08 agosto, 2007

Fuzzy minds X Clear minds

No post "Empregabilidade, Raster Graphics e resolução de imagem" de sábado, 4 de Agosto, deste mesmo blog, referi que não resistiria a comentar alguns aspectos controversos do artigo "As famílias devem saber o que vale um curso para a empregabilidade"- publicado no "Blog" de Campus, Jornal de Negócios.
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Do muito que ainda fica por dizer a esse propósito - admitindo que a transcrição da entrevista não é, exclusivamente, o resultado de mais uma retroversão livre da comunicação social (LUSA e/ RTP2) sobre afirmações de outrem - considero, muito preocupante se não for sobejamente esclarecida, melhor seria, mesmo desmentida, a seguinte passagem da "entrevista" do Senhor Ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior:

Pergunta: De que modo se vai processar a possível criação de fundações por parte das faculdades, independentemente da sua ligação às universidades a que pertencem?
Suposta resposta: "Se uma faculdade se quer autonomizar e entende que se deve autonomizar, a lei obriga a que a universidade se pronuncie sobre as razões que entende que a levam a melhor cumprir a sua função deste modo. Aquilo que propus era que era útil, quando houvesse iniciativas dessas que fossem boas, que se criassem consórcios que, por um lado, não prejudicassem a autonomização da instituição, mas que, por outro lado, essa instituição puxasse pelas outras. Que se criassem livremente consórcios com outras instituições, não apenas com a casa mãe, mas com novas instituições. Isso é particularmente importante nas universidades mais dinâmicas, que hoje têm instituições, sobretudo de investigação científica, que são privadas." [acentuação minha]. "São investigações privadas sem fins lucrativas, que foram criadas pelos investigadores, sem as quais não haveria investigação em Portugal em muitas áreas científicas."


As minhas reticências - Que raio de conversa de cenoura e abobrinha veio a ser esta? Como é possível admitir-se sequer a existência de um tal tipo de dinamismo, sem se acrescentar uma descrição exaustiva do contexto da afirmação?
Só posso estar mesmo muito confusa mas, para mim, no que diz respeito às mobilidades possíveis entre meios/recursos públicos e privados, reparto-as apenas em quatro classes:
Utilização de meios/recursos privados em benefício de meios/recursos públicos - Filantropia;
Utilização de meios/recursos privados em benefício de meios/recursos privados - Caridade;
Utilização de meios/recursos públicos em benefício de meios/recursos públicos - Governação;
Utilização de meios/recursos públicos em benefício de recursos privados - Corrupção.

Escapar-me-á a existência de outras classes/categorias de mobilidade financeira?
Caso não se vislumbrem outras categorias, o que serão, em que categoria se insere e qual é o sentido de investigações (será lapso?) privadas sem fins lucrativos?
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PS - Para que conste, sou totalmente a favor da actividade privada ou pública, mas sou visceralmente contra todas e quaisquer medidas ou legislações que propiciem comportamentos em cima do muro, inclusivamente, sou contra "golden shares", tão do nosso gosto.

O caso Dalila Rodrigues (II)

Dividi esta minha discussão por dois textos, para evitar confusões. Antes falei de Dalila Rodrigues, agora vou falar do director, Bairrão Oleiro, ou da ministra. Discordar do comportamento de Dalila Rodrigues não significa obrigatoriamente concordar politicamente com aqueles. Simplesmente, eles devem ser criticados é politicamente, eventualmente penalizados pelo grande juiz, o eleitorado, não por qualquer movimento de apoio a uma pessoa que não é vítima de nada.

Só duas notas. A primeira, a mais importante, refere-se à sobranceria política. DR formulou críticas públicas, obviamente sérias, concorde-se ou não. Se o devia ou não ter feito, não é o que quero discutir. A verdade é que as fez e não foi qualquer pessoa a fazê-lo, foi uma directora de museu que granjeou grande reputação. Só um arrogante político é que não se sente no dever de as discutir, primeiro com a autora, eventualmente até com certa publicidade. Mal está um governante que julga ter o exclusivo da razão. Mal por ele, exemplo de atituded intelectualmente menor, mas principalmente mal pelo interesse público.

O segundo aspecto refere-se à inabilidade política. O mandato de DR terminaria em Novembro. Descontado Agosto inútil, seriam mais dois meses. Ninguém teve o bom senso politico de aguentar dois simples mesinhos e depois, calmamente, não renovar o mandato, sem levantar ondas?

Quando é que se aprende nesta terra que política é toda uma arte e traquejo (ou mesmo ciência) que não se reduz a uma boa capacidade profissional? Daí, em boa parte, o fracasso geral dos "independentes".

