26 agosto, 2006

Predadores

Com atraso, li durante estas férias o último romance de Pepetela, “Predadores”. Foi uma leitura com sentimentos contraditórios. Por um lado, evidentemente o prazer da leitura de um livro muito bem escrito, com trama romanesca que nos obriga a passar de tempo para tempo com dificuldade em interromper a leitura ao fim de um capítulo, com o interesse de se ler imediatamente o que vem a seguir.

Por outro lado, para quem viveu transitoriamente em Angola e para quem se entusiasmou sempre pela saga da liberdade, é uma leitura bem amarga. Não vou contar em pormenor o que é a história, dizer só que, como o nome indica, é a crónica do apodrecimento dos ideais e do carácter e, logo, a crónica da bem conhecida corrupção. É um livro de grande coragem, para quem vive em Angola e desempenha um cargo público.

Essa amargura foi dupla porque, conhecendo muito bem Pepetela, fui sempre imaginando o que ele deve ter sofrido ao escrever o livro. Não foi certamente para assistir a esta Angola e lá viver que Pepetela foi guerrilheiro (a nossa direita florescente dirá que foi terrorista).

Nota final. Como se compreende no fim do livro, o poder mudou de interlocutores. Os predadores angolanos estão em queda, hoje são principalmente os estrangeiros. Isto fez-me lembrar a recente visita de Sócrates a Angola, com um avião cheio de empresários.

20 agosto, 2006

Geração dos sessenta?

Escrevi hoje um “mail” a uma lista de amigos:
De Vasco Pulido Valente, hoje, no Público:

"Mas não deixou de aparecer uma geração, a "geração de 60", a minha, que entre a "crise académica" de 62, de boa memória, e a "festa de Abril", de má memória, fez de Portugal um país diferente."

Como é que alguém pode invocar a memória da geração de 60 ao mesmo tempo que rejeita a memória de Abril?
Podia ficar por aqui, mas não é possível. Um dos meus defeitos é ser um pouco masoquista e, por exemplo, ainda ler VPV. Não o conhecendo pessoalmente (e não o desejando), não sei como o classificar. Alzheimer precoce? Diletantidsmo? Uma coisa é certa. Apetece-me vomitar esse escrito em nome da minha geração de/dos sessenta.

Ela fez-se no sonho da festa de Abril. Sacrifícios, perigos, prisões, clandestinidade, coisas que o preclaro VPV nunca soube o que foram, valeram tudo na festa de Abril e sempre foram assumidos com essa meta.

Cometeram-se erros? Certamente, mas “a festa foi bonita, pá”.

Hoje, eu leitor de muitos blogues, acho que a democracia deve permitir a escrita de blogues assumidamente fascistas. O que não aceito é o reaccionarismo encapotado de mentores disfarçados de “democratas”, educadores do povo. Assumam-se como conservadores reaccionários que são.

19 agosto, 2006

Férias em S. Miguel


Vou frequentemente à minha ilha, mas em viagens que deixam sabor amargo, com tempo apenas para uma breve volta por Ponta Delgada. Desta vez foi diferente, duas semanas de reencontro com gentes, cores, sabores, perfumes, memórias. E com a companhia querida de quem sempre se sentiu tão micaelense como eu.

Nesta primeira nota, vou falar do que talvez achem estranho, as estradas. Não há turista que não venha maravilhado com os três panoramas emblemáticos, as lagoas das Sete Cidades, Fogo e Furnas. Ficar por aí é uma pena. S. Miguel é também as suas estradas, com vistas imperdíveis para fora e para dentro. Para fora, a cada curva, um panorama magnífico, sempre diferente na aparente uniformidade da paisagem micaelense. Para dentro, porque em cada curva da estrada também a beleza da própria estrada.

22 julho, 2006

Jorgina e Berta

Descansem que não vou falar de nenhum novo casal homossexual feminino a querer casar-se. A aproximarem-se as férias e o encerramento temporário deste estabelecimento, vou escrever coisa ligeira, lembrando-me de mais duas personagens pitorescas da minha infância, esquecidas no "Mastro das Alminhas". Viviam juntas e creio, mas não garanto, que eram tia e sobrinha.

A Jorgina era um caso espantoso de literacia analfabeta. Já explico o paradoxo aparente. In illo tempore, eu menino, havia a figura da "mulher das compras", encargo excelentemente desempenhado pela Jorgina. Ao fim da tarde, dava a volta pelas freguesas e tomava nota das encomendas para o dia seguinte: talho, mercado do peixe, barraca da hortaliça.

A cada nota que tomava, ia sempre dizendo "óraites", corruptela calafona do "all right" - um dia destes hei-de escrever sobre o típico vocabulário "calafonês" açoriano, a começar pelo próprio termo "calafona", leia-se "californian". Muito mais divertida era a relação especial da Jorgina com uns amigos íntimos e indispensáveis que viviam no seu couro cabeludo. Às vezes, ficavam indisciplinados que nem meninos das escolas de hoje. A Jorgina dava então umas palmadinhas na cabeça, com meiguice e dizendo "ai, eles hoje estão tão desassossegados!".

Importante era a tal literacia. A Jorgina tomava cuidadosamente nota das encomendas num caderno e nunca se enganava. Mas como, se ela era analfabeta? Muito gostava eu de poder ver ainda um caderno da Jorgina.

A Berta, que era criada, como então se dizia, de uma prima da minha mãe, era uma personagem imperdível de candura tonta, num grande coração. Esta minha prima era mãe de um dos meus mais queridos amigos e primo, já falecido, o Raul Ávila de Vasconcelos – dois nomes sempre ligados na minha família, desde há muitas gerações, mas que eu já perdi. Quando ele veio para a universidade, no Carvalho Araújo, era tempo em que a partida e chegado dos navios merecia notícia da rádio. Assim, disse a minha prima "Berta, o menino Raul já chegou a Lisboa". Resposta, "E a Sra. D. Letícia [a minha tia] estava na doca?".

A Berta era uma solteirona frustrada e deitava sortes de clara de ovo no S. João. Um dia ficou muito feliz por ver finalmente o seu destino: um marinheiro louro, na ponta do barco, de calças azuis e camisa branca, com a mão na testa a aparar o sol!

Também tinha um sentido critico muito pragmático. Foi notícia na minha terra a aventura de dois patrícios meus (lembram-se da série de TV "O barco e o sonho"?) que foram até à sonhada América num pequeno barco à vela que construíram? A Berta não achou aquilo nada de especial. "É só dar a volta ao farol da doca e depois ir sempre rente ao muro". Noção muito especial da geografia!

E vou para férias. Adeus, até ao meu regresso. Divirtam-se também e descansem, pensando numa regra importante de vida, a KISS: "keep it simple, stupid!".

15 julho, 2006

Dan Brown

Há tempos, escrevi uma nota sobre o que me parecia ser um excesso de reacção contra coisa que não é para levar a sério, o "Código da Vinci". Talvez paradoxalmente, vou cair no erro de levar a sério, desta vez o autor. É que agora, ele já não é criticado só pela Igreja. Manifestou-se também o Congresso internacional de historiadores medievalistas, acusando Dan Brown (DB) de prejudicar fortemente a credibilidade da investigação histórica.

É uso dizer-se que "à terceira é de vez". Comigo, com DB, foi à quarta, depois de ler, fora da ordem cronológica, "Fortaleza Digital". Só não digo que DB é uma fraude porque nunca o ouvi intitular-se de grande escritor. Basta-lhe ser milionário da escrita. Também Agatha Christie (AC) certamente nunca pensou ser candidata ao Nobel. Talvez fosse até mais honesta e não justificasse tanto a mais que compreensível e ética atitude de Umberto Eco, ao recusar um encontro com DB.

Parece-me óbvio que só se pode falar de subliteratura ao ler um livro com esta preciosidade, logo na primeira página (dou desconto a uma eventual má tradução):
"Deitada de costas na cama de dossel, ela levantou os olhos e soube que ele era "o tal". E enquanto estava assim, de olhar preso àqueles olhos verde-escuros, algures ao longe uma campainha ensurdecedora começou a tocar. A campainha atraiu-o e afastou-o. Estendeu os braços para o agarrar, mas as suas mãos encontraram apenas ar."
"Campainha ensurdecedora", nunca tinha lido expressão tão imaginativa!

Falei de AC, com respeito – devo-lhe bons momentos de leitura descontraída de praia – e podia também falar, sem respeito, de margarida Rebelo Pinto, a propósito do que veio a lume no seu recente caso judiciário: a técnica da repetição. Em AC, ela não engana o leitor, quase que é indispensável. Já sabemos, e talvez desejemos, que vamos encontrar jardins ingleses, moral vitoriana, desprezo pela Europa do lado de lá, chá e scones e os clichês de Poirot. Mas isto faz parte das regras de AC. O leitor compra ou não compra.

DB não assume a repetição de um esquema bem construído, mas ela é evidente, em todos os livros. Começo pela construção dos cenários. Já a Globo a tinha inventado nas suas telenovelas: três cenários principais (pior, DB só usa dois) que alternam em contraponto, cada um com um conjunto de personagens distintos, apenas com dois elos de ligação, os pivôs da história. Estes pivôs, com ligeiras nuances, seguem o mesmo estereotipo: um académico americano da área das humanidades, que se revela depois um super-homem de capacidades aventureiras (não inventou nada, copiou e mal o Indiana Jones), e uma mulher profissional de topo, muito inteligente e que, na última página, se revela um portento sexual a premiar o herói. Aqui é que inovou, mas não sei se melhorou, porque as parceiras do Indiana eram deliciosamente tontas.

O tema foge inteligentemente ao mundo das tias de Cascais da nossa literatura leve, sabendo muito bem DB ir directo a um moderno imaginário público, principalmente desafiado pelo mistério cultivado ou natural de algumas instituições, a Igreja católica, a NASA, as agencias secretas americanas. Não arrisca nada, porque se alimenta desse secretismo. O que é desonesto é confundir o leitor, dando-lhe claramente a noção de que DB tem "inside information" que garante algum fundo de verdade.

Curiosamente, joga com pau de dois bicos. No decurso dos livros, parece devastar os seus alvos institucionais, mas salva-os à última hora. Neste último livro que li, a solução final é inconcebível, aliando o politicamente correcto ao securitarismo "Patriot act". O supercomputador que podia espiar a net é destruído, mas o seu computador paralelo, que guarda a base de dados da "pax americana" é miraculosamente salvo na última página. Desculpem, última não, porque esta é a tal da recompensa sexual dos heróis.

A galeria de personagens é estereotipada. Não vou falar dos vilões, porque DB tem um talento especial para os retratar primariamente, como assassinos frios e mecânicos (nunca temos deles a expressão de um simples sentimento), curiosamente albinos ou surdos, novamente grandes ideias literárias. Para além dos bons, há os que recorrem a eles, figuras eminentes e muito responsáveis das tais instituições. Normalmente, ocupam posição de vice, deixando os dirigentes supremos para melhor altura. Estes só aparecem a meio do livro, anunciam-se cada vez mais a cada capítulo e, finalmente, são os que permitem o final feliz. Bonito, a autoridade suprema. E quem é o culpado, coisa que, em qualquer bom policial, só adivinhamos no último capítulo? Com DB é elementar. É um dos tais incorruptíveis de segunda linha, mas cujo carácter ou ideologia é extremado em sentido de "missão", como DB tem o cuidado de nos revelar logo.

No entanto, não deixo de elogiar, tecnicamente, as construções de DB: boa técnica de suspense, a fazer apetecer passar para o capítulo seguinte, aparência de boa informação "científica", embora não resista a qualquer abano, como a inconcebível bomba de antimatéria; esoterismo cuidadosamente quanto baste, sem ser daquele que nos faz logo dizer "tolice", como os extra-terrestres nas aparições de Fátima; cenários que dizem muito à cultura híbrida americana, desde coisas "high-tec" domésticas até aos mitos artísticos europeus, Louvre, Roma, Bernini.

