Não me sinto confortável ao discutir a polémica sobre o título académico de Sócrates. Em princípio, não é apenas matéria da sua vida privada. Se há suspeitas de irregularidades na descrição curricular de um politico, para mais dirigente de um partido, para muito mais primeiro ministro, é evidente que isto é assunto público e de grande gravidade.
Assim, não posso criticar o Público pelo destaque que deu ao seu trabalho de investigação jornalística. No entanto, faço dois reparos. A oportunidade parece-me muito infeliz, tão em cima do conflito entre o proprietário do público e o governo, acerca da OPA sobre a PT. Não estou a fazer processos de intenções, apenas a lembrar de que à mulher de César não basta ser séria. O segundo reparo, bem mais importante, é que a "investigação" me parece não ter adiantado nada. É um trabalho atabalhoado, com "conclusões" confusas. O jornal não devia ter publicado nada antes de maior aprofundamento do trabalho. Tudo o que aparece são algumas dúvidas processuais e formais (questões de carimbos, de papel timbrado, pouco mais) que nem de longe permitem interrogarmo-nos sobre se Sócrates é ou não licenciado.
No entanto, talvez politicamente mais significativo seja outro aspecto: porque quis Sócrates licenciar-se? Claro que é assunto seu, que pode ter tido as razões habituais, nomeadamente a de se valorizar culturalmente. Uma parece que não, talvez a mais comum de todas: a de exercer a profissão de engenheiro. Não se tratará aqui fundamentalmente de uma simples questão de título? Mal vai um sistema politico em que isto conte, mas sabemos que, entre nós, conta. Temos uma honrosa excepção, um politico que um alto cargo e que não procura esconder que não é licenciado (aliás, seria estupidez), Carlos César.
P. S. (15.159 )- acabo de ler qeu a UnI vai fzer um inquérito a tudo isto. Estranho! Com todo o trabalho que vão ter a rsponder à PJ, à PGR, ao MCTES, vão ter tempo e pesoal disponível para esse tal inquérito?
24 março, 2007
23 março, 2007
Passa-se na União Europeia?
Devo confessar que sempre tive alguma reserva a um alargamento brusco da União Europeia aos países anteriormente pertencentes ao bloco de influência soviética. Embora não seja um analista politico competente para um estudo sério da evolução desses países, há coisas perturbadoras. Já não falo da própria Rússia, do poder pessoal do presidente, da corrupção, das fortunas "milagrosas", mas creio que há também um pouco disto nos outros países.
Uma diferença notória é que, em alguns deles, a democratização teve raízes fundas em elites bem preparadas, que viveram ou herdaram o espírito das tentativas revolucionárias, Budapeste, Praga, Gdansk.
Ora é na Polónia, o único destes países que, ainda antes do colapso soviético conseguiu impor um vislumbre de democratização, que aparece agora o mais primário populismo, por mão dos gémeos Kaczynski e, mais directamente, do seu ministro da Educação. Há tempos, foi a tentativa para introduzir o criacionismo nos programas escolares. Agora é outra ideia tenebrosa, a da expulsão do ensino de professores que assumam a sua homossexualidade (note-se que, à boa maneira hipócrita de gente deste tipo, o problema é assumir).
Que direito terá a Europa, com coisas destas, para criticar outros fundamentalismos religiosos? Lembremos também que, há uns anos, a Áustria sofreu grandes pressões por haver ministros de extrema direita no seu governo. A Polónia também está a ser pressionada ou estes novos membros são coqueluches intocáveis?
Uma diferença notória é que, em alguns deles, a democratização teve raízes fundas em elites bem preparadas, que viveram ou herdaram o espírito das tentativas revolucionárias, Budapeste, Praga, Gdansk.
Ora é na Polónia, o único destes países que, ainda antes do colapso soviético conseguiu impor um vislumbre de democratização, que aparece agora o mais primário populismo, por mão dos gémeos Kaczynski e, mais directamente, do seu ministro da Educação. Há tempos, foi a tentativa para introduzir o criacionismo nos programas escolares. Agora é outra ideia tenebrosa, a da expulsão do ensino de professores que assumam a sua homossexualidade (note-se que, à boa maneira hipócrita de gente deste tipo, o problema é assumir).
