"Os alunos vêm muito mal preparados. Por exemplo, tenho sempre de lhes recomendar que nunca digam que as bactérias pertencem ao reino animal. Há quem o diga por ignorância, atendendo a que as bactérias se movem. Mas não, as bactérias pertencem é ao reino vegetal."Juro que não é anedota e que a minha imaginação humorística não consegue ir tão longe.
16 outubro, 2007
Bactérias vegetais
15 outubro, 2007
Ensino médico (II)
Escrevi agora, de novo, um texto sobre este assunto. Não chega a ser um artigo de fundo (mantém-se actual o que referi), mas é texto longo demais para blogue. Quem tiver curiosidade, pode lê-lo no meu sítio.
14 outubro, 2007
Nota gastronómica (XXXIII)
Hoje, vou criticar David Lopes Ramos pela sua crónica na P2 do Público (claro que estou a brincar). Sugere uma receita de pimentos piquillo com atum. A receita é muito simples mas sugestiva e hei-de a experimentar. Alho laminado frito em azeite, cortado com vinagre, temperado com cravinho, em molho a temperar os pimentos, cobertos com cebola crua, atum e ovo cozido picado. Se fosse na minha terra, juntava-lhe um toque de malagueta e de açaflor.
DLR diz, e com razão, que isto só com atum de conserva da melhor qualidade. O que "critico" é que não tenha dito que, pelo menos para mim, isso só atum dos Açores. Os japoneses, os grandes apreciadores, lá sabem, sempre com os seus navios nos mares dos Açores. As traineiras açorianas despejam-lhes directamente o atum, no mar alto, nem vão a terra vendê-lo. Note-se que se está a passar o mesmo, com outros peixes, em relação a navios espanhois matriculados em Vigo ou na Corunha.
Há duas marcas importantes de conservas nos Açores. Tradicional, a Corretora. Não encontro cá. Outra é uma marca continental muito conhecida, que só trabalha com atum açoriano. Não vou referir, porque não faço publicidade gratuita, mas até já escrevi sobre ela. Procurem.
13 outubro, 2007
Quando menos é demais
Entre diversas actividades de que lhes darei conta em breve, tenho andado muito entretida a verificar as contabilidades do Orçamento de Estado pra 2008 (sobretudo o Relatório do OE 2007, e OE do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) que irá ser discutido,
não sei para quê, na Assembleia da República - ganharíamos todos tempo e paciências se partíssemos, directamente, para a publicação da proposta tal e qual e nos puséssemos, desde já, em campo, para pormos mãos à obra ou nos bolsos, pés de meia e contas bancárias de outros mais desprevenidos.
Entre as contas de cabeça que fiz, mostro-lhes na tabela seguinte, a síntese das variações orçamentais, em percentagem (%), no Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, entre o OE de 2007 e o de 2008.Perguntava-me hoje uma pessoa , ao ouvir-me os desabafos: Tu estarias mesmo disposta a dar cabo do canastro do «homem», não?
Ao que eu lhe respondi: Que ideia absurda, intencionalmente, intencionalmente, nunca! Mas, o subconsciente é poderosíssimo!
Guerra
Mas já é tempo. Os meus filhos mais velhos, que até viveram em Angola durante a guerra, não têm nenhuma memória disso a transmitir aos meus netos já crescidinhos e curiosos. Depois, é preciso ajudar pela catarse, se é possível, os que ainda hoje acordam em pesadelos (e ainda há dias ouvi um). Também compreender que ir à guerra podia ser um acto de coragem, se para combater a guerra lá no seu coração.
Por tudo isto, não perderei nenhum dos nove episódios anunciados de “Guerra”, a série televisiva que se estreia na próxima terça-feira, 16, na RTP. Ainda por cima, com o selo de garantia da autoria de Joaquim Furtado. Julgo que se justifica plenamente o tradicional “A NÃO PERDER!”. E, se por acaso tiverem a sorte de estar nessas condições, convidem para a ver juntos um amigo que tenha estado na chana, do outro lado.
(Editado)
Parentelas
Um dia, toda de preto, a sair de casa, disse à minha avó que ia à missa, rezar pela alma de um homem importante que tinha morrido, dissera a rádio, e que se calhar ainda era parente do seu marido. Ainda por cima, eram ambos músicos.
Razão tinha ela. Toscanini tinha acabado de morrer. O marido da D. Carlota era o sargento Toscano, que tocava na banda do 18.
Se querem ler mais coisas deliciosas da D. Carlota, comecem na pág. 103 do meu “O mastro das alminhas”, com muita invenção mas alguma base verídica sobre a D. Carolina.
