04 dezembro, 2007

Shmoo

Tenho dado poucas notícias, e sentido muitas saudades dos meus caríssimos e raríssimos leitores, só porque ando nuns viveres, como direi? demasiado atarefados... Hei-de contar-lhes algumas passagens... porque vão gostar muito de as saber!
Hoje, vou-lhes falar de shmoos - o "shmoo", sem c antes do h, é o colapso da espuma de cerveja que resulta em apreciações individuais distintas e opostas: é altamente negativa ou positiva, em dois momentos distintos do processo de produção e de consumo da cerveja em causa - pode tornar-se uma seríssima dor de cabeça durante a fermentação (ficamos com espuma de cerveja espalhada, até na alma dos porões da fábrica, até à altura dos joelhos), susceptível de causar surtos de pressão arterial maligna, levando a acometimentos de AVC, nos mestres cervejeiros mais fleumáticos e, simultaneamente, é uma das maiores delícias para uma boa parte dos apreciadores de cerveja (aqueles que gostam de "golas altas", durante a degustação da bebida, que nos deixam os bigodes pincelados com aquela espumazinha branca, que nos obriga a lamber os beiços - apre, que imagem...).
Ora é assim mesmo, tal e qual como o shmoo, o efeito da postura da Direcção Geral de Ensino Superior (DGES), sobre as instituições que tutela. Não sei se deram por isso, mas no famigerado dia 15 de Novembro de 2007, neste endereço da página da DGES publicou-se o seguinte texto-aviso:
"Por despacho do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de 24-10-2007
(
Despacho n.º 26245/2007, DR, 2.ª série, de 15-11), foi fixada a data de 28 de Dezembro de 2007 para a apresentação, na Direcção-Geral do Ensino Superior, de pedidos referentes ao registo de adequação, à autorização de funcionamento de novas formações e ao registo de alterações, para a entrada em funcionamento no ano lectivo de 2008/2009."

Com essa frase, mas de uma outra maneira, a nossa gestão de cúpula da educação superior diz-nos, exactamente, o seguinte: "o que se passa com as propostas velhas e safadas de novas formações superiores, submetidas pelas instituições no passado ano 2006 (a nível de mestrado), "achamos" que sabemos o que é que lhes aconteceu, mas não dizemos a ninguém, e as instituições que, assim o entenderem, mesmo que ignorem o paradeiro das suas propostas do ano passado, sigam o nosso exemplo e tradição, em estratégia: planeiem o futuro como muito bem lhes parecer porque, depois, estamos cá nós para ver o que irão, eventualmente, fazer ou não, e também só decidiremos quando e o que quer nos der na régia gana".
Claro que, há instituições que apreciam e vibram, muitíssimo, com shmoos como estes que vos acabei de descrever e, naturalmente, há as outras em que alunos e docentes, perante tais shmoos, entram em risco de vida profissional. Mas, e isso... interessa lá a alguém?!

03 dezembro, 2007

Interrupção

Os leitores merecem sempre uma explicação. O Bloco vai estar fechado para recuperação de uma forte gripe. Espero voltar em breve.

02 dezembro, 2007

Nota gastronómica (XLII)

Alcatra de coelho?

Com alguma publicidade mas ainda maior privacidade, David Lopes Ramos e eu temos mantido correspondência gastronómica assídua. Consideração mútua, mas que só se alimenta com uns pozinhos de polémica cordial, como agora. E até nem se trata bem de uma crítica, mais uma dúvida.

Vem a propósito de um tema que me é muito caro, a cozinha de vinho (não fosse eu especialista em alcatra terceirense) e da sua crónica de ontem no Público, sugerindo uma alcatra de coelho. Aliás, provavelmente por coincidência, há um restaurante muito respeitável em S. Miguel, o Gato Mia, que faz essa alcatra, que ainda não comi.

A cozinha com vinho branco é banal. Num guisado, é juntar e deixar ir. Para um aveludado, uma redução de vinho branco, durante 3-5 minutos com chalotas, ervas ou uma duxelles de cogumelos nunca me deixou mal. Com um gole de moscatel ou verdelho, melhor ainda.

O vinho tinto, este sim é que é difícil. Regra essencial, para qualquer vinho, é tempo e temperatura para evaporar todo o álcool. Mas o tinto tem taninos que precisam de ser suavizados, senão qualquer cozinhado sabe a sopas de cavalo cansado. Nisto, a confecção tem tudo o que se lhe diga. Exemplifico com o polvo guisado à açoriana. Pouco mais do que uma hora de cozedura, o vinho apurado ao ponto certo, porque a alta temperatura e com ebulição forte. Assado é diferente. Experimentem o polvo assado em vinho tinto, que sai frequentemente agreste, com sabor a vinho. Ou então, para evitar o problema do vinho, assadura de mais e o polvo encortiçado.

E porque é que se faz "coq au vin" e não "poulet au vin"? E porque é que a nossa excelente chanfana só pode ser feita com cabra velha? Experimentem fazer uma chanfana de cabrito e depois mandem-me notícias. Leiam o mestre Escoffier quanto às daubes. Provençal e borguinhesa, de carne de boi, muito bem, no forno, recipiente vedado, assadura lenta. Mas já a daube de cordeiro ou a de peru são em forno a temperatura mais baixa, permitindo assadura muito lenta, e com as carnes previamente marinadas, a ganhar sabor. O grande desafio da cozinha de vinho tinto é tempo e temperatura para cozer o vinho sem as carnes se desfazerem.

Muito mais importante é isto nos assados. A temperatura é enganadora. Ponham o forno a 200º, depois meçam a temperatura do molho de uma alcatra, por exemplo. Pouco ultrapassa os 120º, é um ligeiro fervilhar. Por alguma razão uma alcatra demora cerca de 6 horas a assar. Ao fim deste tempo, o vinho está no ponto certo. Mas pode-se deixar coelho a assar durante 6 horas? Se sim, a que temperatura, não certamente a da alcatra de carne? E durante quanto tempo? Não quero dizer com isto que discorde desta ideia de alcatra de coelho, mas desconfio de que é coisa que exige algum cuidado.

Fica-me, dito isto, outra pergunta. Mas afinal a alcatra da Terceira é com vinho tinto ou branco? "Ele há cada questão..." Escreverei sobre isto uma próxima nota.

P. S. (17:30) - Reparo agora que fui injusto para com DLR. Escrevi esta nota sem ter ao lado a sua crónica. Afinal, DLR responde em pormenor às perguntas que fiz. Por isto, pensei apagar esta nota, masa é melhor deixá-la, com este esclarecimento, porque aborda uma questão culinária relevante.