Que direito terá a Europa, com coisas destas, para criticar outros fundamentalismos religiosos? Lembremos também que, há uns anos, a Áustria sofreu grandes pressões por haver ministros de extrema direita no seu governo. A Polónia também está a ser pressionada ou estes novos membros são coqueluches intocáveis?
22 março, 2007
Inacreditável!
Aonde já chegou o relativismo (ou será a cobardia perante as ameaças fundamentalistas?)! Transcrevo do sítio do Público, depois de ouvir na TSF:
Juíza alemã cita Corão para rejeitar divórcio de mulher agredida pelo maridoNotícia completa: ler.
Uma juíza alemã negou o divórcio imediato a uma mulher de origem marroquina vítima de violência doméstica por considerar que o Corão não proíbe esse tipo de prática, passando por cima da legislação do seu país. A revelação do caso está a gerar uma onda de indignação no país que já levou ao afastamento da juíza do processo.
21 março, 2007
O tempo das cerejas
Com algumas discordâncias, é natural, mas com reconhecimento da sua posição íntegra de esquerda, sempre gostei de ler Vítor Dias, quando tinha uma coluna no Público. Por mais de uma vez chamei aqui a atenção para escritos seus. Têm-me faltado, passo agora a tê-los, novamente. Numa época em que cada vez mais a diversidade enriquecedora é um desafio ao pensamento (e à acção) de esquerda, não é demais o seu novo blogue, "O tempo das cerejas".
Como ele, como os "communards", como Yves Montand da nossa comum juventude, "J'aimerai toujours le temps des cerises", apesar de "mais il est bien court, le temps des cerises".
Como ele, como os "communards", como Yves Montand da nossa comum juventude, "J'aimerai toujours le temps des cerises", apesar de "mais il est bien court, le temps des cerises".
Liturgia
Muitos católicos andam alvoroçados com o retrocesso litúrgico proposto por Bento XVI no seu documento "Sacramentum caritatis": maior uso do latim e do canto gregoriano. Que me perdoem o tom algo jocoso desta nota, mas desta vez estou de acordo com o papa. Se alguma coisa atrasou, na adolescência incipiente, a minha rotura com a religião foi a minha paixão pelas artes do espectáculo. E há coisa mais operática do que uma missa solene?
Para mim, há, ou talvez melhor, havia, a longa noite litúrgica do Sábado de Aleluia. Nunca mais me posso esquecer da soturnidade da igreja toda panejada de negro, a iluminação escassa, os paramentos muito simples, a cuidadosa encenação da "preparação", isto é, as bênçãos da água, do óleo e do círio, os baptismos e, acima de tudo, a interminável ladainha de todos os santos. Já pensaram como é difícil compor uma peça musical em que a seguir a uma frase vem sempre uma mil vezes repetida, "ooora pro noooobis"? A quem a ouviu, pergunto se conseguem esquecê-la.
A seguir, aproximando-se a meia noite, o sinal da mudança de acto. Ainda no mesmo ambiente, com a mesma iluminação, mas a entrada dos celebrantes já paramentados, em contraste, de branco e ouro. Então, o clímax, musical e espectacular. Musical, na simples mas bela entoação de "gloria in excelsis Deo". Cenográfico, no explodir das campainhas, dos sinos ao fundo, das luzes bruscamente acesas, dos cortinados cerrados, entre os quais o do altar mor, agora todo cheio de velas previamente acesas e escondidas pelo panejamento fúnebre.
Amigos católicos, claro que compreendo o valor que dão à modernidade da liturgia, mas deixem-me a mim incréu este gosto pelo espectáculo.
