11 abril, 2008

Ai, as mães...

Não sou muito de usar o truque das remissões para outros blogues, sítios ou YouTube quando falta a inspiração. Mas desta vez vale a pena ouvir esta divertida versão semicantada da abertura do Guilherme Tell. Nunca nenhum de nós ouviu a nossa mãe a dizer aquilo?

10 abril, 2008

Gestão de "fitness", nutricionistas financeiros precisam-se!

O gestor do blog 'Universidade Alternativa' (JCR) sob este título: Desenfastiando: 'what else'? - v2 , recorda-nos, hoje, de forma muito interessante, um 'post' super-bem imaginado do emigrado Alexandre Sousa (blog Co-Labor) e dá-nos conta do estado geral das nossas preocupações com aquela velhíssima questão - "gatos gordos ou magros e cercas de malha estreita" - aplicada à (ausência absoluta) de gestão do Ensino Superior Português.
O 'post' de JCR enfatiza a ausência de uma necessária e urgente política de gestão de "fitness" das instituições, de que os responsáveis máximos - Ministério e Organizações de Gestão de Topo do Ensino Superior Público Português - teimam em manter-se à margem.
Os dados do problema parecem ser simples - quer nos agrade ou não, o 'maioral' - estado (não o governo) Português - não tem possibilidades de manter as taxas de arraçoamento financeiro, e isto só pode ter uma consequência possível - a racionalização estratégica - estabelecer um prazo e uma ideia perfeitamente consensual e clara do 'fitness' a atingir, e fixar e uma 'Engenharia de Ementas' a condizer, mas maximizando a eficácia e minimizando prejuizos.
Não o fizémos nunca, até agora, pior, parece que nem o queremos fazer, e enquanto isso:
As vacas gordas e balofas pretendem, continuar 'Ad Eternum', a acumular enxúdias e, ao que me parece, são totalmente correspondidas, enquanto que as vacas 'esbeltas' (já anoréxicas) são inexoravelmente conduzidas ao magarefe, transformando-se em assentos (aliás, pouco confortáveis) das primeiras, sem se perceberem bem as últimas intenções, que não sejam estas mesmas.

09 abril, 2008

Religião em segredo

O Público já de há alguns dias trazia uma notícia que pode ter passado como coisa menor mas que me fez pensar. Obama foi provavelmente penalizado pelas declarações sempre “vivas” do pastor principal da sua igreja. Mas Hillary Clinton, mais discreta, também tem que se lhe diga em matéria religiosa.

Não é que eu ache que as opções religiosas de cada um interessem para a campanha eleitoral, embora eu não votasse num candidato de uma seita esotérica irracionalista, mas isto é o meu direito de votar como quiser.

O caso Hillary é diferente. Segundo a notícia, desde estudante que pertence a um “grupo de oração”, discreto se não secreto, “informalmente ligado a uma estrutura fechada que pretende ganhar o poder para Deus, segundo a descrição de um artigo do ano passado da revista Mother Jones, agora relembrado por comentadores como Barbara Ehrenreich, na revista The Nation.” Até está organizado por células, havendo uma no Congresso a que, supostamente, Hillary pertence.

“Caracterizada pelo seu secretismo, a associação tem apenas um evento público, um pequeno-almoço de oração. Segundo a Mother Jones, "a Família" acredita que a elite deve obter o poder para Deus, que o usará para os seus propósitos.”

E eu a pensar que Opus Dei era coisa exclusivamente católica! É bom é que Hillary estude um pouco essa experiência, para evitar maus serviços a Deus como aconteceu no BCP.

07 abril, 2008

Internos e externos nas universidades

Não sou membro de nenhuma assembleia estatutária (AE) de universidades e vicissitudes de saúde nos últimos tempos têm-me impedido de seguir o processo. Não fosse só isto, ainda mais fica prejudicada esta nota por não dispor de dados objectivos dignos de análise. Não gosto de falar baseado em impressões subjectivas, mas às vezes é importante, como provocação ou como alerta.

Um amigo meu é membro da assembleia estatutária da sua universidade e escreveu-me preocupado com o que se estava a passar. Começo por lembrar que a AE inclui cinco membros externos e 12 professores, eleitos por sistema proporcional, por listas, para além de estudantes. Este sistema proporcional está, ao que sei, a constituir um factor perturbador, porque em muitos casos as listas eram muito conotadas (por exemplo, pró-reitor ou anti-reitor) e esta oposição está a prolongar-se para os trabalhos estatutários, prejudicando-os. 

Ao mesmo tempo, diz-me este amigo saber que cada vez mais os externos estão a abandonar as AE. Procurei confirmação, que, no essencial, é real. Não se trata tanto de abandonos formais, com demissão, mas de cada vez maior demissão de facto, por desinteresse, por invocação de falta de disponibilidade mas, segundo juízos que considero agudos, em boa parte para evitar compromissos com as guerrinhas entre os membros internos. Isto é muito mau prenúncio para o modelo de governação partilhada agora legislado e que eu claramente defendo.

No entanto, com preocupações. Todavia, não coincidentes com as dos que têm levantado objecções à participação dos externos, muito pelo contrário. Há meses, José Ferreira Gomes e eu fizemos uma ronda de conferências na Universidade dos Açores. Um alerta que ambos lançámos era premonitório: “Cuidado é com os internos!”

Nota - Nos EUA, nos “boards” e na participação de externos, têm grande peso os “alumni”, os antigos alunos, numa cultura em que se fica para toda a vida ligado à “alma mater”. Não sei se alguma universidade portuguesa teve isto significativamente em conta. Alguém me fornece dados informativos?