12 outubro, 2007
Nota gastronómica (XXXII)
Na receita de canja carilada, indiquei como tempero o vulgar pó de caril, mas também disse que podia ser "garam massala" preparado na ocasião. A designação é hindi e vulgarizada pela cozinha indiana, em geral. Creio que em Goa os falantes lusófonos lhe chamam apenas de caril. Como sou grande apreciador da cozinha indiana, é frequentemente isto que uso, feito por mim, embora seja difícil arranjar alguns dos ingredientes. É só o esforço de um passeio pelas muitas lojas indianas que por aí há.
Dizem-me, e eu acredito, que cada família rivaliza na receita da mistura. Vou por uma de um velho amigo goês, que também me presenteia com os mais magníficos achares e com uma massa secreta familiar de picante como nunca vi igual. Este pode ser o vosso pó de caril pessoal.
4 cs de cardamões, 3 cs de cominhos, 1 cs de pimenta preta em grão, 1 cs de cravinho, 1 cs de canela em pó, 1 c. chá de noz moscada ralada. Pisar tudo muito bem no almofariz, até ficar em pó e tostar em frigideira seca ou sertã, a olho apurado (vejam a cor!), mexendo sempre muito bem.
Para meu gosto, esta receita tem um sabor menos agreste do que alguns pós comerciais, e sem perda do aroma. Afinal, a cozinha indiana, como todas as outras, cheira-se tanto quanto se prova (e se vê).
11 outubro, 2007
Contrapúblico
História mal contada
A questão tem a ver com o apoio cubano à luta independentista das colónias portuguesas. O episódio do capitão Peralta, aprisionado na Guiné, é exemplificativo, mas deturpado por HM, que o insere numa acção cubana não para fazer revoluções mas para fazer geo-política. E nem refiro a infeliz prosa de HM, pretensamente jocosa, sobre a partida de Peralta para Cuba, já depois do 25 de Abril.
Mais grave é a forma como HM vê a participação cubana em Angola, em 1975. Parece que as tropas cubanas vão para Angola sabe-se lá porquê (ou melhor, deduz-se, por geopolítica) e que, um pouco de surpresa, acabam por se ver envolvidas em combates. É incrível tal “desconhecimento” da história recente. O destacamento cubano vai para Angola em situação de emergência sabendo que chegava ao aeroporto e iria imediatamente para a linha da frente, a combater a coluna sul-africana e de mercenários portugueses, já às portas de Luanda, e que ameaçavam a independência, proclamada nos termos previstos em Alvor.
Finalmente, HM, a sua referência a diamantes e a droga levada para casa pelos combatentes cubanos (coisa que não prova) é demasiado mesquinha para uma jornalista do seu nível.
Le roi est mort, vive le roi
1. As IES andam a queixar-se de que os prazos são apertados. Terão, a partir de hoje, oito meses para constituírem a assembleia de elaboração dos novos estatutos e submetê-los a homologação. De facto, algumas universidades aproveitaram e bem o “vacatio legis” para já terem aprovado o regulamento de constituição dessa assembleia e estão já prontas para a eleger. Do ponto de vista formal (discutirei isto na nota seguinte), creio que este prazo é largamente suficiente, a não ser se pensarmos na irresistível vocação dos nossos académicos para intermináveis discussões sobre a importância de uma vírgula.
Preocupa-me mais o prazo para constituição do novo conselho geral, com membros externos, que é de quatro meses. Não é tarefa menos importante do que a aprovação dos estatutos. Se eu fosse membro eleito de um conselho geral, gostaria de ter o tempo que me garantisse uma cooptação criteriosa dos externos, certamente com muitas horas de conversa sobre a sua concepção da universidade e as suas propostas de estratégia. Mas também, se fosse apenas professor, quereria o mesmo em relação aos meus colegas a serem eleitos para o conselho geral.
2. Receio que se repita a experiência anterior de “copy-paste” de estatutos. Esta é uma ocasião única para uma reflexão profunda de cada IES. Há casos na Europa, com as novas leis de organização e governação das universidades, em que se discutiu aprofundadamente durante quase três anos. Começa logo, claro, por cada IES definir bem o que é e o que quer ser, qual é a sua missão e o seu lugar específico no sistema. Eu sempre quero ver o que vai ser a diversidade das declarações de missão dos próximos estatutos. E, decorrendo dessa diversidade, obviamente que também a da organização e da governação, isto é, dos estatutos.
3. Neste sentido, fiquei boquiaberto (mas já devia esperar tudo) com a decisão do CCISP: até ao fim deste mês, os institutos politécnicos vão definir um modelo-tipo de estatutos e organização e depois pô-lo em prática em cada um dos institutos. Não dá para acreditar!
