31 outubro, 2007

Escolas públicas e privadas

1. Na sua crónica de 29.10 no Público, Helena Matos discute a escola pública, a sua má qualidade (?), a massificação. Começa por afirmar que "ministros, deputados, autarcas, assessores, artistas, professores [...] a maior parte deles frequentou o ensino público, mas optou pelo ensino privado na hora de inscrever os seus filhos e netos na escola". HM incorre num erro grave de rigor intelectual. Se isto fosse um palpite solto, era mais uma boca e não faria grande mal. A questão é que o essencial da crónica, baseado na ideia de que os responsáveis descuram a escola pública, parte deste juízo. Que dados tem HM para afirmar tal coisa?

2. Ainda sobre a escola, escreve Vital Moreira a sua habitual coluna das terças. A propósito dos "rankings", a epígrafe é lapidar: "as escolas mais bem classificadas seguramente ficariam longe dos primeiros lugares se tivessem os alunos das piores". Talvez isto se venha a passar com a Planalto se o Opus Dei der prioridade de filiação na "ordem" a imigrantes, moradores de bairros da lata, quase analfabetos, que chegam a casa sem capacidade para sequer quererem saber o que se passou na escola, pais de miúdos que nunca andaram no pré-escolar.

30 outubro, 2007

Guerra (IV)

Lembrei-me agora de que, fora uns exercícios de tiro ao alvo, só disparei uma vez, em Angola, a minha Valter 9 mm. Vivia numa avenida importante de Luanda, estava a tentar uma sesta, ouvi grande alarido e vi um grupo de dezenas de brancos a espancar três ou quatro pretos, já de rastos no chão. Peguei na pistola, vim à rua, atirei um tiro para o ar e foi só ver aqueles corajosos a fugir a sete pés. Não acreditam? Garanto. E julgam que foi no calor de 1961? Não, foi já na "calma" de 1972.

Guerra (III)

A minha noite de terça feira já está comprometida, durante algumas semanas, com o "Guerra", na RTP1. A memória dos portugueses vai ser outra, depois disto. E não é ficção, Apocalypse now, Platoon, Caçador, Jardins de pedra, Nascido para matar, Nascido em 4 de Julho. Aqui, em Portiugal , são imagens nuas, cruas e duras. Repito, obrigado, Joaquim Furtado.

Heráldica


Num destes dias, vi no Público uma ilustração, não identificada, das armas reais portuguesas primitivas. Já uma vez tinha lido alguma coisa sobre isto escrita por um especialista, D. Luís de Lancastre e Távora. É fácil ver que não tem nada a ver com a fantasiosa bandeira da cruz azul nem com toda a ganga lendária de quinas de chagas derCristo e besantes de dinheiros da traição de Judas. Já agora, sobre estes mitos, vale sempre a pena ler o que Herculano escreveu sobre a batalha de Ourique.

Uma vez, mas agora não consigo ir buscar, vi as armas do Eça e creio que eram coisa semelhante. Incluem também o que julgo chamar-se "cordão de S. Francisco", embora já tenha lido que não é o termo heráldico correcto. Não me ocorre agora qual é.

Não sou heraldista mas sou curioso por tudo o que cheire a história. Alguém me arranja informação sobre estas "estranhas" armas afonsinas (se é que já se usavam armas heráldicas no tempo de D. Afonso Henriques)?

Nota gastronómica (XXXV)

Ossobuco

É coisa de que gosto muito, principalmente esperando pelo momento final, o de saborear o tutano. Normalmente, faço-o seguindo a receita do excelente livro de cozinha italiana de Giuliano Bugialli. É um pouco complicada e, há dias, tirando do frigorífico duas belas postas, vi que não tinha tudo para seguir a receita. Adaptei e aqui vai.
Para quatro pessoas. 4 postas de chambão com osso e tutano, farinha, 4 c. sopa de manteiga, 2 c. sopa de azeite virgem (não extra!), 3 c. sopa de concentrado de tomate, 1 dl de caldo de carne, 2 dl de vinho tinto. 1 cenoura grande, 4 dentes de alho, ½ pimento verde, ½ pepino, 2 talos de aipo, 1 cebola. 1 folha de louro, um raminho de salsa e 1 de tomilho, sal, pimenta preta, 3 cravinhos.

Passar a carne por farinha. Aquecer bem as gorduras e fritar a carne, dos dois lados, 5 minutos no total. Baixar o lume e juntar o concentrado de tomate diluído no caldo, quase até secar. Molhar com o vinho e ferver até quase caramelizado. Não saia de junto do fogão, é o ponto crítico! Acrescentar todos os legumes, picados em brunesa, com um pouco de água, retirando o alho ao fim de 3 minutos. Baixar o lume ao mínimo, temperar e deixar cozer até a carne estar bem tenra (cerca de 30 minutos), acrescentado de vez em quando um golo de água, para não queimar o molho.

