29 dezembro, 2008

Bom para a banca, bom para a imprensa

Quando lia jornais portugueses em papel, saltava páginas e páginas cheias de anúncios de tudo o que é organismo público. Sempre pensei que era uma boa fonte de receitas para os jornais. Confirmo agora que representa mais de 10 milhões de euros. Vendo do outro lado do espelho, representa outro tanto de despesa dos contribuintes. Por isto, o Governo criou um portal na internet para publicação dos seus anúncios. Aplaudo, como não podia deixar de ser.

No entanto, há quem não esteja de acordo. Obviamente, a Associação Portuguesa de Imprensa (API). Afinal, não faz mais do que acompanhar, com justo direito, banqueiros, investidores de risco e outra gente respeitável que merece que o Estado (isto é, eu contribuinte e os meus leitores, mais uns tantos milhões) lhes garanta protecção contra qualquer prejuízo e mesmo contra a falência, coisa horrorosa dos malefícios do capitalismo que me deve envergonhar a mim e a todos nós no concerto das nações.

É claro que a API não pode rebater o argumento de que nenhum jornal é de “âmbito nacional”, como exigido na lei para os anúncios oficiais, que no total só são lido por duas centenas de milhar de pessoas e que nos tempos de hoje o acesso a tudo o que é gratuito na net é muito superior.
 
Não o podendo fazer, imagina uma proposta bem compatível com o novo híbrido ou monstro circense ("freak") de neoconservadorismo e de keynesianismo. "Tem que haver um período transitório em que a publicação seja feita também em papel, defende João Palmeiro (API), que reclama, numa fase posterior, a publicação nos sites jornalísticos em paralelo, e com custos idênticos, à publicação no Portal dos Anúncios Públicos. A um maior destaque no site das publicações jornalísticas corresponderia um custo suplementar."

Há gente com muita lata. Ou melhor, com muita falta de vergonha e com tal arrogância que julga que toda a gente é estúpida.

P. S. - Escrevi acima “quando lia jornais”. É verdade, já não leio. Quem me lê regularmente já encontrou aqui escritas razões suficientes para o meu porta-moedas não ser cúmplice com a mediocridade e incompetência da imprensa portuguesa.

24 dezembro, 2008

Nota gastronómica (LXX)

Salada de alho francês e queijo de cabra

Uma receita muito simples, última adição à minha página de novas receitas. Nada que não se tenha à mão na cozinha, para preparação rápida, ao fim do dia de trabalho. Dá para aconchegar o estômago, na minha idade, completando com um chá e uma torrada antes de deitar. Como de costume com saladas, não recomendo vinho. Acho que não vai bem com o tempero de azeite e vinagre ou qualquer vinagreta. Só uma boa água, embora ainda não tenha aderido a essa nova moda das águas por lista de preços avantajados.

Pensamento de Natal

"Se esta noite te cair uma cagadela de pássaro na cabeça, estás com sorte. Lembra-te de que esta noite também há renas a voar".

21 dezembro, 2008

Votos

Feliz Natal e Bom Ano Novo.

Mas, em crise, para o ano novo talvez valha a pena fazer um peditório.



("Peditório do Menino Jesus", música popular de S. Miguel, Açores)

20 dezembro, 2008

18 dezembro, 2008

Nota gastronómica (LXIX)

Bacalhau para o Natal

Esta minha receita de bacalhau não é recente, tem mais de um ano, mas vem a calhar para sugestão nesta época. Como se vê facilmente, é um exemplo de cozinha de fusão com ingredientes tradicionais mas com técnica aperfeiçoada. Pode ser feita com qualquer tipo de bacalhau, mas, para apreciadores da minha idade, saudosos dos sabores de infância, aconselho vivamente o bacalhau de cura amarela. Só se vende nesta época invernal, a preço considerável, mas pode conservar-se no congelador, cortado em postas, durante todo o ano.