10 outubro, 2007
Efemérides futuras dos 10 dos 10
- 10 de Outubro de 1911, início do Derrube da Dinastia Qing (último imperador: Aisin Gioro Puyi) que culmina a 12 de Fevereiro de 1912, com o estabelecimento da República Popular da China.
- 10 de Outubro de 2007, abertura oficial da Reforma do Ensino Superior Português, com a Dinastia Zé Mariano, para jamais acabar (ver origem da ideia desta informação:aqui, via Blog Universidade Alternativa)
Ensino médico (I)
Acerca desse meu trabalho, um eminente professor de uma das escolas médicas tradicionais dizia-me há algum tempo, com sobranceria, que esse modelo era uma moda e que a prática mostraria que os médicos formados pelas escolas tradicionais passariam muito à frente desta modernice de médicos à moda do Minho.
Pode haver muitos critérios de comparação, mas eu vou por este. Os 50 médicos agora formados em Braga são o que “resta” dos 52 que se inscreveram no primeiro ano. No total, o curso tem uma taxa de sucesso escolar de 98% (e ainda sem um hospital devidamente adequado ao ensino). Qual é a das escolas tradicionais?
Sérgio Machado dos Santos e Cecília Leão estão de parabéns, sem esquecer todos os que permiram este sucesso.
Sabedoria
“Não quero alcançar a imortalidade através do meu trabalho… quero alcançá-la não morrendo”
Quem me dera!
09 outubro, 2007
Literacia ou proficiência? - parte 3 ( "ratoeira do canário")
O motivo porque este post deveria pertencer à série referida, prende-se com o facto de que existem, existirão e serão valorizadíssimas, a curto prazo, profissões emergentes cuja designação não constam das actuais - e, por que não dizer, logo à partida, fundamentalistas e retrógrados catálogos formalmente instituídos? (ex. Classificação Nacional de Profissões, ver as razões em em [1] e [2])
Muitas são e serão as profissões emergentes de carácter tecnológico, que requerem uma abordagem pouco convencional no processo de ensino-aprendizagem, porque exigem a conciliação de conhecimentos executivos PRÁTICOS bastante diversificados e de treinamento persistente e extensivo para que os os formandos alcancem, no mínimo, os níveis de proficiência expectáveis ao seu exercício. São formações dessa natureza, que deveriam de ser o objecto de preocupação dominante das instituições politécnicas e para as quais haverá que organizar o pessoal docente.
Esta minha arenga, à laia de introdução, tem que ver com reflexões pessoais sobre o conteúdo do ficheiro - propostas/contributo do CCISP e de dois politécnicos, de Bragança e de Setúbal (?), que auxiliarão a definição do conceito de docente ESPECIALISTA do subsistema politécnico - ficheiro esse, gentilmente, sugerido e indicado pelo «fernando» mas que, em caso de sumiço do site original (Escola Superior de Tecnologia da Universidade do Algarve), também o podem encontrar aqui.
Para mim, estes docentes especialistas dos politécnicos são elementos chave, porque terão que reunir, manter e actualizar as suas competências profissionais, e ainda saber como as transmitir aos seus formandos, a quem devem conferir indubitáveis capacidades de execução profissional, imediatamente absorvíveis e utilizáveis no nosso mercado de trabalho - refiro-me aos Cursos de Especialização Tecnológica. Esses docentes especialistas, não terão outro remédio, se não acompanhar o desenvolvimento PROFISSIONAL da sua área de intervenção que, tal como as restantes, estarão agora em permanente mutação.
Os requisitos dos docentes especialistas deveriam ser definidos, apreciados, confrontados e concedidos, exclusivamente, por agrupamentos profissionais correspondentes ou, em casos especiais, afins.
Não sei se as nossas organizações profissionais pertinentes são suficientes e dotadas de flexibilidade, para assumirem esse desiderato, mas há sempre o recurso à opinião de especialistas profissionais estrangeiros para esse efeito.
Por outro lado, as instituições de ensino superior politécnico também não estão a demonstrar suficiente interesse ou destreza de pensamento para a resolução dessa questão.
Passo a explicar o meu pensamento, através de indicação genérica dos PRINCIPAIS reparos, à proposta e contra-proposta já citadas:
Proposta do CCISP
Reparo 1 - não entendo porque é que a proposta é ainda mais restritiva, limita apenas os especialistas politécnicos a três dos primeiros grandes agrupamentos, do total de nove agrupamentos, da nossa já obsoleta classificação nacional de profissões: Grande Grupo 1 - Quadros Superiores da Administração Pública, Dirigentes e Quadros Superiores de Empresa; Grande Grupo 2 - Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas, e Grande Grupo 3 - Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio.