Acompanhei com tagliatelle, cozida “al dente”, bem passada por água e reaquecida em manteiga.

29 outubro, 2007

Low cost

Segundo uma notícia recente, depois dos voos low cost, agora os hotéis low cost. "Os hotéis são instalados em edifícios recuperados, nos centros urbanos, e terão entre 50 a 60 quartos com 13 a 15 metros quadrados e casa de banho individual. A limpeza dos quartos, muda de lençóis e toalhas de banho, e o acesso a televisão são considerados "extras" nesta filosofia de negócio e, por isso, terão custos adicionais. O preço por noite é de 35 a 40 euros, semelhante às tarifas praticadas pelas unidades hoteleiras low cost que o easyGroup tem em Londres, Basileia e Budapeste."

Pergunta essencial: também dá direito a papel higiénico? E porque não ir mais longe nesta onda de low cost? Já temos o Lidl e os restaurantes de fast food. Mas há muito mais possibilidades. Barbeiros low cost, de corte à tigela. Transportes urbanos low cost, em caixa de camião. Café low cost, feito com a borra do anterior. Escola low cost, em que a criança leva a sua cadeirinha. Cão low cost, perneta e zarolho. Humor low cost, do Herman José. Cervejaria low cost, com direito a mosca na cerveja. Amigo low cost para discutir futebol.

27 outubro, 2007

Desporto de Reis

Salvo erro, por volta do dia 15 de Outubro de 2007, vi anunciado no menu, nas notícias ou destaques, da página do Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, a realização de um Workshop no ambito da Presidência Europeia, salvo erro, dedicado aos politécnicos - Lisbon Research & Policy Workshop: Revisiting polytechnic and vocational education?
Podem crer, nesse dia, fiquei em comoção até às lágrimas - isto seria uma honra para o subsistema, fora a perspectiva, mesmo que remota, de esclarecimentos. Claro que, a minha eminente choradeira não passou de um meio soluço, quando vi a lista de participantes - estavam efectivamente representadas instituições politécnicas de 5 ou 6 países e também Portugal. Só que, Portugal estava representado, não por uma instituição politécnica, e sim por um centro de investigação - CIPES - Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior - e, inevitavelmente, uma comedida apresentação em "powerpoint".

Perguntam-me os meus caros e raros leitores se "acho" mal essa representação?
Claro que não, de forma nenhuma- até porque, do que me recordo do trabalho mencionado, faltava-lhe, a meu ver, só a alma - era uma modesta compilação estatística e mais uma meia dúzia das pequenas, de verdades de La Palisse.

Ontem lembrei-me do desconforto que senti nesse dia e que se prolongou por mais de uma semana, porque alguém me perguntou, à queima roupa, que comentários faria à investigação no (subsistema) politécnico, e eu emudeci!
Mais de 24 horas depois teria respondido:
"A Investigação num politécnico português, é como querer participar no Grand National, só com umas quantas pilecas lazarentas, coxas e anãs, "jokeys peso-deveras pesados", e com os donos de quase todos os Haras tão "excessivamente distraídos" que não conseguem enxergar as diferenças de requisitos necessários."

26 outubro, 2007

Nota gastronómica (XXXIV)

Bacalhaus há muitos!

Hoje vai só notícia de ter posto no meu sítio uma oferta que me fizeram, de 100 receitas de bacalhau. Não são as célebres 1001, mas são uma recolha muito simpática de um amigo (obrigado, Raul), para enriquecimento do meu património culinário. À primeira vista, umas são muito boas, outras banais. Aos poucos, hei-de as ir comentando. E faço uma promessa. Tentarei sugerir as que podem ir, mais economicamente, com um bacalhau norueguês “à moderna” e as que exigem um bom bacalhau de cura amarela.

Nota à margem - Segundo notícia recente, os chefes de cozinha portugueses pretendem a criação de uma ordem, para disciplinar a profissão. Está tudo doido neste país!

25 outubro, 2007

Nova constituição?

A primeira grande tirada do novo presidente do PSD não espanta, é coisa recorrente em políticos que julgam ter grande sucesso com a reclamação de uma nova constituição. Sem isto, Portugal é ingovernável. Simplesmente, nunca ouvi explicarem-me porquê e portanto o que é necessário mudar. Não deixa de ser relevante que há muita gente de direita, neoliberal, conservadora, que diz que não temos nenhum problema constitucional. Alguns voltaram agora a dizê-lo, a propósito das declarações de Luís Filipe Menezes.

