28 fevereiro, 2007

Os jornais gratuitos

A tão falada Web 2.0, a do acesso gratuito à informação e aos utensílios informáticos, tem também um análogo mais convencional. Refiro-me aos jornais gratuitos, que me parecem estar com franco sucesso. Passo com frequência, de manhã, num ponto quente da sua distribuição, Entrecampos. Quase que me sinto mal e tenho de fazer um sorriso ao recusar o jornal, aceite por todos os automobilistas à minha volta.

Já tive curiosidade de ler um ou outro. A qualidade deixa a desejar, aquilo parece um simples boletim da Lusa, não há nada de opinião, a publicidade, obrigatoriamente, ocupa a maior parte do espaço. No entanto, pergunto-me se é legítimo criticá-los.

Há ainda três ou quatro anos, os meus alunos universitários não liam um jornal. Não é só impressão de companheiro de cafetaria, é resultado das respostas que me dão quando os interrogo sobre notícias de grande interesse científico publicadas nos jornais.

Hoje, as mesas da cantina ficam cheias dos jornais gratuitos que, todas as manhãs, são postos numa caixa à porta. É leitura de pouca qualidade, mas o pouco não é melhor do que o nada, a menos que o pouco seja intoxicante, o que não me parece ser o caso? Quantos jovens nunca iriam descobrir, com o tempo e a sua evolução cultural, as maravilhas da música erudita se não andassem, entretanto, a ouvir no iPod coisas sem qualquer qualidade?

27 fevereiro, 2007

"Loteamentos partidários"

Escreve hoje Vital Moreira, lapidarmente, no Público, logo a começar a sua crónica, "Loteamento partidário":
"Há poucos dias, o público noticiava que a empresa municipal Gebalis, que gere o parque de bairros municipais de Lisboa, tem perto de 30 trabalhadores do PSD, cuja secção partidária é coordenada pelo próprio vereador do pelouro competente para essa área, trabalhadores esses recrutados pelo mesmo vereador quando foi director da referida empresa."
Será que este meu caro amigo já começa a ter sinais precoces de demência, como eu, a inventar coisas delirantes, ou então é tudo à nossa volta que está a ficar demente?

Caindo no sério, continuei a ler o seu artigo e parei neste parágrafo.
"Por isso, impõe-se a revisão do sistema de governo municipal, de forma a separar os papéis da maioria (que deve governar sob sua inteira responsabilidade) e da oposição (que deve escrutinar e controlar a câmara municipal), bem como a reduzir a dimensão dos executivos municipais (há alguma razão para Lisboa ter quase 20 vereadores?!), a restaurar a função fiscalizadora da assembleia municipal (que o actual sistema praticamente esvazia), tudo isto, porém, sem substituir a situação actual por uma espécie de superpresidencialismo municipal (venha o diabo e escolha...), com a "atrelagem" da eleição da assembleia à eleição do presidente da câmara, como propõem tanto o PS como o PSD".
Se não estou em erro, parece-me que VM está a transpor para o nível municipal o paradigma estatal. Um executivo que governa em maioria, um legislativo/parlamentar que controla. "Checks and balances", muito bem. Simplesmente, como também subentendo do que VM escreve, a assembleia municipal não está formatada para isto. Teria gostado que o Vital tivesse ocupado algumas linhas com uma nova proposta. Fica para a próxima? Ou, ao menos, para conversa entre amigos?

A loja

Desde a remodelação do Público, havia qualquer coisa a "trabalhar-me", sem eu conseguir perceber. Hoje, eureka, lembrei-me: o nome do segundo caderno, P2. É nome que não lembra ao diabo! Isto é, ao padrinho da P2.