E "assim se fazem as cousas".

08 julho, 2006

Para quê chamar a ciência à discussão do aborto?

Revogando uma decisão judicial anterior, no chamado caso de Aveiro, algumas mulheres acabaram por ser condenadas pelo crime de aborto. Parece-me sobeja razão para reflexão de todos aqueles que têm a consciência tranquila porque, "na prática, ninguém é penalizado por este crime". Ele lá está no código penal e ao alcance de algum juiz mais "escrupuloso". Também reflexão para mim, atento ao que me rodeia e solidário por natureza e ideologia. É uma reflexão desafiante, porque pode suscitar duas ordens de questões, em que a minha situação é oposta: uma discussão jurídica e social, em que só falo como cidadão e pensante; outra científica, em que me sinto no dever de ser muito cuidadoso em relação a alguma influência pública.

Não sei nada de filosofia do direito, mas tenho algumas ideias de senso comum. Para mim, talvez um pouco esquematicamente, há três tipos de crimes. O primeiro é o que atenta contra os direitos, a liberdade, a segurança e a propriedade do outro. É o que chamo um crime absoluto, que não é afectado por nenhuma circunstância sociológica. Se o roubo ou a agressão física começarem a ser prática corrente, isto não justifica nenhuma desculpa social para a despenalização. A realidade social não faz lei, neste caso.

O segundo caso é o de crimes que configuram atentados gerais à ordem sócio-política. Também entendo que se baseiam na valorização abstracta de coisas essenciais da nossa vida civilizada: a incitação à violência ou ao racismo, a ofensa à identidade nacional, o desrespeito aos tribunais, a desobediência, a espionagem, a evasão fiscal, etc.

Caso muito diferente, em que insiro exemplarmente o do aborto, é o dos crimes que reflectem uma visão transitória dos valores éticos e sociais, muitas vezes até dependentes de ideologias sectoriais. São casos em que, claramente, não está em causa a defesa dos interesses de outrem: por exemplo, o consumo de drogas (não o tráfico), a prostituição (não o proxenetismo), a homossexualidade (já foi crime e não há tanto tempo como se possa julgar), o adultério (questão privada, mas não no tempo de Camilo), etc. Nestes casos, considero que a penalização é frágil e contingente, muito determinada pelo nível de aceitação social e de prática, sempre a evoluir. Se milhares de mulheres praticam o aborto, quem tem uma escala de medida para avaliar se é condenável (juridicamente) ou não? Não é como o assassínio, em que, mesmo que não houvesse nenhum caso, nunca deixaria de ser crime.

Uma nota sobre a participação indirecta: distingui consumo e tráfico, prostituição e proxenetismo. Devo distinguir, no caso do aborto, a mulher e o abortador? Tenho muitas dúvidas. Considerem este caso: um médico é a favor do aborto, quer ajudar as mulheres a fazerem-no nas melhores condições (já que, de qualquer forma, o farão, no vão da escada) e, para se situar bem e marcar posição, não leva um tostão por essa operação. Se eu fosse obstreta, é o que faria. Podiam depois acusar-me de tudo, mas nunca de interesse de negócio.

Quero deixar algum espaço para um tema que me interessa muito, cientificamente, o da vida humana. O tema foi suscitado, ainda há dias, pelo bastonário da Ordem dos Médicos: "Os códigos de ética dos médicos proíbem a eliminação de uma vida humana. (…) Deve-se centrar o debate no diagnóstico do início da vida. (…) A sociedade portuguesa deveria ter a coragem de definir a fronteira a partir da qual não será possível eliminar a vida humana." Desculpe a brutalidade, estimado colega, mas tudo isto é tolice e falta de bagagem científica.

A ciência não sabe lidar com definições de "senso comum". Lembro-me, tantos anos depois, de uma aula do meu inesquecível Ilídio Sardoeira (aula de biologia!) em que nos desafiou a definir força. É a qualidade de se ser forte (definição circular), é o que vence a inércia, é o que faz mexer, etc. No fim, a conclusão aceite foi a de que força é "apenas" o produto da massa pela aceleração. E se, depois, ele nos tivesse perguntado o que era a massa? Para os meus amigos físicos, talvez eu esteja a dizer grande asneira. Desculpem-me.

Vida humana. Eu, biólogo, não sei o que isso é! Nem a ciência deve ser chamada a alicerçar decisões que são apenas do plano social e, admito, ético (mas ético de cada um, não de toda uma sociedade). Até vou ser provocador: considero menos grave "matar" um embrião do que matar um chimpanzé. Justificarei adiante.

Vida humana. Começa por ser necessário discutir separadamente o substantivo e o adjectivo. Comecemos por vida. É um conceito abstracto. O que há é seres vivos e mesmo isto abre grandes discussões. Os vírus são seres vivos? Organismos não são, mas entendo que são seres vivos, embora haja quem os coloque na fronteira. É um desafio que coloco sempre aos meus alunos, para um trabalho de duas páginas, e de que recebo opiniões muito interessantes. Posso dar muitas definições caracterizadoras de ser vivo, nem todas compatíveis entre si: a velha descrição fenomenológica, desactualizada, a definição termodinâmica, até mesmo uma definição "informática". A ciência pode facilitar mas não determina conceitos filosóficos e éticos.

Depois o adjectivo humano, e aqui é que vêm todas as discussões. A atitude mais fácil é a de alguns católicos, com maior formação científica, que se vêem obrigados a enfatizar a ligação ao adjectivo "potencial". Não consigo entrar nesta discussão, que não é científica. A ciência lida com factos, não com potencialidades. Aliás, essa discussão parece-me perigosa, em termos jurídicos, apesar de leigo. Um potencial assassino deve ser condenado à prisão? Não falo de esquizofrénicos violentos, legalmente internáveis, mas de personalidades psicopáticas imputáveis. O potencial permite tudo. Porque é que um espermatozóide não é um elemento potencial de um futuro ser humano? Afinal, é isto que justifica a condenação católica da masturbação, se não erro. Um embrião in vitro é um ser humano potencial? Queria vê-lo crescer e diferenciar-se no laboratório! Mesmo um ovo fertilizado in vivo é real, em capacidade de concretização, antes da nidação? Fico à espera das respostas do bastonário.

Voltando ao humano, o que o define? Ou, para começar, qual é o momento em que isso se define? A embriogénese é um contínuo e creio que ninguém sabe exactamente qual o momento em que ficam definitivamente adquiridos os traços humanos. A activação dos primeiros genes exclusivos do homem? Quem sabe quais eles são, "uma dúzia"? O estabelecimento das primeiras sinapses? Também todos os animais as têm e, no homem, essa rede só é verdadeiramente construída pela experiência, não geneticamente. As relações in utero com a mãe? Idem. A consciência, a mente e a linguagem? Então o aborto podia ir até aos dois anos de idade!

Seguindo a provocação que referi, vou falar de primatas, que todos somos, nós e os nossos primos chimpanzés. Imaginemos que é agora descoberta uma tribo de paleolíticos remotos, que só usam instrumentos rudimentares, umas pedras lascadas, e uma linguagem de sons primitivos. Alguém negará que são humanos? Mas os chimpanzés, nosso divertimento de zoo? Partilhamos com eles a quase totalidade do nosso genoma. Em relação a algumas marcas genéticas, há por vezes maior proximidade entre grupos humanos e chimpanzés do que entre grupos humanos diferentes. Estes primos têm consciência, noção do "self", reconhecem-se ao espelho. Usam instrumentos, também as pedras e mesmo outros por vezes mais elaborados do que os do homem paleolítico, comunicam, têm afectividade, são solidários, resolvem problemas com a nossa inteligência. No limite, podemos definir uma característica exclusivamente humana, a fala. Isto só depende de duas coisas, que só se processam depois do nascimento, a descida da laringe e do osso hióide (um dos nossos mais pequenos e mais importantes ossos, na língua). Ora os chimpanzés também fazem a descida da laringe, só lhes faltando a do hióide. Afinal, talvez seja esta coisa banal a definição científica do homem!

Toda esta história de primatas pode parecer parvoíce de fim de semana mas tem um fim provocatório. Os nossos "defensores da vida" não se ficam pelo seu direito legítimo de condenarem o aborto. A única conclusão será a de que não o devem praticar (nunca o praticam?). Invocam argumentos científicos, até imagens horrorosas como as que eu, fumador, vou ter de ver nas minhas cigarrilhas. A minha provocação é a de que sejam coerentes: defendam a libertação de todos os chimpanzés!

Para quê chamar a ciência à discussão do aborto?

Revogando uma decisão judicial anterior, no chamado caso de Aveiro, algumas mulheres acabaram por ser condenadas pelo crime de aborto. Parece-me sobeja razão para reflexão de todos aqueles que têm a consciência tranquila porque, "na prática, ninguém é penalizado por este crime". Ele lá está no código penal e ao alcance de algum juiz mais "escrupuloso". Também reflexão para mim, atento ao que me rodeia e solidário por natureza e ideologia. É uma reflexão desafiante, porque pode suscitar duas ordens de questões, em que a minha situação é oposta: uma discussão jurídica e social, em que só falo como cidadão e pensante; outra científica, em que me sinto no dever de ser muito cuidadoso em relação a alguma influência pública.

Não sei nada de filosofia do direito, mas tenho algumas ideias de senso comum. Para mim, talvez um pouco esquematicamente, há três tipos de crimes. O primeiro é o que atenta contra os direitos, a liberdade, a segurança e a propriedade do outro. É o que chamo um crime absoluto, que não é afectado por nenhuma circunstância sociológica. Se o roubo ou a agressão física começarem a ser prática corrente, isto não justifica nenhuma desculpa social para a despenalização. A realidade social não faz lei, neste caso.

O segundo caso é o de crimes que configuram atentados gerais à ordem sócio-política. Também entendo que se baseiam na valorização abstracta de coisas essenciais da nossa vida civilizada: a incitação à violência ou ao racismo, a ofensa à identidade nacional, o desrespeito aos tribunais, a desobediência, a espionagem, a evasão fiscal, etc.

Caso muito diferente, em que insiro exemplarmente o do aborto, é o dos crimes que reflectem uma visão transitória dos valores éticos e sociais, muitas vezes até dependentes de ideologias sectoriais. São casos em que, claramente, não está em causa a defesa dos interesses de outrem: por exemplo, o consumo de drogas (não o tráfico), a prostituição (não o proxenetismo), a homossexualidade (já foi crime e não há tanto tempo como se possa julgar), o adultério (questão privada, mas não no tempo de Camilo), etc. Nestes casos, considero que a penalização é frágil e contingente, muito determinada pelo nível de aceitação social e de prática, sempre a evoluir. Se milhares de mulheres praticam o aborto, quem tem uma escala de medida para avaliar se é condenável (juridicamente) ou não? Não é como o assassínio, em que, mesmo que não houvesse nenhum caso, nunca deixaria de ser crime.

Uma nota sobre a participação indirecta: distingui consumo e tráfico, prostituição e proxenetismo. Devo distinguir, no caso do aborto, a mulher e o abortador? Tenho muitas dúvidas. Considerem este caso: um médico é a favor do aborto, quer ajudar as mulheres a fazerem-no nas melhores condições (já que, de qualquer forma, o farão, no vão da escada) e, para se situar bem e marcar posição, não leva um tostão por essa operação. Se eu fosse obstreta, é o que faria. Podiam depois acusar-me de tudo, mas nunca de interesse de negócio.