Paradoxalmente, até vou dar uma ajudazinha a LFM e apontar para uma disposição constitucional que, a meu ver, precisava de ser revista, mas não por eu seguir a lógica menezina, muito pelo contrário. Trata-se da alínea (e) do nº 2 do artº 74º, que obriga o Estado a “estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino”. Não tenho qualquer dúvida em relação aos graus que, em cada momento, a lei defina como ensino obrigatório. Não é manifestamente o caso do ensino superior. Pior, esta disposição é perversa e tem, a meu ver, consequências sociais que são opostas às intenções piedosas dos constituintes.

Como se sabe, esta disposição não impede a existência de propinas nem mesmo a sua actualização, mas o “progressivamente” impede claramente o seu agravamento para além de uma simples correcção do seu valor nominal, não do valor real. Relembro o que escrevi, em artigo recente a propósito dos empréstimos aos estudantes da educação superior ("O financiamento da educação superior - O modelo dos empréstimos"). Não creio que o valor das propinas seja o factor mais adverso à inclusividade da educação superior, quando comparado com custos de subsistência, de deslocação do meio familiar, até o "custo da oportunidade da educação" (a falta do contributo salarial para a economia familiar).

É neste sentido que o actual sistema de financiamento me parece socialmente injusto. Estão a beneficiar de propinas relativamente baixas muitos e muitos estudantes que já foram beneficiados, por aquelas razões, na facilidade de acesso à educação superior. Por outro lado, com custos crescentes da educação superior (e Bolonha é muito cara, se for a sério!), o Estado não poderá financiar adequadamente um sistema eficaz de apoio social (refiro-me principalmente ao sistema de empréstimos, mas à inglesa, não este simulacro agora anunciado em Portugal) continuando a financiar ao nível actual as instituições. Logo, estas terão de ir buscar o financiamento a um aumento considerável das propinas.

Não cabe nesta nota discutir em pormenor a tese que defendi no referido artigo, mas repito, no essencial. O encargo público, de todos os contribuintes, não aumentaria. O que mudaria era a redistribuição. Um bom sistema de empréstimos alargaria consideravelmente a possibilidade de acesso aos estudantes de menores posses; ao mesmo tempo, o aumento das propinas faria pagar justamente pelos mais favorecidos o benefício privado que tiram de um curso superior; e, “last but not the least”, seria um factor de procura competitiva de financiamento pelas instituições e, portanto, um desafio a acréscimos de qualidade.

Quando chegar a altura de uma revisão constitucional, voltarei a lembrar isto. Até lá, paciência.

24 outubro, 2007

Mais um blogue

Como o tempo não dá para tudo, vejo-me muitas vezes obrigado a fazer sair da minha lista de leituras diárias um blogue quando é indispensável fazer entrar outro. Embora este "ainda tenha tabaco no umbigo", como se diz na minha terra, não posso perder o "Livre circulação", de João Orvalho, meu caro companheiro de muitas lides. Por isto é que adivinho que a sua promessa de "sobre tudo e mais alguma coisa", que espero ver cumprida (também incluirá gastronomia?...), fique sempre um pouco refém da educação superior.

23 outubro, 2007

Contrapúblico (III)

O provedor do Público, Rui Araújo, está farto de me conhecer. Ontem, como tão frequentemente, enviei-lhe uma mensagem (claro que sobre o tal S. Janeiro de quem sou tão devoto) e fiquei surpreendido com a resposta, endereçada a um Exmo. Senhor e a pedir-me o nome e endereço. Só depois é que percebi que, por qualquer erro meu, a mensagem não tinha seguido como é meu hábito. Respondi-lhe: "é o chato do costume...". Claro que foi brincadeira. RA é sempre de grande cordialidade para mim, como também para todos os que se lhe dirigem. A sua página dominical é um exemplo de grande dignidade profissional e deontológica. Não queria era estar-lhe na pele. Não tenho vocação para provedor de coisa nenhuma, receber queixas e não ter poder efectivo.

Na última crónica, termina escrevendo: "única conclusão possível: é a credibilidade do jornal que está em causa. E isso não é coisa pouca..." Vou mais longe e sugiro ao pessoal do Público que se cuide. Começo a pensar que é também a sobrevivência do jornal que está em causa. Pai e filho Azevedos não brincam em serviço.

Nota - Leia-se hoje o muito bom artigo de José Vítor Malheiros sobre o caso Watson e veja-se a quem ele é claramente dirigido. As tricas domésticas às vezes são divertidas. Claro que isto é só piada, porque imagino como deve ser difícil a JVM ter tido essa coragem. "Chapeau", meu caro amigo.