25 fevereiro, 2007

O novo Público


O Público de hoje traz uma notícia sobre um conflito à volta de obras no convento medieval franciscano de Viana do Castelo, actualmente, se não estou em erro, ocupado pelo Instituto Politécnico. Acompanha a notícia com a imagem que reproduzo, completa aldrabice. A fotografia é de um ícone vianense, a igreja neobizantina, oitocentista, de S. Luzia (um mamarracho, diga-se, a imitar outro mamarracho, o Sacré Coeur). Volto a lembrar-me do que disse numa nota anterior, sobre a fotografia da fragata. Nessa altura, responderam-me que as ilustrações de um jornal são só evocativas, a criar ambiente. Não é verdade. Quem nunca foi a Viana e vir a imagem que reproduzo, vai àquela igreja e fica a "saber", para sua informação, que é a de S. Francisco.

Tabloide?

Receio que a remodelação do Público ainda venha a ser história com pano para mangas. Reparei há dias em coisa que pode parecer um pequeno pormenor, mas logo na primeira página. Na chamada de atenção para uma notícia interior, uma grande foto de um militar de camuflado, sabe-se lá quem, e um pequeno texto a dizer que o príncipe Harry de Inglaterra, filho do herdeiro da coroa e terceiro na linha da sucessão, vai em missão para o Iraque.

Pior é o título da fotografia da primeira página: "Filho de Diana vai para Bassorá" . A Caras não diria melhor. Mas melhor ainda me disse o meu vendedor de jornais, com quem muitas vezes converso sobre a primeira página: "pois é, parece que o rapaz é só filho da mãe!"

Nota à margem - A propósito da fotografia, lembrei-me de um caso já antigo, de um protesto meu a um jornal. Numa evocação histórica sobre o 25 de Abril, contava-se o caso da "Roberto Ivens" e daquele momento decisivo em que ela apontou as peças para o céu, depois de neutralizado o comandante. Lá vinha a fotografia, da fragata no Tejo, frente ao Cais das Colunas. Simplesmente, era uma fragata Meko, das adquiridas muitos anos depois. O jornal deu-me uma desculpa esfarrapada e recusou admitir o erro. Coisas da nossa imprensa!

Coisas de antigamente...


(Público, 24.2.2007)

24 fevereiro, 2007

Uma pequena correcção

Na sua coluna habitual de sábado, no Público, São José Almeida, que leio sempre com muito agrado, debruça-se sobre um tema que já tratei aqui: o eventual veto do PR à lei a despenalização do aborto. Mas comete um erro, significativo, ao afirmar que, se a lei for vetada, o veto só será ultrapassado por nova votação parlamentar com maioria de dois terços. Não é correcto. Segundo o artº 136º da Constituição, o PR é obrigado a promulgar a lei em decorrência de segunda aprovação pela maioria absoluta dos deputados em exercício de funções, o que fica muito aquém dos dois terços.

Quem é o autor?

Li no jornal uma frase que (com ligeiras variantes) sempre me deliciou e que sempre tive como regra de escrita. "Escrevi esta carta mais longa do que é costume, mas não tive tempo para a escrever mais curta". O meu avô, emérito humanista, sempre me disse que era do Pe. António Vieira. O jornal diz que é de Pascal. Alguém me informa?

Há cada autarca...

Não vou discutir a reorganização das unidades de urgência. É questão técnica complexa, mesmo para quem, como eu, tem formação médica de origem. No entanto, à primeira vista, não deixou de me impressionar o mapa que apareceu no Público de 22.2.2007. Poderão fechar 15 urgências, todas elas muito próximas de outras que se mantêm. Em contrapartida, criam-se 26 novas urgências, principalmente no interior, com destaque para o Alentejo, com grande dispersão humana.

Sobre cada caso, o jornal ouviu em paralelo os técnicos e um autarca. É sobre isto que me apetece um comentário trágico-cómico. Compreende-se que, politicamente, os autarcas não queiram arrostar com os descontentamento dos seus eleitores, mas há "mimos" que podiam ser evitados. "A nossa população está habituada a ter urgência permanente". "Temos no concelho um complexo químico". Mas surrealista é a justificação de um autarca de Peniche: "temos uma importante comunidade piscatória". E porque não uma comunidade de jogo da sueca, factor de risco de eventuais conflitos físicos e de cabeças partidas?