Concluo com uma fórmula que sintetiza um pouco o que penso deste governo: faz coisas acertadas, mas com arrogância e inabilidade política. Nas próximas eleições, talvez ele e o PS aprendam que o "como" pode pesar mais do que o "quê".

O caso Dalila Rodrigues (I)

1. Está a transformar-se em mais outro caso de autoritarismo socrático e de violação do direito de expressão. Até o PR se mostra surpreendido, ele que assobiou para o lado em coisas importantes como a questão da IVG na Madeira. Insisto em que este caso é muito diferente de outros, como o da DREN ou do CS de Vieira do Minho. Diferente também pelo nível da protagonista e pela qualidade das opiniões manifestadas (com as quais até estou em total acordo!), mas não é isto que está em causa.

2. O direito de expressão não é absoluto. Está obviamente condicionado, por exemplo, pelo direito dos outros ao seu bom nome. Se não fosse assim, não haveria processos de difamação. Está condicionado também pelo dever de lealdade institucional. Se, por absurdo, eu vier para os jornais desancar na política da minha universidade, tenho de aceitar um despedimento por justa causa. Melhor, não teria de o aceitar porque já me teria demitido antes.

3. Demitir-se era que se esperava de Dalila Rodrigues, mas não o fez. O M. Cultura definiu uma política para os museus, possivelmente errada (vamos dar o benefício a Dalila Rodrigues). O que é que ela devia fazer? Ou julga que o cargo é seu por direito divino? O que teria todo o direito, ao demitir-se, era o de divulgar as razões do seu pedido de demissão. Também eu o fiz, quando me demiti do meu último cargo.

4. O Público (5.8.2007) traz um panegírico de Dalila Rodrigues assinado por António Filipe Pimentel, director do Instituto de História de Arte da Universidade de Coimbra. Coisa sempre bem perigosa é usar argumentos que não se domina, num contexto porventura correcto. Pode ser tiro no pé, porque nos leva a pensar "se diz tal disparate, não será tudo o resto também disparate?". Um exemplo: "Enquanto não triunfa por completo o desígnio da tutela, como quase aconteceu com o novo regime jurídico das universidades onde só por uma unha negra não se consagrou a nomeação ministerial do mais alto magistrado universitário, (...)". Onde é que foi beber tal tolice? Dispenso bem um ponto percentual de aumento do PIB, em favor de idêntico aumento das médias dos QI e dos QRI (quociente de rigor intelectual), para já na universidade.

07 agosto, 2007

Veto presidencial

Sem correr o risco de o afirmar publicamente, tenho tido o palpite de que o PR vetaria politicamente a lei do RJIES. Não me parece que fosse aposta arriscada. O PR é professor universitário e nunca se lhe ouviu uma palavra contra o sistema tradicional de governo universitário, embora, no fundo, provavelmente o seu feitio não fosse muito compatível com a "gestão democrática". Segundo, o veto seria mais um sinal de desmarcação do governo, coisa que me parece estar a ganhar relevo (vejam-se os comentários à demissão de Dalila Rodrigues ou o distanciamento em relação à questão da IVG na Madeira). Terceiro, agradaria a um forte lóbi, o universitário, de que afinal está muito perto.

O argumento até seria fácil. Uma lei que introduz tais roturas não pode ser discutida a mata-cavalos, numa pressa para a qual nunca foi apresentada uma justificação séria, e não é desejável que seja aprovada apenas pelo partido maioritário, quando vem substituir uma lei aprovada por unanimidade.

É por isto que fico surpreendido com o veto ao Estatuto dos Jornalistas. Foi a opção presidencial, mas sabendo-se que, politicamente, será muito difícil vetar duas leis num prazo muito curto. Portanto, a do RJIES vai passar, garantidamente.

Humor político

Embora o humor oriental me seja um pouco desconcertante, não posso deixar de considerar como tal uma pequena notícia de hoje. "O governo chinês emitiu um decreto proibindo o Dalai Lama de reencarnar. 'O chamado Buda vivo reencarnado é ilegal e inválido sem a aprovação governamental', afirma o texto, assinado pela Administração para os Assuntos Religiosos".

Mas nós não ficamos atrás. Em 1668, D. Pedro II fez assentar praça S. António de Lisboa. Ao longo de séculos, foi sendo promovido, com aumento de pré, até chegar a tenente coronel do RInf19, então em Cascais. Há um decreto delicioso da República, que não consigo encontrar, que, elogiando a carreira militar do tenente coronel, mas atendendo à sua vetusta idade, o abate aos efectivos do Exército. Saiu no jornal oficial, com assinatura do ministro da Guerra, provavelmente escrita com uma grande gargalhada.