A técnica é ajustada por mim, mas corresponde a um padrão hoje muito vulgar de cozinha a baixa temperatura, “cozendo” os alimentos com o máximo de conservação dos sabores e da textura. Com os legumes habituais na nossa cozinha, imaginei o puré. A couve foi substituída pelo meu irmão, e colaborador frequente destas lides culinárias, por uma trouxa de couve lombarda, segundo Gary Rhodes.
Para quatro pessoas: 4 postas de bacalhau, 5 dl de azeite virgem, 4 dentes de alho, 1/4 pimentão verde, 50 g de presunto ou bacon, um ramo pequeno de salsa, 10 grãos de pimenta preta, 4 grãos de pimenta da Jamaica ou 2 cravinhos. 200 g de feijão branco, 200 g de grão de bico, 100 g de feijão frade, leite q. b., flor de sal, pimenta branca e preta moídas a fresco. 1 couve lombarda média (com folhas exteriores escuras com favos), 30 g de manteiga, sal, pimenta branca, noz moscada.
Demolhar o bacalhau, com a pele virada para cima, em várias mudas de água. Retirar a pele e a espinha central, formando pequenas postas, mas sem as lascar. Num tacho tapado, aquecer no azeite, em banho-maria e durante uma hora, os alhos pisados, o bacon ou o presunto em cubos pequenos e o pimentão também em cubos, o ramo de salsa e as pimentas. Arrefecer, coar e passar o azeite para uma assadeira, com as postas de bacalhau. Cobrir com uma folha de alumínio. Assar a 90º durante uma hora. O bacalhau deve ter aspecto de assado mas sem estar lascado nem ter perdido a sua untuosidade característica. Passar as postas para a travessa e regar com um pouco do azeite e um fio de vinagre balsâmico (sem misturar, para realçar o contraste das cores).

Para quem só tem forno de gás, uma alternativa: aquecer bem o forno e apagar. Introduzir a assadeira e deixar assar no forno apagado.

Acompanhar com um puré feito de partes iguais de feijão branco e de grão de bico, com metade dessa dose de feijão frade, e ligado com leite e um pouco do azeite de assar, temperado com sal e as pimentas.

Trouxa de couve lombarda. Separar as folhas exteriores e o coração da couve, retirando os talos mais grossos. Branquear as folhas em água com bastante sal, a ferver alto, durante 5 minutos e passar por água fria. Separadamente, branquear o coração, sem talo, ripado. Escorrer bem, molhar com a manteiga e temperar. Cobrir o fundo de um prato de sopa com película aderente, pincelar com manteiga e forrar com metade das folhas. Rechear com o coração ripado e cobrir com o resto das folhas. Cobrir com película e vedar, em bolo. Calcar com um fundo de forma e outros pratos e levar ao micro-ondas, durante alguns minutos, sem deixar cozer demais. Retirar a película de cima, virar para o prato de servir e retirar a outra película.

Decorar com azeitonas bem demolhadas e polvilhadas com orégãos.

15 dezembro, 2008

Análise política

Não sei se consigo ser isento ao escrever esta nota, devido a velha e forte amizade que me liga à pessoa que vou referir. Vou tentar. A blogosfera, para não falar na comunicação social convencional, está cheia de analistas políticos que prefiro designar apenas como comentadores políticos. Comentar pode ser coisa legítima de conversa de café, até com desabafos e expressões de alguma subjectividade. É perfeitamente legítimo, desde que as regras do jogo sejam claras, que os leitores saibam que estão em pé de igualdade com o autor: cada um exprime, escrevendo, lendo ou escrevendo comentários ao "post", opiniões que podem reflectir em muito identificações ideológicas e políticas, interesses, simpatias. 

Mais complicado é quando este tipo de intervenção, bem claro em muitos blogues, aparece com um outro nível, de análise isenta, mesmo que isto não seja a intenção dos autores. Para referir os dois blogues políticos "de referência", parece-me ser o caso do Causa nossa e do Abrupto.

Diferentemente, há um blogue (sem desmérito de outros) para que quero chamar a atenção, como exemplo de rigor de análise, de uma "exegese" política quase obsessivamente racional e metodologicamente científica, escalpelizando os assuntos até quase à provocação do confronto com coisas "evidentes" do pensamento dito de esquerda. E, note-se bem, sem qualquer traição a uma genuíno posicionamento de esquerda do autor. Estou a falar do Politeia, de José Manuel Correia Pinto. É minha leitura diária obrigatória. 

P. S. 1 - O problema é o JMCP ser muito teimoso e continuar a não incluir no seu "feed" um mínimo de conteúdo dos "posts". Por isto, não assino o "feed", tenho de ir sempre ao blogue.

P. S. 2 - Este Bloco de Notas era para encerramento já anunciado, mas continuo a escrever. Contingências da vida não me têm facultado tempo para a remodelação radical da minha intervenção internética. Espero que seja visível a abrir o ano.

10 dezembro, 2008

Comemorando


Passa hoje o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Comemoro o dia juntamente com muitos outros blogues, em rede, numa iniciativa de "Fênix Ad Aeternum".