23 fevereiro, 2007

Recordando, em homenagem


Associo-me hoje à recordação do Zeca Afonso, no 20º aniversário da sua morte, contando uma história que se repetia muitas vezes. Ele era participante habitual nas noites de convívio das associações de estudantes do meu tempo. Já agora, refiro que, ao contrário do que foi uso, a meu ver criticável, no pós-25 de Abril, não era à borla. Também o pagamento era uma forma de solidariedade, porque o Zeca Afonso estava limitado nos seus proventos, por perseguição política.

Como presidente da associação de medicina, várias vezes o contactei. A resposta era logo afirmativa, mas com uma condição: "é pá, desde que não me peçam para cantar aquilo que eu não posso, porque a sala deve estar cheia de pides". No fim, invariavelmente, um coro de "vampiros, vampiros". Ele, lembro-me tão bem, coçava a cabeça, seu gesto típico, olhava para mim como que a pedir que eu interviesse, mas logo a seguir, podia ele lá resistir, saía o "eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada". Ele também sabia que, se os pides quisessem chatear (mas não eram tão parvos como agora se diz, a menorizar o seu perigo), tanto seria a ele como a mim.

Também outra coisa, talvez mais importante. Nunca o conheci estreitamente, muito menos posso dizer que fosse seu amigo. Mas conheci-o o suficiente para ter a certeza de que era, até ao fundo da alma, um homem bom!

Choque tecnológico

Ou oito ou oitenta: competitividade por salários baixos, para chinês ouvir (eles que têm salários altíssimos...), ou então discurso grandiloquente do choque tecnológico. No meio de todo este ruído politico, ainda me dá grande prazer ler opiniões racionais, objectivas, sensatas. Um exemplo foi o que disse Campos e Cunha ao Público (4.2.2007):
"Não bate a bota com a perdigota, andarmos a falar de salários baixos eao mesmo tempo de choque tecnológico".
(...) "Se calhar o mal não está naquela frase, está em ter-se andado a propagandear o choque tecnológico. A evolução tecnológica dos países é por definição lenta, logo é o contrário de um choque. Do meu ponto de vista há nesta ideia uma contradição nos seus próprios termos."
Localizando esta ideia na educação superior, centro por excelência da alimentação directa e indirecta (formação de quadros) da tecnologia, há como que um teorema. "Quando a economia tem uma solicitação a prazo de x anos, a educação superior responde a prazo de x+n anos". Qual é o valor de n?

Quando se fala em milagres de choque tecnológico, vêm logo os exemplos da Irlanda e da Finlândia. Vejamos alguns dados (Eurostat, 2006) que julgo serem relevantes.


PortugalIrlandaFinlândiaUE (27)
ID % PIB0,811,253,481,84
Empresas % despesa ID31,758,769,354,5
Formados em C&T % empregos23,444,653,541,9


Comecemos pela Irlanda. Repare-se que não se afasta flagrantemente da média da UE. Completamente diferente é o caso da Finlândia. A meu ver, há uma diferença importante. A Irlanda teve um choque tecnológico, a Finlândia um choque educativo (repare-se na terceira linha) em boa harmonia com o investimento tecnológico.

Simplesmente, o choque tecnológico irlandês é caso único. Conheço melhor um sector de grande sucesso, o da biotecnologia. O progresso dependeu essencialmente da instalação de sucursais de grandes multinacionais, mas por factores que nos são alheios: uma hora de distância em ferry de Liverpool, domínio generalizado da língua inglesa, grandes relações entre as empresas de ambos os países, uma importante e economicamente importante comunidade de origem irlandesa nos EUA. Só a seguir é que vieram as correspondentes mudanças no sistema de educação superior, que garantiram a sustentabilidade do choque.

O caso finlandês também não pode ser bem entendido sem a enorme importância de coisa muito "simples", Nokia. Mas, muito mais importante, e para concluir, o choque educativo.