Nota gastronómica (XX)

Coelho manso, coisa horrorosa

Na P2 do Público de 4.8.2007, escreve David Lopes Ramos uma notazinha muito boa sobre o coelho manso, aconselhando a corrigir com mostarda a insipidez do bichinho simpático (os meus amigos americanos horrorizam-se com a ideia de comermos o coelhinho fofinho, como nós com o manjar canino dos chineses).

Para mim, essa da mostarda, um coisa clássica, não basta. O coelho é assunto de grandes negociações cá em casa, porque, apesar de uma habitualmente grande convergência gastronómica, tenho o azar de a minha mulher gostar muito dessa coisa leprina para mim horrorosa. Porque adoro lebre e coelho bravo, não consigo comer essa imitação reles, tendo sempre de estar a confirmar onde está o meu gato Peúgas.

Minimamente aceitável, só depois de dois dias de marinada, no frigorífico, em vinho tinto, louro, sal, pimenta preta, zimbro!, salsa ou tomilho, ou ainda salva/sálvia, sempre com uma boa dose de alecrim. Normalmente não junto mostarda.

06 agosto, 2007

"Há sapos reais em jardins virtuais"

É de péssimo gosto e inexcedível inconsciência, admitir-se, a bem dizer, publicamente, uma incontrolável atracção por estórias de terror, mas não quero saber, se me fica mal, tanto pior, paciência... não resisto a este género de escrita - se quem os contar for suficientemente expressivo, e enfatizo o termo "escrita" porque recuso todas as outras manifestações pertinentes, em especial, filmes.

Efectivamente, gosto muito de ter medo, apesar de não conviver nada bem com os seus efeitos; para terem uma ideia, por exemplo, nunca consegui virar a página 632 [1], do meu exemplar cartonado da "short story" IT (1981), de Stephen King [2].

Não sei exactamente porque, ontem, me fui lembrar disto mas, se calhar, foi porque, na referida estória, se descreve a rota vertiginosa, errática e inevitável de um barquinho de papel de jornal em direcção à sarjeta e colectores de esgotos municipais (ver o meu post de 1 de Agosto, 2007 -"...ou para barquinhos e aviões de papel"), ou um dos 7 personagens (Bill) ser fisicamente gago, ou descreverem-se meandros subterrâneos e tenebrosos, na cidadezinha aonde se passa o enredo, ou em toda a narrativa (até onde consegui ler) aparece e desaparece, repentinamente, um palhaço ameaçador que atrai a sua audiência com um punhado de balões coloridos ou, como o próprio autor refere, o "IT" inspirou-se numa frase de "Poetry", de Marianne Moore - 'imaginary gardens with real toads in them', ou nós, pelo menos eu, vivemos sob políticas estratégicas imaginárias, aonde surgem, repentina e inexplicavelmente, do nada sapos verdadeiros e, potencialmente, venenosos,... ou, finalmente, porque a maioria de nós não consegue ver e interpretar a realidade como ela é [3].
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[1] Imagino eu que, na página 633, será revelada a identidade de IT, mas eu não consigo virar a malvada página apesar de, em todas as minhas férias desde há 25 anos, tentar ler até ao fim o referido conto.
[2] "The terror, which would not end for another twenty-eight years--if it ever did end--began, so far as I can tell, with a boat made from a sheet of newspaper floating down a gutter swollen with rain."
[3] "One sees more devils than vast hell can hold" - deixa de Theseus para Hippolyta, em Midsummer night's dreams, Acto V, cena I.
[4] Se não gostasse tanto de estórias de terror, alguma vez eu poderia ter lido, nada menos que 4 versões integrais, do RJIES, e ainda a versão aprovada na Assembleia da República?
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Publicidade enganosa


A lei do regime jurídico do ensino superior, inclui uma disposição nova, que pode parecer supérflua, a da reserva de designações em relação ao ensino superior, para "defesa do consumidor". Este anúncio ("clicar" para aumentar) é boa prova da razão dessa disposição legal.

Trata de um curso superior (sic) de Medicina chinesa. Claro que não é nenhum curso superior. É um curso de fim de semana, mesmo que com duração de cinco anos. Não é atribuído por nenhuma universidade. É reconhecido pela Universidade de Pequim (gostava de ver prova disto) e por uma Universidade de Medicina Tradicional de Chengdu, sobre a qual não posso dizer nada, porque não se digna ter um "site" em inglês. De qualquer forma, nada disto tem valor legal em Portugal.