Antes de mais, penso que essa classificação não devia de passar de uma listagem indicativa, jamais exclusiva, a ser utilizada, apenas em casos já pré estabelecidos, mas sempre com a devida precaução.
Mesmo entendendo que seja desnecessário - para o efeito, de enquadramento profissional de "docentes especialistas do politécnico" - eliminar algum grande agrupamento da classificação, se eu fosse obrigada a excluir do leque, alguma classe profissional, excluiria logo o primeiro e o segundo agrupamento, por razões óbvias, dos únicos 3 seleccionados pelo CCISP.
Reparo 2 -Não percebo porque é que um procedimento que, quanto a mim devia ser muito dinâmico, expedito e flexível "precisa seguir um Modelo próximo ao de Provas de Agregação das Universidades. ???? Tenham dó! Mesmo com a configuração actual dessas provas, para mim, essa sugestão é tenebrosa, e traduz apenas aquilo que, a qualquer custo, JAMAIS PODERIA ser A OPÇÃO de um politécnico que se preze!
Reparo 3 - A ter que haver a emissão formal e nominal de um juízo, o júri devia ser exclusivamente constituído POR PROFISSIONAIS ACTIVOS DE EMPRESAS PRIVADAS da ÁREA de candidatura do docente, MAS SEMPRE FORA DE TODO O SISTEMA DE ENSINO, e de preferência por estrangeiros.
O júri, a quem se conferia essa tarefa, deveria ser constituído por um número ímpar de elementos, e ficaria subordinado a um procedimento simples pré fixado, que pode realmente incluir, além de uma grelha padrão de avaliação, documentos comprovativos da especialização, a argumentação directa com o(s (candidato(s), mas por simples vídeo-conferência.
Para mim, está fora de causa a necessidade de se fixar um local específico, para essas reuniões de apreciação. Só este requisito trará como consequência em júris não "pré-cozinhados", o atraso em marcação da datas, que pode ir a muito mais de um ano.
Reparo 4 - Se os politécnicos, obrigatória e conjuntamente, com as organizações de classe profissional, não reunirem condições para avaliação de um seu docente como especialista, não serão as suas parcerias com universidades que colmatam a sua deficiência, tanto mais que, as universidades não são obrigadas a esta classe de docentes e, por definição, deveriam mesmo estar noutro patamar de interesses e de evolução do conhecimento, isto é, noutros níveis de proficiência.
Contra proposta do Instituto Politécnico e Bragança
A meu ver, é uma contraproposta totalmente despropositada porque, tal como é referido na proposta do CCISP, um docente especialista é um profissional da área.
As avaliações pertinentes ao percurso académico ou de investigação aplicada (aplicada agora já não, deve ser INVESTIGAÇÃO ORIENTADA) dos docentes dos politécnicos deverão ter procedimentos específicos de avaliação - não convém aos docentes dos politécnicos, comprovarem, perante o júri, as suas tendências para "assobiar e chupar laranja", em simultâneo ou, o que quer dizer o mesmo, que sabem pouco de nada.
Pode, eventualmente, fazer sentido incluir-se um requisito de investigação aplicada, numa avaliação de carácter profissional da área para a qual o candidato se perfila, desde que essa investigação seja o resultado de projectos de empresas, coordenados e financiados por estas, nos quais alguns pontos tenham sido submetidos a contratação específica dos docentes candidatos. Outra maneira de ver o problema, para mim, é mesmo muito duvidosa.
Análise de Armando Pires (Politécnico de Setúbal?)
Concordo e gostei muitíssimo do preâmbulo e da chamada de atenção de Armando Pires sobre a proposta em causa, mas como discordo das provas públicas para o efeito de especialista, discordo também do procedimento por ele proposto, que resultou tanto ou mais complicado do que o da proposta original.
Na verdade a organização de provas públicas para especialistas, termo este que devia ser usado até com horizonte temporal curto, não fazem nenhum sentido, numa época em que a única constante é a mudança.
Em resumo,
Claro que podemos sempre baralhar ou complicar procedimentos...
É só não resistirmos às nossas tentações.
Ninguém nos impede de o fazer, muito menos o MCTES que, já de si, a meu ver, prefere pensar em sistemas complicadíssimos, que ninguém percebe bem quais os objectivos a atingir, a não ser para hierarquizar pessoas e instituições, nem a estrutura final que terá em mente, nem a calendarização da execução, e muito menos, e o mais grave de tudo, os orçamentos.
(continua)
___________[1] Esteganografo - profissão já antiga mas que, sob adequada metodologia de inovação e com o recurso às novas tecnologias, tão em voga, será ser muito valorizada a curto prazo, e não consta da lista de profissões. Vale apostarmos?