21 fevereiro, 2007

Memento II

Lembrei-me a seguir de uma coisa que talvez não conheçam. Quando se entra no cemitério de Ponta Delgada, logo a primeira campa à esquerda é a de Antero. Simples, um pequeno obelisco e uma lápide com uma quadra magnífica de João de Deus.
Aqui jaz pó, eu não, eu sou quem fui,
Raio animado dessa luz celeste
À qual a morte as almas restitui,
Restituindo à terra o pó que as veste.

Memento

Não em termos de calendário civil, mas sim de calendário litúrgico, a minha mãe morreu há um ano, em quarta feira de cinzas. Julgo que, para religiosos tão sabiamente profundos como foram os meus pais, perante cuja grandeza espiritual se curva humilde um incréu como eu, há dois grandes dias para se morrer, a sexta feira santa e a quarta feira de cinzas.

Memento, homine, qui pulvis est et in pulverem reverteris.

Isto é só cultura cristã? Ou melhor, a cultura permite adjectivos?

O espaço Público

Estou com "mixed feelings" em relação ao meu jornal desde há muito anos, o Público. Como já aqui escrevi, gosto do novo aspecto, mas, pessoalmente, sinto-me mais clássico, mais leitor a sério, com um jornal à antiga.

O que hoje me faz escrever uma breve nota é um receio, que me parece já confirmado pela prática. O espaço de opinião provavelmente vai ser ocupado exclusivamente pelos colunistas contratados. Isto vai contra a nossa velha tradição dos artigos enviados pelos leitores, muitas vezes bem mais originais e interessantes do que a escrita a tender para o rotineiro de quem é obrigado a uns tantos milhares de caracteres por semana.

Já me era bem difícil fazer passar um artigo de opinião. Com o novo formato e fazendo as contas às páginas e aos compromissos com os colunistas contratados, parece-me que passará a ser impossível.

Espanha, aqui tão perto

Uma nota anterior transcrevia algumas observações de Miguel Sousa Tavares sobre a nossa diferença com a Espanha. O registo era jocoso, mas parece-me que justifica uma discussão mais a sério, embora eu não tenha credenciais para isso. Vivemos décadas de fascismo comum, de miséria, de atraso. Porque é que hoje somos tão diferentes?

Vamos às origens, que logo nos distinguem. É verdade que tivemos uma matriz comum, celtibérica (Viriato é tão português como espanhol), romana, visigótica, moura. Há uma pequena diferença, que não sei discutir, a influência sueva, só em Portugal. Diferença mais marcante é que a reconquista começa na actual Espanha muito antes da que ocorre no actual Portugal. Creio que isto significa que, nessa época, as estruturas sócio-políticas feudais específicas da reconquista começam a afirmar-se muito mais em Leão, sendo apenas um reflexo periférico no território que hoje é Portugal.

Por outro lado, para desgosto do nosso orgulho, parece-me evidente que a resistência moura sempre foi muito mais forte em relação a Leão-Castela do que a Portugal. Os míticos reis mouros de Ourique devem ter estado muito longe, em poder, do que Afonso VI defrontou na tomada de Toledo.

Saltando séculos, outro aspecto essencial, o da construção do estado. Emparelharam, D. João II e os reis católicos, mas estes mantiveram a herança, enquanto que o nosso D. Manuel voltou a favorecer a nobreza. Mais importante, a nova Espanha unificada tem uma dimensão europeia, com a ligação à casa de Áustria.

A seguir, a expansão. Também aí uma grande diferença. Nós fomos descobridores e comerciantes. Só nos aventurámos nas bandeiras brasileiras e um pouco em Angola. Os espanhóis foram conquistadores. O nosso império foi de caricatura, uma pequena faixa costeira, o espanhol foi o de todas as américas, do ouro e da prata. Lembro aqui uma curiosidade, coisa que me dizia um grande amigo espanhol. "Os portugueses basearam-se em fidalgos da corte, nós em aventureiros duros, principalmente gente da seca Estremadura".