A lei talvez devesse ter ido mais longe, com reserva de designações académicas e profissionais em toda a publicidade da educação superior. Este curso é dirigido por um Prof. Dr. Pedro Choy. Aliás, é o único "professor". Não me consta que seja professor de nenhuma instituição reconhecida. Mesmo que seja Dr. é duvidoso. Doutorado não é e nem sequer é licenciado, como se pode verificar na biografia do seu sítio.

Nota - Este comentário não significa qualquer juízo de valor sobre a medicina tradicional chinesa. O que está em causa é apenas uma questão legal, em Portugal e um caso de publicidade fraudulenta de um "curso superior".

05 agosto, 2007

6 princípios fundadores da Europa


"The EU urgently needs to give a new account of itself. Old-fashioned grand narrative and Euromyth will no longer do the trick. How about a true and self-critical story woven around six goals?"

Ver artigo completo de Timothy Garton Ash aqui

Oração



Senhora de Fátima, protege-me, faz o milagre de a AdC me perdoar a multa dos 38 milhões.

Bronzeados de Agosto

Ao subir a rua do Alecrim deparei-me com a estátua de Eça transformada em bronze. Ao que parece, o original de Teixeira Lopes, a que faltava regularmente à figura da verdade o mindinho, o anelar e o indicador, está preservado no palácio Pimenta (Museu da Cidade). O bronzeado da estátua também se deve aos ataques dos grafiteiros que vão dando outras cores ao mobiliário urbano. Uma política a seguir?.

Já agora um mito urbano que me chegou pela velha tradição oral familiar. Quando a estátua de Eça de Queiroz foi inaugurada, jornalistas acercavam-se de quem tinha conhecido pessoalmente o cronista. Sem filhos, um jornalista conseguiu chegar à fala com uma senhora que tinha trabalhado em casa do escritor e com ele tinha privado.

“O que acha da estátua?”

“O senhor está mesmo muito parecido, mas olhe que nunca vi a senhora naqueles preparos!

Nota gastronómica (XIX)


Utensílios (in)dispensáveis – a sertã

Com coisas metidas pelo meio, já há algum tempo que não voltava a este tema. Aqui vai mais uma coisa que não pode ser considerada ausência grave em nenhuma cozinha de amador mas que é bem útil e, pelo menos na minha terra, até é mesmo indispensável para a cozinha tradicional. O que a define é ser uma superfície plana de grande área e em material de ir ao lume, a seco. Engordurar não, senão é frigideira. Quando muito, um pouco de polvilhado de farinha. O segredo é o da temperatura, mas não posso dar lições. Vão experimentando e aprendendo.

Já tive uma em "barro da vila", de mestre José, de Vila Franca do Campo, mas rachou-se de velhice. Hoje tenho uma em aço inox, como se vê na fotografia (não liguem à coisa branca pousada na sertã, um maçarico, de que falarei um dia destes). O resultado pode ser correctamente designado como "assado na chapa", uma velhíssima maneira de se preparar bacalhau, por exemplo. Cá em casa, assado na sertã vai com tudo, muito mais vulgarmente do que grelhados: rosbife, panquecas, crepes, lombos de peixe, bacalhau, até a porcaria das febras de porco.

"Charrinhos" assados na sertã, embrulhados em farinha de milho e cobertos depois com molho de salsa verde, com batatas recheadas com malagueta, que delícia ilhoa. Também o bolo de sertã da minha terra. Muito simples: 1 kg de farinha de milho e ½ kg de farinha de milho, na panela, com sal, acrescentando água e mexendo, para papa. Arrefecer e amassar bem à mão. Tender sobre pano enfarinhado e assar na sertã, já bem quente, no ponto em que um pouco de farinha polvilhada fica rapidamente loura (receita tradicional de S. Miguel, recolhida por Augusto Gomes).

Guardo para o fim o meu supra-uso da sertã, para salmonetes à setubalense. Conheço receitas que recomendam fritá-los, outras assá-los no forno. Também grelhados no carvão. Modernamente, como é tudo grelhado, é assim que os preparam nos restaurantes finaços, coisa que eu detesto. Para mim, assados na sertã (sem escamar!). Ainda por cima, tem a vantagem de, ao comer, a pele se descolar com um simples golpe de faca.