(Imagem de Lino Resende)

09 dezembro, 2008

Nota gastronómica (LXVIII)

Vale a pena ir ao Carregado

Julguei que Carregado era terra que só valia pela referência histórica de fim da linha inaugural do caminho de ferro fontista ou, mais recentemente, pelas chaminés da central da EDP que nenhum viajante deixa de notar. Afinal, alguém relacionado com coisas de electricidade levou-me a conhecer o Kottada. Parece que muita gente já descobriu o restaurante, porque o proprietário, Fernando Garcia, galego de boa estirpe gastronómica,  não tem mãos a medir para a sua sábia e comedida vigilância de sala cheia.

Não vou perder tempo com coisas de sala, amesendações, couvert, e passo à substância. Éramos dois e partilhámos dois pratos "banais". Atenção, é muitas vezes na banalidade que se vê a qualidade da técnica culinária. O bacalhau assado era uma excelente posta, no ponto certo, a começar a lascar, ainda com toda a gordura do bicho. Eu costumo conseguir isto em assado a baixa temperatura, demorado. Talvez tenha sido também em assadura da posta embrulhada em qualquer coisa, folha de couve ou até simples folha de alumínio. A regar, um muito bom azeite aromatizado com muito alho, depois retirado. Pequeno senão para mim, teria preferido, juntamente com óptimas batatas, o nosso feijão verde em vez do feijão verde francês. Também teria ido ao éden gastronómico se fosse bacalhau de cura amarela. Fernando Garcia concordou, recordámos os nossos sabores de infância, mas disse que os clientes não apreciam, já estão habituados ao sabor mais suave do bacalhau corrente. 

Depois, um "cochinillo". Não devia dizer nada, só "vão lá e provem". A desfazer-se no palato, com um molho excelente um tudo nada avinagrado e forte de ervas. Batatas fritas em lâmina, a parecer de pacote industrial até se provarem e se ver a diferença.

Vinho recomendado pelo proprietário, muito bom, Quinta de S. Cristóvão 2004. Tenho falado na conquista do nosso mercado pelos vinhos de casta, contra preconceitos enraizados. Neste caso, fica-se a meio caminho, muito bem conseguido. O vinho é aragonês mas com 10% de vinhos de 10 anos. O Ribatejo está a dar cartas.

Coisa importante, 25 euros por pessoa, vinho incluído.

P. S. - Esqueci uma informação importante. Os pratos emblemáticos têm dia certo: o cochinillo  é às terças e sextas, o borreguinho assado às segundas e quartas e o pato assado à quinta.


Um amigo a destacar

Nesta ponta final de vida deste blogue, tenho dificuldade em escolher temas de entre muitos que fui acumulando à espera de dia de publicação. Um não pode ficar sem dar de fé, o da "incubadora de amizades". Incubadora de empresas toda a gente sabe o que é. E incubadora de amizades? É uma pessoa que tem muitos amigos, em polos diversos, de gente que não se conhece, mas que a incubadora, conhecendo-os a todos, tece malhas sabedoras de afinidades, histórias comuns, até coisas de casadices e descasadices, ou de copos, ou de músicas. Marca encontros seleccionados de um e outro seu amigo, faz nascer novas amizades, que por vezes até crescem a esquecerem a sua origem. Assim é o meu amigo Manuel Mota.

Boa parte das amizades do MM tem sido feita à volta da música, como amador, mas amador com grande seriedade e sentido da responsabilidade artística. Lá leva atrás os amigos para variados sítios, bares, cafés, coisas interessantes que vou descobrindo (por exemplo, o Melkia em Telheiras), em merecida peregrinação, noites divertidas em que música, histórias de ontem e hoje, amigos divertidos, se misturam em grande festança alegre a acabar antes no derrame já obnubilado da camarata de Guadalupe, que Nª. Sª. dos Almendres haja.

Mistura rica, disse, mas em que se destaca a música, variada. São os blues do conjunto com o Michel Mounier (ex-1111) e o Bagorro, às vezes com o sax do Zé Tó Amaral. Ou a banda a virar para a bossa nova, agora sem a efémera mas magnífica colaboração da voz da Letícia. Mais recentemente, uma nova experiência, muito bem conseguida, dos dois Manueis, Mota e Cintra, só canto de MPB e violão, registo muito comedido, mas de grande qualidade. Manuel Cintra tem uma boa voz, cheia e vibrante e canta/diz com uma expressividade de poeta que lhe dá um registo vincadamente pessoal das canções célebres de Chico, Caetano, Jobim, Caymmi. MM acompanha com o nível muitas vezes difícil de conseguir do volume que se nota, se reconhece, se aprecia, mas que não abafa o parceiro.