Sócrates e os sindicatos

1. De uma forma geral, creio que a política laboral deste governo tem sido positiva, com uma perspectiva reformista e de adequação às exigências económicas do desenvolvimento (e sem desenvolvimento, não há salários para ninguém). No entanto, ninguém pode ignorar a grandeza da manifestação de há dias. A CGTP fala em 200.000 e a PSP não contesta muito este número.

O que é que está em causa? Aparentemente, não a diminuição do poder de compra, mas principalmente a flexissegurança. Compreendo muito bem os receios de milhares e milhares de pessoas, principalmente daquelas que se vão aproximando de uma idade em que já não há qualquer flexibilidade possível e em que a segurança, principalmente a da reforma, começa a ser duvidosa.

Se eu fosse escandinavo, provavelmente alinharia. O problema é que não vejo em Portugal a mentalidade empresarial escandinava.

2. Outra questão é a da reacção sindical da função pública (julgo que, hoje, o mais forte sector sindical) em relação à reforma das carreiras e do vínculo. A lei principal acabou de ser aprovada. Só conheço a proposta de lei, não a versão final. Em geral, concordo. Não vejo perda significativa de regalias justas, só de mordomias sem sentido e injustas em relação a todos os outros trabalhadores. Principalmente, ao que leio, mantém-se a segurança contra os despedimentos, muito maior do que na privada.

Que os sindicatos protestem, não admira, mas há limites. A gritaria é contra a "evidente" inconstitucionalidade da lei. Fui ver. Ou muito me engano ou a função pública só é tratada num único artigo, o 269º. Curiosamente, só fala de deveres dos funcionários públicos, não de direitos. Cada vez mais me convenço de que o direito é como na botica, pode-se aviar tudo o que se quer.

22 outubro, 2007

Rir ou chorar?

O Público conseguiu hoje atingir o máximo do delírio, da incompetência, da incultura. Numa notícia sobre uma deslocação de Bento XVI a Nápoles, a cidade do "milagre" do sangue de "San Gennaro", escreve-se que
"O chefe da Igreja Católica almoçou com os dignitários participantes antes de se recolher, em oração, junto das relíquias de São Janeiro, patrono da cidade [JVC, itálico meu]."
Pobre São Januário, que mal fizeste para merecer isto?

21 outubro, 2007

Com pés de barro (II)

Volto às declarações de James Watson, a propósito de um editorial de hoje de José Manuel Fernandes, no Público. JMF tem alguma responsabilidade. Embora não tenha terminado o curso, foi estudante de biologia. A sua tese de hoje é que não se deve calar Watson, que as suas declarações escandalosas merecem reflexão, que a ciência exige uma atitude interrogativa permanente. Não é verdade absoluta, tem de ser entendida nos seus termos. A ciência interroga-se permanentemente mas no plano estrito da ciência. A ciência questiona a ciência, não a irracionalidade e a fraude mental. Para dar um exemplo muito em voga, a ciência só se nega se estiver aberta à discussão do criacionismo. Concorda, JMF?

E ninguém está a fazer calar Jim Watson. O que aconteceu, e para mim sem margem para crítica, foi que algumas instituições inglesas da máxima reputação anularam as conferências que ele ia proferir. Se o Público convidasse para uma conferência com destaque o maior jornalista do mundo e ele, na véspera, dissesse que liberdade de imprensa só houve no nazismo, o Público mantinha a conferência? Aliás, fica-se na dúvida se não terá sido o próprio Watson a decidir regressar a penates.

Aproveito para acrescentar que se podia falar de muitas outras coisas disparatadas em que Watson é useiro e vezeiro: que a beleza feminina é governada por genes e por isso deve ser melhorada, que deve ser identificado o gene da homossexualidade, para as mães que querem ter netos não se arriscarem a filhos com esse gene, etc.

Tudo isto é vigarice científica ou, para ser mais benevolente, sinal de senilidade. Começando pelo caso mais em evidência, o da inteligência dos pretos, ninguém sabe qual ou quais os genes que comandam a pigmentação da pele. Muito menos que relação têm com outros genes, centenas, que se segregaram com a evolução no ambiente especial de África e naquela população humana. É impossível, cientificamente, estabelecer alguma correlação entre a pigmentação e seja qual for outra marca genética (a não ser, condescendo, o cabelo encarapinhado mas mesmo isto não vale para muitos indianos muito escuros e de cabelo bem liso). JMF vem com um exemplo óbvio, o do atletismo, mas falha. O que têm a ver os genes “responsáveis” pela contracção muscular ultraefiente dos velocistas negros americanos ou jamaicanos com os genes, também de negros quenianos ou etíopes, “responsáveis” pelas suas proezas na resistência das corridas de fundo, coisas bem opostas?

