02 outubro, 2008

Cursos de Medicina nas privadas

Declaração de interesses: sou director indigitado do curso de medicina proposto pela Universidade Lusófona e tive um papel relevante na elaboração do projecto.

Há dias o MCTES declarou que nenhuma das propostas de cursos de medicina apresentadas pelas universidades privadas tinha qualidade. Isto tem especial gravidade porque passa para a opinião pública a ideia de que o ministério até estaria aberto a cursos privados, numa situação em que há já falta de médicos, em que o SNS vai recrutar médicos uruguaios e de outros países latino-americanos (como são os cursos de medicina no Uruguai?) e em que centenas de estudantes portugueses procuram estudos médicos no estrangeiro, até nas provavelmente excelentes escolas médicas da República Dominicana.

Porque não formar estes mais médicos em Portugal, nas privadas se as públicas não correspondem à procura? Porque, MCTES dixit, os projectos das privadas não têm qualidade. É uma afirmação grave, proferida com autoridade e sem possibilidade de contestação. Não posso aceitar isto, pessoalmente. Quando houver uma decisão e o processo deixar de estar em reserva administrativa, pedirei à Universidade que me autorize a divulgá-lo, sujeitando a sua qualidade ao escrutínio de todos os meus leitores.

11 comentários:

Jorge P. disse...

Viva!

Declaração de interesses: sou estudante de medicina e (modesto) dirigente associativo.

Pergunta honesta: Pode explicar melhor essa falta de médicos em Portugal? A que estudos pode fazer referência? Faltam mestrados integrados em medicina ou faltam vagas para certas e determinadas especialidades? Este problema de "falta de médicos" (ou de falta de "alguns médicos em certos sítios") é do MCTES ou do Ministério da Saúde?

É que com toda a sinceridade, os únicos estudos sérios que foram capazes de me mostrar até hoje, só apontavam na direcção oposta. O mais famoso (e por vezes tornado infame) é o do Prof. Alberto Amaral, mas há mais. Aliás, até os anuários estatísticos do INE dão perspectivas interessantes.

Gostava muito que partilhasse algumas referências, pois a discussão nesta área às vezes parece pouco mais do que cabeças a bater na parede.

Quanto à resposta do ministério: obviamente que concordo consigo, passa uma ideia errada.

Obrigado.

Abraço

Joaquim disse...

Essa é a resposta chapa 5 do MCTES.
Deu uma muito semelhante para a maioria das propostas de mestrado nos politécnicos, mas quanto à fundamentação em concreto das recusas foi extremamente superficial (e semelhante para todos...), ficando no ar a ideia que a decisão foi apenas política.

fernando disse...

Esta preocupação dos jovens estudantes de medicina em querer demonstrar por a+b que não há falta de médicos em Portugal não bate lá muito bem com a necessidade de se irem buscar médicos ao Uruguai, á Espanha e mesmo aos paises de Leste

ah, já sei. Não há falta de médicos, mas ele estão mal distribuidos, certo ?

E o Governo tem que incentivar os médicos a irem para onde há falta deles, acertei outra vez não foi ?

Meu caro jovem estudante e associativo, o SNS já gasta o que tem e ainda o que não tem com os médicos.

Era só o que faltava ainda ser necessário mais uns milhões de incentivos para convencer os médicos a irem para onde fazem falta.

É muito mais barato, trazer médicos do Uruguai ou mesmo legalizar os imigrantes de Leste com cursos de Medicina, não acha ?

Jorge P. disse...

Caro Fernando,

Não sei.

Nunca vi dados que me deixassem convencido (em qualquer sentido). Por isso é que perguntei, por isso é que procuro informação. Se ela aparecer, farei com que seja divulgada, e garanto-lhe que seria recebida com muito interesse por muitos jovens do lobby.

Eu não fiz nenhuma demonstração, até admiti um certo vazio de informação (que sei haver a níveis que me deixam no mínimo preocupado).

Por exemplo: ninguém sabe quantos estudantes portugueses estão lá fora a estudar medicina. Ninguém. A Associação Nacional de Estudantes de Medicina faz estimativas grosseiras, mas é o melhor que há. Estes têm grande probabilidade de voltar e sim, ficam "baratos". Ainda assim, estamos na penumbra. Quantos são? (imagino que são bastantes só em Espanha e na República Checa) Quantos voltam?

Aliás, o que eu "acho" ou deixo de achar não deve servir como fundamento para decisões desta importância.

Não acha?