01 dezembro, 2007

Quem muito escreve muito erra

Em artigo de hoje no Expresso, Miguel Sousa Tavares insurge-se contra a decisão dos constituintes de 1976 de condicionarem a regionalização a referendo. Dá a entender que foi manobra da "classe política" para validar a criação de um escalão administrativo à sua medida. Não se percebe muito bem, mas vá lá.

O que o articulista deveria era ter-se informado melhor. A Constituição de 1976 não impõe nenhum referendo. As únicas limitações à criação das regiões são a obrigatoriedade da criação simultânea e o voto favorável da maioria das assembleias municipais representativas da maioria da população regional (artº 256º). Isto só foi alterado, com a introdução da obrigação referendária, na revisão constitucional de 1997, por acordo entre Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, o que resultou, no ano seguinte, na rejeição referendária da criação das regiões.

MST devia estudar um pouco melhor os assuntos sobre os quais opina. E não ter a arrogância de pensar que todos partilham da sua ignorância e que ninguém é capaz de dizer que o rei vai nu.

30 novembro, 2007

A mão à palmatória

Ontem critiquei os "flashes" bloguístico. Penitencio-me por hoje fazer isso mesmo.

1. O inefável Alberto João Jardim acusa o Tribunal Constitucional de estar a fazer terrorismo de estado. Nada lhe acontece. O líder da oposição acusa AJJ de fazer terrorismo de estado e a Assembleia regional levanta-lhe a imunidade para ele responder em tribunal em processo de difamação, por queixa de AJJ. Não há mesmo forma de acabar com esta nódoa insular na democracia portuguesa? Os meus bons amigos madeirenses mereciam-no.

2. António Valpaços, estudante da Faculdade de Letras da U. Porto, declara no jornal que "a entrada dos 'privados' [presumo que queira referir-se aos membros externos dos conselhos gerais] nos órgãos de gestão das universidades vai criar escolas de primeira e de segunda". Não entendo patavina desta afirmação, mas o direito à asneira é sagrado e bem divertido. A não ser que ele queira dizer que uma universidade com Artur Santos Silva ou Rui Vilar como presidente é mais de primeira do que uma presidida por Joe Berardo. Mas isto é que é mesmo a lógica do modelo dos conselhos gerais ("boards").

3. Clara Barata, jornalista do Público, ficou tristemente célebre por um caso de plágio. Ao menos, quando plagia, escreve acertadamente. Quando escreve da sua cabecinha, dá asneira. Em notícia sobre trabalhos acerca do plasmódio, o parasita causador da malária, diz que eles são estudados em culturas celulares, em "pratinhos de laboratório". Parti o coco! Imaginei pratinhos de pastelaria, com scones a acompanhar o meu chá. Placas de Petri, ignorante!

29 novembro, 2007

Bloguistas ou jornalistas?

Desde há tempos, o Público, no caderno P2, insere uma amostra de coisas publicadas em blogues. Como regra, escolhe entradas sobre o tema do momento. Creio que isto pode contribuir para o agravamento de uma tendência imediatista de muitos blogues, principalmente os mais orientados para o comentário político.

Nunca poderei ser citado nessa secção do jornal, por variadas e certamente justíssimas razões, mas principalmente porque evito escrever sob a pressão do acontecimento, gosto de ter um mínimo de reflexão. Muitos blogues estão a fazer jornalismo, mas mau jornalismo. O jornalista reage ao acontecimento, mas é profissional, dispõe de um dia inteiro para escrever. O bloguista não, escreve com ligeireza, entre o trabalho e o sono, dá asneira. Bom exemplo foi a célebre “pata na poça” de Miguel Portas sobre a acção vândala do Verde Eufémia.

Outra consequência é a redução da extensão e profundidade de análise de algumas entradas em blogues consagrados, agora limitadas a um curto parágrafo, quase um “sound bite”. Por tudo isto, cada vez mais limito a minha lista de leituras diárias obrigatórias a blogues temáticos. Para notícias, tenho a comunicação social.

27 novembro, 2007

Propúblico

Este blogue já conta com cinco notas "contrapúblico". Mas é bom elogiar o que muitas vezes nos dá razão para crítica. O Público, hoje, não faz nada de muito especial, mas destaca-se do resto da imprensa. No dia da conferência de Annapolis, dá uma página inteira, meia por meia, ao embaixador de Israel, Aaron Ram e à delegada geral palestiniana, Randa Nabulsi.

Por tendência natural, sou um optimista, embora isto já me tenha causado muitas frustrações. Apesar da prudência dos articulistas (por exemplo, Ram não se compromete mais do que com a esperança de um simples retomar do roteiro de paz), ambos os artigos me suscitam motivos de esperança, não só pelas intenções expressas mas principalmente por alguns sinais significativos. Da parte de Ram, destaco a distinção clara que faz entre a Cisjordânia e Gaza, entre a Autoridade Palestiniana de Abbas e o Hamas, que vai estar à margem de Annapolis. Ram não faz uma única acusação à Autoridade, desviando todo o fogo para o Hamas.

Por seu lado, Nabulsi evoca repetidamente o roteiro, compromete-se com a importância do papel do "quarteto" e tem a atitude expressa de um elogio claro à dupla Rabin-Arafat, responsável pelo que ela chama de "a paz dos bravos". Significativamente, refere que se coloca no campo do que chama os "palestinianos moderados".

A conclusão de ambos os artigos é significativa, embora me possam acusar de ingenuidade perante possível hipocrisia. Um dos artigos termina com "espera que todas as partes envolvidas aproveitem esta oportunidade e façam os possíveis para abrir caminho para a paz". O outro conclui "é tempo de se alcançar uma paz justa e duradoura na nossa tão sofrida região". Quem escreve uma e quem escreve a outra?

NOTA - Em contraste, no mesmo jornal, Rui Tavares escreve que "Annapolis é simplesmente uma coisa que tem de se fazer porque se disse que se ia fazer". Espero que esteja enganado.

Sem papas na língua (III)

Referi-me a duas afirmações polémicas de António Nóvoa, uma das quais já comentei. A outra comento hoje. "Queremos também ir além da letra da lei [sublinhado de AN] no que diz respeito ao reordenamento da rede do ensino superior em Lisboa, juntando-nos com outras escolas no sentido de agregar esforços, construindo um espaço institucional coerente, universitário e politécnico."