05 abril, 2008

Terrorismo ou luta libertadora?

Vem hoje no Público um artigo do seu colunista habitual, António Vilarigues, sobre quem escrevi há dias uma nota. Com a sua experiência e conhecimentos de Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação, como se intitula, discorre, entre outras coisas, sobre o terrorismo, “que não se identifica com a luta libertadora dos povos. Mesmo quando esta, em em situações concretas, assume justa, necessária e corajosa expressão armada”. Dá o exemplo dos movimentos de libertação das colónias. Inteiramente de acordo.

Mas, fora isso, quais são as tais condições concretas? É terrorismo ou é luta libertadora que as FARC tenham reféns presos anos e anos? É terrorismo ou é luta libertadora que um palestiniano com um cinto de explosivos faça ir pelos ares dezenas de civis numa praça de Jerusalém (a intifada sim, foi outra coisa, contra militares)? É terrorismo ou luta libertadora o assassinato de autarcas e outros civis pela ETA?

Como disse na nota a que me referi, considero que Vilarigues é um divulgador não oficial das mais ortodoxas posições do PCP. Será erro meu nunca ter visto do PCP uma resposta às perguntas que fiz? E já agora, recuando nos tempos e porque para o PCP há sempre dois pesos e duas medidas, qual foi a sua atitude em relação às FP25? Lembram-se?

04 abril, 2008

À espera de um outro aquecimento global

Estamos ou não no bom caminho?

Mas, enquanto os meus caros e raros leitores - tal como a maioria dos nacionais residentes - esperam pelo verão e aguardam o fim da sesta e dos sonhos, dos responsáveis pela Educação Superior em Portugal, podem ir lendo este copyrigthed material, generosa, desinteressada e gentilmente disponibilizado, pelo ISCTE (a public university based in Lisbon):

http://oecd-conference-teks.iscte.pt/OECD_vol1.pdf
http://oecd-conference-teks.iscte.pt/OECD_vol2.pdf
http://oecd-conference-teks.iscte.pt/OECD_vol3.pdf

Vá lá...Boas leituras, ... mas, depois, não sejam mauzinhos,...contem-me.

03 abril, 2008

Ensino profissionalizante

Referi-me há dias a um artigo do público sobre Bolonha. Incluía uma coisa importante mas que, infelizmente, ainda não está na agenda de Bolonha, o ensino terciário pré-grau, curto, essencialmente profissionalizante. Entre nós, é representado principalmente pelos CET, os cursos de especialização tecnológica.

Este tipo de ensino é um pilar fundamental do sistema educativo americano, o dos cursos dos “junior” ou “community colleges”, de 2 anos, excepcionalmente 3, orientados para a inserção imediata no mercado de trabalho mas com uma diversidade de percursos que permite a muitos alunos que o completam prosseguirem estudos universitários.

O Reino Unido foi um triste exemplo da importância deste tipo e nível de educação. Quando a Sra. Thatcher resolveu transformar os institutos politécnicos em universidades, criou-se um vazio. Os cursos aumentaram de duração, reduziu-se a procura, embora moderadamente, e, pela tendência para a deriva académica, muitos institutos passaram a imitar universidades, perdendo-se a sua vocação directamente profissionalizante. Anos depois, o mercado de trabalho passou a reclamar contra a falta dessa mão de obra com grande “know how”, de sentido prático, e os actuais “colleges for further education”, com os seus “foundation degrees”, têm hoje grande sucesso. Os seus estudantes já são 18% do escalão etário. Mesmo assim, ainda longe do recordista, o Japão, com 27%.

Na média dos países da OCDE, este ensino terciário profissionalizante abrande cerca de 9% dos jovens do respectivo escalão etário. É certo que ainda está longe dos 36% do ensino superior tradicional. Mas isto não justifica a satisfação mostrada pelo ministro, segundo o tal artigo do Público, por, em Dezembro de 2007, já estarem inscritos 4000 alunos em CET. Uma gota de água. Ao menos, o ministro diz uma coisa que me agrada, que a maioria dos CET estão a ser oferecidos por institutos politécnicos. Já muitas vezes escrevi que entendo que é essa uma das suas janelas de oportunidade e que seria uma aberração (coisas do financiamento) vermos as universidades a oferecer CET.

(OCDE, Education at a Glance 2007)

02 abril, 2008

spearfishing interesting news

Meus caros e raros leitores, como ando para aqui noutros afazeres, só tive tempo de pescar.
Deixo o amanhar do peixe convosco.
Trata-se de um evento previsto, com pompa e circunstância, para dia 4 de Abril de 2008: "O Ensino Superior na Sociedade do Conhecimento" - OCDE divulga em Lisboa Estudo Comparativo que analisa as Reformas realizadas em Portugal nos últimos dois anos.

Fui "pescar" um "Overview do Report", à origem, aonde estava pendurado desde ante-ontem.
Aqui está ele, se tiverem um tempinho sobrando, façam uma leitura de ante-estreia e, depois, contem-me... 'Tá bem?
"The Report Tertiary Education for the Knowledge Society rovides a thorough international investigation of tertiary education policy across its many facets - governance, funding, quality assurance, equity, research and innovation, academic career, links to the labour market and internationalisation. Its specific concern is policies that ensure that capabilities of tertiary education contribute to countries’ economic and social objectives. The report draws on the results of a major OECD review of tertiary education policy - the OECD Thematic Review of Tertiary Education - conducted over the 2004-08 period in collaboration with 24 countries around the world."
....