MM e amigos, eles andam por aí, vão a todas, tudo por gosto, coisa funda nas memórias cinquentonas. Avisarei quando os puderem ouvir, que vale a pena. E não só ouvir, também o convívio de amigos, comes e bebes, depois da música.

P. S. - Esqueci-me, imperdoavelmente, de referir o nome artístico do Manuel Cintra: M. C. Punhetas e Cardoso.

08 dezembro, 2008

Mal estar social

Em tempos convulsos como os actuais, de crise financeira globalizada, de horror perante acontecimentos como os de Bombaim, talvez passe um pouco despercebido o que se está a passar na Grécia. Não devia passar, porque creio que tem um significado profundo. Aparentemente, violência urbana em protesto contra a morte de um jovem ateniense atingido por um polícia. Mas três noites já de grande violência, com centenas de automóveis incendiados, lojas saqueadas, já não só em Atenas mas também em Salónica e em Creta, são facilmente entendíveis como protesto pelo assassínio de um jovem?

Isto faz-me lembrar a crise de violência em França, há dois ou três anos, com a agravante de ser agora mais difusa, não circunscrita a filhos de imigrantes. Temos estado a prestar maior atenção ao terrorismo, como agora na Índia. De certa forma, acontecimentos como estes de Atenas parecem sugerir que o terrorismo, por horroroso e condenável que seja, pode ser entendido, analisado nas suas raízes e, por isto, relativamente previsível e controlável, apesar do seu componente surpresa. Essa outra violência urbana, sem a "lógica" do terrorismo e sem o seu quadro ideológico fundamentalista, pode prefigurar, ainda como pequenas chamas, um grande incêndio a abrasar muito do nosso modo de viver. Estou convencido de que é sintoma de um cada vez mais profundo e destruidor mal estar social, uma descrença azeda na nossa ordem política, até mesmo, serei exagerado?, nos fundamentos da civilização. Tudo misturado com uma perplexidade e insegurança de valores que parece uma atitude de niilismo ético e ideológico.

Em Portugal, julgo que acontecimentos esporádicos, como conflitos localizados entre grupos étnicos, ainda nos situam longe deste panorama pessimista. No entanto, os sinais desse tal niilismo, dessa descrença generalizada, do sentimento de perda de referências, já aparecem, sendo bem visíveis na net. Muito poderia dizer mas deixo isso à capacidade de observação dos meus leitores. Vejam só, por exemplo, o que por aí vai de comentários, geralmente anónimos, a textos na blogosfera. Mais flagrantemente, note-se o que é o atirar para todas as direcções de lama moral e política, porca, reles, cobarde, mas também possivelmente desesperada e psico-socialmente doente, que é a generalidade dos inúmeros comentários a notícias nos sítios de jornais "online". Não seria de os responsáveis dos jornais reflectirem sobre o que estão a propiciar?

05 dezembro, 2008

Ligeireza ou aldrabice?

O romance histórico não é novidade e tem grandes pergaminhos. Tanto quanto me ocorre, aparece no século XIX como símbolo de um nacionalismo romântico que tem alguma coisa a ver com o ideal do ressurgimento (uso o termo lembrando-me de Itália) de povos e culturas entretanto decaídos. Recordamos logo Alexandre Herculano e Walter Scott. Em ambos os casos, aliam-se a alta qualidade de escrita ao máximo rigor histórico, obviamente em compromisso com a ficção. Mais recentemente, em Portugal, deve realçar-se, nesta tradição, Fernando Campos. Fora fronteiras, obviamente que Umberto Eco.

Entretanto, nos últimos anos, vingou a moda da sandes mista de romance histórico e de “suspense”, ao estilo de Dan Brown. Mesmo neste caso, ao que me apercebo, há a preocupação de rigor, de procura extensiva de informação de base, de correcção dos cenários e fundos históricos e geográficos. Entre nós parece ser diferente, à “tuga” videirinho, para quem tudo vale porque o escritor orelhudo ou nicotínico é muito esperto e não se digna sequer pensar que pode haver um ou outro leitor que se aperceba da ligeireza aldrabona.