Quero deixar algum espaço para um tema que me interessa muito, cientificamente, o da vida humana. O tema foi suscitado, ainda há dias, pelo bastonário da Ordem dos Médicos: "Os códigos de ética dos médicos proíbem a eliminação de uma vida humana. (…) Deve-se centrar o debate no diagnóstico do início da vida. (…) A sociedade portuguesa deveria ter a coragem de definir a fronteira a partir da qual não será possível eliminar a vida humana." Desculpe a brutalidade, estimado colega, mas tudo isto é tolice e falta de bagagem científica.

A ciência não sabe lidar com definições de "senso comum". Lembro-me, tantos anos depois, de uma aula do meu inesquecível Ilídio Sardoeira (aula de biologia!) em que nos desafiou a definir força. É a qualidade de se ser forte (definição circular), é o que vence a inércia, é o que faz mexer, etc. No fim, a conclusão aceite foi a de que força é "apenas" o produto da massa pela aceleração. E se, depois, ele nos tivesse perguntado o que era a massa? Para os meus amigos físicos, talvez eu esteja a dizer grande asneira. Desculpem-me.

Vida humana. Eu, biólogo, não sei o que isso é! Nem a ciência deve ser chamada a alicerçar decisões que são apenas do plano social e, admito, ético (mas ético de cada um, não de toda uma sociedade). Até vou ser provocador: considero menos grave "matar" um embrião do que matar um chimpanzé. Justificarei adiante.

Vida humana. Começa por ser necessário discutir separadamente o substantivo e o adjectivo. Comecemos por vida. É um conceito abstracto. O que há é seres vivos e mesmo isto abre grandes discussões. Os vírus são seres vivos? Organismos não são, mas entendo que são seres vivos, embora haja quem os coloque na fronteira. É um desafio que coloco sempre aos meus alunos, para um trabalho de duas páginas, e de que recebo opiniões muito interessantes. Posso dar muitas definições caracterizadoras de ser vivo, nem todas compatíveis entre si: a velha descrição fenomenológica, desactualizada, a definição termodinâmica, até mesmo uma definição "informática". A ciência pode facilitar mas não determina conceitos filosóficos e éticos.

Depois o adjectivo humano, e aqui é que vêm todas as discussões. A atitude mais fácil é a de alguns católicos, com maior formação científica, que se vêem obrigados a enfatizar a ligação ao adjectivo "potencial". Não consigo entrar nesta discussão, que não é científica. A ciência lida com factos, não com potencialidades. Aliás, essa discussão parece-me perigosa, em termos jurídicos, apesar de leigo. Um potencial assassino deve ser condenado à prisão? Não falo de esquizofrénicos violentos, legalmente internáveis, mas de personalidades psicopáticas imputáveis. O potencial permite tudo. Porque é que um espermatozóide não é um elemento potencial de um futuro ser humano? Afinal, é isto que justifica a condenação católica da masturbação, se não erro. Um embrião in vitro é um ser humano potencial? Queria vê-lo crescer e diferenciar-se no laboratório! Mesmo um ovo fertilizado in vivo é real, em capacidade de concretização, antes da nidação? Fico à espera das respostas do bastonário.

Voltando ao humano, o que o define? Ou, para começar, qual é o momento em que isso se define? A embriogénese é um contínuo e creio que ninguém sabe exactamente qual o momento em que ficam definitivamente adquiridos os traços humanos. A activação dos primeiros genes exclusivos do homem? Quem sabe quais eles são, "uma dúzia"? O estabelecimento das primeiras sinapses? Também todos os animais as têm e, no homem, essa rede só é verdadeiramente construída pela experiência, não geneticamente. As relações in utero com a mãe? Idem. A consciência, a mente e a linguagem? Então o aborto podia ir até aos dois anos de idade!

Seguindo a provocação que referi, vou falar de primatas, que todos somos, nós e os nossos primos chimpanzés. Imaginemos que é agora descoberta uma tribo de paleolíticos remotos, que só usam instrumentos rudimentares, umas pedras lascadas, e uma linguagem de sons primitivos. Alguém negará que são humanos? Mas os chimpanzés, nosso divertimento de zoo? Partilhamos com eles a quase totalidade do nosso genoma. Em relação a algumas marcas genéticas, há por vezes maior proximidade entre grupos humanos e chimpanzés do que entre grupos humanos diferentes. Estes primos têm consciência, noção do "self", reconhecem-se ao espelho. Usam instrumentos, também as pedras e mesmo outros por vezes mais elaborados do que os do homem paleolítico, comunicam, têm afectividade, são solidários, resolvem problemas com a nossa inteligência. No limite, podemos definir uma característica exclusivamente humana, a fala. Isto só depende de duas coisas, que só se processam depois do nascimento, a descida da laringe e do osso hióide (um dos nossos mais pequenos e mais importantes ossos, na língua). Ora os chimpanzés também fazem a descida da laringe, só lhes faltando a do hióide. Afinal, talvez seja esta coisa banal a definição científica do homem!

Toda esta história de primatas pode parecer parvoíce de fim de semana mas tem um fim provocatório. Os nossos "defensores da vida" não se ficam pelo seu direito legítimo de condenarem o aborto. A única conclusão será a de que não o devem praticar (nunca o praticam?). Invocam argumentos científicos, até imagens horrorosas como as que eu, fumador, vou ter de ver nas minhas cigarrilhas. A minha provocação é a de que sejam coerentes: defendam a libertação de todos os chimpanzés!

01 julho, 2006

Notas soltas

1. Josep Borrell, Presidente do Parlamento Europeu, escreveu, para minha estupefacção, que "os europeus têm uma percepção escassa dos benefícios globais da sua União. A Europa surge menos pelas vantagens do que pelos problemas que coloca ou as soluções que não tem. Continua a ser necessária uma enorme tarefa pedagógica."

Alguma coisa está mal nesta UE, quando os seus "cidadãos" não se apercebem de vantagens na união. Catalães, bascos e galegos fazem o possível por salientarem as suas identidades nacionais, mas não pretendem abandonar a "união espanhola". Os genebrinos pagam para os cantões mais pobres mas sabem bem o que lhes é vantajoso em ser suíços. E até a jardinesca figura sabe bem até onde levar os impropérios independentistas.

É claro que há uma diferença essencial: estas e muitas outras situações são históricas, assentes numa consciência colectiva de séculos, mas não deixam de traduzir uma noção sempre actual das vantagens práticas. A meu ver, as vantagens da UE são intangíveis para o comum dos mortais, que não tem biblioteca nem sabe nada de finanças.

Uma grande construção política tem de ser ensinada aos seus indivíduos? Há certamente um fosso entre essa construção e a consciência colectiva dela. Não é altura de desacelerar o alargamento inevitável desse fosso e garantir ao projecto europeu a sua verdadeira base de sustentação, o apoio dos povos? Ou a tal pedagogia continuará a ser exercida em fuga para a frente?

Para que não fiquem dúvidas: esta pergunta é feita por alguém que se sente profundamente europeísta.

2. José Vítor Malheiros tem uma coluna semanal que não perco. Na última, "Discutir na escola", escreve:
"O documento "Organização do ano lectivo de 2006/07" (disponível no site do Ministério da Educação num irritante PDF em "bitmap" que não permite copiar o texto) sugere que as aulas de substituição sejam dadas por outro professor do mesmo grupo com base no plano de aulas do professor titular. Mas o mesmo documento admite que, na impossibilidade de fazer isso, o período de aulas seja ocupado por "actividades de enriquecimento e complemento curricular".

Ora é possível e proveitoso transformar essas aulas (em vez de aulas curriculares de segunda) em aulas de debate de primeira. A prática é comum na escola anglo-saxónica, mas é boa e pode ser explorada. É evidente que, para fazer isto de forma séria, é indispensável que todos os professores recebam alguma formação - mas essa formação seria útil na sua actividade lectiva quotidiana. Isto permitiria proporcionar aos alunos um espaço simultaneamente de livre expressão e de lúdico confronto intelectual, de prática de exposição e discussão públicas e de exercício de cidadania. Essas aulas poderiam partir da discussão organizada de um tema da actualidade e poderiam criar um espaço pedagógico enriquecedor para professores e alunos."
Também me parece ser muito difícil a substituição de um professor em falta por um da mesma disciplina, a dar continuidade ao programa. Que o substituto dê uma aula da sua competência específica não me parece fazer sentido. Restam as tais "actividades de enriquecimento e complemento curricular". Estou inteiramente de acordo com JVM no que ele escreve sobre a sua importância. Só não concordo, se percebi a sua ideia, com a necessidade de formação específica para tais actividades. A meu ver, elas só exigem coisas que não se ensinam: o gosto pelo despertar da inteligência dos alunos e uma sólida formação cultural. Vamos treinar professores a saberem ler o jornal e transmitirem aos alunos o interesse de um tema de actualidade?

P. S. (13:48) - da leitura do jornal de hoje: um "responsável judiciário" declarou, a respeito do caso Gisberta - a transsexual seviciada e morta por um grupo de adolescentes - que "são miúdos, aquilo foi uma brincadeira que correu mal". Sem comentários!

24 junho, 2006

Um poema para a botica

Já muito escrevi sobre o meu avô José da Costa, que, ainda há dias, em bonita cerimónia açoriana, retratei sentidamente, reconhecido à minha numerosa família por me ter designado como seu representante.

O prof. José da Costa era um portento de rica multidimensionalidade, aliando uma espantosa cultura, seriedade e exigência intelectual, a um grande prazer de viver e a um finíssimo humor.

Nessa evocação solene do meu avô, terminei dizendo: "E chego ao fim, depois de toda esta sentida evocação do meu avô, com uma queixa: não nos devias ter deixado o desafio desse exemplo, porque, nos tempos de hoje, já não somos capazes de te seguir."

Chegou-me agora às mãos uma carta invulgar, escrita aos 80 anos, 6 meses e 10 dias, precisos. Estava acamado com bronquite, mas isto não o limitou em relação a esta invulgar encomenda à botica. "Clique" na imagem, para a ampliar. Obrigado ao farmacêutico que teve o bom gosto de guardar esta carta e agora a fazer chegar à família.

Nota importante: esta carta-poema cómico, coisa em que ele era excelente, com um longo poema heróico-satírico publicado, a "Saltapíada", foi escrita por um quase cego, com um glaucoma gravíssimo, que tinha de usar uma forte lupa para ler ou escrever, palavra a palavra, quase letra a letra.

E outra nota: há na carta uma palavra obscura, pelingrinas. Era, para os grandes amigos, a alcunha do meu avô. Entre muitas coisas que ele fazia primorosamente, estava o canto sacro, com especial gosto por Palestrina. Um colega, provavelmente fracote mental, fazia a corruptela para pelingrinas, que se colou ao meu avô. Já agora, sobre o canto, uma anedota verídica. O meu avô, muito religioso, cantava frequentemente "a cappela" em missas solenes na matriz de S. Sebastião. Um dia, duas beatas vieram agradecer-lhe, muito sensibilizadas, ele ter evocado o seu, delas, mano Eugénio, recém-falecido. Então o meu avô não tinha cantado o "Humani generis"?

17 junho, 2006

Casa da Música

Ryuishi Sakamoto veio dar concertos a Portugal, no Porto e em Lisboa. Que horror, abrir as nossas principais salas de concerto a tal músico menor! "Muito mal", protestou um professor da Universidade do Porto, em carta enviada à direcção da Casa da Música. Tal casa deve estar vedada a música menor e "contra o bom gosto". Inacreditável!

Que pena que eu tenho de não o poder ter ouvido. Sou fã de Sakamoto. Descobri-o tarde, em situação contraditória, ao ver o magnífico "Feliz Natal, Mr. Lawrence". Actor banal, mas excelente autor da banda sonora, situação reproduzida em "O Último Imperador". Desde então, comprei o que pude: O "Grande amor", as bandas sonoras de "O pequeno Buda" e "O último imperador", "Lost child", "Raw life", e o magnífico "Casa", um álbum de um japonês que assimila e reinterpreta a bossa nova e António Jobim.