Essa coerência, ou talvez melhor abrangência, faz sentido, tanto quanto julgo perceber a ideia de AN. Para além de uma integração do ISCTE, que me parece evidente, até pela localização e pela coincidência de pessoas no Instituto de Ciências Sociais, a aglutinação com o IPL traria a área das engenharias, a comunicação social, a gestão e contabilidade e, talvez com o reequacionamento das ciências da educação na UL, também a formação de professores.

No entanto, AN tem razão ao escrever que isto é ir além da letra da lei. O RJIES consagra o já tradicional carácter rígido do nosso sistema binário, com distinção radical entre universidades e institutos politécnicos. Exceptua-se o caso das escolas politécnicas das universidades de Aveiro e do Algarve, bem como mais recentemente, a inclusão nas universidades das escolas de enfermagem de Évora e das ilhas. Isto não impede que tenham sido aprovados cursos expressamente declarados como de ensino politécnico na U. dos Açores, mas sem criação de uma estrutura correspondente.

Este caso, aliás, é apenas um exemplo de muitos, de cursos marcadamente politécnicos ministrados por universidades e de cursos de natureza mais científica oferecidos por institutos politécnicos. Fala-se muito de "deriva académica" dos politécnicos, mas também há "deriva tecnológica" nas universidades. Muito mais importante do que distinguir institucionalmente os dois tipos de ensino parece-me ser distinguir por natureza os diversos cursos e organizá-los especificamente, eventualmente com grande flexibilidade institucional.

O que, a meu ver, é essencial é que cada um dos ensinos se enquadre num meio cultural próprio, o que inclui a mentalidade, experiência e carreira dos docentes, a cultura científica versus inovação com sentido económico, o tipo de relações com a sociedade. Sem querer prejudicar a sempre desejável colaboração, julgo que esta distinção, com reflexos estatutários e de prática de governação, deve ser muito clara a nível de faculdade (universitária) e de escola (politécnica), mas é-me relativamente indiferente - ou melhor, objecto de reflexão casuística - a distinção a nível de cúpula institucional.

Lembremo-nos do exemplo espanhol, sempre apontado como um anacronismo europeu de sistema unitário. Só é verdade formalmente, porque na Espanha só há universidades. Simplesmente estude-se bem a lei e a organização prática das universidades e veja-se como é clara a situação das "Escuelas técnicas superiores" integradas nas universidades. É uma situação mais clara e bem definida do que o retrocesso inglês da transformação de tudo em universidades. E, como bem se sabe, esta modalidade à inglesa não é hipótese a afastar liminarmente em Portugal, tantas são as pressões.

26 novembro, 2007

Contrapúblico (V)

O título é enganador. Desta vez, não vou apontar nenhum erro do jornal, mas creio que o título é simbólico. Nos últimos tempos, troquei alguma correspondência com Rui Araújo, provedor do Público e ganhei grande consideração por ele. Não teve tarefa fácil, tantas foram as queixas a que teve de atender, sempre solícito, acutilante mas com objectividade e imparcialidade. Chegou a defrontar-se com uma questão muito grave e delicada, um caso de plágio.

Foi com pena que li ontem a sua última crónica. Dela extraio, como homenagem e sinal de reconhecimento pelo que RA me aturou, este trecho que bem merece reflexão.

"(...) Tenho consciência de que o jornalismo não é uma ciência exacta e um jornal não é uma enciclopédia. Também eu, muitas vezes, fui vítima da pressão do tempo, da compressão do espaço, do cansaço, do humano cansaço. São factores que não justificam as falhas, mas permitem explicá-las. E se assim era no meu tempo de jovem repórter, pior é ainda hoje, porque maiores são os constrangimentos e as ameaças: a competição desenfreada, o desemprego, a contenção de custos e o impacto das novas tecnologias. O sistema pressiona o jornalista, esmaga o jornalismo. A informação era um serviço. Passou a ser mais uma mercadoria, é promovida como tal. Os cidadãos ficaram reduzidos a meros consumidores. A opção lógica é, portanto, dar-lhes o que querem, já que o freguês tem sempre razão. O infotainment alastrou, invadiu as páginas dos jornais. É provável que a confusão de géneros acabe por fomentar a apatia. É uma perspectiva preocupante, porquanto a democracia não depende só da eficácia das instituições e do desenvolvimento tecnológico, mas também e sobretudo dos cidadãos. E a informação é vital. É por isso que os jornalistas não podem ser acríticos, inofensivos, irresponsáveis e objectivos."

25 novembro, 2007

Conversa de baias: Andaduras, embocaduras, comportamento animal e…

Não há nada melhor para diversificarmos o nosso conhecimento, do que não fazermos absolutamente nada. Digo-vos isto porque, hoje, por exemplo, decidi-me a tirar uma folga bastante folgada, para me sentar num toco de árvore, com o único objectivo de proceder a uma contagem precisa da queda outonal das folhas de um choupalzito de médio porte, perto do lugar onde vivo.
Estava eu absorvida e distraída nessa indispensável inventariação, quando se aproximaram 3 animadas pessoas - equipadas de pingalins, e envergando o que me pareceram trajes de cavaleiro a rigor - avançando em passo muito lento, trazendo a reboque cavalicoques puxados por arreatas, e que resolveram parar perto de mim, enquanto embebidos numa animadíssima cavaqueira - não fosse o vernáculo pontual, pelo vocabulário usavam, nem me parecia que falassem Português, tantos eram os termos técnicos incluídos na conversa, por isso, o meu entendimento, sobre o que possam ter dito, foi deduzido do sentido geral do pouco que me apercebi -o tema em discussão era: as vantagens e inconvenientes do uso de freios para controlo e disciplina dos quadrúpedes; uma das pessoas defendia que se obtinham muito melhores resultados com assobios e estalidos de dedos...
Cresci a ouvir dizer que quem controla o freio controla o cavalo todo mas, afinal, parece que as coisas não funcionam bem assim, antes pelo contrário, o medo, a dor e a expectativa de sérias dificuldades respiratórias, provocados por um freio, podem suscitar comportamentos muito negativos nos cavalos, impedindo que se estabeleça a harmonia e cumplicidade desejáveis, entre cavaleiro e montada.
Foi assim, que me percebi da extensão e significados de expressões, tais como, "tomar freio nos dentes", "raspar os dentes", e "estrela, beta, sete assobios e pé calçado"!
Fiquei a pensar se os comportamentos negativos dos muares, em resposta a agressões externas, não serão generalizáveis a comportamentos básicos humanos, em legítima defesa.
Como, para cavalos já há pelo menos um invento com registo de patente, que dispensa os transtornos dos freios, resta-nos desenvolver uma "device" semelhante para proteger os humanos, que sejam sujeitos a freios desnecessários.
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http://www.patentstorm.us/patents/6591589-fulltext.htmlhttp://www.bitlessbridle.com/dbID/286.html

Toponímia

Num artigo de jornal que assinala os 200 anos da paragem forçada de Junot em Constância, aprendo quer, naquele tempo, a vila se chamava Punhete. Raio de nome, principalmente quando nos lembramos de tanta gente, como Eanes, bem conhecida por pronunciar assim, como e mudo, o a mudo final. Acho muito bem que os habitantes tenham exigido a mudança de nome, como fizeram os de Barrelas, hoje Vila Nova de Paiva ou, com muito mais razão, os da Porcalhota, agora Amadora. Imaginem que a minha cidade natal se chamava Pinta Delgada? (esta vai para quem conhece o calão micaelense).