Para mim, há, ou talvez melhor, havia, a longa noite litúrgica do Sábado de Aleluia. Nunca mais me posso esquecer da soturnidade da igreja toda panejada de negro, a iluminação escassa, os paramentos muito simples, a cuidadosa encenação da "preparação", isto é, as bênçãos da água, do óleo e do círio, os baptismos e, acima de tudo, a interminável ladainha de todos os santos. Já pensaram como é difícil compor uma peça musical em que a seguir a uma frase vem sempre uma mil vezes repetida, "ooora pro noooobis"? A quem a ouviu, pergunto se conseguem esquecê-la.
A seguir, aproximando-se a meia noite, o sinal da mudança de acto. Ainda no mesmo ambiente, com a mesma iluminação, mas a entrada dos celebrantes já paramentados, em contraste, de branco e ouro. Então, o clímax, musical e espectacular. Musical, na simples mas bela entoação de "gloria in excelsis Deo". Cenográfico, no explodir das campainhas, dos sinos ao fundo, das luzes bruscamente acesas, dos cortinados cerrados, entre os quais o do altar mor, agora todo cheio de velas previamente acesas e escondidas pelo panejamento fúnebre.
Amigos católicos, claro que compreendo o valor que dão à modernidade da liturgia, mas deixem-me a mim incréu este gosto pelo espectáculo.
20 março, 2007
CDS/PP
19 março, 2007
Dia do pai
O meu benjamim ofereceu-me hoje uma coisa de que gostei muito, os dois CD de "Lopes Graça e os poetas" (edição da Câmara Municipal de Lisboa, Elsa Saque e Nuno Vieira de Almeida). Só é pena que não inclua as Heróicas, que tanto valor simbólico têm para a minha geração, "Vozes ao alto, unidos com'os dedos da mão!" Não as consigo encontrar à venda. Alguém sabe?
O drama e a farsa
Li no Público uma pequena nota, que transcrevo, com a devida vénia.
Marx disse que, quando a história se repete, primeiro é como drama, depois como farsa. Estou inclinado a pensar que não é preciso repetição, que o drama se transforma inevitavelmente em farsa, na simples continuação.
Guiné-Bissau: Traficantes bem instaladosEstas coisas doem à gente da minha geração, que lutou na juventude sempre de braço dado com os companheiros da luta anticolonial, que venerou os heróis dessa luta, com destaque para Amílcar Cabral. Também dói ler hoje um romance, aliás excelente, como o "Predadores", de Pepetela. Também dói assistir ao que se passa em Timor Leste, embora Timor não faça parte da minha memória de luta dos anos 60.
Os traficantes de cocaína estabeleceram uma base de operações na Guiné-Bissau, onde colombianos criaram empresas fictícias, se deslocam em carros luxuosos e compram a protecção de pessoas bem instaladas, escreveu o Los Angeles Times. "Todas as instituições guineenses se desmoronaram. Não há controlo de fronteiras nem laboratórios da polícia", alegou Koli Kouame, da Costa do Marfim, secretário da agência da ONU para o controlo de narcóticos. Em Setembro um elemento da polícia que interceptou dois colombianos a descarregar cocaína teria sido eliminado.
Marx disse que, quando a história se repete, primeiro é como drama, depois como farsa. Estou inclinado a pensar que não é preciso repetição, que o drama se transforma inevitavelmente em farsa, na simples continuação.
18 março, 2007
Escandaloso!
Jorge Neto é deputado, do PSD. Jorge Neto teve uma violenta discussão na Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças com o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, acusando-o de parcialidade e de favorecimento da Sonaecom na OPA sobre a PT. Jorge Neto nem sequer é membro daquela comissão parlamentar.
Jorge Neto é presidente da Associação dos Accionistas Minoritários da PT. Jorge Neto esteve na assembleia geral da PT e votou contra a desblindagem. No entanto, Jorge Neto não participou em representação da associação de que é presidente, defendendo os interesses dos seus consócios, mas sim como representante de um grande accionista.