Não vou falar mais de Sakamoto, mas dos preconceitos que temos em relação à música. Clássica e ligeira? Fui vítima disto. Na minha juventude, nada "abaixo" de Beethoven ou Mozart. Lamentavelmente, com isto, só muito mais tarde apreciei, por exemplo, a grande qualidade musical dos Beatles e fiquei em condições de me maravilhar com aquela magnífica melodia, tão curta e tão simples, dos "Encontros Imediatos do Terceiro Grau". É inferior a outras célebres melodias ou motivos curtos, como o da quadragésima de Mozart, o motivo tão simples do concerto de violino de Beethoven ou as célebres quatro, só quatro, notas da sua sétima, tan tan tan tannnn?

Vamos clarificar águas e afastar desta discussão a música pimba. Ficam 99% de pop/rock e o pequeno resto de música erudita, Já vou discutir este adjectivo. Esses 99% são difíceis de definir. Vou tentar uma definição pragmática. É a música que enche os festivais, que mais se vende, as que os jovens descarregam para o iPod. Mas que variedade, quando a ouvimos! O meu filho ofereceu-me há tempos um disco de uma banda pouco conhecida, de grandes amigos seus. Ouvi-a sem preconceito e a minha conclusão, conhecendo os jovens, foi "porque é que eles, com este enorme talento, não vão estudar música?". Isto é meu critério. Ouço coisas excelentes, mas com má técnica. Sem que a corrijam, não a considero grande música. Fico a aguardar.

Espaço estanque entre a "música clássica" e aquela que não sei como chamar? A minha colecção de CD, e até de velhinhos vinil que ainda não tive tempo de copiar, não é má. Mas ninguém me obriga a deitar para o lixo as minhas preciosidades das canções francesas, das canções de cabaret berlinense (Kurt Weil era clássico ou ligeiro?), de zarzuelas, até algumas cantadas por Plácido Domingo.

O que é isto de música clássica? Os lieder de Schubert foram escritos para serem cantados no café. Os Strauss compuseram música que eram ouvidas entre conversas nos parques de Viena e que hoje têm as honras do célebre concerto de Ano Novo. O jazz era música de bar e os espirituais ou gospell música de pequenas comunidades religiosas. E se, no fim de um concerto, o maestro resolver dar, como pequeno extra, o can-can de Offenbach, creio que tanto a audiência como os músicos se divertirão bastante.

Para terminar, uma provocação. Estou a comprar discos de um bom músico português das últimas décadas. Imaginam quem? António Variações!

10 junho, 2006

O Código da Vinci

Escrever estas notas apenas uma vez por semana tem as suas vantagens. Vou acumulando diariamente uma lista de temas, depois escolho o que quero e não escrevo à pressão. Os escritos podem é perder oportunidade, como no caso de hoje. Já está esquecida a polémica sobre o Código da Vinci. Começa por ser muito significativo que a polémica, tardia, só tenha surgido em força com o filme e não com o livro, apesar de muito vendido. Tempos de menorização da leitura!

Não vi o filme, levando-me pelas muitas criticas negativas, mas li o livro. Claro que não como grande obra de literatura, mas com o mesmo interesse com que sempre li livros policiais, coisa menor mas relaxante – com pedido de desculpas a Patrícia Highsmith, Raymond Chandler e Simenon. Não gostam desta literatura? Também eu acho que aquilo está mal escrito (pelo menos na tradução portuguesa, ao nível da antiga colecção Vampiro), não há uma ideia que nos ensine qualquer coisa ou nos faça pensar e, no entanto, começada a primeira página, não houve minuto que não aproveitasse para devorar o livro. É um exemplo de como, muitas vezes, a técnica dá mais resultado do que a arte. Dan Brown tem uma técnica extraordinária para prender qualquer leitor, diria mesmo que para prender especialmente os leitores com alguma base cultural.

A Igreja católica reagiu, mesmo que em termos muito mais civilizados do que a polémica dos "cartoons" de Maomé. Reacção que, para mim, foi sinal de fraqueza. Para quem falava? Para os não crentes, não valia a pena; para os católicos, devia ter mais confiança na sua fé. Surpreendeu-me a atitude inteligente do Opus Dei português. Não são nada parvos, como se sabe.

Sobre tudo isto, não posso secundarizar um aspecto fundamental, o de um "espiritualismo" emergente ou reemergente, sempre sinal de insatisfação com os limites aparentes da racionalidade. E é curioso que sejam principalmente os não católicos a discutirem apaixonadamente se Cristo foi para a cama ou não, se havia apóstolos do sexo feminino e coisas do mesmo teor. Não consigo compreender bem o que é que isto interessa a quem não é crente. São coisas que deixo para os católicos. Reflicto sobre o cristianismo em termos civilizacionais, sobre a sua posição no mundo, mas só me interessam as suas posições com impacto político e social, como a moral sexual ou a bioética. O resto é a ganga dogmática da sua religião.

Vem a propósito um exemplo semelhante, o do Evangelho segundo Judas, coisa evidentemente gnóstica. Discutir o gnosticismo extravasa a religião e interessa-me. Mas melhor fariam muitos dos actuais "esotéricos" se estudassem um pouco. Entre muitas outras coisas, o gnosticismo é visceralmente antifeminino e anti-sensualidade. O que é que tem a ver com Madalena, como vi escrito?

Conheci ao longo da vida três períodos relativamente distintos em relação ao irracionalismo. Ao princípio, nos anos 60, era segmentado. Havia espíritas, astrólogos, ovnicrentes, tarotianos, rosacrucistas, etc., mas eram coisas isoladas. Nos anos 80, apareceu uma tendência sincrética de todas essas correntes, com afirmação vincadamente antirracionalista, talvez uma manifestação de um pós-modernismo nascente. O que vemos hoje é outra coisa. Como disse, parece-me uma busca de uma "nova atitude religiosa", mas não tradicional e com algum gosto por uma justificação racional pseudo-científica.

O novo esoterismo, à Dan Brown, é quanto baste, sem ser daquele que nos faz logo dizer "tolice", como os extra-terrestres nas aparições de Fátima. O secretismo refere-se a instituições que nos causam alguma interrogação mas que são reais, como o Opus Dei, a Maçonaria ou os arquivos secretos do Vaticano. Aproveitando-se do próprio secretismo dessas organizações, Dan Brown está à vontade para inventar o que quer, porque não temos informação para o contradizer.

Recordo-me, sem saber precisar, de ter lido qualquer coisa sobre "ética" da criação literária, como o não direito de aplicar a ficção a pessoas ou instituições reais. Em relação ao ensaio politico, social ou histórico, é óbvio; mas em relação à ficção, que toda a gente reconhece como tal? Parece-me caminho perigoso. Começa-se com estas limitações e acaba-se nas fogueiras de livros.

Em tudo há aspectos positivos. Disse-me ontem um aluno que, se não tivesse lido o Código da Vinci, nunca teria sabido o que é a série de Fibonacci.

03 junho, 2006

Crime e castigo

Esta será, provavelmente, a nota mais polémica alguma vez aqui publicada. Vou falar da viagem do Papa à Polónia, em particular a Auschwitz-Birkenau. Despertou reacções opostas, entre os que, judeus incluídos, elogiaram a sua condenação explícita do Holocausto como uma monstruosidade e os que criticaram que ele tenha circunscrito essa monstruosidade a um "grupo de criminosos" que, pela demagogia e pelo terror, "abusou" do povo alemão "como instrumento da sua sede de destruição e de dominação".

É claro que esta discussão só emergiu por o Papa estar condicionado e em foco, em virtude da sua nacionalidade. Teoricamente, creio que não há razão para isto. Joseph Ratzinger era um cardeal alemão mas, a partir do momento em que passou a ser papa, não tem nacionalidade e não pode falar pelos alemães, como Kofi Annan não pode falar pelos nigerianos. São homens cuja pátria deve ser o mundo inteiro. Outra coisa é o Papa falar em nome da Igreja, e, neste caso, bem podia falar, finalmente, da responsabilidade da "diplomacia" de Pio XII em relação aos nazis.

Mas o que me interessa discutir é a questão da responsabilidade de um povo. Neste caso, o alemão, até nem é da minha especial simpatia, embora reconhecendo o que a cultura germânica deu de génios à humanidade, em todos os domínios. Qualquer juiz é treinado para avaliar a culpa e a responsabilidade individual. Os juízes de Nuremberga não tiveram qualquer dificuldade em condenar aquela colecção de monstros que vemos sentados no banco dos réus, até a rirem-se, assim como fizeram os juízes de Eichmann (que pena que também não Mengele!), Mas como se julga a culpa de um povo?

No caso alemão, até há muitos "indícios". Hitler foi eleito, já bem depois de publicar o Mein Kampf e de as suas SA se passearem pelas ruas em distúrbios. A resistência, praticamente limitada aos dois grandes partidos operários, foi massacrada sem que ninguém protestasse (lembram-se do célebre poema de Brecht?). A partir daí, foi vestigial, com a Capela Vermelha, com meia dúzia de resistentes no exterior, como Willy Brandt, e uma ou outra conspiração no interior, a mais conhecida das quais até com muitos aspectos marcantes de corporativismo militar. Saíam à rua multidões para vitoriar Hitler. Os alemães, na sua quase totalidade, aplaudiram um regime totalitário e criminoso, mas aqui deve-se ter cautela com o termo. Crime, para o homem comum, é matar ou roubar. Mas quantos alemães conheciam Auschwitz?

Agora é que me vou meter por caminhos apertados, pensando em Portugal. Quero deixar bem claro que me horroriza qualquer branqueamento do nosso fascismo. Começo logo por realçar que ainda uso o termo fascismo. É certo que com algumas características particulares, mas não tão particulares como se julga, quando se pensa apenas no nível quantitativo de monstruosidade da repressão. De facto, esse nível só se verificou na Alemanha e, de certa forma, em Espanha, bem como nos países ocupados pelo Japão (mas tenho dificuldade teórica em rotular de fascismo essa realidade tão distante da nossa cultura). O próprio fascismo original, italiano, foi um "mimo", se comparado com o alemão. De resto, os fascismos souberam cometer o grande crime de "genocídio moral e político" de milhões de pessoas, mais "recatadamente", como em Portugal, na Hungria, na Roménia, até no Brasil. Mas entendamo-nos bem: isto em nada diminui a responsabilidade criminosa desses regimes.

Ao longo de décadas, o fascismo português não foi matéria de responsabilidade nacional por agressão a outros povos, com excepção da exploração colonial. É questão interna, mas deixa de o ser com a guerra colonial. Tivemos Wiriamu, mas também incontáveis torturas e assassinatos pela Pide em África, para além das mortes que causámos em combate, da desculturação de populações inteiras transferidas para as aldeias estratégicas, do abafamento da cultura desses povos hoje nossos irmãos.

Mas é responsabilidade do povo português? Questão muito difícil. Eu bem gostaria de ver um presidente da República ir homenagear os mortos do PAIGC, do MPLA, da Frelimo e pedir perdão em nome do estado português, mas não obrigatoriamente do povo português.

No entanto, em relação a Portugal, também não vou automaticamente pela tese ratzingeriana do "bando de criminosos". Com o 25 de Abril, com o povo na rua (Lisboa e Porto, alguns milhares), é certo que muitos mais no magnífico 1º de Maio de 74, redimimo-nos das responsabilidades colectivas em relação ao fascismo.

