26 agosto, 2006

Predadores

Com atraso, li durante estas férias o último romance de Pepetela, “Predadores”. Foi uma leitura com sentimentos contraditórios. Por um lado, evidentemente o prazer da leitura de um livro muito bem escrito, com trama romanesca que nos obriga a passar de tempo para tempo com dificuldade em interromper a leitura ao fim de um capítulo, com o interesse de se ler imediatamente o que vem a seguir.

Por outro lado, para quem viveu transitoriamente em Angola e para quem se entusiasmou sempre pela saga da liberdade, é uma leitura bem amarga. Não vou contar em pormenor o que é a história, dizer só que, como o nome indica, é a crónica do apodrecimento dos ideais e do carácter e, logo, a crónica da bem conhecida corrupção. É um livro de grande coragem, para quem vive em Angola e desempenha um cargo público.

Essa amargura foi dupla porque, conhecendo muito bem Pepetela, fui sempre imaginando o que ele deve ter sofrido ao escrever o livro. Não foi certamente para assistir a esta Angola e lá viver que Pepetela foi guerrilheiro (a nossa direita florescente dirá que foi terrorista).

Nota final. Como se compreende no fim do livro, o poder mudou de interlocutores. Os predadores angolanos estão em queda, hoje são principalmente os estrangeiros. Isto fez-me lembrar a recente visita de Sócrates a Angola, com um avião cheio de empresários.

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