23 novembro, 2007

Nota gastronómica (XLI)

Empada de galinha com raízes morgadas da Praia da Vitória

Esta receita é uma improbabilidade, resultou de um momento na minha cozinha. Apeteceu-me fazer uma das especialidades de família, a galinha de molho de perdiz ("O gosto de bem comer", pág. 281). E um exemplo do que eu chamei "cozinha morgada", uma cozinha aristocrática de ilhas longínquas levada por fidalgotes que iam uma vez por ano beber a civilização nos hotéis lisboetas, cozinha francesa incluída. No regresso, "au bonheur des dames", receitas misturadas com sedas, veludos, chapéus e rendas. E os criados em fila, no Cabo da Praia, a acenar boas vindas ao patrão João Diniz, a fumar o seu charuto no deck do vapor, requinte da modernidade, só uma semana de Lisboa à Terceira.

Volto à minha cozinha que não tem nada de grandezas, que se foram com anéis e, "c'est la vie", se calhar também com dedos. A galinha coze um pouco num bom caldo de galinha, preparado antecipadamente com outra galinha. Depois vai a assar e do molho do assado só se aproveita parte. Que desperdício! Resultado: fiquei com uns bons nacos de galinha da canja, miúdos, canja, molho de assar. Com isto e mais alguma coisa, resultou uma boa empada, com a massa quebrada também da tradição familiar.
1/2 galinha com miúdos, cozida, 2 dl da canja respectiva, 3 c. sopa de gordura de assar bem outra galinha, 200 g de cogumelos (boletos, mas se não houver, paciência), 2 c. sopa de manteiga, 4 c. sopa cheias de farinha, 1 dl de vinho da Madeira ou verdelho açoriano, 2 c. sopa de nata, 2 gemas, 3 grãos de pimenta da Jamaica, noz moscada, sumo de limão.
Massa. 250 g de farinha, 60 g de manteiga (4 c. sopa), 60 g de banha, 1 c. sobremesa de açúcar, 1 c. café rasa de sal (a gosto), 2 ovos.

Cortar em cubos pequenos os restos de carne de galinha e de miúdos da canja, excepto um fígado. Cortar os cogumelos às lascas grossas e alourar na manteiga, em lume médio, regando com um pouco de sumo de limão e mexendo sempre.

Derreter o resto da gordura de assar a outra galinha, para a preparação de molho de perdiz e voltear bem com a farinha, mexendo sempre, para roux. Entretanto, aquecer a canja. Depois de arrefecido o roux, juntar o caldo e a gordura dos cogumelos e misturar muito bem. Juntar as gemas, as natas e os temperos, com um fígado esmagado. Levar outra vez ao lume, baixo, mexendo, até fervilhar, mantendo durante dois minutos. Juntar as carnes e os cogumelos e dar algumas voltas, durante meio minuto. Reservar.

Juntar os ingredientes da massa e amassar bem. Formar uma bola e deixar descansar, pelo menos 1 hora. Espalmar bem fino (cerca de 2 mm) sobre farinha, com rolo bem polvilhado com farinha. Forrar uma forma untada, rechear e cobrir com uma tampa de massa, deixando uns furos para respirar. Levar ao forno, a 200º, preaquecido. Fica mais bonito à vista, embora não seja indispensável, pincelar a tampa da empada com gema de ovo.

Servir só com uma coroa de alface ripada, temperada com flor de sal e um ligeiro fio de azeite virgem extra e umas gotas, só mesmo umas gotas, de vinagre balsâmico. Podem não gostar de um extra mas eu sou grande apreciador e acrescento umas boas azeitonas pretas curtidas com alho e orégãos.

22 novembro, 2007

Falácias orçamentais

A nota anterior suscitou-me uma outra, sobre uma estafada afirmação do discurso "politiquês". Muita vez o diz o nosso MCTES: "As universidades devem competir para, com receitas próprias, completarem o orçamento de Estado". Parece atraente, está na moda, mas é disparate.

Como exemplifiquei, a asfixia orçamental actual refere-se em boa parte a despesas de pessoal. Por arrasto, e até porque são menos prementes, ficam por pagar os encargos de funcionamento. Podem ser compensadas com receitas próprias? O que são essas receitas próprias? Essencialmente, de dois tipos: propinas; e projectos de investigação ou contratos de prestação de serviços.

As universidades não têm meios para aumentar as receitas de propinas, porque elas são fixadas centralmente e porque a seu montante global depende do acesso, também regulado centralmente. aliás, há uma relação muito rígida entre orçamento de Estado e receita global de propinas, porque ambas estão indexadas ao número de estudantes. Quanto à possibilidade de as receitas de projectos pagarem vencimentos e electricidade, o ministro deve estar a brincar. São receitas consignadas. Que uma universidade se atreva a usá-las para outros fins e seca para sempre a torneira de Bruxelas.

21 novembro, 2007

Sem papas na língua (II)

Prometi que voltaria ao discurso de António Nóvoa, reitor da U. Lisboa, e em particular a duas suas afirmações polémicas. Começo por uma que deu maior brado: "O governo transfere anualmente para universidades norte-americanas, ao abrigo de acordos interessantes mas com contrapartidas reduzidas, verbas superiores às que transfere para algumas universidades portuguesas". À primeira vista, sou tentado a apoiar esta afirmação, mas admito que ela talvez tenha sido um pouco precipitada (mas até o Papa, lembram-se?).

AN talvez não tenha previsto que boa parte das críticas que esta afirmação suscitou são de difícil resposta. Não se baseiam em factos e números, são evidentemente desabafos ou pressões por tabela dos pequenos interessados deste país pequeno nas pequenas benesses dos tais acordos internacionais. Contra críticas dessas não há argumentos. Por outro lado, creio que ainda é cedo para se fazer um balanço objectivo dos custos-benefícios do chamado programa MIT. Desde já, parece-me que alguns indicadores são preocupantes. Há dias, li num jornal a notícia dos primeiros mestrandos e doutorandos inscritos no programa. Lamento não ter guardado o recorte e não poder citar exactamente o número, mas lembro-me de que era risível.