Teria alguma dificuldade em escrever isto, porque não leio estas degenerescências nacionais do que já não é grande coisa estrangeira. Há algum tempo fui enganado. A publicidade de “O cavaleiro da ilha do Corvo” fez-me pensar que se tratava de um ensaio histórico, provocador. Por isto o comprei, vendo depois que era um exemplo menor de romance todo ao estilo Dan Brown (um herói académico, uma mulher inteligente mas que também gosta de cama, esoterismo, mistério, perigos, uma hipótese de história transgressora da História convencional).

Repetindo, tudo isto misturado com uma ligeireza e falta de seriedade dificilmente compatível com a situação de professor universitário do autor. Coisas que podiam ter sido evitadas por uma simples leitura prévia por um micaelense medianamente culto. Alguns exemplos (propositadamente não os corrijo, porque seria insulto à cultura dos meus leitores). Ao fim de uma tarde de trabalho no congresso, em Ponta Delgada, os participantes tomam o autocarro para o jantar na Praia da Vitória! Água de Pau é uma vila situada à beira mar! A ilha Sabrina, resultado de uma erupção de dois meses junto à Ponta da Ferraria, ilha depois desaparecida e entretanto efemeramente britânica por o comandante do navio inglês Sabrina dela ter tomado posse, apareceu em 1638, segundo o autor, apesar de as crónicas da época serem de 1811. E mais, mas já chega.

A ligeireza, a raiar a aldrabice, é mesmo sina portuguesa?

04 dezembro, 2008

Incultura snob

Nos últimos dias, a propósito dos acontecimentos dramáticos em Bombaim, só ouço notícias do que se passou em Mubay. Isto não é novo, faz-me lembrar o 11 de Setembro em New York ou até um célebre sine die pronunciado na televisão como saine daie. Mas ainda vai faltando, para grande vergonha da nossa "cultura" jornalística,  atentados em London, carnaval em Venice, os últimos jogos olímpicos em Beijing. Ao menos, como ouvi há dias, já se vai sabendo que não sei o quê se passou na cidade suíça de Genève. O homem deve ter apanhado em tempos uma bebedeira de genebra e ficou com fobia à palavra.

Insisto. A bem da nossa mínima saúde mediática, acabem já com os cursos de comunicação social. Contratem licenciados em letras, em economia, em ciências, em tudo o que quiserem, desde que escrevam bem sobre o que sabem, que sejam minimamente cultos e que, principalmente, não torturem a nossa língua, a nossa pátria mental.

Provocação

Rui Antunes, professor do Instituto Politécnico de Coimbra, escreve hoje no Público um artigo provocador sobre as carreiras docentes do ensino superior, "Um estatuto para recompensar ou para incentivar?". Uma única categoria base com desempenho de funções superiores apenas em comissão de serviço temporária, por concurso? Concorde-se ou não, vale a pena ler e discutir.

28 novembro, 2008

Esquerdas e esquerdas

O Encontro das Esquerdas causa-me sentimentos mistos. Que haja muitos e variados, bem o desejo. É sinal de vontade de diálogo, de exploração de novos caminhos em colaboração, é pequena mas adivinhável luz ao fundo do túnel do nosso bloqueamento político, cristalizado em partidos já muito estabelecidos (até o BE). No entanto, por outro lado, cheira-me muito a jogada política tradicional, nada que signifique uma rotura justificativa de novas esperanças, principalmente por parte de muitos que têm essas esperanças ligadas a um percurso indissociável da rejeição de manobras políticas convencionais. Deles - e não posso honestamente deixar de me incluir, mesmo que imodestamente - falarei adiante.

O primeiro encontro, salvo erro em Maio, aparece sob o foco bipolar de duas personagens marcantes, Francisco Louçã e Manuel Alegre (a ordem dos factores não é arbitrária), obviamente pessoas representativas de uma acção política inteiramente balizada pela intervenção partidária. Não creio que qualquer deles, depois de muitos anos dessa perspectiva, possa guinar para alguma coisa de novo.

Alegre é refém do seu PS, não sabe como agir fora dele, vai aproveitando uma margem de tolerância que o PS lhe vai dando, num negócio confortável em que todos ganham. Ou melhor, ganha o PS em imagem de tolerância, porque Alegre parece não conseguir saber o que fazer dessa oferta, como não soube o que fazer do apoio de um milhão de eleitores, desbaratado num MIC de paróquia.