30 março, 2008

Bom senso

Esteve há dias em Portugal Hung-Hsi Hu, professor da Universidade de Berkeley, membro do National Mathematics Advisory Panel, que aconselhou recentemente o governo americano sobre a reforma do ensino da matemática no equivalente aos nossos ensinos básico e secundário. Entrevistado pelo Público, respondeu como se segue à pergunta "que recomendações daria aos Governos portugueses?"

"É preciso que os educadores trabalhem em conjunto com os matemáticos, desde que estes tenham a humildade de aceitar que o ensino nas escolas é complexo. As decisões não podem ser deixadas apenas a quem mal percebe de Matemática. Segundo: concentrem todos os esforços em arranjar bons professores."

"So simple, elementary!" Magistral!

29 março, 2008

"Governances" pessoais

Depois de alguns anos, hoje, revi uma pessoa minha conhecida, contadora de casos e, como não podia deixar de ser, fui uma ouvinte bastante divertida das histórias que só acontecem a alguém como ele.
Em relação, a um dos contos, acabei por me sentir, como dizer? Intrigada? Ambivalente? Bom,... Não sei,... Resolvam os meus caros e raros leitores, como se sentiriam, depois de saberem isto:
Trata-se de uma pequena narrativa, que vou tentar recontar-lhes ao preço de custo:
Um pastor de ovelhas e cabras montanhesas, passava a vida com o seu modesto rebanho de um lado para o outro, subindo e descendo morros e valados.
Nos seus caminhos, via com frequência quase diária, fizesse chuva sol ou neve e durante um bom par de anos, um rapaz equipado de botas de montanhismo, um variado sortimento de aparelhómetros electrónicos, e ferramentas diversas que incluíam duas bengalas de escalada e uma pequena enxada e, permanentemente, hiper-carregado com uma mochila atafulhada de pertences, da qual transbordavam, em equilíbrio perigosamente instável, uma máquina fotográfica e um portátil sem fios.
De espaço a espaço, sob as copas das árvores, o rapaz construía cuidadosamente uns montinhos de terra e de folhas caídas, que marcava com umas espias, fotografava e anotava muitas informações, num mapa que iluminava o monitor do seu computador.
Periódica e sistematicamente, desfazia os montinhos, separava e recolhia amostras, que embalava cuidadosamente e, derreado, transportava tudo de volta ("via-se mesmo" que era a duras penas) até desaparecer no horizonte, ou por trás do morro mais próximo.
Tempos a tempos, repetia as suas intermináveis tarefas que, aos olhos do pastor, lhe pareciam já ritos, ou penitências de uma crença estranha, muito mal resolvida. Terminava os dias a parecer que queria que outros começassem logo, para fazer tudo de novo. Mês atrás de mês, assim se repetiam as lides do observador (o pastor) e do observado (o rapaz).
Um dia, o pastor não resistiu, e aproximou-se do rapaz, e - entre a oferta e a partilha de um naco de queijo, de um gole de vinho e de um cigarrito de enrolar - à queima roupa, tiveram o seguinte diálogo:
[Pastor]: Que mal lhe pergunto companheiro, o que faz o senhor, sempre tão aperreado, aqui, nestas paragens a que não pertence, para se castigar assim tanto.

[Rapaz]: Estou a cumprir as tarefas de um projecto de investigação, pagam-me para isso, lá na capital, e serei obrigado, a dar resposta ao tempo de degradação das folhas destas árvores, nesta região, por causa de garantirmos um desenvolvimento sustentável da mata.

[Pastor]: Quer, então dizer, que o meu amigo consegue governar a sua vida assim?
Qualquer um aqui, sabe disso!
Todos aqui da zona sabem e circulou o braço, circunscrevendo o rebanho no "know-what", que essas folhas aí desaparecem, no máximo, em 3 anos! ....2 anos e picos, se os invernos, forem brandos...'tá aí um dinheiro, tempo, saúde e feitio bem empregues...

Notas soltas

Contra o que tenho criticado a outros, hoje vão só dois "sound bites" suscitados pela leitura do jornal.

1. Há uns anos, Jaime Gama, na Assembleia da República chamou a Alberto João Jardim, a meu ver muito bem, o Bokassa da Madeira. Ontem, no Funchal, afirmou que ele era "um exemplo supremo na vida democrática do que é um político combativo". Será que é o mesmo Jaime Gama da nossa juventude?

2. Vai ser sequenciado o genoma do sobreiro. Boa ideia, de previsíveis consequências práticas muito importantes para nós. Ficam da notícia é coisas que não percebo. Vão ser sequenciadas 100 milhões de bases, quando o genoma tem pelo menos dez vezes mais. O projecto, para três anos, envolveria cerca de 200.000 operações de sequenciação, uma por dia e por máquina, ou seja, em 300 dias por ano, 600 máquinas em simultâneo. Só isto custaria qualquer coisa como 50.000.000 euros só em equipamento, mais uma verba muito considerável para mão de obra e reagentes. A notícia diz que o financiamento pedido para o projecto foi de 100.000 euros. Bate certo ou alguém está a enganar alguém?