E o que são os genes da inteligência? O que é, biologicamente (porque genética só vale no terreno estrito da biologia), a inteligência isolada do campo socio-cultural e educacional? Quantos genes estão envolvidos na inteligência? Presumo que muitos mais do que na hipertensão, na diabetes ou na dislipidémia, e nem nestes casos temos a menor ideia. Para mim, a nível de rigor intelectual, entenda-se!, as ideias de Watson estão ao nível da genética alemã do nazismo.

Desde há muito que Watson dá sinais de um evidente desequilíbrio entre a sua qualidade científica e a sua qualidade de carácter. Começou logo pelo seu célebre livro de divulgação do seu trabalho, “A dupla hélice” (“The double helix”). Esteve para se chamar “Honest Jim”. Teria sido bom, porque, aparte o trocadilho dos significados de “honest”, ter-nos-ia interrogado sobre se, de facto, Watson é “honest”, no sentido literal da palavra. Já há trinta anos, o livro deu grande polémica. O seu ego exuberante até seria aceitável, se não misturasse uma apreciação totalmente injusta em relação a colegas importantes no seu trabalho, com destaque para o próprio Crick. Pior, e já a mostrar a qualidade moral de Watson, são as repetidas apreciações execravelmente machistas em relação a Rosalind Franklin, sem cujo trabalho experimental o trabalho teórico de Crick e Watson não teria sido possível.

Já agora, embora com alguma relutância, transmito uma impressão pessoal, ainda que superficial. Conheci os dois, Watson e Crick, separadamente, em anos diferentes, em ambos os casos com alguma demora de conversa, de várias horas. Não pensem que é gabarolice. No meu tempo de vida científica, e hoje muito mais, conhecem-se nobéis por toda a parte, não significa nada, já não é como nos velhos tempos em que entrava para o currículo. Watson não me impressionou especialmente, não retive da conversa nada que hoje possa recordar. Crick sim, que inteligência acutilante, que nível intelectual! E também que cordialidade e estímulo para com um jovem cientista anónimo. “That´s Cambridge, stupid”.

Nota final - Aconselho a leitura deste artigo devastador e, já agora, a votação nas hipóteses apresentadas. Eu vou com os comentadores que perguntam porque é que não é válida a hipótese (c).

20 outubro, 2007

Guerra (II)

Só agora me ocorreu uma coisa estranha no primeiro episódio do documentário de Joaquim Furtado. Aparentemente, o início da guerra colonial é marcado pelo 15 de Março, o ataque da UPA aos fazendeiros e funcionáriuos coloniais no norte de Angola. E o 4 de Fevereiro anterior, com o ataque à cadeia de Luanda?

19 outubro, 2007

Inesquecível


"Até à eternidade" ("From here to eternity", 1953, Fred Zinnemann). Os do meu tempo lembram-se da célebre cena da praia entre o sargento Warden (Burt Lancaster) e a mulher do capitão, Karen Holmes (Deborah Kerr)? Morreu ontem. "Farewell, Deborah!"

(Foto do Público)

Com pés de barro

Para qualquer biólogo, como eu, Jim Watson é um mito. Com Francis Crick, em 1953, descobriu a estrutura do DNA e com isto abriram o caminho à maior revolução de sempre da biologia. Simplesmente, nem sempre a qualidade humana acompanha a científica e Watson já tem dado bastantes sinais disto. Lastimável foi o mais recente, afirmando que, “como toda a gente sabe”, os negros são menos inteligentes do que os brancos.

Não deixa de ser irónico que isto tenha sido afirmado por Watson. Foi ele o grande responsável pelo projecto do genoma humano, que veio pôr em causa a validade científica do conceito tradicional de raças humanas.

18 outubro, 2007

Picuinha?


Esta nota pode parecer picuinha e até deselegante, atendendo às circunstâncias. Mas não teria sido mais correcto que este anúncio, no jornal de hoje, tivesse sido publicado por Aníbal Cavaco Silva e sem o escudo nacional?

Contrapúblico (II)

Acerca do Tratado Reformador: "Abole a cláusula de Ioannina". A jornalista Maria João Guimarães, do Público, parece desconhecer que o verbo abolir só se conjuga nas formas em que se mantém a vogal temática i (abolimos, aboli, abolirei, etc.).

