É verdade que me lembrei disto ao reler um apontamento de há algum tempo e que não dá nenhuma boa ideia da educação superior. É uma notícia da Lusa, de 12.10.2006:
«A redução do tempo dos cursos do ensino superior devido à sua adequação ao processo de Bolonha poderá pôr em causa a sobrevivência de muitas tunas académicas do país, alertou hoje um membro da Infantuna, de Viseu. João Paulo Sousa, que está responsável pela organização do IV Encontro Nacional de Tunos - a realizar em Viseu, disse à Agência Lusa que este é "um dos problemas mais graves" que vivem actualmente as tunas. "As pessoas vão passar menos tempo nas universidades, há a pressão do mercado de trabalho e aquilo que vão prejudicar são as actividades extracurriculares", lamentou. A proximidade que as tunas têm com o público é considerado um dos principais factores para a grande receptividade que tiveram e ainda têm, bem como o seu tipo de música que, "embora tendencialmente mais elaborada que os congéneres grupos de expressão popular, ainda assim é facilmente perceptível", refere uma nota da organização. "Ainda por cima quando embrulhada com algumas brincadeiras juvenis de cariz cómico, sarcástico e burlesco, provocando serões de descontracção e alegria comummente bem aceites, contactos directos com uma pedinchice inteligente e bem tolerada, ou surpresa de folgazã e romântica serenata a horas e em locais inesperados, normalmente para gáudio de vizinhos e transeuntes e preocupação dos progenitores da(s) visada(s)", acrescenta.»É claro que isto é coisa aberrante na nossa educação superior de hoje. Ela tem muita coisa de má, mas não tanto. E, muito menos nem tanto como, voltando ao Eça, a descrição memorável do conselheiro Acácio.
Escolheu então, «como mais própria para dar ideia da importância do trabalho», a página relativa a Coimbra. Assoou-se, colocou-se no meio da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos pausados, leu:Esta nota faz-me pensar numa crítica de um prezado amigo a um diapositivo que uso com frequência nas minhas apresentações:
- «Reclinada molemente na sua verdejante colina, como odalisca em seus aposentos, está a sábia Coimbra, a Lusa Atenas. Beija-lhe os pés. segredando-lhe de amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam. seus melancólicos trilos. Quando vos aproximais pela estrada de Lisboa, onde outrora uma bem organizada mala-posta fazia o serviço que o progresso hoje encarregou à fumegante locomotiva, vêde-la branquejando, coroada do edifício imponente da Universidade, asilo da sabedoria. Lá campeia a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade estudiosa chama a cabra. Para além logo uma copada árvore vos atrai as vistas: é a celebrada árvore dos Dórias. que dilata seus seculares ramos no jardim de um dos membros desta respeitável família. E avistais logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus inocentes recreios, os briosos moços, esperança da pátria, ou requebrando galanteios com as ternas camponesas que passam reflorindo de mocidade e frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais árduos de seus bem elaborados compêndios».
Em Portugal?É verdade em muitos casos, diz o meu amigo, não em muitos outros. O que é necessário é definir uma tendência geral, uma dominante, e é discutível, admito, que ainda seja a que mostro no diapositivo. Aqui fica o que julgo ser um bom tema para discussão.
Os jovens diplomados:
- formação cultural fraca
- dificuldades de elaboração mental e de espírito crítico
- dificuldades de comunicação
- reduzida capacidade de iniciativa e inovação
- falta de ética do estudo e do esforço
- falta de empreendedorismo (objectivo emprego)
P. S., 2.5.2007 - Nem de propósito. Marçal Grilo escreve hoje no Público um artigo de opinião só disponível online a assinantes), "Apetece-me dizer bem", com a qualidade que é sua imagem de marca. São 31 parágrafos, sempre a começar por "apetece-me dizer bem" e abordando os mais diversos aspectos do Portugal de hoje.
Vale a pena atentar numa espécie de conclusão: "Por tudo isto e por muitas outras coisas que podia igualmente enumerar, apetece-me dizer bem! E isto apesar de eu saber que há corrupção, incompetência, desleixo, falta de planeamento, gente sem qualificações em lugares onde não devia estar e muitos outros "pecados" que nos afectam e nos penalizam. Penso, no entanto, que chegou o tempo de dar esperança às pessoas e de dizer que é "possível" fazer avançar e fazer progredir o país porque os exemplos estão aí a mostrar que tudo é possível desde que nos convençamos de que é preciso estudo e trabalho e fazer muito esforço e por vezes muitos sacrifícios para atingir os objectivos desejados."


