30 junho, 2007

O velho, o rapaz e...

Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto andam à bulha. O velho e o rapaz, só falta o burro (ainda há-de haver um outro madeirense metido nesta história, mas que até nem é nada burro). Mas, ó senhores do venerável Opus Dei, não há aí ninguém que vos chame à ordem e imponha não sei quantos terços, cilícios e flagelações? Não há nezezidade, zezeze!

29 junho, 2007

Sobre a educação superior (I)

1. Este blogue tem três facetas bem distintas, a educação superior, a política e as questões sociais, a gastronomia. Para facilidade dos leitores, vou identificar bem no título as entradas dedicadas a temas específicos da educação superior (reparem que nunca escrevo ensino superior!). Mas, afinal, não é tema que interessa a toda a gente?

2. Saldanha Sanches é professor de direito, passa por ser um bom especialista em direito fiscal e concorreu agora à agregação, tendo chumbado. Claro que não posso falar dos méritos da questão, mas só lembrar que o seu azar foi ter antecipado por um pouco a apresentação às provas. Ainda foi sujeito ao incrível sistema de votação secreta por bolas brancas e pretas. Há algumas semanas, saiu um novo decreto que não muda muito no regime de agregação mas que, ao menos, altera esta disposição, para votação nominal justificada. Fui membro de vários júris e sempre fiz gala (nada o proibia) de me dirigir para a urna com as mãos bem abertas, mostrando onde estava a bola que ia depositar.

3. Ando a ser desafiado a subscrever petições de protesto contra a proposta de lei do regime jurídico das instituições de ensino superior. Não gosto da proposta e já a critiquei severamente, aqui e aqui. Mas muito menos gosto de as minhas criticas "à esquerda" irem fortalecer as criticas "à direita". Das duas petições que andam por aí, uma é -me inaceitável, na generalidade. A outra, a que tem origem em Coimbra, até mereceria o meu apoio, não fosse a defesa intransigente da eleição do reitor, contra a proposta de escolha do reitor por um conselho restrito, com maioria de professores mas com participação de pelo menos 30% de personalidades exteriores à universidade. Essa posição dos reitores e dos peticionários traduz os bem conhecidos jogos de traficância de voto na eleição do reitor, com destaque para o papel das associações de estudantes. Além disso, é posição que merecerá risos por toda a Europa universitária.

4. Quem estiver interessado em algum aprofundamento desta questão, pode ler "Novamente a proposta de lei do RJIES" e "Discordando de Vital Moreira (II)".

Eça, sempre

Ao refazer uma página do meu sítio da net com citações, dei com esta exemplar, em qualquer parte dos Maias.

"Aqui em Portugal importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciência, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega; e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas."

27 junho, 2007

Catedrático

Um amigo mandou-me hoje uma mensagem com uma coisa deliciosamente acutilante:

"Sabes porque é que o X não é catedrático? Como ele diz, ainda não reune o conjunto necessário de defeitos para o ser..."

Um colóquio memorável

Há pouco tempo, tive uma experiência entre o doloroso e o interessante, a participação num colóquio sobre ensino superior. Falei sobre Bolonha, mas o debate a seguir incidiu principalmente na proposta de lei do regime jurídico das instituições de ensino(/educação) superior. Fiquei entre o espantado e o divertido, embora não ficasse surpreendido, por saber em que águas andavam a maioria dos participantes. Aqui vão alguns mimos com que me presentearam.

"V. elogiou o modelo universitário americano, mas esquece que o modelo americano é essencialmente o da universidade capitalista".

"O que o governo quer com isto das universidades fundacionais é dar uma universidade ao Joe Berardo, como já lhe deu o CCB" (isto tendo eu dito expressamente que tinha muitas reservas em relação às universidades fundacionais).

"Ao contrário das universidades fundação que vão ter um conselho geral, é preciso manter as universidades públicas que, ao menos, não vão ter conselhos gerais com capitalistas de fora a intervir na função do Estado" (isto dito por um catedrático; terá lido a proposta de lei?).

"Nas universidades fundações, só os professores do quadro é que estão assegurados, tudo o resto vai para o desemprego" (lá tive de correr o risco irónico de parecer apoiar a proposta de lei: e o nº 4 do artº 134º, que eu até considero juridicamente muito discutível?). É coisa que me custa a engolir, ter de defender honestamente os meus adversários quando eles estão a ser atacados contra todas as regras da decência intelectual e política.

Outro interveniente opunha-se mesmo a que as universidades pudessem ser institutos públicos, porque isto é pertencer à administração indirecta do Estado, donde uma forma de desresponsabilização do Estado. Universidades sem autonomia financeira, sempre gostava eu de ouvir depois os que dizem que se está a destruir o ensino público, como disse esse interveniente!

Mais uma vez, eu que não sou nenhum "socrático" indefectível, vi-me obrigado a dizer que, em política, há afirmações demasiadamente graves que, se não comprovadas, descredibilizam toda a força dos restantes argumentos, que até pode ser muita. Que eu já tinha escrito forte e feio contra a proposta de lei, sem precisar de fazer processos de intenção. Creio que não me fiz perceber.