Outro grande salto para os tempos agónicos dos dois fascismos. No fim dos anos sessenta, nós estávamos apantanados na guerra colonial, os espanhóis conseguiram que Franco, apesar de provavelmente muito mais estúpido do que Salazar, abrisse portas em vida a um "marcelismo" do Opus Dei que, cá, foi uma coisa patética.

Tudo isto é charla de amador. Importante é ir a Madrid ou a Barcelona, ver e pensar. Ou, mais proximamente, ver no dia-a-dia o que é hoje o domínio espanhol da nossa vida quotidiana. Não é preciso saber ler os suplementos económicos dos jornais. Espanha, não há nada com quem eu tenha uma tão óbvia relação de amor-ódio!

18 fevereiro, 2007

LOL!!!

Viram o gato fedorento, que acabou há minutos? É imperdível, ainda há grande humor português e inteligente. LOL, ou, em português, à LA-C, RACC, ri-me alto como o c... Do programa de hoje, palpita-me que há dois momentos que vão dar milhares de visionamentos no YouTube. Primeiro, o jantar surrealista de novela brasileira em que o gay anuncia o seu namoro. Depois, a coisa mirabolante do padre: "deixem-me ir já, porque acabei de comungar e depois pode-me cair mal".

Fuge, ministre!


Fuge, vá depræssa, como se diz na minha térra. O ministre Manel Pinhe que s'apræsse. Na China, ficou por umas bocas, mas é importante competir com este anunce publicado em todo o mündo. Atão samos piores qu'a macedonhos, quê julguê qu'eram só salada russa?

Nota – a partir de agora, todas as notas jocosas serão em transliteração de pronúncia da minha terra. Assim, ficarão sempre a saber se estou a escrever a sério ou a brincar. Mas eu sei lá quando é que escrevo a sério ou a brincar!

Miguel Sousa Tavares

Não conheço pessoalmente Miguel Sousa Tavares (MST), mas tenho uma grande relação com ele, como leitor. Relação ambígua. Não vou falar do escritor, do "Equador", seria coisa longa. Agora vou falar do MST jornalista. Não gosto do MST arrogante, sobranceiro, com tiques de "menino bem". Mas acho piada à sua verve, à sua acutilância, e admiro a sua coragem, ao lutar, muitas vezes, contra o mais fácil e confortável.

Reproduzo parte da sua crónica no último Expresso, "Prova de vida". Um mimo de sabor queiroziano (e lá volto a pensar no "Equador", queirozianismo muito mal conseguido, a meu ver, mas fica fora desta conversa).
"Façam para aí umas sondagens, perguntem aos portugueses na rua, e eles estão todos de acordo com tudo o que lhes cheire a 'modernidade': os fumadores agradecem que os proíbam de fumar em todo o lado; os pacientes das filas de trânsito em Lisboa estão de acordo com os novos radares municipais que os vão explorar até ao tutano, nos raros locais e ocasiões em que possam circular a mais de 50 kms/hora; os gordos agradecem que lhes acabem com o queijo da Serra amanteigado e se preparem para fazer o mesmo às horríveis sardinhas assadas; os "pacientes" (extraordinária palavra!) do colesterol estão reconhecidos a quem determinou que o azeite tem de ser todo igual, de marca, inviolável e sem sabor; os sedentários suspiram por um decreto que os obrigue a correr três quilómetros por dia, como o engenheiro Sócrates; os noctívagos estão mortinhos pelo dia em que só lhes sirvam pirolitos e sumos naturais nos bares; os caçadores nada mais desejam do que a hipótese de se curarem clinicamente desse instinto homicida que os leva a querer matar animaizinhos que voam ou correm por essa natureza fora; os doentes do futebol querem que os castiguem de cada vez que chamarem nomes à mãe do árbitro ou rogarem pragas ao presidente do outro clube. Todos, se perguntados, vão querer um país novo, livre de pecado e vício, de cheiro a sardinhas assadas ou jaquinzinhos fritos, um país assim... como Bruxelas, essa cidade empolgante. Só escapam os casinos - que esses são modernos, cheios de «glamour», «design», cultura, «soshi», «smokings», «jackpots» e «nouvelle cuisine». Os portugueses adoram que os flagelem, que os proíbam, que os controlem, que os persigam, que tomem conta deles, como nos bons velhos tempos do senhor de Santa Comba.