28 março, 2008

Nota gastronómica (LIII)

Tapioca, sagu, pérola

Adrià, entre muitas outras coisas, introduziu-nos no hábito das espumas e do sifão, esquecido já depois da época da soda water, e de que falarei um dia destes. Agora criou moda, merecida, com a sua imaginativa e versátil técnica da esferificação. Essencialmente, tudo o que imaginarmos, carnes, peixes, legumes, liquefeitos, pode ser convertido em pequenas esferas, tipo caviar. Claro que a variedade de sabores e de cores é imensa.
Nem parece muito difícil. É acessível a um bom cozinheiro, desde que obtenha o ingrediente essencial, uma espécie de gel extraído de algas, o alginato. Tudo bem misturado a quente com o que se quer comer, combinado com um sal de cálcio, refrigerado e adicionado com aparelho próprio ou até com uma seringa a um óleo, formam-se esferas que contêm qualquer líquido ou pasta que se queira e que depois nos rebentam de sabor, ao trincá-las. Nem é novidade o uso do alginato, já clássico para a indústria dos sumos de fruta e dos sorvetes, para aumentar a espessura, bem como em alguma pastelaria de pudins e coberturas de bolos. Até a indústria cervejeira o usa, para estabilizar a espuma. E até já há quem o consiga com o vulgar agar (vídeo referido no blogue "O avental do gourmet"). Não posso é dizer mais nada, porque precisarei de experimentar a técnica, concentrações, temperaturas, tempos, a final o essencial em qualquer técnica de cozinha.

Isto fez-me lembrar uma outra forma de esferificação que uso, mais limitada mas mesmo assim versátil, usando um produto natural, coisa corrente em casa dos meus pais. Canja e caldo de carne eram muitas vezes clarificados, em bom consomê e acrescentados de massa pérola. Não dava muito sabor, mas o efeito visual era magnífico. Foi coisa que praticamente desapareceu, a massa pérola, nem nos Açores já há, mas compra-se aqui em algumas lojas dietéticas como sagu (não confundir com um prato de vegetais indianos e coco ralado, com o mesmo nome) ou tapioca.

Não são exactamente a mesma coisa, mas na prática são quase equivalentes. Em ambos os casos, são pequenas esferas, brancas e opacas, de uma massa dura. São ambos produtos secos e comprimidos de amido, o sagu proveniente de uma palmeira do sueste asiático, a “sago palm”, no segundo caso a tapioca da mandioca. Julgo que hoje praticamente só se vende a massa de tapioca. A característica comum é a de, cozidas as pérolas, ficarem inchadas e transparentes, absorvendo o líquido em que ferveram. Em casa dos meus pais, era o próprio consomê, mas pode haver variantes bem mais imaginativas.

Essencial é que as esferas demolhem pelo menos meia hora, de preferência em líquido morno. Pode ser simplesmente em água, mas pode-se ir logo dando um toque de sabor e cor usando outras coisas mesmo nesta primeira fase. Depois, cozer no que se quer, pelo menos meia hora, mas o critério absoluto é que as esferas fiquem inchadas e completamente transparentes. Às vezes, pode ser preciso mais do que a tal meia hora.

Versão simples, como disse, só decorativa, cozer no caldo, o meu hábito de menino. Mas há tudo a imaginar. Contrastar cor e sabor? Inchar e cozer em compota diluída em água ou, mais intenso, num achar ou em compota de malagueta. Contrastar cor mas sem doce? Verde com um caldo muito concentrado de espinafres, roxo com couve roxa ou beterraba, vermelho com tomate, tudo bastante concentrado. Contrastar só sabor? Um consomê de galinha com pérolas cozidas em caldo de marisco muito concentrado. Ou então, já agora, um consomê de galinha com ovas de salmão. Aves e marisco, coisa estranha? Ainda hei-de escrever mais sobre isto.