Louçã, arrisco-me a dizê-lo, é também refém da sua imagem, do jovem muito inteligente e muito gabado (outro Pacheco falado nas barbearias da província), do dirigente trotskista, do fanático impulsivo sempre com trejeitos de Savonarola. Ainda não me conseguiu convencer de que tenha uma grandeza de pensamento político, de projecto de sociedade, que vá para além do que sempre defendeu. A “modernidade” do BE cheira-me muito a instrumental. Nem falo só da componente trotskista, muito menos da herança UDP que nem sei o que é, mas da “herança” do meu MDP que passou por OPA política para a Política XXI. Ainda terei de fazer, com outros amigos, a história da revolução ideológica, fora de tempo, do MDP restante depois da rotura com o PCP.

Neste segundo encontro, há aparentes surpresas, mas nem tanto. São casos isolados que me parecem sinal de algum aproveitamento cauteloso, tipo “deixa-me entalar o pé na porta, para não a deixar fechar”. É Carvalho da Silva, sempre ambíguo no uso dos seus dois chapéus, do PCP e da CGTP, é António José Seguro, um candidato a alternativa no PS mas sempre avaro das suas ideias que ninguém conhece (outra vez o Pacheco) e até, pasme-se, Carlos Carvalhas (claro que certamente a mandado do PCP). Ao lado, com a sua já vista ingenuidade de vigarizados por um aparelho sabido, os renovadores comunistas, coisa que ainda não percebi o que quer dizer. Se o nome aponta para os seus amigos italianos, é melhor irem dar uma volta ao bilhar grande.

Mas há mais esquerda. Há esquerda de gente que não precisou de grandes acontecimentos telejornalísticos para reflectir sobre erros de décadas em muitos casos assumidos pessoalmente, com modéstia e sincero pesar. Há esquerda de gente que não pactua com o papel de instrumentos de luxo dos aparelhos, com vestes de gala de uma independência que não engana ninguém. Há esquerda de gente que vive satisfeita com a sua actividade profissional esgotante, com a sua participação na vida cultural e social e para quem a intervenção política é uma missão nobre mas custosa, nunca uma prebenda. Há esquerda de gente que pode defender abertamente valores e opiniões controversas, porque não precisa de pensar em termos eleitoralistas.

Ninguém desta esquerda poderá dizer que ela é a dos “bons”. É apenas a dos que têm a sorte de poderem ser livres, porque a vida isto lhes permite. E nesta liberdade desempenha papel essencial o facto de as suas roturas terem resultado de caminhos individuais, com sofrimento, quantas vezes silencioso e desconhecido da opinião pública, sem o apoio de movimentações grupais que muitas vezes espartilham a rotura em novas formas de dependência.

Pessoalmente, sinto-me obrigado a elogiar um político que soube dar valor a muita desta gente, que por isto também lhe correspondeu: António Guterres, nos Estados Gerais. Infelizmente, a sequência, nos tempos já de governo, foi frustrante, em termos de intervenção independente e dialogante. As Novas Fronteiras já nem sequer os convidaram. Desconfio de que algum dos meus amigos tivesse aceite.

27 novembro, 2008

Assinando o ponto

Ainda não desapareci, mas tempos muito ocupados têm-me afastado da escrita. Dou sinal de vida, prometendo retomar a minha intervenção dentro de pouco tempo, em outros moldes. Deixarei aviso.

20 novembro, 2008

Violência de género

Há coisas que não gosto de adjectivar ou de qualificar, são más em si. No entanto, por vezes, a qualificação alerta-nos para circunstâncias particularmente favorecedoras do mal. É o caso da violência do homem ainda hoje mais forte para com a mulher ainda hoje mais fraca, com destaque para a violência doméstica.

O Público de hoje traz um número impressionante: este ano, 43 mortes de mulheres por violência doméstica. Extrapolando, quantos casos de agressões com consequências físicas importantes? Mais ainda, quantos casos de "ligeiras agressões" mas com enormes efeitos destrutivos?

Leio também uma coisa muito interessante, uma iniciativa da UMAR para envolver numa petição também os homens que se revoltam contra esta degradação do ser masculino. Boa ideia, generalizar uma luta que corre o risco de ser considerada, redutoramente, como feminista. É pena ainda não ver concretizada a iniciativa, vou ter de estar atento.

Isto faz-me pensar que a virtude pode ser perversa, isolando-nos do que tendemos a ver como distante de nós. Chegar sistematicamente a casa embriagado e bater na mulher? Tirar o cinto para a coça nos filhos? Infelicidades, mas não é comigo... Será que não?