Como bónus, a preparação à setubalense. Indispensável são os fígados, coisa que a minha vendedora já sabe que é essencial guardar-me, quando encomendo os peixes de vésoera. Homenageando o mestre, e sem desprimor para a boa receita de M. Lourdes Modesto, aqui vai a de Olleboma, com ligeiras modificações técnicas, não significativas, mas que se justificam para tão soberba coisa.
Reduzir em lume forte, até metade, 1 copo de vinho branco com 1 cebola média picada fino. Juntar os fígados e ferver durante mais 2 minutos, baixando o lume. Passar pelo chinês ou, na falta, por um vulgar passador de rede, mas pressionando muito bem com uma colher para deixar passar o máximo da mistura. Bater ligeiramente, aos poucos, fora do lume, com 200 g de manteiga derretida, separada do depósito branco do fundo. Temperar com flor de sal, pimenta, 1 c. de sopa de sumo de limão. Reaquecer, sem deixar ferver e polvilhar com salsa picada.
O meu toque pessoal, a evocar açorianices, é o uso de sumo de limão galego em vez do sumo de limão (como em muitos outros pratos e receitas minhas). Quando não tenho limão galego, recebido obrigatoriamente dos Açores e só no inverno, junto ao sumo de limão um pouco de sumo de laranja, o que me parece que não destoa do "à setubalense".

Claro que, com isto, apenas umas batatinhas cozidas no ponto certo, novas quando é altura, e um pouco de legumes, só com o molho do peixe. E um Donatário, dever meu de chamada de atenção para um grande vinho do meu amigo Luís Brum.

04 agosto, 2007

Pornografia (III)


"O nosso grande líder", Marques Mendes dixit. Entretanto, o grande líder, já nas nem sei quantas visitas às tascas, perguntava "onde é que está o sacana do pequenino, que ninguém o vê?". O homem também tem algumas coisas admiráveis, entre as quais a mais notável resistência ao álcool que já vi.

Pornografia (II)


"Este país ainda vai cumprir seu ideal, vai ser uma imensa Madeira jardinal". T'arrenego, como se diz na minha terra!
(Foto: Expresso, 4.8.2007)

Pornografia (I)


O Falstaff e o baixinho. Este "post" é só para adultos com sólida formação moral.

Público, Pessoas

O Público quer ser o nosso jornal diário de referência. Também o DN mas, depois de alguns dias de compra dupla e exercício cuidadoso de comparação, concluí que, para mim, só mesmo o Público, embora numa apreciação de "do mal o menos". Mas há limites. Um jornal de referência não pode gastar uma página, no seu suplemento, com uma execrável secção Pessoas, ao nível do pior de Hola e Caras. Não se pode ter o bolo e comê-lo. O Público que escolha que leitores quer ter. Se me quer ter como leitor, que não agrida o meu bom gosto.

Empregabilidade, Raster Graphics e resolução de imagem

Na 4ª feira passada (1 de Agosto, 2007) - de entre outras coisas muito questionáveis, sobre as quais não resistirei comentar - pelo "Blog" de Campus, Jornal de Negócios, ficámos a saber que o Senhor Ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior enfatizou o seguinte: "As famílias devem saber o que vale um curso para a empregabilidade".

Raríssimas são as vezes em que concordo com esse senhor, e esta não vai ser uma delas, sendo que a minha discordância não resulta no valor facial da declaração, totalmente inóqua, mas no facto do motor das mudanças culturais residir muito mais em estratégia - competência que a mim não me demonstrou até hoje - do que em chavões de retórica política, com que permanentemente nos brinda.

1. Como pretenderá o Senhor Ministro que as famílias portuguesas se informem sobre o tema "empregabilidade"?
2. A qual/quais dos 8 (oito) conceitos de empregabilidadade (ver aqui) devidamente sistematizados, até aos dias de hoje, se referiria?
3. Bastar-lhe-á a publicitação/identificação dos cursos com "pouca saída" dos registos de desemprego, provenientes de Centros de Emprego? Será esta informação suficiente ou sequer necessária? Pessoalmente, preferiria ver identificadas as "SAíDAS" dos cursos com muita saída.
4. Achará o Senhor Ministro que afirmações como essa lhe dispensam o trabalho de casa que não mandou fazer? Refiro-me à sistematização dos problemas de empregabilidade como se fez por exemplo, em 2000, nos Estados Unidos (apesar dos pesares, país um pouco melhor equipado de entidades e instituições para além do MIT, Austin Texas ou Carnegie Melon) - (ver aqui)
5. O Senhor Ministro sabe melhor que todos nós que, para além dos "hard skills", tipicamente aprendidos em escolas, haverá que se dotar os futuros formandos de "soft skills", que podem ou não ser treinados nas escolas mas que, sobretudo, poderão tratar-se de vícios de atitudes que obrigam as escolas a promover não aprendizagens, mas sim de dificílimas desaprendizagens de hábitos culturais profundamente enraizados.

