato secular de Portugal que ele e outros (Barreto, Mónica, Bonifácio, etc.) transmitem não será visto, daqui a cem anos, como hoje lemos os escritos da geração de 70? Em parte sim. Lamento prensar que, nesse futuro, talvez ainda se continuem a reconhecer como reais, com a mesma actualidade, Gouvarinhos, Acácios, Pachecos, Abranhos, Cavalões, até (agora mais na moda) Salcedes, acrescentados dos seus sucessores dos tempos que correm. Também os iluminados que não lutam e que são objectivamente cúmplices, Carlos Eduardo, João da Ega, Fradique, Craft (mas, enfim, este era estrangeiro).
No entanto, há uma grande diferença, a da intervenção, sua forma e qualidade. É certo que a intervenção prática da geração de 70, exceptuando as de Antero, quando a doença lho permitia e a passagem malograda de Oliveira Martins pelo governo, foram fugazes. No entanto, mesmo em relação aos outros, lembremo-nos que actuaram pela positiva, principalmente como escritores, obviamente que com realce para Eça. As Farpas, os Maias, Fradique não são apenas um choro, revelam autores que têm um sonho e uma atutude de progresso, que não precisam de formular explicitamente. Ganharam autoridade intelectual para que muita gente se interesse pelas ideias de progresso que saltam da critica. Os nossos actuais derrotistas têm a mesma autoridade intelectual?
1. A crise no Irão está a originar artigos, notícias e colunas dando uma no cravo e outra na ferradura. Insiste-se na necessidade de conversações bilaterais, em posições e sanções da ONU. Mas, pelo meio, vêm as ameaças de intervenção militar. Começo por deixar claro que não simpatizo nada com o regime iraniano e que não vou na conversa, à PCP ou BE, de que o programa nuclear "pacífico" do Irão não representa nenhuma ameaça à paz mundial. Mas lembro o Iraque. Ninguém aprendeu? E, comparado, o Irão, militarmente, não é pêra doce.
A acompanhar uma notícia, o jornal publica uma infografia de origem americana com alvos, armas, aviões. É para, subliminarmente, irem preparando os leitores?
2. Foi lançado um livro de Livro de Maria Inácia Rezola que desmonta algumas ideias feitas sobre o 25 de Abril, nomeadamente sobre a "prepotência" do Conselho da Revolução. Há uma passagem da notícia que me interessou:
"O livro revela ainda "a descrença de Álvaro Cunhal no V Governo provisório. Desde muito cedo que ele [o histórico secretário-geral do PCP] ensaiou uma demarcação de Vasco Gonçalves para se aproximar dos militares moderados", frisou ainda António Reis. "É verdade e posso testemunhá-lo. Tenho mesmo boas razões para supor que, para além destes contactos de "mensageiros de base", houve conversas ao mais alto nível, mas não posso garantir. Também é sabido que, no verão quente, regressado da sua hospitalização – ou férias, já não me lembro bem – em Moscovo, Cunhal "puxou as orelhas" aos seus camaradas dirigentes, alinhados entretanto na frente esquerdista. Mais ainda, os responsáveis por células foram instruídos para transmitirem moderação em relação à rejeição de base de um possível e frustrado governo Fabião. Mas também é verdade que Cunhal jogou em dois tabuleiros e que os conhecidos membros do V Governo comunistas ou próximos nunca o teriam sido sem a sua concordância.
Daí também a prudência do PCP no dia 25 de Novembro.
3. Na última página, vem a notícia de uma senhora de 63 anos que está grávida, por inseminação artificial, depois de um tratamento que lhe repôs (?) a sua fisiologia pré-menopáusica. É por estas e outras que hoje há tanta desconfiança pública em relação às magníficas conquistas da biomedicina reprodutiva. São médicos e cientistas, frequentemente, os piores malfeitores à sua ciência e arte. Não brinquem com a natureza!
4. Ainda na última página, fez-me pensar a crónica habitual de Vasco Pulido Valente. Como de costume, niilista, derrotista, sobranceiro. Mas não será que este retrato secular de Portugal que ele e outros (Barreto, Mónica, Bonifácio, etc.) transmitem não será visto, daqui a cem anos, como hoje lemos os escritos da geração de 70? Em parte sim. Lamento prensar que, nesse futuro, talvez ainda se continuem a reconhecer como reais, com a mesma actualidade, Gouvarinhos, Acácios, Pachecos, Abranhos, Cavalões, até (agora mais na moda) Salcedes, acrescentados dos seus sucessores dos tempos que correm. Também os iluminados que não lutam e que são objectivamente cúmplices, Carlos Eduardo, João da Ega, Fradique, Craft (mas, enfim, este era estrangeiro).
No entanto, há uma grande diferença, a da intervenção, sua forma e qualidade. É certo que a intervenção prática da geração de 70, exceptuando as de Antero, quando a doença lho permitia e a passagem malograda de Oliveira Martins pelo governo, foram fugazes. No entanto, mesmo em relação aos outros, lembremo-nos que actuaram pela positiva, principalmente como escritores, obviamente que com realce para Eça. As Farpas, os Maias, Fradique não são apenas um choro, revelam autores que têm um sonho e uma atutude de progresso, que não precisam de formular explicitamente. Ganharam autoridade intelectual para que muita gente se interesse pelas ideias de progresso que saltam da critica. Os nossos actuais derrotistas têm a mesma autoridade intelectual?
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