Nota - Um pouco a despropósito, tenho bem para mim que, com uma excepção (um filho bebé que não podia compreender de outra forma que não podia enfiar os dedos na tomada), nunca bati num filho. Porquê, porque sou especial? Sim, sou especial porque tive pais especiais que, nos anos 40 e 50, não me batiam. Estas coisas herdam-se. Não tenho qualquer sinal de que os meus filhos tenham batido nos meus netos. E às vezes talvez precisassem, como quando o André me diz que não vale a pena discutir com o avô porque só tem caca de galinha na cabeça.

17 novembro, 2008

Diletantismo portuga?

Na sua crónica habitual no Público e com a sua habitual displicência, diz hoje Vasco Pulido Valente que Marx, para os seus estudos de economia política que o levaram ao monumento intelectual que é o Capital (concorde-se ou não com as derivações políticas práticas do marxismo) falsificou dados. É a mais grave acusação que se pode fazer a um cientista e é a primeira vez que leio tal coisa em relação a Marx. Das duas uma. Ou VPV é um diletante, não é um pensador rigoroso, não conhece a ética científica e pode-se-lhe desculpar (?) a acusação atirada como barro à parede. Ou é o contrário disto e então exige-se-lhe que demonstre tão grave acusação. 

05 novembro, 2008

Obama

02 novembro, 2008

Recordando (1)

A despedir-me, quando este blogue vai passar a ser chamada de atenção para sítio mais calmo e ponderado de escrita, lembro-me da menina R, minha vizinha da então 28 de Maio, hoje felizmente rebatizada (acordo ortográfico!). A menina R talvez tenha sido o primeiro desafio a alguma abertura mental. Era execrada pela vizinhança do prédio, era muito simpática comigo, provavelmente porque sentia que eu o retribuía, que mais não fosse pelos mimos que fazia ao meu filho bebé.

Era sustentada. Um velho horroroso visitava-a ocasionalmente, mas com menor frequência, bem bom para ela, do que o António Mourão, seu professor de canto, guitarra e talvez de outros instrumentos. Mas também para mal dos meus ouvidos, sempre a ouvir “ó tempo, volta p’ra trás”. E depois de todo este rodeio, onde é que eu ia?, açoriano criado em conversa fiada de serão, ah, lembrei-me, vou olhar para algum passado deste blogue e tirar conclusões de provocação matreira e final.

Tema de grande motivação a escrita minha foi a licenciatura de Sócrates. Ele escapou ileso, até ao encerramento da sua alma mater. É portuga. De facto, nada de ilegal, só videirices de que a imprensa, inabilmente, quis fazer escândalo. Digo inabilmente porque se há coisa de que o portuga gosta, em que se revê, é na videirice, na chiquespertice. O que ele inveja não é o Nobel do Saramago nem os milhões do Jardim Gonçalves, coisa que não percebe. Inveja é o vizinho que aldrabou as finanças, o outro que vigarizou a segurança social, o outro que ficou repentinamente milionário com o euromilhões, sem essa chatice horrorosa que é trabalhar pra ganhar a vida. E eu a olhar com gozo para alguém que me repetia sempre, "aposto o que quiseres, o ministério público não pode deixar de o levar a tribunal". Um mínimo de honestidade proibiu-me de desfrutar dessa aposta.

Por isto, quem é que se importa que Sócrates não tenha vergonha de um título universitário de vão de escada, que não tenha ética de rigor intelectual, que não tenha cultivado o orgulho de reconhecimento académico por uma instituição de qualidade? Só eu e mais uns tantos, que penámos agruras e angústias pessoais de perguntas rigorosas para nós próprios sobre a qualidade do nosso trabalho intelectual e profissional, que temos a paixão e o respeito por uma coisa que transporta um milénio de civilização, a educação superior, que consideramos um grau como um prémio que tem de ser merecido e não como um cartão de visita que se manda imprimir no shopping. Mas quem sou eu e esses outros para falarmos, se qualquer coisa ajuda ao tiro de partida carreirístico na jota (que no caso até foi do PSD), mesmo um grau charunfoso, se calhar até dando competências bolonhesas para vendedor de computadores?

Hoje vai só esta memória de tempos idos do Bloco de Notas. Outras se seguirão.

Keep it simple, stupid

Muitos políticos americanos têm dotes oratórios excelentes. Lincoln, Roosevelt, Kennedy, Martin Luther King, agora Obama. Vêm na tradição do uso sintético, incisivo, da língua, e por isto é que as grandes citações, depois dos romanos, são agora as dos americanos, sem falar na eloquência exemplarmente elegante de Jorge Sampaio! Coisas célebres: “Don´t ask what your country can do for you, ask what you can do for your country”; “Ich bin ein Berliner”; “I have a dream”. Notável é a última de Obama (vai em português, não a consigo no original): “Qualquer parvo faz um filho, mas o que faz um pai é fazer crescer um filho”.