Cumprimentos.

fernando disse...

eu não tenho nenhum estudo embora já tenha ouvido falar de alguns e contudo a sua premissa assenta na irracionalidade dos milhares de estudantes que andam a tirar o curso no Estrangeiro, será que eles são mesmo irracionais ?

se não houvesse falta de médicos acha que isto fazia sentido ?

http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/779141a8baf13394ec961f.html

já agora, vá ao site do IEFP ver se existe algum médico desempregado ?

aparecem lá só alguns médicos dentistas, para além de outros profissionais do ramo da saúde, mas que não médicos

ora bem se não existem médicos desempregados isso quererá dizer alguma coisa,

que todos os médicos estão empregados,

tanto os competentes e os incompetentes

ou por acaso acha que a carreira médica é a única que não tem pessoas incompetentes e que não tem vocação para essa carreira ?

o dia em que tivermos algumas centenas de médicos inscritos nos centros de emprego, pode crer que nessa altura as médias dos cursos de medicina começam a baixar

Jorge P. disse...

Mas quem é que falou em irracionais? Têm todo o direito a tirar o curso onde quiserem e como bem entenderem.

Aliás, tenho belíssimas referências de ambos os países de que falei - a República Checa, particularmente, tem um sistema de avaliação baseado em objectivos muito estruturado e claro, que me deixou curioso. Mesmo em Erasmus não cedem a "facilitismos" e fornecem uma formação que (segundo me foi dado a entender) é de altíssimo nível.

Também já li a notícia, é uma questão de justiça - se as pessoas são qualificadas, merecem concorrer aos lugares em pé de igualdade.

Quanto à questão da descida das médias - concordo.
Se há médicos incompetentes - bastantes.

Quanto ao desemprego melhorar a qualidade dos cuidados médicos, parece um exercício arriscado (os advogados em exercício são todos brilhantes? os desempregados são todos incompetentes?), mas admito que faria muito pela selecção das vocações e pela redução da prevalência de uma certa arrogância profissional.

Eu só perguntei se me podiam indicar estudos, pois estou genuinamente interessado em saber o que se passa. Confesso que não sei bem onde procurar mais, mas gostava de ler coisas sobre isto. É um tema que me interessa por razões óbvias e não sei bem onde me colocar.

Cumprimentos!

JVC disse...

Chega a altura de eu intervir. Creio que, há tempos, critiquei aqui jorge p pelo que me parecia ser uma atitude corporativa de quem até ainda nem era médico. vejo agora, por este debate sério e rhonesto, que me enganei. É de elementar dever deixar aqui o meu pedido de desculpas a jorge p. Já agora, também lembrar coisa que certamente ele desconhece: em 1968-69, fui presidente da associação de estudantes de medicina, na altura CPA (comissão pró-associação) porque a associação tinha sido ilegalizada.

Jorge P. disse...

Não precisa de pedir desculpa jvc, já nem me lembrava disso. A única coisa que não lhe desculpo, é gostar mais do Padrinho III do que do II :)

Deve ter sido uma altura difícil mas fascinante de viver. Onde estudou?

JVC disse...

Os três primeiros anos em Coimbra, para mal dos meus pecados, depois em Lisboa, no tempo em que só havia uma faculdade.

O meu gosto pelo Padrinho III provavelmente tem a ver com a minha paixão pela ópera e também pelo drama dos grandes conflitos interiores, mormente da culpa e do sentido da vida, à Shakespeare. Mas também é verdade que não teria feito sentido o Padrinho III sem o excelente Padrinho II.

Voltando ao tema, lembrei-me de que escrevi há bastante tempo um artigo para a APESP de crítica às teses Alberto Amaral, aliás meu caro amigo. Como creio que já não está acessível, publico-o no meu site: http://jvcosta.planetaclix.pt/artigos/saude.html

Jorge P. disse...

Obrigado!

Vou ler.

João Teixeira disse...

Caro João Vasconcelos,

A propósito do tema Cursos de Medicina Privada, acrescento-lhe um comentário. ´Curiosa esta posição do Ministério, que autoriza mais de 50 escolas de enfermagem - uma área de conhecimento sem capacidade para se afirmar como área disciplinar autónoma, pois, nos termos de Bolonha, não tem capacidade para responder em número de doutorados em áreas de Enfermagem às necessidades de tantas escolas escolas, já que a sua base partiu do Ensino Politécnico.

Facto ainda mais curioso, tem a ver com o facto de neste momento, somando o número de alunos que anualmente rumam ao estrangeiro para frequentar Cursos de Medicina - Espanha, República Checa?, e Inglaterra - é muito provavel que se chegue à conclusão que já são mais ( ou pelo menos equivalentes) ao número dos que entram em universidades nacionais para o mesmo Curso.

Dá que pensar, não?