Se a empregabilidade a que se referiu o Senhor Ministro se resumir a uma questão de equilíbrio do balanço o "emprego"X"canudo" creio que terá, a curto prazo, muitas surpresas, e nem todas serão boas, se não mandar fazer um estudo HONESTO de mercado. Para resolução efectiva de questões de empregabilidade=emprego nacional, tal como nas imagens gráficas: "The “best” resolution is the one that’s appropriate for your end result".
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"The total number of pixels (resolution), and the amount of information in each pixel (often called colour depth) determine the quality of a raster image. For example, an image that stores 24 bits of colour-information per pixel (the standard for displays since around 1995) can represent smoother degrees of shading than one that only stores 16 bits per pixel, but not as smooth as one that stores 48 bits (technically; the human eye could not discern this degree of detail)."

03 agosto, 2007

Mais uma sobre Bolonha

Esta não desvendo, da mesma forma como não se deve contar o fim de um romance policial. Remeto só para a notícia.

Sócrates, o nosso Blair?

Tenho por regra, respeitando os direitos de propriedade editorial, deixar passar alguns dias antes de divulgar um artigo de jornal que não esteja acessível online. É o que se passa com um artigo notável de São José Almeida, "Já não há dons Sebastião...", no Público de 28 de Julho. As minhas discordâncias são de pormenor ou em relação a algum extremar de uma atitude de remissão absoluta do PS actual para uma posição de direita. Note-se que só falo de extremar.

Entende SJA que hoje, no PS, domina a direita do partido. Creio que isto merece alguma reflexão. Não é caso único, porque reflecte à portuguesa o que foi o blairismo e agora, em Itália, a deriva do campo da esquerda, que já nem é rosa e nem já quer ser margarida. Também podemos pensar num movimento inverso, de uma ala conservadora, como acontece na Suécia de Reinfeldt, que, querendo preservar alguma coisa do estado social emblemático, vem a encontrar-se neste novo terreno europeu pantanoso. Ressalve-se, no entanto, que entre Blair e Sócrates vão milhas - britânicas - de distância.

O que me parece mais preocupante é que, em relação ao PS português, as coisas não são tão lineares como SJA escreve. Não estou convencido de que domine hoje a direita do PS. Aliás, não quero crer que uma ala direita do PS, assumida, tenha a força que parece ter o socratismo, que me parece cruzar transversalmente diversas alas tradicionais. O que me parece mais perigoso é que gente de esquerda, de todas as alas do PS, estejam a ser cada vez mais influenciadas por um novo "determinismo histórico", em termos de que a economia, a competitividade nacional (ou a das empresas?), as regras do euro, a contenção do défice, o pavor de nos fugirem os capitais, arrasem as considerações políticas e ideológicas.

Dito isto, reproduzo algumas passagens importantes do artigo, para quem não tiver a paciência ou o tempo de o ler na íntegra. São as que se referem à direita, neste contexto assoprado pelo PS e que não me parece ter equivalente politico europeu, nos tempos actuais.

Mas se a viragem do PS à direita veio obrigar a esquerda a repensar-se, os custos sobre a direita partidária não são menores. E o papel de fantasmas políticos, de personagens sem alma, de cadáveres políticos adiados, que está a ser representado neste momento por Marques Mendes e por Paulo Portas é uma inevitabilidade histórica de dois partidos que, de repente, viram o seu espaço, o seu caminho ocupado por outro e que ficaram sem chão para andar. É a falta de guião e de diálogo para o desempenho da conquista e do exercício do poder.
(...)
… o problema do PSD continuará a ser estruturalmente o mesmo, o da crise de representação partidária da direita, cujo projecto foi engolido por José Sócrates, deixando, aliás, os agentes políticos, económicos, culturais e sociais da direita portuguesa a baterem palmas e a pedirem bis de satisfação com o Governo PS. O que nem sequer torna a resolução da representação partidária tradicional da direita assim tão urgente. Ela sente-se representada no PS de José Sócrates.

02 agosto, 2007

A selecção de um serralheiro mecânico (ISEL style)

Costumo, por interesse e dever de ofício, ler com alguma atenção as ofertas de emprego de alguns jornais. Anteontem, no Público, surgiram duas que comprovaram que entrámos definitivamente na silly season. Na página 30 o Governo Regional dos Açores dava conta da abertura de um concurso para 24 bolseiros de pós-doutoramento. O anúncio era de dimensões modestas, mas seguramente de tamanho suficiente para atrair os interessados.