Mas o máximo foi: "Falou na U. de Harvard, mas não disse que esse senhor Harvard foi um grande milionário americano que certamente quis a universidade para os seus negócios". Em bom costume internético, LOL!!!

Para os leitores que conheçam mal a que é reconhecida geralmente como a melhor universidade do mundo, ela foi fundada pelos pioneiros "pilgrims" do Massachussets, puritanos, em 1636. É o protótipo da universidade fundacional, radicada na comunidade, privada em termos legais mas sem fins lucrativos, empresariais. De facto, Harvard é nome de gente, mas de um pastor protestante que morreu logo a seguir à criação da universidade, legando-lhe a sua propriedade rural e a sua biblioteca. Foram estes os tais negócios de John Harvard.

O que me vale é ter algum sentido de humor. Saí a rir, em vez de sair a chorar.

25 junho, 2007

Anedota verídica

Tenho estado a corrigir exames e a anotar verdadeiras pérolas de anedotário, para enviar um dia destes a colegas e amigos mais dentro da área. Hoje destaco uma coisa de cultura geral. Fico muito satisfeito por saber que as leis da hereditariedade, de Mendel, terem sido já objecto de um Nobel, apesar de ser da paz, não percebo porquê.

A pergunta era "quem é que descobriu as leis segundo as quais se transmitem os caracteres hereditários?". Resposta clara de um aluno: Nelson Mandela. Afinal, que importância tem um "a" por um "e" e outro final a mais ou a menos?

Pior foi outro aluno, que respondeu "Mengele". De facto, relaciona-se com a "genética" (salvo seja!), mas que resposta horrorosa.

Uma no cravo e outra na ferradura

Finalmente, os reitores saíram a terreiro, acerca da proposta de lei do regime jurídico das instituições de ensino superior. Mostram saber uma coisa básica de luta política. Numa proposta com tanta coisa má, concentram o tiro só em dois alvos, mas, a meu ver, uma no cravo e outra na ferradura.

No cravo, inteiro acordo com a forte objecção à possibilidade de desmembramento facilitado das universidades. Nem vou acrescentar nada ao que está dito, também por mim, a não ser insistir em que isto é um escândalo de lei "ad usum delphini", perfeitamente ajustada ao que se sabe ser uma velha pretensão do IST. A pretensão é legítima, mas só depois de o ministro e o secretário de Estado, professores do IST, se demitirem dos seus cargos governativos. Eles nunca ouviram falar em Cincinato, Lucius Quincius, que num dia era agricultor e no outro ditador, e vice-versa, mas nunca ambas as coisas simultaneamente?

Na ferradura, ou tiro no pé, o protesto contra o previsto processo de escolha do reitor. Começa por não ficar bem os reitores estarem a discutir coisa que lhes diz directamente respeito, até em relação ao prolongamento dos seus mandatos. A sua tese é a de que só a eleição lhes dá força política. É um erro e toda a gente sabe. A eleição só lhes retira força, quando se conhecem todas as manobras de compadrio com os três conjuntos de eleitores, particularmente com os estudantes. Paradoxalmente, pior ainda quando, como agora na Espanha, se alarga a eleição a todo o universo académico, porque ficam menos visíveis as influências políticas e sindicais.

Pouco sério, a meu ver, é reduzir o típico processo de "search and select" a um concurso para chefe de divisão ou quadro de uma empresa (sic, presidente do CRUP). Ou é demagogia ou é ignorância que devia merecer vergonha. Além disto, das duas uma. Os reitores querem ser apenas os governantes académicos, entretidos com júris, diplomas, equiparações, honoris, desenho das becas, etc.? Muito bem, que sejam eleitos. Ou querem ser os gestores máximos de instituições públicas com orçamentos de milhões de euros? Então têm de provar que são gestores competentes.

Os reitores sabem certamente o que é, por todo o mundo, um CEO. Sabem certamente como é que, por todo o mundo, é escolhido um CEO. Já devem ter lido alguma coisa elementar sobre "corporate governance". Portanto, não sabem o que, mesmo em Portugal, são as regras que hoje seguem as principais organizações, com a distinção entre conselho de supervisão (leia-se conselho geral) e conselho de administração com um presidente executivo (leia-se reitor)? E não vale argumentarem que eu estou a falar de empresas. Estou a falar é de organizações, consciente de que comportando diferenças importantes mas também muita coisa essencial em comum.

24 junho, 2007

Devaneios de jardim (VIII)

Desta vez, como é fim de semana, os devaneios vêm-me da leitura do Expresso.

1. No seu estilo provocador, que às vezes me diverte outras me irrita, Miguel Sousa Tavares escreve, a propósito de Sócrates e seus manos espirituais: "se isto é a esquerda, que venha a direita!". Descontando o absurdo da opção, haverá muita gente a quem ainda não apeteceu dizer ou escrever isto? Confesso que a mim sim. Claro que isto merece escrito mais sério e desenvolvido. Já está agendado.

2. O exagero da democracia, como em tantas coisas na vida, pode ser contraproducente. Antes das eleições para a CML, a RTP vai promover um debate com os 12 cabeças de lista. A duração total será de 120 minutos e vou dar de barato que não haverá intervalos publicitários. Exactamente 10 minutos a cada um e o habitual ruído de fundo multiplicado não sei quantas vezes. É um bom convite a que os espectadores nunca mais queiram assistir a debates televisivos.