Será que Delgado, como afirmam muitos, ganhou de facto as eleições de 1958? Tenho muitas dúvidas. Toda a gente que saía à rua a saudar o "venerando almirante" era obrigada? Todos os jovens da Mocidade Portuguesa eram uns oposicionistas precoces, ansiosos por se verem livres de coisas que até eram atraentes para jovens, como o campismo? Os milhares, é certo que poucos, activistas das CDEs e CEUDs de 1969 que percentagem eram da população? Mesmo no meio especial de elite que era a universidade, qual era a percentagem de votantes para as associações? E os milhões que iam à missa ouvir o padre rezar por Salazar pensavam que era uma instrumentalização dos católicos? Apoiavam Cerejeira ou apoiavam o bispo do Porto, o padre Mário da Lixa e o grupo do Rato? E os muitos milhares que foram fazer a guerra colonial estavam contra ela, ou apenas e legitimamente desgostosos com o afastamento da família e com os prejuízos profissionais?

Não me interpretem mal. O povo português não era apaixonadamente fascista, mas era-o, em boa parte, do ponto de vista do adormecimento, da passividade, da ignorância, afinal a grande "arte" do fascismo. Até pode ser considerado ofensivo para todos os resistentes dilui-los numa enorme massa de "antifascistas" por quem nunca dei.

No entanto, a concluir, regresso à minha questão essencial. Alguma coisa disto tudo justifica que o povo português, colectivamente, como nação, carregue com uma culpa colectiva pelos crimes do seu fascismo? Creio que não.

31 maio, 2006

Os salários da função pública

Foi manchete há alguns dias: "os salários na função pública portuguesa são 50% superiores aos privados". Há muito tempo que não lia título tão cretino. Mas não terá entrado logo na cabeça de milhares de leitores? Não vai logo ao encontro da ideia ventilada de que os funcionários públicos são privilegiados? Começo por esclarecer que só fui funcionário público durante curtos quatro anos da minha vida, o que nem chega para os aproveitar para a reforma.

Muito se fala da nossa "incapacidade" para a matemática. O que há é uma pasmosa inumeracia na nossa educação. Como falamos de jornalistas, tive curiosidade em ir ver o que são os nossos cursos de comunicação social. Alguns não apresentam os currículos. Dos que pude ver, sete, só um inclui a estatística (lá tenho sempre de aterrar na Madeira!). Não é importante para a formação dos jornalistas e para a sua critica a coisas como esta notícia ou as sondagens eleitorais? Ou para valorizar as oscilações do Psi-20, os "rankings" das escolas, etc. Já agora, também a maioria dos cursos despreza o português, a história e a geografia, em relação a coisas muito bonitas, como a teoria da comunicação, a semiótica, a psicossociologia da comunicação, o marketing político (se calhar o Carrilho tem alguma razão), etc. Nos EUA, os jornalistas são em maioria, coitados, simples bacharéis em humanidades! Mas sabem escrever e ter uma visão critica, que não depende do seu conhecimento da teoria da comunicação. Entre nós, as universidades continuam a "gozar com o pagode".

E nem falo do correlacionado cálculo de probabilidades, tão essencial na nossa vida corrente e que surpreende sempre a minha gestora de conta quando eu tiro a calculadora antes de aceitar uma sua proposta de investimento. Ou quando peço ao meu médico para chegarmos a uma conclusão final de probabilidade de efeitos e custos, em relação a uma determinada terapia. Imaginam quanta gente instruída já me respondeu que é igualmente provável, no totobola, acertar em todos os jogos e errar todos os jogos? É um teste que me diverte sempre. Já agora, desafio a comentários sobre este problema tão simples.

Não vou transformar esta nota em lição de estatística elementar, mas vou lembrar uma regra básica: uma média não significa nada, se não vier acompanhada pelo desvio padrão, com o que facilmente se calcula o intervalo de confiança. Vou dar um exemplo. No meu último exame, a média foi de 14. Noutra disciplina do meu colega X a média foi de 12. Conclusão jornalística: JVC é melhor professor ou então menos exigente do que X. Nada disto. O meu desvio padrão foi de 3 e, para uma probabilidade de 95%, o que é preciso comparar é o meu intervalo de confiança que é, grosso modo, de 14±6. Se ele se sobrepuser, mesmo que minimamente ao do meu colega X, nenhuma conclusão é possível.

Lembram-se de uma velha piada de um humorista que agora não recordo? "A estatística serve para demonstrar que se eu comer um frango e tu ficares em jejum, cada um se regalou com meio frango". Neste caso, o desvio padrão é igual à média, 0,5, o que significa que o intervalo de confiança dessa média está entre -0,5 e +1,5. Tentem lá fazer estatística com isto!

Voltando à notícia, logo uma coisa estranha que devia logo ter alertado os jornalistas, em simples termos de sentido critico, quando se vê a imagem que a acompanha. Ordenados pela relação entre salário médio da função pública e da actividade privada, estamos à cabeça, progredindo a série do Eurostat, para baixo, de acordo com a ideia que temos da riqueza e do desenvolvimento dos vários países europeus. Na cauda, estão os pobrezinhos da Suécia e do Reino Unido, com 101, da Finlândia, com 94, e do Luxemburgo, com 93. Tenho pena dos seus funcionários públicos, que ganham tão mal! Ou são os outros seus trabalhadores que, em média, ganham muito mais do que os nossos?

Sem entrar em questões técnicas, é preciso começar por ter em conta a distorção do que chamamos de população normal, ou, se quiserem saber o termo matemático, gaussiana. Tomemos como exemplo a altura de uma população. Calculamos a média. Em princípio, porque a população é homogénea, o que fica abaixo da média é sensivelmente igual ao que fica acima da média. Mas a população dos salários é assimétrica. Há muito mais abaixo da média (trabalhadores com menores qualificações) do que fica acima (quadros superiores). Esta assimetria é diferente na função pública e na actividade privada. Na primeira, pesam muito os administrativos intermédios e os técnicos e quadros intermédios qualificados. Na privada, pesam os infelizes milhares de operários e serventes da construção civil, com salário mínimo.

Nestas distribuições assimétricas, é muito útil decompor a amostra. Neste caso, por sectores sócio-económicos. Gostava de saber qual é a tal relação só para o grande contingente dos funcionários intermédios, administrativos e de actividade técnica reduzida. Palpita-me que é de cerca de 1. Mas gostava muito mais de saber se os quadros superiores e dirigentes da função pública ganham vez e meia a mais do que os colegas da privada!

27 maio, 2006

A lei da RMA

Finalmente, vamos ter uma lei da reprodução medicamente assistida (RMA). Era uma lacuna clamorosa, ao fim de tantos anos de prática da RMA em Portugal. Por um lado, parece-me óbvio que a RMA coloca questões éticas que não podem ficar ao critério dos médicos e das instituições. Por outro lado, a falta de lei pode, perversamente, ter efeitos mais constritivos do que uma lei até limitadora, porque os médicos e outros profissionais, sem orientação legal, podem ser tentados a uma auto-limitação defensiva.

Não conheço a lei e vou confiar no que tem sido escrito na imprensa. Uma lei deste tipo deve ser o mais consensual possível. É pena que, apesar de o PSD ter visto contempladas as suas objecções, tenha acabado por votar contra.

É neste sentido que aceito bem as limitações, que me desagradam, à aplicação da RMA. Já outro aspecto muito significativo não me parece ter sido motivado por divergências éticas e traduz provavelmente um certo atavismo. Trata-se da assimetria na aceitação de dadores. Posso compreender que a prevalência do psico-social sobre o biológico leve à rejeição da hipótese de doação dupla e que um dos gâmetas tenha de ser de um dos membros do casal (não falo em sentido legal). Mas não compreendo porque é que só pode ser admitida a doação de esperma e não a de óvulos a fecundar com o esperma do parceiro. Não li também qualquer referência à idade máxima para a RMA. Não é despiciendo, quando já lemos notícias de RMA em mulheres de mais de 60 anos.

A minha maior reserva vai para a impossibilidade de RMA em mulheres sós ou em vida lésbica, embora aceite ser um preço para a possibilidade de aprovação da lei. Tenho até uma posição pragmática, porque é uma inferiorização em relação a uma situação perfeitamente natural. Nada impede uma mulher nestas condições de engravidar, se puder, por meios naturais. Pode é não ser muito agradável para uma lésbica. A lei não devia impedir, no caso da RMA, o que pode ser obtido livremente por via natural. Ficam em desvantagem injusta as mulheres inférteis que não o podem fazer.

Um aspecto positivo desta lei, de grandes implicações para muitas outras questões, como o aborto, é a admissão da ideia de embriões inviáveis, que podem ser usados para investigação médica. Assim sendo, não me parece continuar a haver qualquer justificação para o atafulhamento de congeladores com embriões já com muitos anos. Por outro lado, e mais importante, é uma machadada num princípio extremo de respeito pela "vida humana" desde a fecundação. A questão do aborto vai ganhar muito com este precedente legal.

Finalmente, é notável que, desta vez, a AR tenha assumido as suas responsabilidades perante uma questão que suscitou uma petição com um número significativo de assinaturas. Sou adepto do referendo em questões de formulação simples e compreensível e sem grandes problemas técnicos. Parece-me evidente que, nestes termos, a RMA não é referendável.

20 maio, 2006

Leituras bíblicas

Missa é coisa própria dos católicos. Mas muitas vezes os não crentes são confrontados com elas: um casamento, o baptizado de um neto, uma missa de corpo presente. Nestes casos, deixam de ser apenas um acontecimento religioso e reservado, são actos de homenagem. É claro que um não crente não tem de saber participar, assiste com compostura e com respeito. Alguns padres é que podem não saber isto. Há anos, assisti à missa de corpo presente de um familiar muito querido. Obviamente, até por não saber, não disse as orações e não me benzi. O padre interrompeu a missa para dizer que quem não soubesse seguir uma missa devia abandoná-la.

Felizmente, tenho duas histórias pessoais em contrário, com padres por quem tenho hoje grande estima.

Os meus pais casaram-se com toda a modéstia dos tempos difíceis de S. Jorge, Açores, em plena guerra. A minha mãe nem um decente vestido de noiva conseguiu comprar. O seu grande gosto sempre foi compensar isto com uma grande festa, também religiosa como eles, das suas bodas de ouro. Todos os três filhos se empenharam ao máximo. Felizmente, a minha mãe sobreviveu por largos anos mas, para o meu pai, falecido pouco depois, deve ter sido a sua última ocasião feliz.

Hoje, descubro no espólio da minha mãe, com comoção, uma carta de ambos dirigida a mim e nunca entregue, sobre esse acontecimento, em que manifestam um agradecimento escusado por uma minha atitude nessa ocasião. Nada de especial. Manifestaram ao filho mais velho, não crente, o gosto por que fizesse a leitura da missa. Para mim foi um orgulho. Não crente, mas a religião é um componente da minha educação. O padre, católico progressista como eram os meus pais, dizendo-me que eu baptizado era filho da Igreja, ficou muito satisfeito por eu dar esse prazer aos meus pais, como se eu pudesse tê-lo negado. Concordei logo com a escolha dos meus pais, da primeira carta de João, sobre o amor e a sua transcendência.

Muitos anos depois, lembrei-me disto na missa de corpo presente da minha mãe. Então, fui eu que me dirigi ao padre, por minha iniciativa. Com a sua total concordância, voltei a participar, eu não crente, numa liturgia católica. Não gostei do texto do dia e perguntei ao padre se podia escolher outro, um texto do Livro da Sabedoria, o mais adequado à minha mãe. Desta vez, a escolha foi minha e o padre João, que conhecia bem a minha mãe, ficou muito satisfeito com essa escolha, feita por um não católico.

13 maio, 2006

Antes era melhor?

Volto a textos que apareceram na lista de correio electrónico do Pedro Aniceto, e que muito o devem ter agoniado no seu dever de as publicar.