É por estas e por outras que eu cada vez admiro mais os espanhóis. Disseram-lhes que tinham de adoptar os horários e hábitos de vida europeus e eles continuaram com a sua sesta. Quiseram-nos proibir de fumar em todo o lado e eles não levaram a sério. Deram-lhes uma lei do aborto igual à que nós tínhamos e eles levaram-na a sério e não deixaram que o lóbi dos médicos católicos a boicotasse. Ousaram sugerir a proibição dos touros de morte e eles responderam "nem se atrevam!" E, com tanta resistência pacífica e cívica, a Espanha é hoje um dos mais modernos e civilizados países do mundo. Continuando fiel à sua identidade e orgulhosa dela. Um país que não respeita as suas tradições não presta. Um país que não res¬peita os seus hábitos e a sua cultura, não existe: é assim uma espécie de alforreca, sem cor, nem cheiro, nem identidade. Uma Maria vai com todos."
É claro que tudo isto tem margem para discussão séria, mas é difícil darem-me esta margem, os novos puritanos, sem me irritarem e fazerem vir ao de cima o espírito de criança reguila. Falem-me em politicamente correcto e eu dou logo um grande traque em dó maior.

17 fevereiro, 2007

Ética republicana


Uma das coisas mais bonitas de domingo passado. Cincinato terá gostado. Não me lembro de coisa tão mais simbólica de um profundo espírito democrático. Deve ser caso único no mundo.

Futilidade de fim-de-semana


O fim de semana permite o relaxamento propício a que escrevamos coisas ligeiras e fúteis, sem o risco de nos chamarem parvos. E nem sempre o fútil é parvo!

Escreve hoje (17.2.2007) José Pacheco Pereira, no Público, que "a rápida mudança do tempo vivido dos objectos torna obsoleto qualquer filme de ficção científica que tenha mostradores analógicos em vez de digitais, porque nós sabemos que o futuro não substituiu apenas as alavancas por botões, mas acabou com os mostradores redondos em que um ponteiro podia indicar um drama quando se aproximava do vermelho. Hoje, só para os filmes de submarinos da segunda guerra mundial."

É verdade, tudo é digital à minha volta, o despertador, a televisão e anexos, o micro-ondas, o manómetro da caldeira de gás, até o temporizador dos cozinhados. Uma coisa não, em que sou irredutível gaulês, o relógio. E nem é porque me possa dar ao luxo de ter um Rollex.

E não se ficam...

A intolerância, com alguma dose de fanatismo, acompanha-se muitas vezes da incapacidade de reconhecer uma derrota. Em linguagem futebolística, tentam sempre ganhar na secretaria o que perderam no campo. Enganavam-se os que pensaram que os movimentos do "não" iriam ficar tranquilamente resignados, democraticamente, com a sua derrota. Já começou a guerra do aconselhamento.

Antes de comentar o assunto, anoto que esta campanha do aconselhamento promete ser tão "séria" como a do "não". São repetidas as alegações de que o PS e, designadamente, Sócrates estavam a trair o que prometeram na noite de 11. Posso estar enganado, mas nunca ouvi qualquer promessa em relação ao aconselhamento, apenas em relação ao estudo das boas práticas europeias. Mesmo que se queira ir tão longe que se pretenda que isto inclua o caso alemão, ele é muito mais do que a simples questão do aconselhamento. E porque é que o exemplo de um só pais há-de valer mais do que todos os outros?

Mais desonesto é outro argumento, surrealista. Afinal, quem está agora a ser defraudado é o votante no "sim" porque se sabe (!) que este voto só ganhou pelo convencimento de que a lei iria incluir o aconselhamento. Não sabia que o professor Chibanga tinha sido consultado pelos movimentos do "não".