De qualquer forma, parece-me que o mais importante que AN quis dizer foi que há universidades portuguesas em estado de coma financeiro, com ou sem programa MIT. Muito poderia referir, mas, para não maçar o leitor, aqui ficam apenas alguns dados exemplares. Ainda falta um mês para o fim do ano e o pagamento de ainda outro mês de salários, o subsídio de Natal. No entanto, quatro universidades, Açores, Évora, Algarve e Trás-os-Montes, não têm verbas para essas despesas de pessoal, mesmo que deixem por pagar água, electricidade, telefones e tudo o mais.

É certo que este colapso financeiro pode ser mitigado pelos previstos contratos de saneamento financeiro, mas isto é abrir a porta a um financiamento discricionário, que não é nenhuma de duas modalidades aceitáveis de financiamento. Não é um financiamento objectivo por fórmula (contra o qual muito tenho escrito) nem é um financiamento valorativo e programático (que defendo).

Repare-se que não são quaisquer universidades. Uma é um instrumento decisivo do desenvolvimento de uma região muito especial, insular. Outra é a única universidade interior de uma populosa região, do Norte. As outras são as duas únicas universidades de todo o vasto território a sul do Tejo.

Pior é que, para 2008, os orçamentos previstos para oito das catorze universidades públicas portuguesas não cobrem sequer as despesas de pessoal. Novamente, para além de outras, são aquelas universidades as que continuam a ficar em situação muito problemática. No caso mais grave, dos Açores, o orçamento total só cobre 92% das despesas salariais.

Este quadro não admira, quando se vê que a dotação para 2008 aumenta apenas, nominalmente, de 0,68%. Não sei qual é a previsão da inflação, mas pode-se ter uma ideia pela proposta governamental de aumentar os salários da função pública em 2,1%. Se for assim, as universidades e politécnicos vão ter uma descida real de 1%.

Nota final - Chamo a atenção para que a afirmação de AN tem vindo normalmente truncada do que afirmou em sequência e que merecia boa reflexão: "Desenganem-se todos aqueles que acreditam ser possível plantar duas ou três escolas de excelência num terreno institucional degradado. A excelência não nasce por escolha nem por decreto, mas por boa sementeira em terreno fértil."

20 novembro, 2007

Ainda o rei e Chávez

Gosto de escrever quando a poeira já está a assentar, como acontece com o caso do "por qué no te callas?". Juan Carlos mostrou-se um rei arrogante, herdeiro de uma mentalidade colonial e imperialista? Ou fez o mínimo para simbolizar a dignidade do seu país perante um farsante? Afinal, há uma pergunta prévia: mandou ou não calar Chávez? Antes do mais, repare-se que a frase é uma interrogação, não uma intimação.

Se eu estiver numa reunião, se um amigo meu X estiver a interpelar, de forma importante, um senhor Y e este senhor Y estiver sempre a interromper X e a não o deixar falar, eu era bem capaz de dizer "Ó sr. Y, cale-se e ouça!". Afinal foi isto, contas redondas, e menos brutalmente, embora com incorrecção diplomática, o que fez Juan Carlos, quando Chávez estava a sobrepor-se a Zapatero. Basta ver o vídeo com atenção.

Será que estamos mesmo condenados a viver só metidos em "sound bites"? Já não conseguimos analisar objectivamente um acontecimento? Ou sou eu que, neste caso, estou a confundir objectividade com primarice de apreciação das "coisas"?

19 novembro, 2007

Engenheirando o futuro da engenharia

Na página da European Network for Accreditation of Engineering Education, (E.N.A.E.E.) encontrei um artigo muito interessante de Sebastião Feyo de Azevedo - intitulado "Technical Education - from London 2007 to Leuven/Louvain-La-Neuve 2009… and beyond" - no qual expõe, de uma forma excepcionalmente brilhante, uma sua visão do futuro das formações nesse domínio do conhecimento, e de que extraio os pontos que se seguem, sublinhando, propositadamente, um deles:
Our individual and local universe is larger and larger.
· Time and space concepts and dimensions have changed dramatically.
· The reference of whatever (quality, competition, etc.) is now Europe and the World, not our City or our Country.
· Standards must be high, inflexibly high, attitude holistic, mind flexible.
· The need is clear for a reference qualifications framework and for international recognition of quality assurance standards and procedures,
· A core group of disciplines, concerning basics and engineering, and of skills and competencies, should be recognized by consensus and implemented.
· A complementary group of elective advanced curricular modules should lead the student to work on frontier topics of engineering.
· External training, more practical ‘hands-on’ training is required for first-degree level. If possible in another Country.
· There must be an understanding that it is essential that Academia and Industry, in the European Space, co-operate offering each other aided-value, by accepting students for training (the Industry), by jointly designing pilot case studies, by providing theoretical background through courses (the Academia).
· Lifelong learning is the key concept to have the edge."
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Alguma coisa está mesmo em grandes mudanças no pensamento nacional e, pelos vistos, não é só a engenharia... AINDA BEM!

Tecnologias, inovações e mercados reais

Dá-me sempre muito o que pensar, quando leio artigos, como o que hoje foi publicado no Diário Económico online, subscrito por Luís Ribeiro, intitulado "Portugal perdeu 167 mil empregos qualificados".
A minha apreensão sobre o desemprego, em Portugal, cresce quando se recolhem opiniões de pessoas, referidas como especialistas, que nos a esclarecem com frases já lidas em cartilhas muito antigas.
Exemplos:
- "António Nogueira Leite, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa, considera que 'o mercado de trabalho não está à procura de qualificações muito elevadas e deixou de recrutar um conjunto de profissões mais ligadas ao ensino'".
- "Eduardo Catroga, empresário e economista, confere que há um 'desajustamento crónico' entre a formação das pessoas e aquilo que as empresas procuram."
- "Francisco Van Zeller, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), vai mais longe e assegura que só há criação significativa de emprego 'nas áreas onde o valor acrescentado é mais baixo', sublinhando que 'não há investimentos com escala' nas áreas mais inovadoras e de alta tecnologia pois faltam pessoas com qualificações à altura".
- "Paula Carvalho, economista do Banco BPI, observa que 'ainda estamos a viver os efeitos das más opções do passado'. 'É preciso que os jovens estejam a escolher agora os cursos certos no contexto da actual política económica para que no futuro este problema se esbata'."