Problemas teológicos

Anda lá por cima um astronauta malaio. A sua história divertiu-me, mas também me mostrou como as religiões têm poder de adaptação. Ele tem de orar cinco vezes ao dia, mas em órbita cada um dos nossos dias são muitos dias e o homem não teria tempo para outra coisa. Também virado para Meca, coisa impossível lá na estação. E prostrado, difícil na ausência da gravidade. Pior ainda, abluções, a gastar uma das coisas mais preciosas em órbita, a água.

Mas os imãs não brincam e, muito a sério, preencheram estas lacunas nos ensinamentos de Maomé. As abluções podem ser feitas com toalhetes, mas não menos do que três. O dia é definido em função de um fuso horário, presume-se que o de Meca. As posturas corporais serão simbolizadas por movimentos das pálpebras. Outras coisas deliciosas mais, neste Corão hi-tech. E, para isto, segundo diz o jornal, estiveram reunidos 150 cientistas e teólogos muçulmanos!

17 outubro, 2007

Canibalismo social

Como nos disse, J. Cadima Ribeiro, do Blog Universidade Alternativa "Há causas que são de todos", penso que ele não se importa que inclua nestes "todos", mesmo aqueles mais radicais.
A respeito deste subgrupo, em que me insiro com muita honra, ontem, adormeci com a reverberação da designação canibalismo social, que, para mim - tem um significado mais amplo que o simples tráfico de órgãos - é tão somente um estágio de (in)cultura social que permite, por exemplo, que quase 80% da população portuguesa ignorasse que os outros 20% (~2 000 000 de almas) é Pobre, estou em choque!
E o que é a pobreza?
O meu conceito de pobreza aproxima-se da seguinte definição:
"Relative measure within a society, being the state of having income and/or wealth so low as to be unable to maintain what is considered a minimum Standard of Living".
Se for válida esta definição, como podemos falar de direitos humanos e "acharmos" que somos civilizados?
O problema é muito sério e então não se resolve com ONGs, "bancos alimentares", "rendimentos mínimos garantidos", caridades diversas de ocasião e demais "etcs" vários, precisamos, urgentemente, de resolver dois únicos problemas - a incivilidade e o deficit de auto respeito: 4 de nós vivem, sossegadamente, à conta da ausência de condições de vida de um de nós.

Levantemo-nos


Contra a pobreza e a fome.

16 outubro, 2007

A guerra não escolhe

Acabei de ver o primeiro episódio da série “Guerra”. Devia esperar, reflectir, amadurecer a escrita, mas não resisto. Há alturas em que não se pode travar a alma. Parabéns, RTP, parabéns, Joaquim Furtado. Já não era sem tempo. Exorcismo, catarse, informação, cada um verá estes documentários à sua maneira, mas certamente sem a frieza de olhar de revés para telelixo, entre cocacola e pastilha elástica.

Só algumas notas soltas.

1. As declarações do então governador geral, Silva Tavares, são patéticas. O excelso Salazar não fazia a mínima ideia do que era Angola, embalado no seu sonho imperial. 1500 soldados, organizados em termos de guerra clássica contra a “Rússia”, concentrados nos grandes centros urbanos. Nos Dembos, para onde a informação militar já chamava a atenção, nem um soldado. Por isto, naqueles dias, a declaração oficial foi “Deus vos proteja”. Como na Índia, em que a pátria e o império exigiam a morte gloriosa daqueles infelizes militares para lá desterrados.

2. Surpresa, a imagem de Holden Roberto. Aparece como um homem sensível, que atrasa dois dias (de 15 para 17 de Março de 1961) o anúncio do levantamento da UPA, impressionado com os excessos que não conseguiu controlar. Hipocrisia? Não sei, mas dou sempre o benefício da dúvida.

3. Também a confirmação, ainda a guerra ia no começo, de que não se pode vencer uma guerra de guerrilha. Veja-se aquela coisa elementar dita por Holden Roberto: “escolhemos Março, época das chuvas. Os camiões portugueses atolavam-se na lama, nós chegávamos perto e disparávamos o que podíamos, retirávamo-nos a pé, debaixo da chuva, só nos molhava”.

4. O papel dramático dos bailundos, os pobres contratados do café, quase vestígios da escravatura. Entre os dois fogos, odiados por uns e outros, morreram também. É difícil num conflito não tomar partido claro.

5. Alguns pormenores de política internacional que não conhecia: o apoio tunisino, tendo sido tropas tunisinas de capacete azul da ONU que levaram as primeiras armas para Angola. Também o papel de Franz Fannon. E o das missões protestantes, este sim, já conhecia (amigo Timótio, catequista protestante na Quissala, provavelmente já estás com o teu Deus).