26 março, 2008

A minha chegada à "nossa" Bolonha via Rua Sésamo



Ah, meus caros e raros leitores, é uma vergonha para a família, mas eu confesso que não percebi! As explicações, para mim, têm que ser dadas muito mais devagarzinho.
No dia 21 de Março, li esta headline numa notícia "bombástica" no Correio da Manhã:
"Licenciados automáticos - Cerca de 1400 bacharéis de cursos de Engenharia obtiveram administrativamente o grau de licenciado, no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra..."
Os escrevinhados, continuavam, continuavam, continuavam, como podem ler com os vossos próprios olhos.
Além disso, começou a correr na blogosfera, não só a notícia "bombástica", como ainda a divulgação de um mau estar nos meios académicos (???).... Por acaso, até tenho alguma proximidadezita com os meios académicos, e não detectei nenhum mau estar, mas também pode ser minha baixa tolerância a mexericos e segredinhos.
Até porque, felizmente, o Senhor Presidente do CCISP também atalhou perfeitamente a tempo, e explicou muitíssimo bem o procedimento de acreditação seguido pela Escola e, aliás, descrito de forma clara, pelo Senhor Presidente do Conselho Directivo da Escola visada. Ambos me merecem felicitações!
Não percebo o que é que a referida Escola poderia ter feito, com uma legislação, que não exigia nada, nem por exemplo, que as formações de Bolonha, obrigatoriamente, expressassem detalhadamente, os resultados de aprendizagem, para efeitos de comparação de currículos - é bom lembrar que Resultados de Aprendizagem não são competências - coisa que muita boa gente, com alguma responsabilidade, continua a dizer que são uma e a mesma coisa. MAS, NÃO SÃO!
Assim, não há dúvida que, o que a Escola acreditou (o termo correcto é acreditou) não foi uma formação ao mesmo nível de uma Licenciatura das antigas de 5 anos, e sim, e apenas, uma formação inicial de 3 anos que, por acaso, até se resolveu, num lugar qualquer, bacocamente, designar de Licenciatura (Bolonha).
Por isso, é que também não percebi porque é que o Senhor Bastonário da Órdem dos Engenheiros insinuou de facilitismos, sobretudo, não tendo ele explicado DEVIDAMENTE o que é que considera não facilitismo - serão os tais mestrados integrados, nos quais - na hora do vamos ver - se pode aceder de qualquer outro lado, a meia náu? Isto, claro, para além de não me ter constado, que nenhuma escola - Universidade ou Politécnico - tenha pedido qualquer creditação de Licenciaturas de 3 anos, à Órdem dos Engenheiros. Mas, enfim, acreditem-me o impossível acontece, com elevadíssima frequência, entre nós!
Ora como o Rossio não cabe(ia) na Betesga das duas uma: ou a Escola visada, anteriormente, à adequação a Bolonha, não ensinaria nada bem e só, por isso, é que agora com uma formação de 3 anos de Bolonha deveria obrigar as pessoas a aprender os conteúdos necessários ao exercício da Profissão de Engenheiro (Técnico) de 3 anos e 180 créditos, a que corresponde a Licenciatura de Bolonha, (Lembrar que o engenheiro pleno da órdem são - 300 ECTS) ou então, SÓ ENSINANDO BEM, é que poderia fazer o que, exactamente, fez - acreditar uma formação anterior de 3 anos e 180 creditos que se chamava Bacharelato, a uma outra formação, a actual, também de 3 anos que, por acaso, alguém decidiu designar por Licenciatura, quando Licenciatura-Licenciatura (5 anos) era uma outra formação superior (e, essa sim, tem tendência a extinguir-se, a curto prazo, e o seu nome devia ter sido suspenso do léxico das novas formações, mas isto...).
Mas, como eu não devo estar a ver nada bem o problema, expliquem-me lá o que é que, exactamente, a instituição fez errado:
- É que Mudou o paradigma? Não me digam....Porque dizem isso?
Acham que com aulas tutoriais se aprende mais, também concordo!
Mas então, aonde andam docentes suficientes para essas tais aulas pessoa a pessoa (poucas pessoas), quando se os docentes têm agora cargas lectivas superiores a 12 horas por semana em aulas de contacto presencial para turmas de 40 e mais alunos?
- Há instituições que mandam ou recomendam fazer "umas disciplinas"(?)
Ah! Não me digam.... Porquê?
Quer dizer que, agora existem algumas instituições que decidiram ensinar conteúdos de mais "umas disciplinas" que não leccionavam anteriormente (pelos vistos, MUITO IMPORTANTES serão essas actuais unidades curriculares adicionais,... digo eu,... para obrigar ex-alunos com formações iniciais anteriores de nível superior, com 3 e ou 4 anos de duração, já com experiência profissional, e formação adicional, a aprender esses tais temas tão candentes)?
Então e, anteriormente, essas matérias tão importantes - para os ciclos de 3 e ou de 4 anos - os tais bacharelatos - eram então dispensáveis? Porquê?
Dizem também, que houve uma corrida de Licenciados de formações iniciais antigas a correr às Órdens! Que interessante! Mas, ao que se sabe, se for a Órdem for dos Engenheiros, esta determinou que são necessários 300 créditos ECTS, e não os 180 ECTS, que foram acreditados, por isso, esses tais licenciados não teriam - vista, desse angulo - qualquer concorrência destes outros Licenciados de Bolonha.
- Tem gente, que diz que a Escola não devia cobrar propinas.
Ah, nisso estou INTEIRAMENTE de acordo!
Pois não, a Escola não devia! Mas o que DEVIA era o MCTES não ter determinado que a acreditação, implicava OBRIGATORIAMENTE "prosseguimento de estudos", ou seja, uma matrícula do aluno no Curso Acreditado - aliás, a este respeito, digo-vos, julgava que já tinha visto tudo na vida, mas eu nunca, na vida, tinha visto uma ideia tão peregrina.
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Aliás, toda esta história foi muito mal contada pela comunicação social, mas o que é que se pode esperar? Em todas as profissões há incompetentes oportunistas - e, como dizia Truman Capote, há quem escreva e há quem seja dactilógrafo. O que me faz surgir, então, é ainda uma outra duvida: a quem pode ter interessado o arraial montado em torno de uma instituição, que até cumpriu a lei e, quer queiramos ou não, é muito respeitada, ao seu nível, quer internamente quer a nível internacional?
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Dizem também que o Senhor Ministro Mariano Gago determinou a abertura de um inquérito, ao Instituto de Engenharia, "para apuramento da legalidade e eventuais responsabilidades dos factos realizados". Esta decisão, a ser verdade, então, é curiosíssima - Mas afinal, quem é que se responsabiliza, em Portugal, pela Legislação de Ensino Superior que se vais aprovando? Se soubermos quem se responsabiliza, achámos o(s) responsáveis!
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Meus caros e raros leitores, esclarecer os ignorantes é uma obra de caridade.
Caso não tenham as mesmas dúvidas que eu, façam-me então a caridade de me explicar a mim - mas, lembrem-se, que terá que ser mesmo muito passo a passo - o que é que o tal instituto deveria ter feito e não fez, bem como o que fez, mas que não devia ter feito? Eu há muito tempo que estou parada neste único ponto: 3 costumava ser diferente de 5.
Isto também mudou?
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ADITAMENTO
(1 de Abril de 2008, e não é uma mentira):
As figuras estavam cotadas com 30 ECTS, cada balão.
Na verdade, como cada balão representa um ano de formação e de resultados de aprendizagem, adquiridos, como sabem, tem a cotação de 60 ECTS.
Agora as figuras estão corrigidas.
Já agora, um ano são 60 ECTS; 1 Semestre são 30 ECTS e 1 Trimestre são 20 ECTS (e não 15).
As minhas desculpas aos meus caros e raros leitores, e o meu agradecimento a uma pessoa amiga que me avisou do erro cometido.