Na página 20 o caso mudava de figura. O Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), ocupando perto de um terço de uma página (!!), dava conta da abertura de um concurso, em regime de contrato individual de trabalho a termo certo, para um serralheiro…O cargo em causa deve ser de extrema importância para ocupar um tão grande anúncio. Vejamos o perfil que o ISEL pretende:


Escolaridade obrigatória e os seguintes requisitos profissionais: saber interpretar desenhos e outras especificações técnicas; utilizar adequadamente os instrumentos de medida; saber como manter e conservar os equipamentos; construir estruturas metálicas ligeiras; construir peças defeituosas (sic); cortar chapa de aço macio, cortar perfilados e tubos; furar e escariar os furos para parafusos e rebites, executar a ligação de elementos metálicos por meios mecânicos ou soldadura; conhecer as regras de higiene e segurança no trabalho.


O que sei sobre serralharia é equivalente aos meus conhecimentos de sânscrito. Mas tenho alguma dificuldade em perceber a razão pela qual se exige a construção de peças defeituosas. E a minha perplexidade cresce quando leio que o método de selecção de figura tão importante para o ISEL será a entrevista…Nem uma soldadura, muito menos realizar um rebite ou, prova prática de suprema dificuldade, construir uma peça defeituosa. Não! Nada disso. Uma entrevista chega e sobra para avaliar os candidatos na difícil arte da serralharia mecânica.

Novo caso de autoritarismo?

Vem hoje nos jornais e já recebi várias mensagens sobre um novo caso de autoritarismo do governo, a não recondução de Dalila Rodrigues (DR) como directora do Museu Nacional de Arte Antiga. Lamento, porque, como visitante fanático do museu, tenho visto o seu excelente trabalho. Mas não me parece que seja um caso comparável a outros, tipo DREN ou centro de saúde de Vieira do Minho.

Eu fui dirigente de um organismo da administração pública, conheço alguma coisa sobre as normas internacionais da "governance" e sei que há cargos em que "não se pode ter o bolo e comê-lo". Só com isto é que justifico as mordomias de alguns cargos, uma espécie de remuneração de riscos.

Muitas vezes, para cumprirmos o nosso programa, temos de impor condições, mas quem está acima é que tem a faca na mão. Se não as aceita, demitimo-nos, sem esperar por sermos demitidos. Um meu mandato não foi renovado, por razões que acho provincianamente lusas, mas não protesto, porque decidiu quem tinha o poder de decidir e que acarte com as responsabilidades para quando alguém quiser fazer a história dessa pequena história.

Respigo do Público declarações de DR: "Se o organismo que substituir o IPM continuar a prática de centralização e impedir a realização de um trabalho à altura do museu, terei de ponderar se vale a pena continuar." (...) "colocou publicamente duas condições que queria ver inscritas na nova lei orgânica do instituto: autonomia financeira para o museu e que o museu dependesse da ministra da Cultura e não estivesse integrado no instituto".

Eu até concordo inteiramente com DR e, apenas pela minha experiência de dirigente, claro que não de museus, teria escrito exactamente o mesmo. Mas, por isto mesmo, dou inteira razão ao director do Instituto Português dos Museus: "essas condições não encontraram acolhimento na nova lei, considerei que não deveria propor o início de uma nova comissão de serviço por mais três anos.". Mais, deveria ter sido a própria DR a declarar que, nestas condições, não estava disponível.

São as regras do jogo e "les jeux sont faits".

P. S. (3.8.2007) - Por uma vez, concordo com Vasco Pulido Valente (Correia Guedes): "Dalila Rodrigues, por muito que lhe custe, está obrigada à obediência e não é admissível que vá para os jornais censurar a ministra. Não lhe compete definir a política do ministério; e a administração pública não se tornou ainda numa instituição democrática. A dr.ª Pires de Lima tomou nota e, muito justamente, correu com ela. Misturar este caso com o "caso Charrua" ou com as denúncias no SNS, só serve para invalidar ou enfraquecer a crítica ao real autoritarismo de Sócrates." Se há coisa que me confrange é ver tiros nos pés,

01 agosto, 2007

Paul Potts canta "Nessun Dorma"

Um vendedor de telemóveis cujo talento se revela num concurso de televisão. Refrescante!

...ou para barquinhos e aviões de papel

Claro que, tratando-se de uma opinião pessoal, valerá apenas o que vale... Mas, a meu ver, uma das potencialmente mais úteis, e já perdidas, oportunidades do nosso decantado, requentado e encantado Processo de Bolonha teria sido aproveitarmos a sua potencialidade para organizarmos de forma sistemática os currículos das diferentes formações, facilitando a sua descrição e transparência (para nos recordarmos ao que me estou a referir, podemos rever esta temática aqui).
"Learning otcomes as sets of competences, expressing what the student will know, understand or be able to do after completion of a process of learning'."