A referência ao caso alemão não é inocente. Os agora lutadores pelo aconselhamento não gostam de deixar claro que na Alemanha as comissões de aconselhamento incluem representantes religiosos. Não tenho dúvidas de que, se aprovado cá o princípio do aconselhamento, o passo seguinte seria a exigência dessa participação.

Não consigo perceber a lógica do aconselhamento. Aconselhar só faz sentido como sabemos quando procuramos conselho, no caso determos dúvidas ou dificuldade de tomar uma decisão. Por princípio, o conselho é simétrico, ou para sim ou para não. Isto quer dizer que, hipoteticamente, uma grávida indecisa podia ser aconselhada a fazer um aborto, coisa que só a ela, estritamente, compete ter como intenção. Gato escondido com o rabo de fora, o que se pretende é que o aconselhamento seja sempre no sentido da dissuasão do aborto.

Coisa diferente, como aliás em qualquer procedimento médico, é haver uma consulta, estritamente médica, que permita à mulher uma decisão informada, um princípio hoje comum a praticamente todas as intervenções médicas. Também diferente é o acompanhamento posterior, tanto no que se refere a eventual apoio psicológico, se necessário, ou a ajuda no planeamento familiar. A meu ver, isto nada tem a ver, directamente, com uma lei do aborto.

Finalmente, e claramente relacionada com este assunto, a questão das declarações do Presidente da República. Não concordo de todo. Quando os partidos convergiram em declarações no sentido do desejo de busca de entendimentos, as declarações do PR são redundantes e configuram, não digo que propositadamente, uma intromissão na actividade parlamentar. O PR tem muitas formas de fazer chegar aos partidos as suas opiniões. Se o faz publicamente, tem de ser por razões importantes. Pergunto-me se não significa isto um aviso prévio em relação a um eventual veto politico, com base numa possível margem pequena de maioria. Se é, o PR corre um sério risco, porque creio que, num caso desta importância política, certamente seria desautorizado a seguir por uma confirmação da votação anterior.

15 fevereiro, 2007

E a seguir? (II)

Bem me palpitou! Segundo o JN, "Juventude Socialista reapresenta lei para casamentos gays". Volto a dizer que não tenho nada contra, mas que é mau "timing".

14 fevereiro, 2007

Gente fina é outra coisa

Quem escreve com nome e cara públicos tem de ser honesto e confessar todos os pecados, para que os leitores dêem o devido desconto aos escritos. Aqui vai uma confissão. Tenho o enorme desgosto de não pertencer ao "jet set" e de não receber todos os dias telefonemas dolicodoces do sr. Castro, uma ternura. Isto vem a propósito de uma notícia do público de 10.2.2007 (provavelmente, como é costume, isto vai sair ao retardador, quando me lembrar de o ir buscar ao meu enorme arquivo).

Foi presa uma senhora, Maria das Dores Pereira da Cruz, suspeita da autoria do homicídio do marido.
De acordo com pessoas próximas de Maria Pereira da Cruz, a relação da ex-bancária com o marido encontrava-se degradada há já "algum tempo". Para além de problemas sentimentais, a mulher do administrador da Campotec, uma importante central de distribuição de produtos hortícolas da região de Torres Vedras, debater-se-ia também com problemas financeiros, devido a uma "vida de luxos".