Já que são especialistas e, supostamente, até podem consultar não só os livros do ramo mas, sobretudo, oráculos mais correctos, não poderiam tentar ser um pouco menos repetitivos de "verdades verdadeiras" e, também, serem muito mais explícitos e concretos?
A despeito da catástrofe do desemprego dos melhor qualificados, alegra saber sobre os outros que conseguem colocação: "Neste contingente estão os trabalhadores dos serviços às empresas (empregadas de limpeza e seguranças, por exemplo), vendedores, pessoal administrativo, agricultores, operários, manobradores de máquinas e trabalhadores não qualificados. "

Sobre os nossos problemas de qualificação, parece que alguns estrangeiros os conhecem melhor, desde antigamente, por exemplo, no ano passado, preto no branco, na sua publicação "Fostering human capital development in Portugal", Stéphanie Guichard and Bénédicte Larre põem um pouco o dedo na ferida, logo no primeiro parágrafo: "Narrowing the human capital gap vis-à-vis other OECD countries is essential for Portugal to improve its productivity and resume catching up" para, na página 11, referirem, a "bold": "Access to tertiary education remains also too limited and selective", e ainda acrescentarem: "but in Portugal, the selectivity of access is more severe than in many other countries and the participation of students from low socio-economic backgrounds remains particularly low, - e se ainda não estivermos convencidos juntam: "In Portugal, the proportion of higher education students' fathers who have achieved higher education themselves is 29% compared with 5% for the proportion of men of corresponding age in the general population (a factor of almost 6 to 1). In Germany and France, the factor is around 2 to 1. In Portugal, very few students (19%) already have work experience or have completed vocational training before starting tertiary education, compared with almost two-thirds in Germany (Eurostudent Report, 2005). "
Está mais ou menos tudo dito, ou não?
Parece que somos um povo que, globalmente, temos pouca formação e seria, por alavancarmos o padrão médio da formação da maioria de nós, que poderíamos, eventualmente, aspirar e aventurarmos-nos, mais tarde, com as tecnologias de ponta e as excelências....mas, nós não, preferimos iniciar logo por produções gigantescas de melancias cúbicas, porque fazem outra vista em mercados, virtuais ou não, de frutas e legumes e parecem proporcionar melhor arrumação...

Juízes que me metem medo

Nota prévia: sou virologista e creio honestamente que sei do que vou falar.

Estou atónito com o caso que hoje faz destaque no Público. Pela segunda vez, primeiro num tribunal de trabalho agora na Relação, um homem vê negada a sua razão. Portador de HIV, cozinheiro de profissão, foi despedido por representar um perigo para a saúde pública. O caso tem aspectos graves que mereciam discussão, como seja a inconfidência de um médico de trabalho ou a arrogância de declarações em tribunal de um médico generalista, sem conhecimentos científicos mínimos sobre esta situação. Mas vou ficar-me pelos juízes.

Fala-se da debilidade do nosso sistema judiciário. Más condições, excesso de trabalho, instalações degradadas, burocracia exagerada, demoras, tudo é verdade, mas nada se compara ao medo que eu sinto, como cidadão, perante a possibilidade de um dia vir a ser julgado por pessoas destas.

Um juiz não é um enciclopédico. Por isto há peritos, pareceres, documentos científicos. Mas o que o juiz obrigatoriamente tem de ter é o rigor intelectual e a mentalidade científica mínima que lhe permitam passar da opinião técnica para a decisão jurídica. Este caso é a demonstração mais eloquente de que isto pode não acontecer.

Um documento científico diz, com objectividade, que o HIV pode estar presente na saliva ou no suor. Os juízes valorizaram isto, juntamente com o tal depoimento, para decidirem que o cozinheiro podia chorar, cuspir ou suar sobre a alface e que qualquer pessoa com uma ferida na boca poderia ficar contaminada. É verdade. Mas tão verdade como eu dizer que um dos juízes podia estar sentado na retrete no momento em que houvesse um terramoto que abrisse uma brecha na sua casa de banho e o fizesse sumir-se pelo esgoto. Teoricamente, era possível. E merecia!

O que é grave, intelectualmente e como questão de confiança na justiça, é que esses juízes se arvoraram o direito de aproveitar apenas um dado científico factual mas sem significado prático, valorizando-o em absoluto contra tudo o que logo vem a seguir nesse relatório (do CDC dos EUA, provavelmente a maior autoridade mundial em doenças infecciosas): a concentração do vírus nesses fluidos orgânicos é diminuta e certamente incapaz de permitir a transmissão, que, nestas circunstâncias, nunca se verificou em extensos estudos científicos. Já agora, se algum desses senhores gosta de beijar (para não ir mais longe...), desaconselho-o...

Estes juízes são ignorantes sobre HIV. É natural. Pior é que fazem gala de continuar a ser ignorantes mesmo quanto lhes propiciam documentação elucidativa.

Reitores e reitores

Falei há dias de exemplos de uma nova geração de reitores, como António Nóvoa. Infelizmente, não há bela sem senão. Pedro Telhado Pereira (PTP), reitor da U. Madeira, o tal de uma triste história de demissão da equipa reitoral que causou uma grande crise na universidade, volta a dar que falar, agora a propósito das eleições para a assembleia estatutária. A história vem toda contada no DN/Madeira, de 15.11.2007, mas resumo.

PTP fez um brilharete, convidando para presidir ao processo eleitoral uma figura com a qual até nada tenho a ver mas que merece respeito, o deputado Guilherme Silva, vice-presidente da Assembleia da República e também consultor da U. Madeira. Houve três listas e a vencedora até foi a patrocinada pelo reitor (um dos casos de que falei de interferência abusiva de reitores). No entanto, PTP não resistiu (é a sua natureza) a vir a público, em edital oficial, protestar contra irregularidades graves praticadas por Guilherme Silva. Este, obviamente, reagiu e parece considerar a hipótese de cortar relações com a universidade da sua terra.

Mais surrealista é que PTP, ao mesmo tempo que fez todas as críticas duras que fez, sancionou como regulares e impecáveis os resultados eleitorais. Pudera, resultaram-lhe em vantagem. A quem é que está entregue a U. Madeira? E, segundo a versão final do RJIES e as suas condescendências, essa personagem pode manter-se como reitor mesmo depois da grande mudança imposta pela nova lei.

A história não vai ficar por aqui. Guilherme Silva acabou por ser cooptado como membro externo da assembleia dos estatutos, que vai ser presidida pelo reitor. Ainda me vou divertir (admito que com humor negro, que os meus amigos madeirenses não merecem).