Como em Portugal, se mantém, inteiramente a gosto institucional, a opção de se usarem ou não, os Student Learning Outcomes (SLO) trará, como consequência futura, a nossa manutenção, aliás como sempre estivemos, à margem da educação pan-europeia.

Claro que, temas como estes, só seriam úteis para os formandos, suas famílias e empregadores, daí que são pouco atractivos para serem sequer considerados, com veemência em nenhum fórum, por Senhores Reitores e Presidentes.

É apenas uma ideia, mas entendo que jamais deveria ser concedido o diploma de uma Licenciatura em Engenharia (3 anos) e de Mestrado (mais outros dois anos) do que quer que seja e/ou, muito menos, ser concedido o estatuto de profissional de engenharia, a quem não souber ler, interpretar e produzir, em pelo menos duas línguas, um manual de instruções, ou de planeamento, de manutenção, ou de segurança de instalações ou de equipamentos, pertinentes à sua área de especialização.

Perguntar-me-ão mas a que propósito e ao que vêm, agora, essas condicionantes?
Elas são essenciais à sobre-vida de indefesos utilizadores dessas mesmas instalações e equipamentos, além do mais, só responderei a esta pergunta a quem, previamente, tenha ultrapassado a traumática e kafkiana experiência de se ver obrigado à montagem de uma pequena instalação mista hidráulica, hidro-pneumática e eléctrica, à luz dos textos e imagens de manuais de instruções em duas versões - uma, em mandarim e a outra, uma tradução de chinês para inglês dos "States", feita por espanhóis, sem que estes, certamente, tenham tido aprovação aonde quer que seja, em inglês técnico básico,... bom... salvo seja.

Alguns dos actuais manuais de instruções são, efectivamente, apenas brilhantes obras primas de ficção e/ou comédia em BD (vejam, um exemplo, já clássico de manuais de instruções ridículos, este da NINTENDO) mas sempre, sempre se podem converter em barcos e/ou aviõezinhos de papel.

No próximo post continuarei, ainda, no tema de SLO.
Pensando bem, é assunto inesgotável.

Gostava de conversar com ele


Ele é Frei Bento Domingues, que tem em mim, incréu, um leitor fiel, porque o meu lema é "nada do que é humano me é estranho". A sua última crónica dominical no Público é sobre ciência e religião. Nem se pense que FBD está ao nível do criacionismo ou de visões primárias de guerra entre ciência e religião. A sua abordagem é de outro nível e suscita-me reflexão, sendo eu cientista e agnóstico (escrevo isto por requinte de rigor, porque em pouco se distingue, na prática, de ateu).

A argumentação principal de FBD gira em torna do facto indiscutível de muitos cientistas acreditarem em Deus. É verdade, e principalmente no grande centro produtor da ciência actual, os EUA. Mas também é o país em que mais difícil é uma pessoa manifestar-se como não crente, um pais que escreve "In God we trust" até nas notas de dólar.

O argumento é muito frágil e só revela a constatação indiscutível das fraquezas e contradições humanas. Marx tratava mal Jenny, Einstein parasitou a mulher, Newton era alquimista e adepto de tudo o que fosse esotérico, Galileu acobardou-se perante a Inquisição. Isto quer dizer que há uma compatibilidade essencial entre a mentalidade científica e estas fraquezas humanas, mesmo que de grandes génios? Mais, nos tempos actuais, há muitos poucos grandes cientistas, há principalmente uma multidão de grandes, médios e pequenos artesãos da ciência, a quem não se pode exigir uma grande profundidade cultural e filosófica.

Questão muito diferente é a de se saber se a racionalidade científica é compatível com a mentalidade religiosa. A meu ver, não. Infelizmente, não é discussão que caiba no espaço ligeiro de um blogue. Mas bem gostava de conversar sobre isto com FBD.

Sala de espera



53 estabelecimentos prisionais. Cerca de 13 mil reclusos, dos quais cerca de 900 mulheres. Sobrelotação das prisões é tema recorrente da imprensa. Mas para lá das condições a que os detidos são sujeitos, pouco se fala das famílias e dos amigos que não abandonam @ detid@, seja qual for o crime cometido.

Ao passar junto a um estabelecimento prisional na zona da Carregueira, junto a Belas, voltei a deparar-me com o indigno espectáculo que é a sala de espera dos visitantes. Numa tarde de domingo de muito calor, valia o facto de o muro estar virado a poente e a sombra dar algum alívio a quem esperava.

Mas como lisboeta e passeante da cidade, não deixo de repara na bicha que todos os domingos se forma no alto do parque à porta do EPL. Para os alfacinhas, basta ir à hora da visita, mas para quem se desloca de fora e depende de outros transportes e de outros horários, a escolha é restrita.

Resta esperar.