Bolonha à portuguesa

Quem tem tido a paciência de ouvir as minhas repetitivas apresentações sobre Bolonha sabe bem que termino sempre com alguns “slides” sobre Bolonha à portuguesa. Parodiando o meu amigo Pepe Ginés-Mora, porque somos todos semelhantemente ibéricos, é hambúrguer rafeiro com molho de tomate à bolonhesa.

Há dias, o Público trazia um artigo contraditório. “Nove em cada dez cursos do ensino superior estão adaptados ao Processo de Bolonha, ou seja, deixaram de ter quatro ou cinco anos de duração. Alguns foram divididos em dois ciclos de ensino - a licenciatura com três a quatro anos e o mestrado com um ano e meio a dois anos de estudos . No total dos 2837 cursos em funcionamento, 2502 já procederam às mudanças, o que equivale a 88 por cento. Destes, 94 são cursos integrados, ou seja, os alunos têm de fazer os dois ciclos, por exemplo, Medicina ou Arquitectura.”

Começo por aqui. É claro que não temos 94 cursos de medicina ou de arquitectura, mesmo juntando-se, por essa norma, veterinária e farmácia. É logo um primeiro desvio de Bolonha, a fartura de cursos de engenharia em ciclo integrado.

Interessante nesse artigo, pela relativa novidade em termos de comunicação social, é a dúvida: mas isto será tudo Bolonha? Claro que não é, é uma mistificação para as estatísticas oficiais. E, neste artigo do jornal, vêm testemunhos de professores conscientes que dizem que “o rei vai nu”, que isto não é Bolonha, é uma contrafacção de marca, à cigano da feira de Carcavelos.

Servindo-me dos tais “slides”, e tentando ser muito sintético, lembro que o paradigma de Bolonha é formação de banda larga; especialização a segundo nível, de mestrado; subalternização da aquisição de informação perecível em relação à aquisição de competências transversais; formação cultural; responsabilidade social.

Que as competências transversais são, principalmente, a capacidade de inovação e adaptação, a mentalidade de rigor e crítica, a capacidade de raciocínio, o aprender a aprender, o domínio das TI, a capacidade comunicacional, a responsabilidade social.

E muito falta dizer, sobre a consequente nova pedagogia, em que, frase de que gosto, "o estudante deixa de ser o sujeito passivo do ensino, passa a sujeito activo da aprendizagem". Ficam só perguntas, sobre os cursos já “bolonheses”, para serem respondidas honestamente pelos meus colegas. Onde está o esforço pessoal orientado? Onde estão as tutorias? Onde se faz “problem based learning” (PBL) ou ensino por projectos? Onde há bibliotecas com livros e revistas suficientes para todos os alunos trabalharem simultaneamente? Onde é que há turmas/grupos de discussão de 10-15 alunos? E o “e-learning”?

Bolonha podia ser muito importante, uma revolução na educação superior europeia. Começo a ter dúvidas de que o seja, pelo menos em Portugal.

25 março, 2008

Olha... Olha...Afinal sempre houve amêndoas!

Meus caros e raros leitores,

1 - Acabei de receber um mail, que me dizia só assim: "Antes que desapareça da página..."
2 - Já, anteontem, tinha também visto outra coisa "Portugal entre os países que melhor paga aos seus Bolseiros - estudo 18 Março 2008: estudo comparativo realizado pela empresa Deloitte" noutra página.

Ah! Dizem-me que não são amêndoas,... vendo bem, podem não ser, mas.... não acham que têm parecenças?

24 março, 2008

Cartão de visita

Não há hoje artigo de opinião que não traga no fim alguma identificação profissional do seu autor. Acho muito bem, quando esta informação é relevante. Por exemplo, no meu caso. Para milhares de pessoas que lerem um artigo meu sobre um tema de educação superior, é importante a minha identificação como professor universitário. Muito mais se eu estiver a opinar sobre assunto totalmente fora da minha esfera de especialização.

Já me parece coisa mais artificiosa a identificação dos opinadores regulares. O que é que me adianta que o Público, por exemplo, inscreva sempre a etiqueta de advogado a José Miguel Júdice, de historiador a Pacheco Pereira ou de professor universitário a Vital Moreira? São mais do que conhecidos e, ainda por cima, muitas vezes não escrevem na dependência estrita dessa sua situação profissional, comentam é a política ou a sociedade.

Pior é quando este tipo de identificação me parece descabida, quando não tem nada a ver com o motivo e tema constante da sua escrita. Um dos cronistas habituais do Público é António Vilarigues. É um nome respeitável, só lhe fica bem manter viva a herança coerente e corajosa da vida dos seus pais (presumindo que é filho de Sérgio Vilarigues e de Alda Nogueira). É o maior panegirista do PCP hoje com acesso à imprensa, todos os seus artigos, no seu legítimo direito, são a defesa apaixonada do seu partido. Nunca li dele outra coisa. Assim, se o jornal ou ele próprio inserirem a identificação “membro do PCP”, nada tenho contra, é absolutamente transparente. A questão é que ele aparece sempre é como “especialista em sistemas de comunicação e informação”. A meu ver, não é coisa honesta.