3.


Tão amigos que nós somos!

4. Duas notícias sobre a Guiné-Bissau, não sei qual delas a pior e mais ofensiva para a memória de Amílcar Cabral. Que desgosto, para mim de/dos 60s!

5. Daqui a poucos dias, Blair vai a Buckingham apresentar a sua demissão à rainha. Vai em carro oficial, com escolta e gasolina paga pelos contribuintes. No fim, estará à sua espera o seu automóvel privado. Parvoíce à inglesa? É com estas parvoíces que se faz a ética política. E ainda sobre Blair. Neste conselho europeu, a dias de se despedir, moeu o juízo aos outros 26 na defesa do que considera (a meu ver mal) os interesses britânicos e ganhou. Se fosse à portuguesa, pensaria "deixa-me estar bem caladinho e não fazer ondas, para arranjar um tachito europeu". Não aprecio nada o Blair do Iraque e de muito mais, mas "chapeau"!

Nota gastronómica (XII)

Leitor?

No Público de ontem, a nota de David Lopes Ramos, muito bem, com uma receita tradicional do gaspacho e o conselho sobre um acompanhamento de vinho. No fim, completamente a despropósito, fala de ostras e de champanhe. Será que tem alguma coisa a ver com isto? Será que ganhei DLR como leitor? Folgo muito.

23 junho, 2007

Cova da Beira

Há tempos, escrevi aqui que o processo da licenciatura Sócrates ia morrer, mas que talvez viessem outras águas, mais perturbadoras. Nessa altura, perguntei se não iria haver um caso Cova da Beira. O caso já está a aparecer, com pelo menos dois acusados (já não meros arguidos), entre os quais o célebre professor de quatro disciplinas de Sócrates. Promete grande trapalhada.

O Prof. Morais entra nos círculos de influência/protecção dos boys do PS por via de um conterrâneo, o inefável Vara, também ele pouco abonado de outros créditos para a posição que ora ocupa. Morais ocupa alto cargo na administração pública, obrigatoriamente em exclusividade, mas farta-se de dar pareceres técnicos para entidades da Cova da Beira. Diz-se que Sócrates pai também foi consultor. Dos pareceres, resulta um claro benefício de uma empresa propriedade de um amigo de Sócrates.

Tudo isto pode ser apenas diz-se, embora já suportado por uma acusação do MP. O que não há dúvida é que cheira muito mal. Volto a perguntar. A Cova da Beira já chegou à Madeira? Ou talvez melhor, a Madeira já invadiu a Cova da Beira?

Nota final – Foi com enorme espanto que li a notícia da queixa criminal de José Sócrates ao autor do blogue Do Portugal Profundo. Há coisas que são erros políticos inadmissíveis a nível de alguém que é primeiro ministro. Agora que o caso está esquecido e que vai começar a presidência da UE, Sócrates abre uma frente a ser explorada por blogues e pela comunicação social? Ou, mais preocupante, é um sinal de compulsão do autoritarismo isto vai-me valer um processo?!).

Ainda por cima, queixa por difamação. Embora só na diagonal, fui reler alguma coisa do blogue e o que vejo são denúncias de factos, sem acusações de intervenção activa ou dolosa de José Sócrates e, portanto, sem lesão da sua honra e bom nome. Quando visitei agora o blogue, o último "post", a relatar o processo posto por Sócrates, tinha já 2032 comentários! Não me custa a crer que para cima de 5000. Não há dúvida de que Sócrates é um talento de marketing, mesmo quando isso é contra si próprio.

Não preciso da Caras

Há dias, como hoje, em que me sinto a ganhar coisas importantes para a minha cultura. Prexemple, que a Jessica Alba não gosta que lhe chamem latina. Que a Christina Aguilera está grávida. Que Giselle Bundchen é candidata a madrasta. Que Enrique Iglesias ainda não está pronto para casar.

Para isto, muita gente tem de comprar a Caras. Eu tenho mais sorte. Como compro o Público, posso dispor da sua página diária Pessoas, no caderno P2. Não é bom? E assim me fico, pretantes, ora prontes.

21 junho, 2007

LOL!!!

Não gosto de piratear, mas esta delícia, do Público de hoje, está com acesso livre online.

Vaticano publica os dez mandamentos da condução e diz que o automóvel pode ser "uma ocasião para pecar"

A ética ao volante tornou-se uma questão religiosa, sancionada por um documento intitulado Orientações para o Cuidado Pastoral na Estrada, um documento invulgar, por ser a primeira vez que a Santa Sé aborda questões relativas à segurança rodoviária e por integrar os dez mandamentos para os que andam na estrada, dando uma dignidade profética ao tema.

Entre os mandamentos do decálogo das estradas, constam o "não matarás", mas também o imperativo de que "os carros não serão usados como uma expressão do poder e da dominação, nem uma ocasião para pecar", uma alusão às ultrapassagens de risco - o documento considera a velocidade uma forma fácil de dominar os outros - e à prostituição, matéria em relação à qual o Vaticano sublinha a necessidade da condenação legal se estender a quem procura prostitutas.