1. "Em Portugal só houve um fascismo light"

A esta, o PA não resistiu e perguntou: qual é a sua régua para medir fascismos? Esqueçamo-nos, por exercício de discussão, do componente holocáustico do nazismo. Fica a haver grande diferença? Muito mais mortos de socialistas e comunistas nos campos de concentração hitlerianos, mas a partir de quantos mortos é que começa o fascismo? Para mim, de um único. O fascismo italiano até não foi tão assassino, não se compara aos milhares de mortos pela repressão franquista. Em Portugal, algumas dezenas: os mortos à fome e à doença do Tarrafal, Alex e Dias Coelho baleados em plena rua. E, já agora, o preso incógnito em Angola, na minha unidade de fuzileiros, entregue à Pide e cujos gritos só me permitiram o sono ao se extinguirem, não tendo eu compreendido logo que era porque o homem tinha morrido. E aqueles de cujo nome não me lembro agora, que se "suicidaram" lançados do terceiro andar da sede da Pide, de que o seu proprietário, o pobre "rei", quer fazer um hotel de luxo?

E as torturas? Afinal, hoje banais em Guantánamo, a privação do sono e a "estátua". Sabem o que isto é? Também há uma régua com medida para a tortura? Há torturas aceitáveis e inaceitáveis? E por onde andam hoje, neste pais de brandos costumes, São José Lopes, Sachetti, Passos, Cardoso e muitos mais? Talvez tenham filhos e sobrinhos a quem o 25 de Abril tenha dado a liberdade de poderem – e muito bem – despejar alarvidades na net, desde que haja sempre quem lhes responda, sem se acomodar com o pântano ideológico actual.

Também leio as desculpas ao salazarismo, como não-fascismo, por falta da encenação politica. Estupidez! Claro que a tivemos, com toda a encenação do império, mas também, nos anos 40, com as típicas paradas, Marcelo Caetano fardado à fascista, a Legião e a Mocidade Portuguesa, a exposição dos centenários (com a cumplicidade de "futuristas" como Almada). Se são filatelistas, vão ver os célebres selos "Tudo pela nação", desenhados pelo Almada. A diferença foi que tudo isto desapareceu nos perdedores, Alemanha e Itália, e Salazar compreendeu que os tempos tinham mudado. Mas, ainda em 1960, as comemorações henriquinas trouxeram a Portugal, num acampamento no Jamor e com muitos pagodes festivos, a nata das juventudes fascistas europeias.

Concluindo esta parte, vou ao essencial: fascismo é a violência contra os opositores mas também toda a castração da alma de um povo. Censura rigorosa e até estúpida, proibição da venda de livros que fazem parte do património cultural da humanidade, indoutrinação pela comunicação social oficial, demissões da nata dos professores intelectuais, proibição de exercício profissional de jovens licenciados, etc., etc. Isto é fascismo light?!

2. "Antes vivia-se melhor"

Esta é uma versão mais envergonhada do neo-salazarismo, que prefere omitir a politica, mas que ainda é mais facilmente desmontável, porque há números.

Vou falar só dos anos 60. Vivia-se muito bem! As pessoas demonstravam-no com os pés: engrossavam os novos bairros de lata de Lisboa e davam o salto para a França e a Alemanha. É claro que vivia muito bem, no obscurantismo, quem ia pela cartilha rural e de pároco de aldeia de Salazar: "se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida", "Deus, Pátria e família"; "o vinho dá de comer a um milhão de portugueses". Toda a gente da minha geração tinha estas coisas e muitos mais afixadas nas paredes dos nossos liceus.

Lia eu isto, no meu liceu, porque morava a dois passos. Mas lembro-me dos meus amigos residentes a 20 km da cidade que tinham que lá se hospedar porque, à hora do fim das aulas, já não havia camioneta para o Pico da Pedra. Neo-salazaristas de hoje, bem gostava de vos mandar para uma viagem ao passado!

E isto era para quem andava no liceu, obrigatoriamente só nas capitais de distrito. O resto, já esqueceram. Porque é que as campanhas rurais, depois do 25 de Abril, se centraram muito nas infra-estruturas básicas? Porque grande parte do nosso povo vivia em condições inimagináveis (que valia a pena dar a experimentar, em estilo "Quinta das celebridades", aos actuais escribas): sem electricidade, sem esgotos, sem telefone, água só do poço, caminhos de lameiro.

Os possíveis pais licenciados desses escribas provavelmente lhes dizem que, no seu tempo, tinham emprego assegurado. É verdade, mas esquecem-se de que, no meu tempo, esses estudantes universitários não ultrapassavam 20.000, hoje são quase 400.000. Isto chama-se democracia, também económica e social, e é por isto que o 25 de Abril ainda está no coração de muita gente.

Muito mais me apetecia escrever, mas não vale a pena gastar mais cera com tão ruins defuntos.

07 maio, 2006

E outra nota de fim de semana

Um artigo de Jorge Braga de Macedo (JBM) sobre Galbraith, no Expresso, fez-me lembrar uma velha conversa do agudíssimo Corino de Andrade.
"Na ciência e na vida académica, continuamos os comerciantes do sec. XVI [JVC: eu acrescentaria, e o Oliveira de Figueira do Tintim]. Vamos a um congresso e trazemos uma ideia e um novo conhecido sem significado. Regressamos e usamos isto internamente para efeitos curriculares. Voltamos a outro congresso, com efeito multiplicador, em que essa informação anterior e esse contacto nos granjeiam outros, e assim sucessivamente".
O artigo de JBM é muito à nossa moda. É uma evocação sobre a importância da obra de Galbraith, mas misturada com recordações das suas amizades, das viagens conjuntas, da mulher de Galbraith, de algumas coisas que dão a entender que se trata de confidências a um amigo português muito especial. Em Portugal, não é necessário ser-se alguém, mas amigo de alguém, JBM de Galbraigth, o inefável Espada de Karl Popper. Não se vale por si mas pelos amigos, mesmo que só auto-apregoados e de impossível confirmação.

06 maio, 2006

Notas soltas

As notas de hoje ocorrem-me pela leitura do Público de ontem.

1. A crise no Irão está a originar artigos, notícias e colunas dando uma no cravo e outra na ferradura. Insiste-se na necessidade de conversações bilaterais, em posições e sanções da ONU. Mas, pelo meio, vêm as ameaças de intervenção militar. Começo por deixar claro que não simpatizo nada com o regime iraniano e que não vou na conversa, à PCP ou BE, de que o programa nuclear "pacífico" do Irão não representa nenhuma ameaça à paz mundial. Mas lembro o Iraque. Ninguém aprendeu? E, comparado, o Irão, militarmente, não é pêra doce.

A acompanhar uma notícia, o jornal publica uma infografia de origem americana com alvos, armas, aviões. É para, subliminarmente, irem preparando os leitores?

2. Foi lançado um livro de Livro de Maria Inácia Rezola que desmonta algumas ideias feitas sobre o 25 de Abril, nomeadamente sobre a "prepotência" do Conselho da Revolução. Há uma passagem da notícia que me interessou:
"O livro revela ainda "a descrença de Álvaro Cunhal no V Governo provisório. Desde muito cedo que ele [o histórico secretário-geral do PCP] ensaiou uma demarcação de Vasco Gonçalves para se aproximar dos militares moderados", frisou ainda António Reis. "
É verdade e posso testemunhá-lo. Tenho mesmo boas razões para supor que, para além destes contactos de "mensageiros de base", houve conversas ao mais alto nível, mas não posso garantir. Também é sabido que, no verão quente, regressado da sua hospitalização – ou férias, já não me lembro bem – em Moscovo, Cunhal "puxou as orelhas" aos seus camaradas dirigentes, alinhados entretanto na frente esquerdista. Mais ainda, os responsáveis por células foram instruídos para transmitirem moderação em relação à rejeição de base de um possível e frustrado governo Fabião. Mas também é verdade que Cunhal jogou em dois tabuleiros e que os conhecidos membros do V Governo comunistas ou próximos nunca o teriam sido sem a sua concordância.

Daí também a prudência do PCP no dia 25 de Novembro.

3. Na última página, vem a notícia de uma senhora de 63 anos que está grávida, por inseminação artificial, depois de um tratamento que lhe repôs (?) a sua fisiologia pré-menopáusica. É por estas e outras que hoje há tanta desconfiança pública em relação às magníficas conquistas da biomedicina reprodutiva. São médicos e cientistas, frequentemente, os piores malfeitores à sua ciência e arte. Não brinquem com a natureza!

4. Ainda na última página, fez-me pensar a crónica habitual de Vasco Pulido Valente. Como de costume, niilista, derrotista, sobranceiro. Mas não será que este retrato secular de Portugal que ele e outros (Barreto, Mónica, Bonifácio, etc.) transmitem não será visto, daqui a cem anos, como hoje lemos os escritos da geração de 70? Em parte sim. Lamento prensar que, nesse futuro, talvez ainda se continuem a reconhecer como reais, com a mesma actualidade, Gouvarinhos, Acácios, Pachecos, Abranhos, Cavalões, até (agora mais na moda) Salcedes, acrescentados dos seus sucessores dos tempos que correm. Também os iluminados que não lutam e que são objectivamente cúmplices, Carlos Eduardo, João da Ega, Fradique, Craft (mas, enfim, este era estrangeiro).

No entanto, há uma grande diferença, a da intervenção, sua forma e qualidade. É certo que a intervenção prática da geração de 70, exceptuando as de Antero, quando a doença lho permitia e a passagem malograda de Oliveira Martins pelo governo, foram fugazes. No entanto, mesmo em relação aos outros, lembremo-nos que actuaram pela positiva, principalmente como escritores, obviamente que com realce para Eça. As Farpas, os Maias, Fradique não são apenas um choro, revelam autores que têm um sonho e uma atutude de progresso, que não precisam de formular explicitamente. Ganharam autoridade intelectual para que muita gente se interesse pelas ideias de progresso que saltam da critica. Os nossos actuais derrotistas têm a mesma autoridade intelectual?

03 maio, 2006

O que é um intelectual?

Há tempos escrevi no meu Bloco de Notas um texto, "Pensadores, precisam-se", em que aludi á confusão que entre nós se faz entre pensador e simples colunista. Volto ao assunto, e desta vez, porque certamente há leitores que não lêem todos os meus três "blogues", vou escrever isto tanto no Bloco de Notas como nos Apontamentos, porque também tem muito a ver com a educação superior.

Entre vários exemplos de pensadores da minha especial predilecção, referi então Thimoty Garton Ash. É dele um artigo recente para que chamo vivamente a atenção: "Are there British intellectuals? Yes, and they've never had it so good". Vale bem a pena ler também as dezenas de comentários, de alta qualidade. Para abrir o apetite, transcrevo parte da definição de intelectual, segundo TGA:
"Last, and most important, is the characterisation of a cultural role. Collini attempts to pin this down in a careful definition. An intellectual, in this sense, is someone who first attains a level of creative, analytical or scholarly achievement and then uses available media or channels of expression to engage with the broader concerns of wider publics, for some of which he or she then becomes a recognised authority - or at least a recognised figure and voice. My own attempt at defining the role of the intellectual, in a debate with Czech intellectuals some years ago, was not dissimilar: "It is the role of the thinker or writer who engages in public discussion of issues of public policy, in politics in the broadest sense, while deliberately not engaging in the pursuit of power." That last normative caveat seems to me very important, though it is rejected by intellectuals such as Vaclav Havel who have gone into politics with a large P.