22 março, 2008

21 março, 2008

Nota gastronómica (LII)

Cozinha de Páscoa

Há um prato tradicional de domingo de Páscoa que creio ser único no país, até mesmo no conjunto do arquipélago. Só na ilha Terceira, as empadas de peixe. Também a curiosidade de serem de peixe porque, depois da abstinência da quaresma, seria mais de esperar um prato de carne. Estas empadas tanto eram feitas em casa como vendidas por tudo o que era pastelaria ou creio que mesmo padarias. Aqui vai uma receita de família, coisa que certamente vou comer domingo, a cargo de um irmão que é fiel guardião das tradições familiares e que as faz muito bem feitas.
Para 4 pessoas. Uma garoupa pequena e 2-3 postas de cherne, 250 g de nozes, uma cebola, 2 dentes de alho, um ramo de salsa, uma c. sopa de banha, 3 c. sopa de azeite, 2 c. sopa de vinagre, 100 g de azeitonas pretas e pimenta branca. Para a massa, 0,5 kg de farinha, 125 g de manteiga, 125 g de banha, 2 ovos, 2 c. sopa de açúcar e sal.

Amassar bem os ingredientes da massa e deixar descansar enquanto se prepara o recheio. Fritar ligeiramente os peixes, às postas e desfazê-lo às lascas. Ferver o molho, feito com as nozes muito bem pisadas, o azeite, a banha, a cebola e o alho picados, a salsa picada e as azeitonas descaroçadas, temperando com pimenta branca. Juntar o peixe e, se necessário, um pouco de água e ferver mais uns 2 minutos. Fazer as empadas em formas próprias e rechear com o peixe e as azeitonas, com um pouco de molho. Tapar com massa, deixando um furo por onde se vai juntando uns goles de molho à medida que vão assando. Pincelar a tampa com gema batida e levar ao forno. Serve-se acompanhado com o resto do molho e com uma salada muito simples, mesmo só de alface ripada.

20 março, 2008

Errei

O documento que anunciei ontem no meu sítio como anteprojecto de Estatuto da Carreira Docente Universitária (ECDU) é apócrifo, embora me tenha sido enviado com garantia. Peço desculpa aos leitores induzidos em erro. Informações fidedignas dizem-me que o MCTES ainda não apresentou nenhum projecto de ECDU. Não é a primeira vez que acontece esta divulgação de falsos documentos. Não consigo perceber se é apenas brincadeira de mau gosto ou se há outras intenções. Neste caso, confiei, porque o circuito incluia um elegado sindical.

19 março, 2008

Fruta da época

Gostaria muito que os meus caros e raros leitores aproveitassem bem esta Páscoa para descassarem das minhas arengas. Vamos a ver se têm essa sorte.

Por causa da ASAE, e porque não penso ser amiga pessoal dos vossos dentistas, este ano não lhes ofereço amêndoas nem chocolates, deixo-lhes apenas umas flores de amendoeira.
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PS - Na sempre atenta página de JVC - Reformar a educação superior - estão lá, como não podia deixar de ser, umas amendoas exclusivas para as Universidades, na rúbrica Novas leis da educação superior. Fico à espera de quem entenda desta poda dizer de sua justiça.

ADITAMENTO IMPORTANTE - Afinal parece que as amendoas citadas no PS - ponto anterior - não são ainda fiáveis, por isso desfiz o link à página, até porque JVC resolveu também desfazer o link da página às "amêndoas".
Este ano, decididamente, não há amêndoas de ninguém para ninguém!

PS 2 - Só para não deixar de ser a má - as amêndoas seriam um proposta de ECDU - e não me pareceu demasiado ruim..... Só por isso, é que eu devia ter desconfiado... de resto, ....

Água mole em pedra dura...

Escreve hoje Rui Tavares na sua crónica no Público:
A experiência universitária não traz só o conhecimento específico do curso escolhido, e isso é algo que os bons empregadores reconhecem. Num artigo da Chronicle of Higher Education, um "caçador de cabeças" explicava como não lhe interessava saber se a pessoa que procurava vinha de Gestão, Filosofia ou Física, mas antes saber se ela tinha adquirido as capacidades de raciocínio, disciplina mental, criatividade ou autonomia pretendidas. A conclusão de uma licenciatura ou, melhor ainda, de um mestrado ou doutoramento em qualquer área (e sublinhe-se este "em qualquer área") era um indício forte dessas capacidades. Para muitos trabalhos, a informação pragmática a dominar acaba por ser dada in loco e de forma relativamente rápida - mas as capacidades que já se trazem é que são inestimáveis.
Como os meus leitores habituais sabem, claro que subscrevo inteiramente.

Gostaria de ter escrito isto

“Não imaginam o quanto se torna penoso ouvir alguns discursos sobre o "actual" estado da educação em Portugal. Alguns deles chegam a raiar a ignorância compulsiva e uma incrível falta de imaginação, até para melhor disfarçar essa ignorância. O império do senso comum, a falta de leitura, de estudo, de trabalho rigoroso e de opiniões fundamentadas sobre os problemas da educação transformaram as últimas semanas numa insuportável "bancada central" onde todos têm o direito a emitir opinião, todos se sentem capacitados para "achar" sem que se note qualquer laivo de sensatez, conhecimento e de rigor sobre aquilo que se "acha".”

David Justino, ex-Ministro da Educação e actual assessor do Presidente Cavaco Silva para a área da Educação no blogue 4ª República.

18 março, 2008

Caldeiradas financeiras...

"Liberty is telling people what they do not want to hear" - prefácio do Animal Farm (Orwell)

Hoje, foi um dia prodigioso em notícias interessantes, sobre questões relacionadas com as distorções político-financeiras do ensino superior português.
Ensino? Talvez…Há quem lhe chame isso ou, pelo menos, que é necessário para isso!