O sentido religioso das ultrapassagens de risco não reúne o consenso absoluto: "Ultrapassar é um pecado? Então eu sou um assassino. Vou-me entregar imediatamente", disse à BBC o cineasta italiano Dino Risi, que em 1962 assinou o filme Il Sorpasso (A Ultrapassagem).

O documento, de 59 páginas, condena a agressividade ao volante e lembra que a condução pode despertar comportamentos "primitivos" em quem conduz, incluindo "falta de educação, gestos obscenos, praguejar, blasfemar e perda do sentido de responsabilidade ou infracção deliberada do Código da Estrada". Condena ainda a condução sob o efeito de álcool ou drogas.
"Este documento pode ser surpreendente para as pessoas porque estamos habituados a ouvir a Igreja falar de questões sexuais, do pecado capital, das migrações", disse o reverendo Keith Pecklers, um jesuíta, professor de Liturgia na Universidade Pontifícia Gregoriana. "O que o cardeal Martino [presidente da Comissão Pastoral para os Migrantes e Pessoas Itinerantes, que produziu o documento] está a querer dizer é que conduzir é, em si mesma, uma questão moral", acrescentou.

Martino disse terça-feira aos jornalistas que o Vaticano considerou necessário abordar as necessidades pastorais de quem conduz, devido à enorme importância que a condução tem hoje em dia, nomeadamente os 1,2 milhões de pessoas que morrem todos os anos na estrada.

O documento recomenda o cumprimento das regras de trânsito, nomeadamente o respeito pelo limite de velocidade e sublinha a importância da ajuda a vítimas de acidentes, sugerindo um modelo de condução que respeite as virtudes cristãs.

Um porta-voz do Automóvel Clube de Portugal disse ao PÚBLICO que "muitas medidas propostas sobre a segurança na estrada coincidem com as posições que vimos defendendo há anos". Quanto às questões de cariz mais religioso, como a do automóvel como ocasião para o pecado, a organização "abstém-se de comentar".

O limite de velocidade no Vaticano é de 30 km/h e o último acidente registou-se há ano e meio.

Nota gastronómica (XI)

Dos Açores: peixe recheado

Pediu-me Luís Vaz (o leitor deste blogue, não o outro) que publique a receita da garoupa recheada de que falei. É uma forma açoriana de preparar peixe, em peça, que não conheço em nenhuma outra cozinha tradicional. No entanto, não é a mais vulgar, na grande variedade de receitas açorianas de peixes assados, a maioria das quais muito diferentes da do peixe assado mais comum no continente. Usa-se muito a cavala e também um peixe semelhante mas maior, a serra, bem como a bicuda (uma espécie de barracuda muito mais pequena e saborosa) e até o pargo ou qualquer outro peixe rijo.

As receitas têm variantes, de ilha para ilha e de família para família, com maior ou menor complexidade e riqueza de confecção. Esta, não propriamente popular, é a da garoupa, tal como fui habituado a comer em miúdo, segundo receita de origem materna, do meu lado terceirense. Infelizmente, não tenho registo escrito dela. Esta versão resulta de lembranças comuns entre irmãos e de indicações da minha mãe, embora a grande senhora da cozinha familiar fosse a minha avó, com segredos às vezes de recuperação difícil.
Para 4 pessoas. 1 garoupa de cerca de 2 Kg, arranjada e escamada mas reservando o fígado, 2 dentes de alho, 1/2 copo de vinho branco, sal, pimenta branca e sumo de meio limão. Para o recheio, uma cabeça de peixe, 4 cs de azeite, 1 cs de banha, uma cebola, 2 dentes de alho, vinagre ou sumo de limão, um pão grande, 4 ovos, um ramo de salsa, sal, pimenta branca e 15-20 azeitonas pretas.
Abrir o peixe pelo lado ventral e remover a espinha, separando os lombos até quase ao rabo, mas mantendo-os ligados pela barbatana dorsal. Dar uns golpes ao peixe e esfregar por dentro e por fora com sal, alho picado, pimenta branca e sumo de limão. Às vezes, mais à pressa e no dia-a-dia, limitava-se a manter o peixe em peça e rechear só o bucho.
Preparar o recheio refogando ligeiramente, no azeite com a banha, a cebola e o alho picados miúdo e, ao começar a alourar, juntar o fígado do peixe e um bom gole de vinagre ou sumo de limão. Entretanto, ter já cozido só com sal e pimenta a cabeça do outro peixe. Voltear no refogado a carne bem desfiada desta cabeça. Fora do lume, juntar uma mistura de miolo esfarelado de um pão grande, só ligeiramente humedecido algum tempo antes em caldo do peixe e depois bem espremido, os ovos mexidos, a salsa picada, sal e pimenta branca e as azeitonas pretas descaroçadas e cortadas em rodelas grossas. Mexer muito bem e voltar a aquecer, a lume médio-alto, mexendo sempre, até a mistura estar muito grossa e quase seca, a deixar uma película tostada no fundo do tacho. Rechear o peixe, atá-lo para se manter fechado e levar a assar ao forno, com o peixe coberto com manteiga e regado com o vinho branco.