Nota - E será verdade que, sendo ainda reitor, PTP tem feito grandes diligências para arranjar um lugar de professor numa universidade do continente? Não quero crer! Ou então, que me desculpem os meus bons amigos co-ilhéus do outro arquipélago, é mesmo caso para perguntar "já chegámos à Madeira?"

Aeroporto e TGV

Fiquei um pouco confuso com a polémica recente acerca do traçado do TGV e as suas relações com o futuro aeroporto. Admito que a questão do TGV afecte marginalmente, em termos de custos globais, a opção quanto ao aeroporto, mas parecem-me, no fundo, dois assuntos distintos.

Afinal, a RAVE também já está a estudar um acesso a Alcochete, por ramal. Fico com a impressão de que isto é discussão lateral, sem querer mencionar a questão principal, a da localização do aeroporto. Fico também com a impressão, talvez precipitada e injusta, de que todo este "estudo da CIP" é bastante tosco.

Não percebo esta ânsia de ligação dos dois assuntos, aeroporto e TGV. Por quase toda a parte por onde viajo, há boas ligações ferroviárias ou de metro, rápidas e muito frequentes, entre o aeroporto e o centro da cidade (não com Gares do Oriente na periferia). Em alguns casos, como Bruxelas, Frankfurt ou Milão, a linha ferroviária é dedicada. Noutros casos (Estocolmo, Roma, Madrid), são autocarros com percurso rápido por auto-estrada. O que não vejo, por exemplo em Paris ou Madrid, é ligação ao aeroporto por TGV.

18 novembro, 2007

Nota gastronómica (XL)

Arroz de linguiça e repolho

Escrevi há tempos uma nota sobre ingredientes açorianos. Hoje lembrei-me disso, a propósito de um almoço muito simples, prato banal de dia-a-dia apressado em casa dos meus pais.
1,5 chávenas de arroz carolino, 2 linguiças, 1 cebola grande, 3 dentes de alho, 250 g de repolho, 1 tomate grande ou 2 c. sopa de polpa de tomate, 1 dl de azeite, 3 cs de banha, 1 folha de louro, sal, pimenta preta moída, 4 grãos de pimenta da Jamaica, 1 c. sopa de massa de malagueta. 1 c. sobremesa de massa de pimentão ou 1 c. chá bem cheia de colorau, 3 chávenas de água.

Aquecer o azeite, juntar o repolho ripado e dar bastantes voltas, durante 2 minutos. Retirar e reservar o repolho, escorrido. Picar a cebola e o alho e refogar no azeite, só até quebrar. Acrescentar o tomate picado grosso, a folha de louro, a massa de pimentão, a malagueta, sal, pimenta preta e a pimenta da Jamaica esmagada. Estufar a lume baixo, até tudo estar bem desfeito e esmagar. Cortar a linguiça aos cubos grosseiros, fritar ligeiramente na banha, durante meio minuto a lume forte e escorrer. Voltar a aquecer a tomatada com o repolho. Acrescentar a linguiça, com parte da banha. Juntar o arroz, muito bem lavado, e saltear até ficar translúcido. Acrescentar a água e cozer, a lume médio, durante 12 minutos. Apagar o lume e manter a panela tapada, durante mais 2-3 minutos, até o arroz estar bem cozido e relativamente seco.

O que tem isto a ver com os tais ingredientes açorianos? Tudo. O repolho, como disse, é diferente, em textura e sabor. Recebi-o como oferta fraterna e até foi o motivo para fazer este petisco. No entanto, não vou ser muito exigente, creio que só um gosto açoriano treinado é que notará logo a diferença. Já a linguiça, essa sim. Felizmente, ainda a tinha congelada desde uma última viagem. Note-se, à margem, que a congelação a torna um pouco encarquilhada e acastanha um pouco a cor vermelho vivo. Aceitando alguma dose de sentido prático, teria usado um bom chouriço de carne alentejano se não tivesse a linguiça (mas nunca linguiça continental). Pior é a massa de malagueta. Substitui-la é problema que nunca se me põe, porque a tenho sempre em casa, mas já sugeri, como aproximação grosseira, a pimenta da Caiena.

Não fumador

Deixei passar ontem sem nota uma data importante, corrijo hoje: o dia do não fumador. Fez exactamente um ano que deixei de fumar. Não o registo como sinal de qualidade minha, muito pelo contrário. Não se espera pelos 62 anos para se deixar de fumar, mas mais vale tarde do que nunca. Deixo aqui registo do feito apenas como alento a quem queira fazer o mesmo. Espero que ontem, ao simbolizarem o dia, tenham sido muitos.

17 novembro, 2007

Indisciplina no Ensino Superior

É comum ver discutidos na praça pública questões relacionadas com a indisciplina e mesmo violência em escolas dos ensinos básico e secundário. Sobre esta questão já foram escritas todas as teses, desde os que defendem o reforço da autoridade do professor, sem nunca explicitarem de que forma é que essa autoridade poderia ser implementada, até aos que apontam causas externas à escola, em particular os meios socioeconómicos desfavorecidos dos quais são provenientes a grande maioria dos alunos mais problemáticos.

O que parece ser fenómeno novo é que a indisciplina começa a chegar ao ensino superior. Este ano leccionei pela primeira vez aulas a alunos do 1º ano e tenho vindo a notar uma alteração no comportamento dos alunos face aos que ensinava em anos anteriores, normalmente do 3º e 4º anos. Verifico ser crescentemente vulgar os alunos enviarem SMS uns aos outros e um ruído de fundo mais ou menos permanente advindo de conversas laterais que abafam a minha voz. Já tive que interromper diversas vezes as minhas aulas para pedir um pouco mais de silêncio e de verificar, no final, que as minhas cordas vocais acusavam o esforço.

Recentemente, no decurso de uma visita de estudo, estávamos a percorrer uma determinada área geográfica num autocarro e um professor convidado de uma outra universidade encontrava-se a fazer uma palestra muito interessante sobre os locais percorridos. Uma vozearia permanente e irritante fez-me levantar e dirigir-me a um grupo de alunos que se encontrava a falar alto, uns levantados dos seus lugares, como se de uma festa se tratasse. Disse-lhes que não estavam na escola primária para se comportarem daquela maneira e que exigia respeito para o professor convidado que gentilmente se disponibilizou a acompanhar-nos. O silêncio foi restabelecido.