De acordo com a WIKIPEDIA, Esteganografia é o estudo e uso das técnicas para ocultar a existência de uma mensagem dentro de outra.
[2] 37 weird jobs that you actuallymake a living at.
[3] Se quiserem procurem o significado de "canary trap" e vejam se advinham as razões porque coloquei este título, neste preciso post.
Os capelães hospitalares
“Um dos aspectos mais censuráveis do projecto governamental é a remuneração dos serviços de assistência religiosa pelo Estado. Se, fora dos hospitais, a assistência religiosa constitui um encargo dos interessados, por que é que, no caso dos internados num estabelecimento público, esse serviço passa a ser suportado pelo Estado? O Estado só deve remunerar ou subsidiar actividades que fazem parte das suas atribuições ou que ele tem obrigação de apoiar ou fomentar. Ora, num Estado laico, a assistência religiosa não é uma tarefa do Estado, nem pode fazer parte da sua missão. Por isso, é manifestamente ilegítimo o gasto de recursos públicos numa actividade a que o Estado deve ser alheio.”
Não é bem assim, a meu ver. Compreendo a visão de Vital Moreira, mas creio que lhe falta a perspectiva médica, como é natural. A assistência religiosa ou espiritual a um doente, seja ela católica ou outra, não é meramente um acto religioso privado. Pode ser, e é muitas vezes, um acto médico, um contriburto importante para o bem estar do doente, principalmente em situações de grande sofrimento ou de falta de perspectivas de cura.
Ainda há poucos anos, infelizmente, acompanhei a doença terminal de uma pessoa muito querida e profundamente religiosa. Não sou crente, mas não me importei nada que dos meus impostos tenha saído alguma coisa para a assistência religiosa que ela teve e que certamente lhe amenizou um pouco o sofrimento. A medicina não é só feita de medicamentos.
Novamente o Público e o ensino do jornalismo
A este propósito, volto a insistir no que já aqui uma vez discuti. Não tenho dados seguros, mas creio que a maioria dos jornalistas das gerações mais recentes são licenciados em comunicação social. É um exemplo típico de curso da época do apogeu da chamada banda estreita, dos cursos especializados. Foi um curso muito inovador, e é bem pena que não tivessem podido usufruir das suas vantagens gente como Norberto Lopes, Mário Neves, Rodrigues da Silva, Saramago ou Baptista Bastos. Que bons jornalistas teriam sido!
Volto a um exemplo que extraio de um conjunto de dados com que ilustro normalmente, nas minhas palestras, a questão da empregabilidade geral. A Universidade de Chicago oferece graus de BSc (licenciatura) em 94 áreas, algumas tão estranhas para nós como Mundo mediterrânico, Estudos gerais (!), Estudos judaicos, História da cultura, Pensamento social. Curiosamente, esqueceu-se da comunicação social ou jornalismo. Se formos ver qual a formação dos seus graduados que se empregaram no jornalismo (imprensa rádio e televisão), 7% são de ciências, 10% de economia, 17% de história e 66% de todas as humanidades.
Em Portugal, diz-se que os licenciados em humanidades não têm emprego. Na comunicação social, sofrem a competição dos respectivos licenciados. Este ano, inscreveram-se em cursos de comunicação social 516 estudantes (e também vão ter emprego?…). O contingente de áreas com formação cultural de base para o jornalismo é muito maior: 245 em história, 417 em geografia, 407 em ciências políticas e internacionais, 475 em culturas (excluindo as línguas, em sentido estrito). Aposto que o triste panorama dos jornais (incultura, falta de rigor intelectual, barbaridade na escrita em português) seria bem diferente se fosse este o campo de recrutamento preferencial dos jornalistas.
Nota - A jornalista Catarina Gomes escreve sobre "as sepulturas judias" vandalizadas. Asneira. Judia é o feminino do substantivo judeu, mas não do adjectivo judeu. Podia ter escrito era judaicas. São pequenas coisas de cultura geral e da língua, enfim, picuinhas, qual é o jornalista que tem de se ralar com isto? A propósito, escrevi "tem de". Quantos jornalistas escrevem "tem que"?
P. S. (10.10.2007) - Eu não dizia? Vem hoje no Público: "Chrysler pode ter que enfrentar..." E é título, o que, segundo julgo, nunca é da responsabilidade de um jovem jornalista.