Notas – 1. Em S. Miguel, como não podia deixar de ser, a receita mais vulgar deste recheio, e mais simples (sem a carne da cabeça de peixe e sem o requinte do arranjar os lombos do peixe), leva massa de malagueta. Também há quem use pão de milho em vez do de trigo. Também conheço uma receita micaelense em que o peixe é deixado a marinar numa vinha d'alhos.

2. À boa maneira açoriana, não conheço nenhum uso vulgar de acompanhamento, a não ser o próprio recheio. Na minha casa, antes de servir, cortava-se às fatias, de forma a ver-se, em conjunto, peixe e recheio. Regava-se com um molho apurado, feito de caldo e de molho de assar, ligeiramente engrossado. Mas isto também tem a ver com a tradição familiar de ser apenas um entremês, em dia de festa, assim dispensando acompanhamento. Como enfeite, apenas um mini-raminho de salsa. Dizem-me, mas já não me lembro, que também se usava às vezes lá em casa um molho de tomate.

20 junho, 2007

Citação

Raramente leio o Abrupto, a não ser quando alguma referência cruzada me chama a atenção. Desta vez, foi com total concordância, coisa rara, que li uma entrada de Pacheco Pereira, já de há três dias, sobre esta trapalhada do novo aeroporto. E aqui deixo uma citação, com a devida vénia.
"Sabem o que cada vez mais isto me parece, a sensação com que já fiquei depois da história do "diploma"? É que é tudo muito parecido com o estilo das "jotas", uma indiferença face à honestidade e à verdade, uma política feita de trapalhices e trapacices, um vale tudo para manter o poder, ganhar uns pontinhos, esmagar um adversário, um autoritarismo com os fracos e subserviência para com os fortes, um parecer mais que ser. A todo o custo."
Subscrevo inteiramente.

19 junho, 2007

Parabéns

Chico Buarque faz hoje 63 anos. É da notável colheita de 44, de que conheço excelentes "vinhos" (não vou dar o exemplo mais notório...). Deste lado de "tanto mar", aqui vão os votos de que "a festa seja bonita, pá!"

Devaneios de jardim (VII)

Da leitura do Público de ontem.

1. Há pequenos erros políticos, aparentemente insignificantes, que não são assim tão insignificantes pelo que revelam de infantilidade e de irresponsabilidade. Mesquinhamente, o governo vai-se fazer representar por um obscuro secretário de Estado na tomada de pose do novo governo madeirense. Dar razões justificadas de queixa a Alberto João Jardim, ainda por cima numa coisa secundária, é mesmo tiro no pé. O gabinete do primeiro ministro é uma escola infantil?

2. O "estudo van Zeller" sobre o NAL pode vir a ter grandes efeitos políticos e económicos. Para já, teve como consequência uma surpreendente (?) mudança de atitude do governo. Pode também ser justificação mais ou menos oculta para, no fim, a decisão beneficiar importantes interesses privados. É estudo que deve ter custado muito dinheiro. Neste sentido, o anonimato dos seus financiadores é uma ofensa clamorosa da transparência política, em democracia, é coisa eticamente tão inaceitável, noutro domínio, como uma denúncia caluniosa por carta anónima.

3. Ainda sobre este assunto, surpreende-me (?) o grande interesse da Associação Comercial do Porto (ACP) e a defesa acalorada que faz do Portela+1. Eu sei que o NAL é questão de interesse nacional e que, portanto, legitima o interesse da ACP, até disponível para ter financiado o estudo van Zeller. Mas a decisão sobre o NAL, num país geograficamente tão pequeno, não afecta o aeroporto das Pedras Rubras?

4. Allain Juppé, figura histórica da direita francesa, teve de se demitir do recente cargo de ministro por não ter sido eleito deputado. Isto pode-nos parecer muito estranho, mas é comum nos sistemas parlamentares. Na Grã-Bretanha, é impensável ser-se ministro sem se ser deputado e até nem se suspende o mandato parlamentar. Nós valorizamos o oposto, ou o perfil técnico ou mesmo o ser-se independente, como se um governante fosse um director geral. Sem cair em exagero, não ficava mal que os nossos ministros tivessem experiência política, nomeadamente parlamentar. Como se tem visto, não basta ser-se bom técnico.

5. O dono de uma fábrica chinesa de tijolos, agora preso, justificou-se com toda a candura, em relação à sua atitude para com os "operários": "Pensei que não era grave bater e gritar com os trabalhadores e não lhes pagar o salário". A China ainda é um país comunista? O que acha, Jerónimo de Sousa?

18 junho, 2007

Boicote a Israel

Ainda não vi reflexos na nossa imprensa de uma polémica que anda a agitar os meios académicos britânicos, com grande impacto nos jornais, a proposta de boicote académico a Israel. Começou por uma iniciativa sem muito significado, do sindicato de professores universitários, mas agora está acesa. A ideia é a de suspender qualquer contacto ou colaboração com as universidades israelitas e os seus professores, como protesto contra um seu alegado silêncio, objectivamente cumplicidade, em relação à ocupação dos territórios palestinianos. Como razão mais imediata, a crescente dificuldade de estudantes palestinianos da faixa de Gaza em passarem para o lado israelita para frequentarem as universidades.