Mas agora a AR já serve para discussões de matérias do interesse pessoal dos deputados? Não há uma comissão de ética? E o presidente da comissão autorizou? E os outros deputados pactuaram? Não é de estranhar, ética é que coisa que se vai tornando produto raro e de luxo, principalmente a ética republicana.
Jorge Neto é presidente da Associação dos Accionistas Minoritários da PT. Jorge Neto esteve na assembleia geral da PT e votou contra a desblindagem. No entanto, Jorge Neto não participou em representação da associação de que é presidente, defendendo os interesses dos seus consócios, mas sim como representante de um grande accionista.
Mas agora a AR já serve para discussões de matérias do interesse pessoal dos deputados? Não há uma comissão de ética? E o presidente da comissão autorizou? E os outros deputados pactuaram? Não é de estranhar, ética é que coisa que se vai tornando produto raro e de luxo, principalmente a ética republicana.
17 março, 2007
O sucesso dos emigrantes
Acabei de ouvir uma notícia que me surpreendeu. Há em França cerca de 48.000 empresas criadas por portugueses, geralmente de segunda geração. Quase todas são saudáveis e prósperas, embora, na maioria, PMEs. Fico espantadamente feliz, como português. Mas o português só dá o melhor quando sai da parvónia?
Do plágio à incompetência
Depois do caso vergonhoso de plágio em que esteve envolvida recentemente a jornalista Clara Barata, do Público, pensei que nunca mais ouviria falar dela. Enganei-me, li-a ontem e a dizer asneira.
Título bombástico. "Em busca de alienígenas no Pólo Sul". Parece que poderão ser encontrados microorganismos muito estranhos nos lagos líquidos que se preservam, na Antártida, sob espessas camadas de gelo. Afinal, nada de muito estranho. Também há bactérias que vivem deliciadas na água a ferver dos ambientes vulcânicos, como os das caldeiras das Furnas. São a classe de microorganismos a que chamamos extremófilos, os que gostam de condições extremas.
Mas o que é que isto tem a ver, directamente, com alienígenas? Nada, excepto na compreensão deficiente da jornalista em relação ao que lhe disse o investigador Sabit Abyzov. Apenas uma vaga ideia, por analogia, do que poderiam ser eventuais formas de vida em planetas como Europa e Ganimedes, satélites de Júpiter, que se suspeita que também tenham grandes lagos cobertos por espessas camadas de gelo.
Título bombástico. "Em busca de alienígenas no Pólo Sul". Parece que poderão ser encontrados microorganismos muito estranhos nos lagos líquidos que se preservam, na Antártida, sob espessas camadas de gelo. Afinal, nada de muito estranho. Também há bactérias que vivem deliciadas na água a ferver dos ambientes vulcânicos, como os das caldeiras das Furnas. São a classe de microorganismos a que chamamos extremófilos, os que gostam de condições extremas.
Mas o que é que isto tem a ver, directamente, com alienígenas? Nada, excepto na compreensão deficiente da jornalista em relação ao que lhe disse o investigador Sabit Abyzov. Apenas uma vaga ideia, por analogia, do que poderiam ser eventuais formas de vida em planetas como Europa e Ganimedes, satélites de Júpiter, que se suspeita que também tenham grandes lagos cobertos por espessas camadas de gelo.
16 março, 2007
A não perder
O meu prezado colega Carlos Fiolhais enviou-me uma mensagem a alertar-me para o seu novo blogue colectivo, "DE RERUM NATURA", como se fosse possível que eu ainda não o conhecesse. Não é o primeiro blogue de divulgação científica. Por exemplo, sem menosprezo para outros, nunca falho visita ao "Conta natura". Parece-me é que o De Rerum Natura promete ser mais abrangente.
Adivinho também que a intenção não é de mera divulgação científica. O que li até agora é mais ambicioso, é a transmissão de uma visão de mentalidade e cultura científicas e de racionalismo. E aqui fica um excerto da minha resposta ao Carlos Fiolhais.