08 outubro, 2007
Também sou judeu
O melhor programa europeu
Simplesmente, ou se quer de facto um verdadeiro programa inclusivo de mobilidade estudantil ou não se pode ficar por este arremedo. As bolsas não dão para nada e, por isto, o grande sucesso de acolhimento é dos países ex-comunistas. As bolsas são pagas meses depois de o estudante regressar a penates. As universidades, para aumentarem o seu “score” de estudantes enviados para o estrangeiro, dividem por dois estudantes cada bolsa.
No meu caso, quase posso dizer que o meu filho não teria precisado nada do Erasmus, do ponto de vista financeiro, para ter tido a excelente e inesquecível experiência que teve. Quando finalmente veio a bolsa, era coisa tão ridícula que ficou para ele, para um projecto de investimento pessoal muito interessante (isto sim, beneficiou ele do Erasmus, aprendeu com o curso de empreendedorismo de Stanford/Estocolmo, o que são projectos pessoais de investimento).
Estou a falar do que sei por experiência própria. Mas isto faz-me lembrar o que tantas vezes penso na leitura do jornal: “se isto é tão grande galegada em assunto que domino, não será que estou também a engoli-las no que não domino”? Na política da educação superior, ainda vou sabendo alguma coisa. No entanto, como não sei de todos os seus aspectos o mesmo que sei de experiência vivida sobre o Erasmus, não será como os jornais?
07 outubro, 2007
Notícias antigas
"Medicine - Brian Witcombe, of Gloucestershire Royal NHS Foundation Trust,
Physics - A US-Chile team who ironed out the problem of how sheets become wrinkled.
Biology - Dr Johanna van Bronswijk of the
Chemistry - Mayu Yamamoto, from
Linguistics - A
Literature - Glenda Browne of Blue Mountains,
Peace - The US Air Force Wright Laboratory for instigating research and development on a chemical weapon that would provoke widespread homosexual behaviour among enemy troops.
Nutrition - Brian Wansink of
Economics - Kuo Cheng Hsieh of
Aviation - A National University of Quilmes, Argentina, team for discovering that impotency drugs can help hamsters to recover from jet lag."
O Ig Nobel é organizado, desde 1991, pelo Annals of Improbable Research (AIR). A cerimónia é patrocinada por um consórcio entre Harvard-Radcliffe Science Fiction Association (HRSFA), Harvard-Radcliffe Society of Physics Students (SPS) e a Harvard Computer Society, e conta sempre com a participação de ganhadores de Prémios Nobel.
Como a própria organização o Ig Nobel declara, a iniciativa primeiro promove o riso, mas depois obriga a pensar...
__________________
Se tiverem paciência, não deixem de passar os olhos pelos trabalhos originais, dos premiados, ex: “Crocheting the Hyperbolic Plane", versão revista de um original de 2001.
Nota gastronómica (XXXI)

Fumados em 5 minutos?
Há muita gente que se arrisca hoje a não perceber patavina do que lhe é oferecido nas ementas de muitos restaurantes. Já vi carpaccios de fatias com alguns milímetros de espessura, crocantes dos mais variados tipos, incluindo fritos, tártaros de alimentos cozinhados. Outras vezes, isto corresponde a técnicas pouco conhecidas, embora com o risco de confusão com termos consagrados.
O exemplo que vou dar não é qualquer um. Vem de Dieter Koschina, o chefe do nosso único restaurante bimedalhado, o Vila Joya. Vi na edição mais recente do Fugas uma coisa que achei muito sugestiva, embora tecnicamente estranha, mas só à primeira vista: fígado de ganso fumado.
Fumado é coisa que nenhum português tem dúvidas do que é, qualquer produto sujeito muito demoradamente (meses) à acção do fumo: presunto, enchidos, língua, salmão, etc. Como é então isso de fígado fumado? A descrição da confecção é elucidativa. “Cortar o fígado em pedaços. Remover a pele e os nervos. Banhar em leite durante uma hora. Fumar durante 5 minutos”. Fumar durante 5 minutos?!
Pode parecer estranho, mas não é. Para os que não vão seguindo as modas, explico o que é este fumar, que pode ter dois significados. Já mais de uma vez o vi referido como um outro significado alternativo de “fumer” em francês, com que se relaciona, por exemplo, a designação “fumet” para o consagrado caldo de peixe. Sucintamente, significa ferver com aromas, em geral baixo e durante algum tempo. Este outro “fumer” chama-se em bom português fumegar, totalmente diferente de fumigar, isto é, tratar com fumo.
Claro que não acredito que Dieter Koschina esteja a dizer tal disparate. Estou certo de que ele se refere a coisa pouco conhecida dos amadores. É que se pode ter em casa um dispositivo para cozer em ambiente de fumo e até se vendem variedades diferentes de aparas de madeira para queimar, com diferentes aromas. Não tenho, mas vou comprar um “fumoir” (para ser correcto, um fumigador).