Este tipo de comportamentos já foi analisado pelo Conselho Pedagógico da instituição de ensino superior no qual trabalho. Outros professores queixam-se de comportamentos semelhantes. Dois colegas de uma outra faculdade disseram-me que já se viram obrigados a convidar alunos a sair das suas aulas pelo facto de sistematicamente perturbarem o normal funcionamento das mesmas.

O ensino superior parece ter entrado definitivamente na fase da massificação que os ensinos de níveis inferiores já conhecem há muito mais tempo. Por agora só temos indisciplina. Chegaremos à fase da violência sobre docentes?

A Igreja portuguesa

Estive para escrever sobre isto na altura devida, mas a agenda estava cheia. Vem hoje a propósito da nota de Vasco Pulido Valente no Público. As declarações públicas do Papa sobre a igreja portuguesa surpreenderam-me. Parecem uma reprimenda, para toda a gente ouvir, sobre tema interno e delicado da Igreja. Não sei interpretar essa publicidade, tão ao arrepio da "sabedoria" vaticana. Alguém tem um palpite?

16 novembro, 2007

Revivendo uma história triste

Fernando Mora Ramos escreve hoje no Público um artigo tocante sobre o caso de uma jovem afectada pela variante da doença de Creutzfeld-Jakob (nv-CJD), a doença transmitida ao homem como variante da "doença das vacas loucas". Tocante mas com muitos erros e algumas injustiças. Diz que "os serviços de saúde portugueses reagiram muito tarde aos avisos e as medidas efectivas vieram apenas dois anos depois de o perigo estar em acção".

Não é verdade e posso afirmá-lo com a certeza de ter estado na primeira linha desta discussão desde o primeiro minuto. Por um lado, é certo que, irresponsavelmente, as medidas foram muito tardias, até mais do que os referidos dois anos. Em contrapartida, não há responsabilidade dois serviços de saúde.

Começo por chamar a atenção para que este problema sempre foi, simultaneamente, um problema de sanidade animal, de economia pecuária, tudo no âmbito do Ministério da Agricultura (MA) e só indirectamente um problema de saúde pública, a cargo do Ministério da Saúde (MS). O comportamento destes ministérios foi desencontrado e mesmo contraditório.

Em 1990, se não estou em erro (ou 1991?), o meu colega Alexandre Galo denunciou o aparecimento de poucos casos de "doença das vacas loucas" (BSE) em Portugal. O MA, Arlindo Cunha, desmentiu-o e negou-se a tomar as medidas mínimas de protecção, como fosse, liminarmente, a proibição de uso de rações contendo farinha de carne e ossos ou outros produtos de origem animal. Foram adoptadas só em 1994, silenciosamente e por imposição europeia, um ano antes de, finalmente, já no governo Guterres, se ter declarado honesta e oficialmente que a doença bovina existia mesmo em Portugal.

No entanto, é injusto culpar por este atraso os serviços de saúde. Nessa altura, e mesmo em Inglaterra onde o problema era dramático, era considerado apenas um problema de sanidade animal, no âmbito dos serviços de veterinária. Por isto, insisto, o culpado, mesmo que não consciente e dolosamente, ficará para a história com o nome de Arlindo Cunha, ministro do governo de Cavaco Silva.

Nessa altura, fui contactado com muita frequência para entrevistas e sempre alertei para o facto de, cientificamente, por menor e incerto que fosse o risco para a saúde humana, ele não era negligível. Defrontei-me então com a animosidade dos interesses económicos, quase fui chamado de traidor à pátria porque havia a ameaça, que depois se verificou, de um boicote às exportações de carne portuguesa. No entanto, tentei sempre difundir uma mensagem de bom senso e adequada aos conhecimentos de então: havia que proibir imediatamente o consumo de alimentos de risco, nomeadamente a mioleira, mas que nada indicava que a carne limpa fosse perigosa.

Tive então grandes dificuldades com o MA. Houve um episódio de que muitos se lembrarão. Gomes da Silva foi a Bruxelas e tivemos, logo de manhã, uma longa conversa, com troca de faxes, em que lhe fiz o "briefing" que podia. Por coincidência, fui um participante destacado, nesse dia, de um forum da TSF e arrisquei-me a fazer a previsão de que o ministro iria anunciar nesse conselho comunitário que Portugal iria tomar imediatamente as medidas adequadas e que, claro que não disse, eu tinha discutido com ele. Para meu espanto, a TV mostrou à noite o ministro a deliciar-se ao jantar com mioleira, por encenação do director-geral, figura de quem, felizmente, já não recordo o nome.

Muito pouco depois, revelou-se a atitude oposta de Maria de Belém Roseira, MS. Constitui-se então uma comissão oficial de acompanhamento e aconselhamento do governo, coordenada por José Cortês Pimentel, um reputado neuropatologista e a que eu pertenci. Foi bem a tempo, porque quase a seguir surgiu a notícia do aparecimento, em Inglaterra, dos primeiros casos da nv-CJD, com forte suspeita de serem devidos a transmissão ao homem da BSE, hipótese que, rapidamente, se veio a confirmar.

A partir deste momento, pouco de negativo há a apontar à acção legislativa e prática do governo. As críticas que eu poderia fazer são demasiadamente técnicas para terem aqui cabimento. Mais vale salientar que não houve depois, nesta última década, casos de bovinos doentes e já nascidos depois das medidas de controlo que então foram propostas e prontamente adoptadas pelo governo. Ainda me lembro do que foram as horas de trabalho intenso na João Crisóstomo, para elaboração da legislação.

Por razões que seria difícil explicar ao leigo, nunca tivemos dúvidas de que havia uma forte probabilidade de, por esta altura, virem a aparecer casos de nv-CJD em Portugal. Já há dois e poderá haver mais um ou outro, embora certamente em número reduzido, se extrapolarmos os dados ingleses. Mas o que é essencial deixar claro é que, dado o longo período de incubação da doença, há quase total certeza de que estes casos se devem aos anos de incúria criminosa que referi, ao período em que o governo e essencialmente o MA de então silenciou a situação da doença bovina em Portugal. A partir do momento em que a comunidade científica envolvida no assunto, com apoio do MS e, menos, do MA, tomou posição, propôs medidas que conduziram a um controlo muito eficaz da doença bovina, reduziu-se consideravelmente o risco de transmissão ao homem. Mas o mal já estava feito.

Nota - Não se confunda a nv-CJD, a versão humana da BSE e adquirida por ingestão de produtos bovinos infectados (insisto, não a carne limpa e em peça!) com a doença de Creutzfeld-Jacob convencional, exclusivamente humana, uma doença degenerativa muito rara, de velhos, e de causa ainda não inteiramente conhecida, mas certamente totalmente alheia à BSE.