Mas como (não) nos dizem as filosofias do estafado Processo de Bolonha – Nós, os cidadãos comuns, é que nem, com After Long Life Eternety Learning, conseguimos aprender... nem sequer a termos vergonha.
E nós cidadãos comuns, como é que nos podemos dar ao respeito quando assobiamos para o lado, na expectativa ingénua de um dia transitarmos para o lado dos “beneficiados”.

Neste “post” vou falar numa notícia que hoje li, e que considero impressionante:
Trata-se de um artigo de Germano Oliveira, intitulado "Ensino Superior Factura 92 milhões em bens e serviços", no Jornal de Negócios, que nos dá conta com um bocadinho mais de pormenor, do que já todos desconfiávamos - o forrobodó das finanças públicas, em que se está a converter um negócio inacreditável de instituições públicas de ensino superior, que não é o da educação.

Não tarda nada, ainda ouviremos dizer, algumas instituições de ensino superior público - sob a protecção do RJIES que, como sabem, já aprovámos, contra a minha vontade - dizerem-nos: Isto, sem alunos, é que era...uma ma-ra-vi-lha.

Por exemplo, se bem que seja uma micharia, porque não chega nem para o petróleo (menos que 12,6% do total atribuído pelo Orçamento de Estado, às Universidades) - mas, 83 milhões de Euros (dos quais 16,5 milhões de Euros pertencem ao IST), são provenientes de instalações e equipamentos, adquiridos com dinheiros públicos, tais como: aluguer de espaços e equipamentos, serviços de laboratórios e a elaboração de estudos.

Diz-nos ainda o jornalista que, incluídos nesses "estudos" se encontram trabalhos mediáticos (ex. aeroporto de Lisboa, PRACE, a Revisão das Finanças Locais, nos quais até se inclui publicidade e fama fácil) que as universidades "ganham" ao sector privado (aspas minhas).

Ganham???? Ganham coisíssima nenhuma! A palavra "ganham", nesta frase, é uma simples força de expressão, porque para não o ser, seria preciso que as universidades concorressem com seriedade, em pé de igualdade com todas as outras entidades potencialmente interessadas, em especial com as empresas privadas, e lhes ganhassem, e não como, efectivamente, as ganham, de lambugem, quando os decisores políticos lhes atiram com trabalhos dessa natureza para o colo e para as pranchetas.

Nas Universidades as propinas pesam menos de 1,9% das "receitas próprias".
Enquanto as vendas de serviços sobem para 12,9%.
Diz-nos ainda o autor que, no fundo, 2008, tornou os politécnicos mais dependentes da procura de alunos. Pois… Elementar meu caro jornalista.

No subsistema politécnico aceita-se que seja assim: You are a slave. Period!

O que eu digo é que: desvio de recursos públicos – qualquer que seja a natureza do desvio - para interesses não devidamente disciplinados por regulamentação transparente e, de preferência, equitativa, para mim, é corrupção!

Caldeiradas financeiras, … nem com molho de tomate. E o Tribunal de Contas sem poder fazer nada?

“In no chess problem since the beginning of the world has black ever won. Did it not symbolize the eternal, unvarying triumph of Good over Evil?"

A morte da Filosofia

A morte da filosofia é um tema recorrente na própria produção filosófica. Uma pesquisa no Google em português permite-me contabilizar 2700 entradas.

Isto vem a propósito das declarações de António Coutinho, director do Instituto Gulbenkian de Ciência, que recebeu recentemente o Prémio Universidade de Lisboa. Afirma ele à última edição da revista Visão: “A Filosofia hoje é igual e dá-nos a mesma compreensão que no tempo de Sócrates. Em 2 mil anos não progrediu nada.”

Afinal a Filosofia estava morta há muito tempo e ninguém nos tinha avisado. Duma penada nomes como S. Tomás de Aquino, Descartes, Espinosa, Hume, Kant, Bacon, Hegel, Montesquieu, Rosseau, Marx, Hegel, Russel, Heidegger ou Wittgenstein passam à galeria dos mortos-vivos. As suas obras nada acrescentaram ao saber filosófico desde a Antiguidade.

Existe apenas um pequeno problema nesta argumentação. A questão de saber se a Filosofia progrediu ou não desde Sócrates é ela mesma uma questão filosófica que só pode ser respondida filosoficamente. Tal como a questão “Para que serve a Filosofia?”. E neste aspecto António Coutinho revela-se um mau filósofo: exprime uma opinião mas não a fundamenta. Poder-se-á argumentar que no espaço reduzido de uma pequena entrevista tal não seria possível. Mas para uma exclamação tão radical esperar-se-ia uma resposta mais substantiva.

Não estaremos perante um caso de cientismo mais próprio do século XIX do que no início do século XXI?

Melhorámos sim, meus senhores!

"O Índice de Sucesso (em inglês, "Survival Rate") é um indicador de sucesso escolar adoptado pela OCDE que corresponde à proporção de diplomados no Ensino Superior num determinado ano, em relação aos inscritos pela 1ª vez no 1° ano desse curso "n" anos antes (sendo "n" o número de anos de estudo requerido para se completar o grau em causa)."
Agora, só nos falta melhorar o nosso desempenho, nos restantes 28 indicadores, também referidos no Education at a Glance, 2007, e - se for possível - por um lado, explicarmos o que fizémos e, por outro, aperfeiçoarmos um bocadinho o Português, com que se anunciam, oficialmente, os "nossos" feitos em educação:
"Este indicador permite estimar, para um determinado grau de ensino, o número de alunos inscritos no 1° ano que obtiveram o seu diploma rigorosamente dentro do período de duração estabelecido para aquele grau. "
Fonte: MCTES