6. Finalmente, o aparecimento na TV de uma figura impressionante, um guerrilheiro de 1961, José Mateus Lelo, desertor do exército português. Sabedoria de velho africano, imagino-o bem como o meu velho amigo rei do povo do Quissacala, na beira do meu pai rio Zaire. A ele fico a dever o título exemplar desta nota: “a guerra não escolhe”.

Literacia ou proficiência? - parte 4 - CONTRIBUTO ESPECIAL

O texto que se segue (azul escuro) é da autoria de Alexandre de Sousa do Blog Co-Labor, e resulta num precioso farol de milha, para quem se interesse por construções curriculares planeadas - com base em perfis profissionais necessários e no desenvolvimento de competências - tão úteis no projecto de todas as formações tecnológicas.
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Para uma realização (técnica) da gestão de competências

Para que se possa fazer uma gestão de competências por via da educação/formação interessa ter noções do conhecimento e representação (mais ou menos formalizada) desse mundo cada vez mais real. Com recurso ao proverbial senso comum parece aceitável que as competências sejam objecto de trabalho de desenvolvimento e que este, seja constituído por um conjunto de actividades complexas, que percorrem linhas várias que se cruzam e entrecruzam à volta de aquisições, transferências
, aprendizagens de aptidões, habilidades e conhecimentos.

O que são competências?

Competências são descrições gerais do comportamento ou acções necessárias para realizar com êxito dentro de um determinado contexto [trabalhar] (tarefas, grupo de trabalho, função, etc.).

Embora o debate sobre competências não seja nada de novo, o que é novo é a sua aplicação em toda a função ‘recursos humanos’, de modo a dinamizar quer o emprego, quer o desempenho empresarial e perceber os resultados que sejam relevantes para a organização de estratégias empresariais e para a concepção de uma visão «em termos» por parte das instituições que têm a seu cargo, também, lidar com a empregabilidade.

Os actuais e futuros «Empregados» aprendem, desenvolvem e aperfeiçoam muitas das suas competências ao longo das suas carreiras; pelo que começa a fazer sentido pensar nos serviços que possam estar estão disponíveis para ajudar o «Empregável» a avaliar as competências relacionadas com um desempenho efectivo no seu emprego.

Porque usamos as competências?

Quando aplicado correctamente, a implementação de um programa de competências dentro de qualquer tipo de organização gera os meios necessários para:

■ Transferir a visão e os objectivos da organização para o comportamento esperado do «empregado»;

■ Implementar um tipo de recrutamento (selecção e métodos de avaliação), o mais eficaz e juridicamente defensável;

■ Reduzir custos e taxas de absentismo/rotatividade;

■ Identificar áreas de desenvolvimento para o «empregado» que estejam directamente relacionadas com resultados pretendidos e objectivos organizacionais;

■ Preparar o «Target» educação/formação em Euros, nas áreas que previsivelmente trarão mais retorno sobre o investimento;

■ Definir critérios mais eficazes (e válidos) para desenvolver e avaliar o desempenho;

■ Identificar o fosso entre actuais e futuros requisitos (aptidões, habilidades, conhecimentos,…);

■ E se houver projectos para reduzir é necessário: assegurar a manutenção das competências essenciais para a sustentabilidade da organização.

Porque precisamos de competências se já temos descrições dos «empregos»?

Em contraste com uma descrição do posto de trabalho, enunciando normalmente as tarefas ou funções e responsabilidades para um determinado papel, um conjunto de competências (ou 'perfil' da competência) enumera as aptidões/habilidades necessárias para realizar as tarefas ou funções.
A maior parte das vezes, as descrições do emprego não estão formuladas de uma forma que permita que o desempenho de um «empregado» possa ser efectivamente medido. As competências por outro lado, devem ser descritas em termos tais que possam ser observadas, medidas e avaliadas face a critérios que são padronizados e requerem a realização do trabalho de forma eficaz.

Perspectivas à vista

Aparentemente, é consensual a constatação de que existem cada vez mais exigências em matéria de adequação das intervenções educativas/formativas apontadas por grandes organizações que correspondem a volumes de emprego consideráveis e que aconselham vivamente o recurso a novas formas de pensar as acções que tem por objecto o desenvolvimento de competências.

Deixou de ser pura retórica afirmar que são precisas respostas concretas a necessidades específicas expressas pelos públicos-alvo o que veio a elevar o nível de responsabilização das entidades que prestam serviços de educação/formação, uma vez que lhes é pedido sem complexos, que participem na elaboração de catálogos dos modelos de competências (ontologias) e preparação/ajustamento dos perfis quer das profissões/empregos, quer dos postos de trabalho.