Começo por dizer, categoricamente, que tenho a maior simpatia pela causa palestiniana, mas esta proposta de boicote suscita-me muitas dúvidas.

Começa, muito pragmaticamente, por eu ter grandes reservas em relação à eficácia dos boicotes. Misturando coisas muito diferentes, mas para alargar o exemplo, o boicote aos jogos olímpicos de Moscovo impediu que eles tivessem sido coisa grandiosa? Foi o boicote ao regime do apartheid que libertou Mandela? O que é que os EUA já conseguiram com o boicote a Cuba?

Também não esqueço que não estou a falar de qualquer boicote. Não é um boicote a relações comerciais, à instalação de empresas, claro que não à venda de armas. É um boicote a qualquer coisa que, seja eu ingénuo, devia estar imune a qualquer divisão entre os homens: a cultura, a ciência, as raízes do pensamento, "que não há machado que corte", nem mesmo o mais bem intencionado dos boicotes.

Mais ainda, um boicote pode ser mais nocivo do que benéfico. É um efeito perverso, aceitando-se as suas boas intenções. Neste aspecto, eu e muitos colegas temos razão para falar, vítimas que fomos também de variados boicotes, durante o fascismo. Quando precisávamos de todas as possibilidades de contacto com o estrangeiro que a nossa profissão privilegiada permitia, eram os outros a fecharem as portas. A PIDE até se ria. E todos nos lembramos de como os poucos contactos que lá estabelecíamos eram importantes para levarmos informação sobre o que se passava cá e para angariarmos apoios. Pouco antes do 25 de Abril, houve um caso de repressão em que eu consegui que muitos cientistas estrangeiros mandassem cartas de protesto. Como é que eu teria conseguido isto (e muitos casos semelhantes podem contar colegas meus) se um boicote me tivesse impedido de estabelecer durante anos essas relações de solidariedade?

Isto leva-me à última questão, que está a ser levantada por alguns académicos árabes, a de que se aceita o argumento que apresentei, mas que não é relevante porque são casos raros e não representativos da situação geral das universidades israelitas, o que acabaria por ser uma absolvição da maioria silenciosa. Destrói-se a capacidade de acção dos extraordinários só porque são minoritários? Veja-se, por exemplo, que, há algumas semanas, foi publicado em Israel um manifesto contra as restrições aos estudantes palestinianos que era assinado, à cabeça, pelos reitores das universidades Hebraica de Jerusalém, Ben Gurion, de Haifa e Technion, para além de intelectuais destacados como Amos Oz, Ab Yehoshua e David Grossman. Gente desta, que dá a cara corajosamente, merece não ser convidada para uma reunião científica em Inglaterra?

E, já agora, são maioritários os académicos árabes ou iranianos que lutam (e há os que lutam) contra coisas igualmente graves que se passam nos seus países, inclusive no plano académico, como a intolerância e o irracionalismo fanático, a discriminação de sexos, a censura, as ameaças de condenação por espionagem em virtude das colaborações internacionais?

Nota – Tudo isto é tristemente irónico, se nos lembramos que o motivo imediato foi a situação da faixa de Gaza, que agora foi palco da mais estúpida actuação suicida que os palestinianos podiam ter, para grande gozo de Israel. Não há coisa mais parva do que o "tiro no pé".

16 junho, 2007

Desta água não beberei!

O Sol, de que só li o primeiro número e chegou, era o jornal que nunca faria promoções. O director voltou atrás e começa logo em família, com as memórias do tio José Hermano Saraiva. A que propósito? JHS nada tem a dizer sobre uma eventual vida de historiador, parece que nunca o foi a sério. Foi, inegavelmente, um diligente e muito eficaz divulgador, mas isto não merece memórias, antes a publicação dos seus programas televisivos em DVD, se é que já não há.

A parte da sua vida que justificaria memórias é aquela que não me atrai nada e sobre a qual, possivelmente, ele terá alguma dificuldade em escrever: a de último ministro da Educação de Salazar (nem foi de Caetano!). Foi ministro na época da crise de Coimbra, dirigiu ou pactuou com a repressão, assinou muitos despachos de expulsão de estudantes, entre os quais Alberto Martins e Barros Moura, bem como o de demissão de um assistente, José Correia Pinto.

Há memórias que, ou são truncadas e são uma aldrabice, ou são completas e são um ultraje.

15 junho, 2007

Alcochete, 2005

Admito que o que vou escrever possa parecer gabarolice. Esta história do campo de tiro de Alcochete dizia-me alguma coisa, a mim próprio. Depois de alguma pesquisa, eureka! Descobri uma nota aqui publicada em 27.12.2005 (!), "A Ota e o TGV", em que escrevi, entre muito mais coisas, o seguinte:
Vou admitir que os estudos que condenam Rio Frio são correctos e que Montijo também levanta graves problemas ambientais e riscos de voo, por causa das aves. Mas do campo de tiro de Alcochete ninguém diz nada. É tabu? Para treino da nossa vestigial força aérea ou por compromissos com a Nato?
Declaração de interesses: isto não quer dizer que eu defenda a solução Alcochete. Sou totalmente incompetente para o fazer; verifico apenas que, como me interrogava então, é uma hipótese aceitável para estudo.