Since the 1980s we have come to describe such persons as "public intellectuals", a term imported from the US - as was "highbrow". But if one means by "intellectual" someone who plays the role just described, then "public intellectual" is a pleonasm while "private intellectual" is an oxymoron. A hermit or recluse may be "a bit of an intellectual", but engagement with a wider public is the defining feature of an intellectual in this sense. The story is complicated by the fact that you may reach a wider public only after your death. Only 11 people attended Karl Marx's funeral, but he became one of the most influential political intellectuals of all time. There are, so to speak, posthumous publics."
Reparem na frase "while deliberately not engaging in the pursuit of power". Se entendermos "power" em sentido lato, influência política, clubes de elogio mútuo, narcisismo, favoritismos cruzados, dependência dos vários poderes, etc., então volto ao que escrevi sobre muitos dos nossos opinadores.

A terminar, mais uma vez o agradecimento à DK, infatigável em fornecer-me informação importante.

29 abril, 2006

O que se escreve sobre o 25 de Abril

Faço parte de uma lista bem conhecida da comunidade Mac, o Correio dos Outros. Por volta do 25 de Abril, vários membros escreveram depreciativamente. Foi um direito que o 25 de Abril lhes deu e muito bem. A uma dessas mensagens, de PauloSR, que não sei quem é nem que idade tem, resolvi responder. O seu texto vai em "indent".
É bom que se diga que os famosos “capitães” que têm a fama de terem feito o libertador 25 de Abril de 74, não o fizeram com o altruísmo de libertar a população do jugo ditatorial em que na realidade se encontrava, mas sim o fizeram a pensar nos seus bolsos e, goste-se ou não, apenas por razões salariais...
Isto é mentira e uma enorme injustiça. É verdade que, ainda em 1973, as primeiras movimentações dos capitães foram corporativas (não salariais, antes de antiguidade na carreira), mas logo evoluíram, surpreendentemente, para a contestação à guerra colonial, primeiro, e a seguir para a consciência de que esse drama só se resolveria com uma mudança de regime. É por isto que muitos militares, de posto superior e de maior consciência política, desconfiaram inicialmente do movimento mas depois o conduziram com grande apoio de "base". Não é por acaso que inicialmente se falava do "movimento dos capitães" e depois ficou como MFA. No 25 de Abril, saíram à rua oficiais, sargentos e soldados. Do quadro e milicianos, muitos dos quais meus companheiros do movimento associativo. Também a Armada, nada corporativa e muito politizada.

Cito três exemplos de militares do 25 de Abril: Vasco Gonçalves esteve envolvido na revolta da Sé. Varela Gomes esteve preso vários anos pelo golpe de Beja. Melo Antunes foi, entre muito mais, candidato pela CDE nas eleições de 1969, embora a Pide o tivesse vetado.

É certo que houve alguns casos lamentáveis. Para mim, homem de esquerda, fica-me para a vida o desgosto do percurso de Otelo, que condeno inteiramente. Mas também houve ao contrário. Por exemplo, José Bernardo Canto e Castro - por alguma razão era protegido de Salazar! - passou de membro da coordenadora do MFA a militante do ELP e fornecedor de bombas assassinas (lembram-se de que o terrorismo do ELP matou gente, até um bebé?).
O que eles nunca julgaram foi serem “apanhados” pelo povo (e por alguns partidos políticos, mais ou menos organizados) o que acabou por transformar um Golpe de Estado em uma Revolução (desorganizada, mas uma revolução)... Revolução essa que caminhou rapidamente para a anarquia e na prática, de novo para uma nova ditadura, só que agora de outra vertente (para não dizer mesmo de uma outra cor)...
A arrogância intelectual de quem julga que a história é desenhada a régua e esquadro. Quem é que hoje rejeita a imensa herança da revolução francesa? e, no entanto, houve Robespierre, o terror, a guilhotina, o processo de Lavoisier. Mas também a revolução francesa teve o seu 25 de Novembro, o 18 Brumaire, Napoleão, o domínio de uma nova oligarquia, a guerra e a miséria levadas a toda a Europa.
É exemplo de liberdade e bem saber governar a maneira como se deu a já devida independência às antigas colónias ultramarinas, levando para a desgraça e miséria milhões de indivíduos lá e cá???!!! Criando uma vaga de Retornados e Refugiados (refugiados sim... porque os nascidos e criados lá são refugiados e não retornados como foram e ainda são chamados), criando o desenraizar e mutilação de populações inteiras...
Tinha de vir a descolonização. Não sei se PauloSR teve contacto com as "províncias ultramarinas". Eu tive porque, sendo antifascista, segui a orientação de irmos para a guerra. Foi acertadíssimo. Creio que não teria havido consciencialização dos capitães se não fosse o "brainstorm" que lhes fazíamos entre um poker e um uísque, no meio do mato.

Voltando às colónias, é preciso lembrarmo-nos do que foi o colonialismo português. Franceses e ingleses criaram elites locais, universidades, infra-estruturas, etc. Em Angola e Moçambique, tudo isto era primitivo, nas outras vestigiais. Já alguma vez foi a Luanda? Agora ainda está pior, mas, no meu tempo, era um miolo de cidade desenvolvida só branca, rodeada por um imenso musseque miserável. Fui assistente da universidade, aliás muito tardia. Em uma centena de alunos, não chegavam a meia dúzia os alunos pretos.

Há de facto grandes culpas pela situação actual dos PALOP, que muito me entristece. Mas a culpa não foi da descolonização, foi da colonização. A descolonização foi a possível. Eu pessoalmente, nunca pensei que até corresse tão "bem".
Desrespeitando por completo o esforço e sangue dos que lá morreram e lutaram...
Isto é chantagem psicológica. A grande maioria dos nossos mortos, a quem devemos homenagem, morreram sacrificados, por uma causa em que não acreditavam. Como disse, estive no mato, em companhias de fuzileiros. Com algum risco da minha parte, tentava fazer acção política e tinha conversas com muitos marinheiros. Eram raros os que acreditavam no "império". Suspiravam era pelos 24 meses que os aliviariam daquele inferno.
Pois à excepção da Guine os restantes territórios estavam o suficientemente controlados para se dar uma independência em condições para os novos países de África.
Outra falácia. Vou falar do que conheço, Angola, mas sabendo que ainda era pior em Moçambique. Fora as cidades, não havia nenhuma zona segura. As principais vias de comunicação, rodoviárias e ferroviárias, estavam sob vigilância permanente. O leste, onde estive, só estava relativamente seguro graças à cumplicidade da Unita com a Pide. Claro que em Luanda se comia lagosta, mas isso era como em Havana, quando Baptista acordou num reveillon com as tropas de Fidel a atirarem sobre o casino.

Aceito, no entanto, que Angola não estava na iminência da tomada de poder pela força principal, o MPLA, aliás a passar por uma crise grave. Mas estava-se num empate. Já era impossível o controlo estratégico pelas forças armadas portuguesas.
E repugna-me e deixa-me revoltado ouvir as desculpas dos intervenientes da altura: “... foi a independência possível...”... Foi a independência possível entregar a minorias DITATORIAIS o controlo e os desígnios de vários povos nos novos países daí nascidos... É isto o exemplo de Liberdade que queriam dar entregando as chefias e governos dos novos países a ditaduras do partido único???
Mas, depois de décadas de fascismo de partido único, quem é que habituou esses povos às virtudes da democracia pluripartidária, que, aliás, não têem correspondências aos seus valores civilizacionais?
Revolta-me é o medo que já começa a haver hoje de expor a nossa revolta e as nossas ideias contra as posições de um governo que se aproveitando da sua posição maioritária se comporta de modo “ditatorial”, atacando os direitos dos indivíduos de uma forma mais grotesca do que seria de pensar hoje em dia.
Curioso, isto, quando toda a direita escreve na comunicação social com maior facilidade do que a esquerda! E quem é que limitou este escrito de PauloSR? Ninguém pode acusar o PA [nota, JVC - PA é o moderador da lista onde este texto foi publicado] de não ser democrata e, veja bem o que ele escreve, não me parece que seja um democrata nascido no 25 de Novembro.
Ou será que ainda ninguém reparou na estratégia que têm de antes de atacar os direitos de uma classe profissional, atacam-na e desacreditam-na na praça publica e quando a opinião pública está contra ela lá vai “facada”, com todos os outros a bater palmas... O pior é quando esse ataque nos bate à porta, aí revoltamo-nos mas já estão todos os outros contra nós... E as pessoas ficam caladas que nem presas amedrontadas, com medo de que lhes possa acontecer alguma coisa... Isto sim eu já começo a ver como um ataque à nossa tão demorada e conquistada Liberdade... (Ai... Se arrependimento matasse...)
Ah, já esperava, os direitos de uma "classe profissional". Eu aprendi a discutir "classes sociais". A sua expressão tresanda a corporativismo. É um problema que me atormenta, ver como essa herança salazarista ainda está tão presente, mesmo que sob formas mais modernas.
Isto já vai longo demais... Por isso digo “LIBERDADE SEMPRE”
Paulo (PauloSR)
Também eu digo LIBERDADE SEMPRE, mas, para não falar do 25 de Abril, não a isolo da trilogia "liberté, égalité, fraternité", que hoje poderia actualizar como "liberdade, igualdade de oportunidades, solidariedade social".

P. S. Esta entrada merece uma dedicatória. Vai dedicada, com muita saudade, a um querido amigo, que teve grande influência em mim: Ernesto Melo Antunes. Nunca chegou a general, nunca teve a Torre e Espada, sentiu-se ultrapassdo pela direita no 25 de Novembro, morreu amargurado por nunca ter visto concretrizado o Portugal com que sonhou, muito antes do 25 de Abril, mas um dia a história há-de lhe fazer justiça.

12 abril, 2006

Notas soltas

Hoje não é sábado mas, no próximo sábado pascal ninguém me lê.

1. Li uma coisa engraçada escrita por Vasco Pulido Valente: na nossa administração pública, o valor de um dirigente mede-se pelo dinheiro, pelo número de funcionários e pelo espaço que domina. Nada de estranho, é visceralmente biológico. Com excepção do dinheiro, qualquer macho dirigente se mede pela dimensão da manada e pelo espaço que conquista. Agora se um dirigente se quer ver apenas como animal, é lá com ele.

2. Será também um comportamento biológico, de defesa de interesses? Há bastante tempo, colaborei intensamente com uma escola universitária e conheci muito bem o seu clima doentio de relações internas baseadas em grandes amizades e ódios de estimação. A isto, estamos todos habituados. Há dias, depois de muito tempo de falta de contacto, tive uma descrição pormenorizada da situação actual. Continua na mesma, mas mudaram os papeis dessa farsa. Grandes amigos são hoje inimigos figadais, grandes e velhos ódios rancorosos converteram-se em amizades de grande cumplicidade. Não faz mal, disse a esse ex-colega, a responsabilidade que certamente todos sentem em relação aos desafios de Bolonha vai pôr toda a gente a proceder superiormente...

3. Já tem sido mais do que discutido: a unidade de missão para a reforma do código penal propõe que vários crimes cometidos por políticos (peculato, abuso de poder, favorecimento em negócios, não estou certo se mais) possam ser punidos com a perda do mandato, em vez da prisão. Foro privado dos políticos?

Parece-me um escândalo e um atentado ao respeito colectivo pela vida democrática, respeito já muito em baixo. Mas que capacidade há em Portugal para um cidadão manifestar a sua indignação? É verdade que os blogues vão sendo importantíssimos, mas só chegam a uma magra minoria dos cidadãos. Nós temos, colectivamente, a democracia que merecemos porque, ao longo dos séculos, não soubemos criar uma sociedade civil forte. O milagre finlandês - e outros - não é de tecnologias, é essencialmente disto. Sociedade civil muito forte, grande cultura democrática interiorizada, aprendizagem da ética desde as primeiras palavras.

08 abril, 2006

Literatura e história

Nos últimos dias, desde 4 de Abril, Pacheco Pereira – licenciado em História, segundo creio – tem publicado no "Abrupto" excertos de um novo livro de Agustina Bessa Luís, "Fama e Segredo da História de Portugal". Não percebo bem o que será o livro. À primeira vista parece uma coisa de tipo "a história contada aos coitadinhos que nunca a estudaram". Literariamente é pobre, pela amostra; historicamente é pouco séria.