O conceito base que preside à exploração de metodologias de apoio ao desenvolvimento destas práticas é o da ‘Oportunidade de Aprendizagem’, uma representação abstracta de qualquer forma de actividade (repetível) capaz de contribuir para o desenvolvimento de uma competência. Associados a este conceito podem e devem ser identificados subconceitos como o da Entidade da Instrução a que pertencem a clássica presença do aluno, os objectos de aprendizagem ou os programas de aprendizagem. Esta entidade assumidamente, tem objectivos de aprendizagem bem definidos, pelo que deve ser obrigatório estabelecer um relacionamento fortíssimo entre o ‘target’ competência e a definição dos objectivos de aprendizagem.

Mas como é que sabemos que a Oportunidade de Aprendizagem é adequada para uma determinada situação? O contexto empresarial fornece algumas pistas sobre quais os aspectos da situação de trabalho que exigem competências. Na gestão de competências, os perfis exigidos são aqueles que tipicamente se reconhecem como fazendo parte das unidades organizacionais e consequentemente das tarefas que lhe são afectas.

Em algumas experiências levadas a cabo durante o programa Aveiro-Norte, foi evidenciado que é preciso fazer uma distinção entre requisitos ‘Hard’ (competências que são absolutamente necessárias) e requisitos ‘Soft’ (competências que são objectivo desejado no futuro de curto e médio prazo).

Nota técnica:

Este texto, entre outros, foi preparado a partir de questões que se levantaram no decorrer e pós-seminário de Felder & Brent, em Set. passado, na U.A.

Houve um debate em torno de uma questão – crucial – que o(s) processo(s) Bolognese vieram colocar ainda mais a nu: As propostas sobre os conteúdos das disciplinas e o planeamento dos cursos com base nessas disciplinas são concebidas e desenvolvidas com base em que critérios?

Estivemos a ler, para ajuda na estrutura das afirmações, os docs de leitura obrigatória para o seminário (Felder & Brent), mais dois trabalhos interessantes de Christine Kunzmann, os proceedings da 6th I.C. on Knowledge Management e ainda os proceedings da 8th I.C. on Enterprise Information Systems, tudo isto de 2006; não devem ser estranhadas as inovações de vocabulário até porque raramente se tem feito qualquer esforço na formalização destes tópicos.

Mas, há sempre um mas na cantiga, a génese da motivação para escrever sobre isto está num dia de trabalho passado, tempos atrás, numa ‘planta’ de uma multinacional que fabrica «memórias». Foi um fantástico dia de trabalho, integral, com o director dos RHs dessa multinacional. Estamos a falar de 600 pessoas, mínimo 9.º ano e maioria com o 12.º ano. Engenheiros muitos.

A nossa conversa inicial teve origem numa frase do nosso RH: «só queria que o pessoal soubesse ler e escrever». Nesse dia, aprendi muito, em especial, o que significa ler e escrever ao nível do chão da fábrica.

Alexandre Sousa

Errei

Ha dias, critiquei aqui o CCISP (Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos). Recebi agora uma mensagem do seu presidente, que reproduzo.
Caro professor,
Li na sua página o seguinte trecho referindo-se ao CCISP: “Neste sentido, fiquei boquiaberto (mas já devia esperar tudo) com a decisão do CCISP: até ao fim deste mês, os institutos politécnicos vão definir um modelo-tipo de estatutos e organização e depois pô-lo em prática em cada um dos institutos. Não dá para acreditar!”
Suscita-me o seguinte esclarecimento: os Institutos não vão definir um “modelo tipo de estatutos e organização. O que os Institutos vão fazer é estudar até ao fim do mês um modelo tipo de regulamento eleitoral para eleição da assembleia estatutária, que depois será adaptado por cada Instituto à sua realidade concreta. E a razão dessa decisão resulta da necessidade que a eleição respeite o princípio da representação. Ora entre a lei antiga e a lei nova há alteração dos representados, na lei antiga eram as Escolas, na lei nova são os professores e doutores em regime de tempo integral – o que face à realidade concreta dos institutos não é a mesma coisa.
O CCISP não deseja ver o processo de revisão dos estatutos perturbado por impugnações do processo de eleição da assembleia estatutária e, por isso, decidiu estudar esta questão com rigor.
Não se teria perdido nada se tivesse procurado o esclarecimento. Neste caso fica boquiaberto por preguiça o que vindo de si não seria de esperar!

Baseei-me só na notícia do jornal, vejo agora que errada. Asneira, já escrevi aqui nestas notas sobejas coisas sobre a incompetência dos nossos jornais, devia estar prevenido. Devia ter confirmado, tanto mais que o Prof. Luciano Almeida está sempre disponível com a maior cordialidade, que retribuo. Estendo a mão à palmatória.