05 outubro, 2007
Literacia ou proficiência? - parte 2
1ª - Imagino um tabuleiro de xadrez, no qual um dos competidores, nós, lhe são intencionalmente suprimidas, pelos maiores responsáveis, peças muito importantes, logo no início do jogo, refiro-me a todos os piões.
É por isto que as empresas e empresários (entre nós, a maioria constituída por pequenas e micro-empresas) se queixam, de não terem oportunidade de seleccionar colaboradores com formações ajustadas às suas necessidades.
2ª - Não me digam, nem digam a ninguém, nada, mas também a nossa educação, a todos os níveis, me lembra algumas das aprendizagens das mais radicais, em madrassas, nas quais, os alunos de religião islâmica, iniciando-se por volta dos 8 anos de idade, durante 2 nos e meio, apenas lhes é permitido memorizar o Corão, sem jamais compreenderem uma linha do que verbalizam em ladainha ( Hifz ) para, após prestação, com sucesso, de uma série de provas absurdamente, complexas, poderem então iniciar-se na interpretação do Corão (Tafsir) e na Lógica e na Lei Islâmica, durante 8 e mais anos seguintes.
3ª - As formações e docentes que, durante mais de 30 anos, fazemos gala em proporcionar aos nossos jovens cidadãos e residentes são a(o)s de preparação directa para Caciques e de Presidentes de Conselhos de Administração, para um país paradisíaco, hipoteticamente, desprovido de índios e de operariado especializado.
4ª - Lembro-me com muito carinho de duas pessoas - o António e o Zé Manel - ambos jardineiros, separados por 3 gerações, o primeiro de uma sabedoria, calma, paciência e educação infinitas, e o segundo de uma perspicácia imbatível, quer na forma como recruta e gere o pessoal com que trabalha, adquire e mantém o vasto e especializadíssimo equipamento que utiliza com presteza mas, sobretudo, a percepção como redige e propõe os contratos de prestação de serviços, sob os quais se rege, e acreditem-me, regiamente.
5ª - A forma como vejo a articulação das formações, de nível superior, que me pareceriam importantes, para Portugal sair da arapuca em que se meteu, estão sintetizadas no esquema seguinte (clique na imagem para poder ver melhor a informação) que adaptei de (ver aqui):
TECHNICALLY SPEAKING. WHY ALL AMERICANS NEED TO KNOW MORE ABOUT TECHNOLOGY. Committee on Technological Literacy
A - Formações pós secundárias não conferentes de grau - Cursos de Especialização Tecnológica. Com numerosos formandos.
B - Formações superiores de curta duração - 1º ciclo de Bolonha. Com número intermédio de formandos.
C - Formações superiores de longa duração - 2º ciclo de Bolonha. Com menor número de formandos.

É por isso que faço questão de, pelo menos para mim, distinguir Literacia e Proficiência.
Estarei errada?
Penso que não!
Mas se entenderem que estou fora do contexto, importam-se de me esclarecer?
OBRIGADA!
(continua)
Nota gastronómica (XXX)
Canja carilada
Para a canja. Miúdos e asas de 1 frango do campo, 1 cebola, 4 cravinhos, 2 dentes de alho, 1 folha de louro, sal, pimenta preta, 1 cs de manteiga.Cozer as peças de frango em água (não esquecer, quando digo água é sempre água de nascente!) com a cebola picada com os cravinhos, e os outros ingredientes. Esmagar o fígado num pouco de caldo.
Para a sopa. 1 abóbora de cabaça, grande (ou o equivalente de qualquer outra abóbora); 1 cebola grande, aos gomos ou rodelas; 1 dente de alho pisado; 1 c. chá de raiz de gengibre ralada, ou o equivalente em pó; 1 cabeça de nabo, aos cubos grossos; 1 colher de sobremesa de pó de caril ou de "garam massala" preparado a fresco; 250 g ou uma lata de leite de coco.
2 ovos.
Ferver bem todos os ingredientes da sopa, excepto o leite de coco, em canja um pouco diluída com água, e, no fim, moer e ajustar com água para creme ligeiro. Juntar o leite de coco e um pouco do fígado moído e deixar ferver mais cinco minutos.
Cozer os ovos, aproveitando só as gemas, cortadas a meio, pelo lado maior.
No centro do prato, metade de uma gema. À volta, alguns farrapos finos do pescoço e asas do frango, tudo regado com a sopa.
"Garam massala" é a designação hindi para o caril caseiro. Falarei sobre ele um dia destes, até porque é coisa que me diverte fazer e ensaiar.