Como alguns leitores do Abrupto chamaram a atenção, abundam os erros ou, pelo menos, as fantasias. Muitos dos que vou apontar são referidos por leitores do Abrupto. Ao menos, Pacheco Pereira teve a honestidade de publicar essas criticas. O tema também tem sido discutido no blogue "Um prego no sapato".

Segundo o primeiro texto, D. Afonso Henriques poderá muito bem ter sido filho bastardo de Egas Moniz. O conde D. Henrique pode ter sido filho do rei da Hungria e veio para Espanha, coisa que não existia na época. O conde Sisnando é sempre tratado por capitão, coisa que nunca li e termo que, se não estou em erro, não era usado na época. Há uma ama de leite, Ausenda Dias, que recebe de ABL o nobilíssimo e então muito raro título de Dona. Mais mirabolantemente, D. Teresa amantizou-se (ou ter-se-á casado, segundo ABL) não com o galego Fernão Peres de Trava, mas sim com um conde Pedro Trastâmara, inventado séculos antes do primeiro Trastâmara, Henrique, rei e pai do João de Castela que o mestre derrotou em Aljubarrota. Ainda por cima, esse conde Pedro Trastâmara tinha por pai o Fernandes (qual o nome próprio?) de Trava. Sem ABL referir o patronímico do tal Trastâmara, fica uma grande confusão de condes. Finalmente, a troca de um infante aleijado de nascença por uma obscura criança aldeã pode ser fantasia imaginativa mas duvido de que seja história.

Outro texto fala de D. Filipa de Lencastre. Para não alongar mais isto, só a referência de ABL aos seus "quatro filhos rapazes". Como toda a gente sabe, foram Duarte, Pedro, Henrique, João e Fernando, para só falar dos que sobreviveram até adultos. Faz-me lembrar um antigo politico pomposo e caricato que explicava sempre "por três razões", que, afinal, ou eram duas ou quatro, nunca três. Mas já chega de exemplos e passe-se ao importante.

Que direito tem um escritor ficcionista de "usar" a história? A meu ver, todo, desde que o jogo seja limpo. Ninguém tem dúvidas de que o bispo negro de Herculano não é uma figura histórica, embora o conto se enquadre magnificamente na história da época. Ninguém tem dúvidas de que o romance entre Ana de Áustria e o duque de Buckingham não tem base histórica sólida, mas "Os três mosqueteiros" nunca sofreram por isso. Mais recentemente, os fascinantes livros de Dan Brown têm muitas fantasias "históricas", mas deliciosas, e que ninguém considera como impostura e que, por isso, levam ao ridículo os protestos do Opus Dei.

Este triste caso de ABL, a quem se exigem grandes responsabilidades intelectuais, não é nada disto. Não é ficção, nem sequer a recriação de um ambiente de época. É pseudo-história, perigosa porque, para muita gente, avalizada pelo prestígio da autora. É mais um caso para nos lembrarmos de que "não suba o sapateiro além da chinela".

Lembram-se de um caso inconcebível, já aí há uns vinte anos, de um "historiador" chamado Magalhães Barreto e de um seu livro "top seller" sobre Colombo português e agente secreto de D. João II? ABL fica agora com boa companhia. A propósito, lembro-me de que esse "historiador" de fados e touradas escrevia sempre Cólon-Zargo. Aqui está uma boa sugestão para ABL: escrever Trava-Trastâmara. Daria muitas teses "académicas"!

Pena é que talvez não haja agora cá para zurzir em ABL pessoas como as que afrontaram o "colombólogo", Luís de Albuquerque e Luís de Távora. Com isto, sofreram vexames de uma canalha "intelectual". O que seria agora com quem arrostasse com a áurea de ABL? Afinal, estou a fazê-lo mas, como toda a gente sabe, eu sou um "desbocado" que ninguém leva a sério, salvo os amigos que conhecem o gozo que isto me dá.

Toda a direita, os sectores mais tradicionalistas, algumas mentes brilhantes que se consideram moderníssimos, criticam a ausência de um verdadeiro ensino de conhecimentos fundamentais sobre a nossa história. É certo que ainda não li nada de ABL sobre isto, mas conhecendo-se a sua posição ideológica, não parece abusivo pensar-se que ela partilhe dessa opinião. Com isto, ela está a dar um enorme tiro nos pés. Por mim, agradeço. E até me dá gozo, porque tenho sempre alguma "vergonha" em afirmar que não gosto nada da sua escrita literária, questão de meu gosto pessoal. Também não de Saramago e de Lobo Antunes, mas "porra, sou lúcido!" Agora, fico reconfortado e vou dormir hoje que nem menino embalado.

E já que estou embalado, recordando Almada e o manifesto anti-Dantas: ABL merece "pim"! De mim não leva um tostão de direitos de autora.

25 março, 2006

Esquerda e direita

Conheci Fernando Gil creio que apenas uma vez e, da sua obra, sou conhecedor limitado, embora sempre o tenha lido com muito agrado. Sublinho o valor que atribuía ao conhecimento das ciências por um filósofo, conhecimento em que não incorria em erros graves ou em abusos de utilização tão vulgares nas vigarices intelectuais da escola filosófica francesa.

Do pouco que li dele nos últimos anos ("Impasses") e de notícias sobre algumas intervenções suas na política, fico com a impressão, talvez injusta, de um "desvio para a direita". A expressão, aliás, não é minha, mas sim de Eduardo Prado Coelho, na sua coluna do Público. Isto serve-me de pretexto para alguma reflexão ligeira sobre a esquerda e a direita.

Só um fanático é que não se coloca hoje esta questão e continua preso aos esquemas de há um século. Em primeiro lugar, não vejo lugar para uma distinção baseada no sistema económico. O modelo de "socialismo real" mostrou-se inadequado, fracassou e não adianta dizer que se pode aceitar o mercado sem o capitalismo. Não sendo economista, não percebo qual é a diferença. A questão essencial parece-me ser: pode-se imaginar um capitalismo de esquerda e um capitalismo de direita?

Parece-me que a questão não faz sentido, do ponto de vista puramente económico. Teremos então de colocar a questão esquerda-direita noutros planos, o ideológico, o politico e o social.

Há um velha fórmula pretensamente definidora que diz que, no binómio liberdade-igualdade, a esquerda privilegia a igualdade e a direita a liberdade. É meia verdade, porque, a não ser que se entenda liberdade como sinónimo da concorrência capitalista selvagem, a esquerda (esquecendo o estalinismo e o maoísmo, como aberrações históricas, embora com herdeiros) não pede meças na defesa das liberdades. É fácil verificar que, nos últimos anos, a restrição securitária da liberdade vem da direita. Que eu saiba, o "Patriot Act" não é obra de esquerda.

Por outro lado, para a esquerda, a igualdade tem hoje um sentido menos retórico e mais operacional. A igualdade, na nossa actual sociedade possível, é a igualdade de oportunidades, pela qual ainda há muito que lutar, e que é indissociável, política e ideologicamente de outro valor que julgo definidor da esquerda, a solidariedade (não se venha com a caridade de direita, que é coisa bem diferente). Neste sentido, parece-me ainda adequada a velha fórmula da revolução francesa. De "liberté" e de "égalité", já falei. A "fraternité" é hoje a solidariedade e a recusa da exclusão.

Também se faz a distinção, com frequência, em termos da concepção do papel de intervenção do estado. A esquerda favoreceria o estatismo, a direita o papel da sociedade civil. Começa logo por um equívoco histórico: se alguém teorizou muito sobre a sociedade civil, na sua herança hegeliana, foi o próprio Marx. Depois, na prática, a desestatização não é só uma bandeira de direita que, aliás, a vê apenas como privatização empresarial. A esquerda moderna defende com ênfase a importância da proximidade aos cidadãos da decisão política, o papel das ONG, etc. A esquerda não pode deixar à direita a posse da fórmula hoje tão usada, "menos Estado, melhor Estado".

Destacaria também, embora com reservas, os "problemas transversais", no sentido de um progressismo humanista: o ambiente, uma nova ordem internacional, a igualdade de géneros e orientações sexuais, a abertura às inovações de progresso científico e médico, etc. No entanto, conheço pessoas de direita, conservadoras em termos económicos, que partilham dessa minha "visão de esquerda".

Depois, temos a prática. Quem vota CDS é, para mim, seguramente de direita. Quem vota PCP ou BE é de esquerda. Mas quem vota PS é de esquerda e quem vota PSD é de direita? Já não me parece tão linear.

Se calhar, tenho de me limitar a uma velha fórmula definidora: "é certamente de direita quem diz que já não faz sentido falar de direita e de esquerda".

11 março, 2006

A importância de se ser "earnest"

Há dias, ao traduzir um texto de Berverly Trayner, deparei-me como uma grande dificuldade: como traduzir "earnestness"? Isto fez-me pensar em como a língua traduz em muito as idiossincrasias psicológicas e culturais do seu povo falante. Também temos as nossas: saudade, desenrascar, não são linearmente traduzíveis por "nostalgy" ou "to improvise". "Alone" também não atende ao valor do sufixo de sozinho. Por alguma razão temos duas palavras, só e sozinho.

Como é bem sabido, uma peça importante, e deciosa, de Oscar Wilde intitula-se "The importance of being earnest", fazendo um trocadilho com o nome Ernest da personagem. Geralmente, traduziu-se para português como "A importância de se chamar Ernesto", o que anula completamente o trocadilho e o significado. Releia-se a peça e logo se vê.

O Webster define o adjectivo "earnest" como "characterized by or proceeding from an intense and serious state of mind". O Dicionário Inglês-Português da Texto Editora traduz por um conjunto de termos que não são obrigatoriamente sinónimos: "sério, diligente, sincero, cuidadoso, zeloso". Poder-se-ia continuar com "dedicado, motivado" e mais. Tanto quanto conheço os meus amigos ingleses que se consideram "earnest", são tudo isto.

Cinjamo-nos ao "sério" e note-se a diferença. Em português, parece-me denotar mais uma atitude ou um temperamento. Facilmente se associa a sisudo, circunspecto, distante do humor. Raramente a sinceridade e nem sempre a motivação. Ora eu conheço muita gente "earnest" que é alegre e divertida.

O resultado prático da minha dificuldade foi a minha amiga Beverly ter modificado o seu texto e, em vez de "earnestness", acabei por traduzir, muito mais facilmente, o que ela acabou por escrever, desdobrando a palavra: "candour, enthusiasm and a sense of humour".

No Público de hoje

1. São José Almeida, cuja leitura costumo apreciar, comete hoje um erro que desvirtua a sua argumentação. Critica Jorge Sampaio por ter desrespeitado a Constituição ao dissolver a AR no período Santana Lopes, dado que esse seu poder só podia ser exercido em condições de mau funcionamento das instituições democráticas. Ora esta limitação só vale para outro poder, o de exoneração do primeiro ministro. O poder de dissolução é discricionário, dependendo apenas, formalmente, da consulta ao Conselho de Estado.

2. Um novo Maio de 68? Creio que não, a ajuizar pela fraca dimensão do movimento. Mas mais interessante é atentarmos aos fundamentos. Em 68, as reivindicações eram de natureza educativa, embora rapidamente diluídas numa movimentação política geral. Agora, sinais das dificuldades sociais, os protestos estudantis vão para além da sua educação e visam as limitações postas ao sistema de favorecimento do primeiro emprego para os jovens. Não quero dizer com isto que não têm razão.

3. Delors afirmou que o investimento no social é o que mais contribui para o desenvolvimento. Não sou economista e não sei analisar a validade científica da afirmação. Mas, política e ideologicamente, diz-me muito.