Os nórdicos

São esquisitos, os escandinavos e seus parentes! Quando nós já tínhamos os códigos romanos, o municipalismo, as ordens de cavalaria, milagres de Ourique, os gajos ainda eram piratas a aterrorizar e pilhar as aldeias do Mar do Norte. E continuamos a disfarçar e a assobiar para o lado, dizendo que são tristes e frios, suicidam-se, embebedam-se a cair, divorciam-se como quem bebe uma coca-cola, acreditam em realezas.

Tenho estado a estudar a legislação da educação superior dos países europeus signatários de Bolonha (incluindo a Santa Sé...). Dei por uma coisa bem interessante. A lei norueguesa ocupa dez das suas 34 páginas com o código dos estudantes, os seus direitos e deveres, tudo levado a grande pormenorização (até os direitos das estudantes mães, mas também a penalização da cabulice!), enquanto que as disposições sobre a governação se ficam por seis páginas por coisas gerais, apenas enquadradoras daquilo que cada universidade tem de definir nos seus estatutos.

Compare-se com a nossa proposta de lei. Esta visão norueguesa é a da vida real de uma instituição, naquilo que, eticamente, por exemplo, é essencial, porque os valores são muito mais importantes do que os procedimentos. A nossa lei é um exercício pobre de juristas.

Enfim, são culturas e não podemos compararmo-nos aos noruegueses de um pé para a mão. Já agora, uma coisa que, nessa lei, "me faz espécie", como se diz na minha terra: os amplos poderes do rei para intervenção no sistema universitário. Sou tentado a pensar que isto significa a grande importância estratégica nacional, suprapartidária, que os noruegueses atribuem à educação superior. Não acredito que seja uma visão absolutista dos poderes reais.

Nota gastronómica (X)


Utensílios (in)dispensáveis - a cataplana

Continuando, começo por esta. É incrível como chineses e algarvios descobriram a mesma técnica de culinária, baseada na mesma forma geométrica, a do "wok" e a da cataplana. A cataplana acrescenta a tampa, de que falarei. O essencial é que aquela forma permite uma muito rápida e eficaz distribuição do calor de uma chama quente, por convecção. É essencial na cozinha chinesa para as muitas preparações de carnes e legumes que devem fritar a lume muito alto, em pouco óleo quase a queimar (cuidado!), em pouco tempo, ao dente, sem absorver muita gordura, mexendo sempre ("deep fry", não sei bem como traduzir). A chama espalha-se igualmente a toda a superfície daquela geometria esquisita. Também tem outra vantagem, para quem sabe aproveitá-la. Como o "wok" é muito alto e largo, pode-se ir puxando para a borda superior e mantendo quente e seco tudo o que já está bem frito.

Esqueçamos agora a tampa da cataplana algarvia. O recipiente inferior é igual ao "wok" e tem a ver com uma coisa importante. Os bivalves só cozinham bem, com toda a riqueza do seu sabor, se tiverem sido abertos rapidamente em lume muito forte. Aí está a cataplana. O requinte é a tampa, que permite continuar a estufar depois, em menor calor, os outros ingredientes, legumes, ervas, presunto ou chouriço.

É por isto que me é horroroso, como sinal de total incultura gastronómica, apresentarem-me hoje, no Algarve, cataplanas de marisco com batatas, ou de cherne e legumes. Só falta uma cataplana de lagosta com túberas e molho de champanhe.

Amêijoas na cataplana, para quem delira com elas como eu, são um fundo de azeite, as bichas, cebola e alho (às vezes um toque de pimentão), presunto ou chouriço, louro e salsa, temperos, nada mais, que tudo o resto só mata o sabor suave dos mariscos. Nada de água, que basta o que as bichas destilam.

Metam lá batatas nesta história, como disse atrás e vi num "grande" restaurante de Portimão (para embaratecer o prato?), e logo verão o resultado.

14 junho, 2007

Para pensarmos

Muito simplesmente, uma coisa que li hoje.

The top ten jobs that will be in demand in 2010 didn´t exist in 2004.

Discordando de Vital Moreira

Amigos amigos, opiniões à parte (até certo ponto, senão é difícil ser-se amigo). Normalmente, leio com agrado e concordância a coluna de Vital Moreira no Público, às terças feiras. Desta vez, fiquei "zangado" com ele. Trata da discussão que está a haver a respeito de uma proposta de lei sobre o regime jurídico das instituições de ensino superior (vulgo, universidades e institutos politécnicos).

Sobre esta proposta, escrevi um artigo aprofundado no meu sítio sobre a educação superior, na sequência de outro escrito a três cabeças, com dois notáveis co-autores e amigos, José Ferreira Gomes e Sérgio Machado dos Santos. Estou a dar todas estas indicações porque os meus leitores podem estar alheados desta questão, esquecendo que a nossa educação superior é estrategicamente muito mais importante do que a Ota. É por isto que não podia ficar silencioso perante o artigo de Vital Moreira. A crítica é demasiadamente longa para publicação neste blogue, mas pode ser lida aqui.