(Adicionada à minha página de receitas)
04 outubro, 2007
02 outubro, 2007
Literacia e proficiência? - parte 1
.
Em todo o mundo, desde meados da década de 90, que quem se interessou pelo tema educação, sabia bem por consulta publicações estatísticas periódicas da UNESCO, Banco Mundial, OCDE e, mais recentemente, pelo EUROSTAT que, entre nós, a percentagem de alunos, arrolados no ensino superior se tem mantido cerca de metade da observada na maioria dos países europeus, e este facto é atribuído a abandono escolar nas formações de nível secundário.
Mudanças constantes e bem perceptíveis, a nível internacional, na economia e na educação ocasionaram, também no mercado de trabalho nacional, alterações importantes até nas práticas de recrutamento de recursos humanos, com implicações selectivas sobre os requisitos e competências, exigíveis pelas empresas aos seus potenciais colaboradores, mesmo os de nível vocacional e tecnológico.
Entretanto, por esta época as instituições politécnicas devotaram-se, com maiores ou menores condições para o fazer a oferecer licenciaturas bietápicas. Enquanto isso, penso que com o objectivo de oferecer formações superiores subgraduadas orientadas pelas necessidades e requisitos do mercado de trabalho, facilitando a inserção dos formandos para a vida profissional, que nos primeiros anos do milénio, salvo erro em 2002, a Universidade de Aveiro - com base num brilhante e interessantíssimo estudo de mercado (de que, infelizmente, perdi o rasto e arquivo), que incluía a apreciação das micro-empresas do calçado da região - iniciou nas suas escolas politécnicas formações pós secundárias em Cursos Especialização Tecnológica (CET).
Curiosamente, o aproveitamento nestes cursos possibilitava a progressão de estudos superiores convencionais, desde que após 18 meses de exercício comprovado em ambiente laboral.
Por volta de 2005/2006, sob o alto patrocínio do Instituto de Emprego e de Formação Profissional, as formações a esse nível, consolidaram a implementação e expansão, tendo este nível de formação sido usado, dominantemente, mais como uma alternativa de financiamento das instituições politécnicas com insuficiência de candidatos para as formações convencionais; isto é, parecerá oportuno de facto apostarmos em diversificação de percursos escolares, como até parece que estará a ser iniciado.
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Todavia, quer se trate de uma atitude consciente e honesta do governo ou das instituições de ensino envolvidas, para melhorar as condições de competitividade e conferir aos seus cidadãos melhores oportunidades, ou de uma simples tentativa de ascender, a qualquer custo, a uns poucos pontozitos acima, nos rankings internacionais de educação-economia, não há dúvida que os CET são uma tentativa a acarinhar entre nós, mas desde que se garanta, à partida, alguma honestidade processual.
E aí, é que.... como veremos....não sei bem, se estamos empenhados com a literacia aparente ou com a proficiência efectiva, das formações dos nossos jovens a quem dizemos pretender oferecer percursos alternativos.
O tema dos CET tipo lusitano será ainda objecto de algumas reflexões pessoais nos meus próximos posts.
(continua)
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Referência de base:
Learning for Tomorrow’s World. First Results from PISA 2003
01 outubro, 2007
Farmácias
A cidade de província, ao entardecer, "na tal soturnidade", cumprido o expediente de duas folhas de almaço do juiz, do procurador, do presidente da câmara, de um ou outro letrado desterrado, implodia para a farmácia. Lá estava a gazeta, por lá tinha passado um viajante apressado a deixar as últimas notícias, lá chegavam os elogios ao Pacheco e ao seu grande talento.
Eu ainda conheço uma farmácia destas, com excelentes armários de boa madeira, potes de cerâmica e, principalmente, um grande banco de jardim de portas a dentro, para a tertúlia. Fica em Castelo de Vide e devia ser monumento nacional!
O meu tio avô Chico Fagundes foi um desses farmacêuticos, em Angra do Heroísmo. Não fez mais do que a sua obrigação, só deu instrumento de grande actividade política ao seu pai, meu bisavô, também Chico Fagundes. Paixão política, só dele, Chico sénior, nos confins do mar. Imaginam o que era a minha avó contar-me as graças que, ao colo dele, ela miúda, lhe contava o "Zé Luciano", como ela sempre disse? Sabem quem foi?
Esse José Luciano de Castro, dirigente por muitos anos do Partido Progressista, no rotativismo, era visita frequente em casa do meu bisavô Fagundes, politico fanático na Praia da Vitória. Da sua paixão pela política fica-me o que me contava a minha avó, com o pai quase moribundo, "pai, é regenerador ou progressista?". Tremia-lhe o bigode e vinha-lhe de profundis um grande berro, "progressista!".