KISS, keep it simple, stupid!

01 novembro, 2008

A muralha de aço de Alcântara

Subscrevi a petição de iniciativa de Miguel Sousa Tavares contra a expansão do parque de contentores de Alcântara. Hesitei muito em o fazer, depois de também ter lido os argumentos da Liscont. Afinal, os 15 m de altura dos contentores empilhados compensam a altura dos armazéns que vão ser demolidos. 

Então, porque assinei? Porque espero que este assunto pontual traga à discussão o problema de fundo, que é o da localização do porto de Lisboa. Vai ser desafio para a minha escrita mais elaborada, como sucessora deste blogue. Para já, fica-me uma dúvida importante: qual o destino da gare de Alcântara? E os painéis de Almada, para já não falar do valor arquitectónico dessa obra de Pardal Monteiro?

Ingenuidade?

Loureiro dos Santos alertou para possíveis disparates a virem a ser praticados por militares descontentes com lesões aos seus interesses corporativos. Creio que ninguém com juízo neste nosso país pode admitir tal hipótese cesarista. Por isto, vindo do general, é alerta civicamente importante, dirão alguns. Não me parece verdade. O general não é ingénuo nem estúpido e sabe bem que o simples facto de escrever sobre tão absurda coisa é dar-lhe publicidade, importância e alento. “Porque no te callaste?”

P. S. - Não é a primeira vez que LS se faz porta-voz encapotado de interesses corporativamente mesquinhos de militares. Aonde quer ir com isto? Não percebo, por parte de um homem que pode envelhecer confortavelmente deitado sobre um bom currículo. Simples vocação populista?

Sócrates, sai um anunciozito?

Já não me bastava estar ontem encravado meia hora no trânsito de hora de ponta, ainda tive de ouvir o discurso de José Sócrates na Cimeira Ibero-Americana. Já há muito tempo que não tinha tanta vergonha de me chamarem português. 

Há por aí uma coisa a que chamam de Magalhães, pretensa invenção nacional. Não é nada, é uma criação da Intel, já posta em prática em alguns países sub-desenvolvidos, a que se destina, e agora montada em Portugal, pelos vistos também um sub-desenvolvido. 

Mas ouvir o primeiro ministro de Portugal fazer de publicitário, durante 10 minutos (!) de um discurso oficial, a enaltecer as virtudes do computadorzinho, a referir que um chefe de estado americano o tinha atirado ao chão sem ele se partir, ultrapassa tudo o que eu julgo ser a dignidade mínima do Estado português, a cumprir pelos seus representantes máximos. Era bem razão para Juan Carlos ter interrompido, “Jose, porque no te callas?”

Autonomia açoriana

Lembram-se do velho professor americano a viver em Roma, personificado por Burt Lancaster no “Conversation Piece” de Visconti? Ou mesmo do mesmo como Príncipe Salina? Distanciamento, algum desgosto pela degenerescência do que nos foi caro, sentido de que a vulgarização nos remete para um buraco íntimo de preservação da qualidade. Elitismo intragável, admito.

Isto vem mesmo a despropósito sobre a actual questão do estatuto dos Açores. Fui autonomista, nos alvores açorianos da minha descoberta política. Fui autonomista com muitos amigos dos tempos difíceis, sendo sempre justo salientar Melo Antunes e Borges Coutinho. Nessa altura, os filhotes de Mota Amaral usavam babete e hoje não se lembram de que ele, por essa época, era deputado e escrevia a favor das multinacionais americanas dominarem a pecuária açoriana. Por tudo isto, sinto-me hoje um pouco como essas personagens viscontianas.

Por isto, creio ter autoridade para me escandalizar com alguns excessos do estatuto de autonomia dos Açores e, por isto, quem diria, concordar com Cavaco Silva. O que mais me choca é a disposição aberrante segundo a qual a Assembleia da República não pode legislar sobre a autonomia a não ser sobre propostas da Assembleia Legislativa Regional. Não consigo perceber como é que tal disposição, só possível num estado federal (e nem sei se mesmo neste caso, na realidade) não é declarada liminarmente como inconstitucional.

Sou autonomista, nem de longe sou federalista ou independentista. Como costumo dizer, sou muito açoriano porque sou muito português e sou muito português porque sou muito açoriano.