13 junho, 2007

Nota gastronómica (X)

Não gosto de bater em excesso e, em geral, critico e não insisto, mas há excepções. Hoje, no Público, nova coisa surpreendente de David Lopes Ramos. A receita, nesta época, até é bem apetecível: sardinhas cruas postas em salmoura e depois incubadas com uma espécie de molho de vilão (azeite com alho alourado, cortado com vinagre e temperado com especiarias). É um prato forte e rústico, de sabores acentuados. Óptimo, não se pode estar sempre a comer coisas de grande subtileza.

O que desmancha tudo é a sugestão do vinho: nada menos do que um espumante bruto! O homem passou-se? Será que, um dia destes, ao invés, nos vai propor umas boas ostras com manteiga e limão, acompanhadas por vinho verde tinto?

Nota gastronómica (IX)

Excepcionalmente, em dia de festa popular, hoje vai receita.

Mousse de camarão para a sobrinha de Yale

Esta receita sai assim esquisita, por respeito com a sua história, invenção do último fim de semana. Porquê cascas e cabeças de camarão grande e miolo de camarão pequeno? Para onde foi a carne do camarão grande? Para um belo caril, especialidade da minha mulher, num almoço para netos lambareiros. Eu fiquei com os restos e tive de me governar. É claro que esta receita pode ser feita só com um tipo de camarão, com a condição de se tratar separadamente a carne e as cascas e cabeças.

E porquê o título? É fácil de se ver que esta receita se inspira bastante no molho cocktail, muito usado no noroeste americano (de facto, por toda a América), lá por onde anda uma sobrinha muito querida.

Cabeças, patas e cascas de 1,5 kg de camarão grande, 1 kg de camarão pequeno descascado, 3 cs de azeite virgem, 1 cebola grande, 1 alho francês, 1 cenoura, 2 dentes de alho cortado às lascas, 1 folha de louro, 1 raminho de salsa, 2 folhas de hortelã, sal marinho, pimenta branca. Água de nascente q. b., 2 dl de vinho branco seco.
6 folhas de gelatina, 2 cs de manteiga, 2 cs de farinha, 4 cs de polpa de tomate (preparada a fresco ou comercial, de boa qualidade), 8 cs de maionese caseira, 4 cs de natas, 1 cálice de aguardente (por piada, atendendo à referência americana, também pode ser 1 cálice de Bourbon), 1 cálice de Porto ou Madeira meio-secos, piri-piri a gosto, 1 c. café de molho Worcestershire, 1 c. sobremesa de alcaparras, 4 grãos de pimenta da Jamaica. 6 ovos. 1 clara.

Aquecer o azeite e saltear os legumes, às rodelas finas, durante 1 minuto, em lume forte. Juntar as cabeças e cascas dos camarões, saltear mais uns 2-3 minutos mexendo sempre, juntar a água e o vinho, temperar, baixar o lume e cozer, durante 30 minutos. Coar por pano ou papel de cozinha, reservar o caldo, moer os sólidos e passar muito bem pelo chinês, a obter uma pasta um pouco líquida.

Cozer o miolo de camarão em água com sal e escorrer, rejeitando o líquido. Moer o miolo de camarão.

Diluir em 2 dl do caldo de marisco, a ferver, 6 folhas de gelatina neutra, cortada aos quadrados pequenos.

Bater a clara em castelo.

Fazer roux louro com a manteiga e a farinha e incorporar a pasta semi-líquida dos restos das cascas e cabeças. Fazer creme muito espesso, ao estilo de creme para croquetes ou recheio de rissóis. Se necessário, corrigir com caldo.

Deixar arrefecer tudo à temperatura ambiente, este creme, a gelatina, o moído do camarão pequeno, a clara batida. Da mesma forma, levar à mesma temperatura o que se tenha retirado do frigorífico (maionese, natas, etc.). O equilíbrio de temperatura é crítico, principalmente em relação à gelatina! Misturar primeiro, muito bem, o creme grosso com o moído de camarão, a gelatina, a polpa de tomate, os vinhos e os temperos. A seguir, envolvendo suavemente, a maionese, a nata e, no fim, a clara batida. Entretanto, cozer os ovos e deixar arrefecer.

Untar uma forma adequada ou uma tigela de plástico com um pouco da gelatina liquefeita e forrar com rodelas finas de ovo cozido. Encher com a mousse, cobrir com filme plástico e deixar no frigorífico, até ao dia seguinte. Servir às fatias, cortadas de alto abaixo. Acompanhar apenas com um pouco de alface ripada, só ligeiramente temperada com flor de sal, pimenta e um fio de azeite virgem extra batido com umas gotas (só mesmo umas gotas!) de vinagre balsâmico, de forma a que, no fim, a alface pareça seca. Decorar com azeitonas pretas descaroçadas, recheadas com umas folhas de salsa.

E o caldo, que tanto sobrou? Dá, sem grandes complicações, um creme de marisco.

Tostar bem, numa frigideira siliconada ou numa sertã, 2 cs de farinha, com 1 c. sobremesa de farinha de milho. Passar para uma panela e embeber em 4 cs de polpa de tomate, mexendo bem. Juntar e incorporar o caldo. Levar à fervura e servir com alguns cubinhos de pão frito em manteiga e uma folha de hortelã ou de poejo.