A última actividade de Maria Pereira da Cruz fora a representação da marca Kenneth Turner, especialista em velas aromáticas, que veio a revelar-se um fiasco comercial. O negócio terá transitado do seu primeiro filho, fruto de outro casamento. José David, de acordo com declarações de José Castelo Branco, seu amigo, está ligado à moda e é actualmente estagiário na revista Vogue, em Nova Iorque.
(...)
Ela amante de luxos, ele amante de piano José Castelo Branco conta que foi através de José David que conheceu Maria Pereira da Cruz. A célebre figura do jet-set descreve a mulher como "uma pessoa divertida, que adora vestir-se e arranjar-se". "Era um pouco doida, mas no bom sentido, no sentido em que era extrovertida", precisou Castelo Branco, acrescentando que o casal esteve uma única vez em sua casa, numa festa, "mas nem sequer foi fotografado".
Esta proximidade com Castelo Branco, mas sobretudo com os cabeleireiros Duarte Menezes e João Chaves, de cujas casas seria visita frequente, não significa contudo que Maria Pereira da Cruz fosse uma figura recorrente do jet-set.
Isto começa a baralhar-me. Moda, cabeleireiros, e ainda por cima o conde de Chateau Blanc? Finalmente, o juízo de que afinal a senhora não era assim tão Caras. Mas quem melhor para decidir?
Líli Caneças, assídua em eventos deste tipo, afirma não a conhecer. "É o segundo jornalista que me telefona por causa disso, não sei porquê. De nome, não a conheço", salientou.
Fico mais tranquilo, porque destas coisas quem sabe é a Lili, muito querida, aí vai um beijinho, não sei bem onde, escolhe, em sítio que não desmanche a plástica.

Nota final – alguém conhece o jornalista fofoqueiro responsável por esta brilhante peça, Ricardo Dias Felner?

13 fevereiro, 2007

O novo visual do Público

Gosto da nova apresentação do Público. Até nem sou muito sensível ao aspecto visual de um jornal, o que me interessa é o conteúdo e leio com prazer os ainda bastante clássicos NYHT ou El País. No novo Público, só me fica a nota estranha de alguma parecença com o Expresso. Foram ambos à mesma fonte (ainda se lembram do Guardian cor-de-rosa?). Também me falta o logótipo de tantos anos. Creio que vai ser das coisas mais controversas nesta remodelação gráfica.

Mudou o tipo de letra, embora de forma talvez não muito perceptível parra a maioria dos leitores. Gosto do novo tipo mas não da diminuição significativa da dimensão. O Público esqueceu-se de que uma margem importante dos seus leitores já usa óculos para o perto. Concluindo acerca do grafismo, a minha maior pena é o domínio do laranja, que até se pode prestar a conotações. As cores têm significados afectivos. O laranja é menos adequado do que o azul, por exemplo, para transmitir uma ideia de seriedade, objectividade, visão desapaixonada. E era o azul a cor dominante do Público, desde logo no acento do logótipo. Tomado que já está pela antecipação do Expresso, o Público teve de escolher outra cor, mas eu preferiria então um verde azulado, como exemplifico na figura. Aliás, é a cor de marca do caderno 2.

Mais importante é a organização do jornal. Gostei do desaparecimento da secção Sociedade e sua divisão pelas muito mais directas e significativas Portugal e Mundo. Em contrapartida, não gosto nada de ver o espaço de opinião no fim do jornal, quase que despromovido. Gostava de o ler pelo menos antes do desporto. Finalmente, notável, para mim, é o caderno 2. Consegue ser a leitura típica dos suplementos de fim de semana, mas acessível à maior pressa da leitura diária. Ainda por cima, os conteúdos estão mais extensos e diversificados. Que mais não seja pelo 2, os meus parabéns ao Público.

Envelope 9

No Público de 10.2.2007, algumas declarações interessantes de Souto Moura, ex-PGR.
"Olhei para o ecrã e vi números que não me diziam nada. (...) Aliás, confessou ter sido a primeira vez que ouviu falar "de conta-Estado, filtro protector ou selector e coisas do tipo".
Que não me venha pedir emprego. Não admito nem como aprendiz, numa das "minhas" empresas, quem não saiba trabalhar minimamente com Excel. Mas será só ele? Quantos ministros, directores gerais, juízes conselheiros?

Vejo novamente na notícia uma palavra que me tem surpreendido, em toda esta história: "disquetes". Será mesmo? Ou será CD? Já não me lembro há quantos anos usei a última disquete. A PT ainda trabalha com disquetes? Se sim, merece mesmo ser "opada".