Adivinho também que a intenção não é de mera divulgação científica. O que li até agora é mais ambicioso, é a transmissão de uma visão de mentalidade e cultura científicas e de racionalismo. E aqui fica um excerto da minha resposta ao Carlos Fiolhais.
"Claro que já conhecia. Os meus parabéns. O RSS já está na lista da minha consulta diária obrigatória.Os melhores votos de sucesso para o blogue.
Já agora, acho que o Camões também segue bem Lucrécio. "Vejam agora os sábios na escritura / Que segredos são estes de Natura" (Lus., V, XXII). Acho que era citação que merecia destaque permanente no vosso blogue, como tantas outras do pincípio do extraordinário canto V. Ou alguma de Duarte Pacheco Pereira (atenção, não me enganei, ainda não estou senil, é mesmo Duarte, não José!)".
Religiosidade popular sentida por um incréu

Quem for agora a S. Miguel, na Quaresma, encontra isto, na volta da estrada, os ranchos de romeiros. Não creio que haja, em qualquer outra parte do pais, tão profunda manifestação de religiosidade popular, num misto complicado de orgulho de povoador e de humildade perante os mistérios da terra vulcânica. Tenho na minha página pessoal um texto sobre os romeiros, acompanhado por um da minha mãe, escrito na juventude dos seus 89 anos finais. Não por vaidade pessoal, mas por orgulho açoriano, de quem ainda o ano passado não resistiu a uma lágrima ao acompanhar brevemente um rancho de romeiros, peço a vossa leitura. É escrita de incréu, mas quem melhor do que um incréu sabe valorizar a dimensão religiosa do seu povo?
O Correio dos Açores, jornal importante de Ponta Delgada, deu-me este ano um grande prazer, publicando em quarta feira de cinzas, primeiro dia da Quaresma, este texto da minha mãe, com que ela certamente ganharia, como todos os anos, o prémio da Casa do Comércio do Porto (já quase que a proibiam de concorrer...).
Fotografia de António Câmara (Tabico)
14 março, 2007
Quem engana quem?
Em artigo de opinião no último Expresso, "Quem enganou quem?", Gentil Martins vem acusar, com abundantes "provas" estatísticas, os que negam ou, pelo menos, não têm dados cientificamente convincentes a favor de um aumento do número de abortos após as aprovações de leis como agora a nossa. Isto raia ou o delírio ou a desonestidade intelectual. Como comparar um antes e um depois completamente diferentes?
Vamos a um exemplo muito simples. Quantos viciados em heroína há em Portugal? Alguém sabe? Uma coisa sabe-se, o número dos que estão presos por consequências alterais ou dos que, infelizmente muito poucos, recorrem à reabilitação. Número total, x. Imagine-se agora que se aprova a lei das "salas de chuto". Quantos y seriam então recenseados? Quantas vezes y seria maior do que x?
Não é difícil ser-se minimamente inteligente e os leitores dos jornais estão, em geral, acima desse mínimo. Por minimamente, entendo, utilmente e a pensar nos leitores, o nível que faça pensar a tais gentis senhores que não lucram nada em tentar enganar os outros.
Vamos a um exemplo muito simples. Quantos viciados em heroína há em Portugal? Alguém sabe? Uma coisa sabe-se, o número dos que estão presos por consequências alterais ou dos que, infelizmente muito poucos, recorrem à reabilitação. Número total, x. Imagine-se agora que se aprova a lei das "salas de chuto". Quantos y seriam então recenseados? Quantas vezes y seria maior do que x?
Não é difícil ser-se minimamente inteligente e os leitores dos jornais estão, em geral, acima desse mínimo. Por minimamente, entendo, utilmente e a pensar nos leitores, o nível que faça pensar a tais gentis senhores que não lucram nada em tentar enganar os outros.
12 março, 2007
Julgamento público
O inefável major da bola não acredita nos tribunais e diz que quer ser julgado publicamente, nos media, mas com juízes, advogados, tudo o mais. Já agora, porque não no circo? E em que condições de contrato com a TVI ou quejandos, quanto ao seu controlo sobre a tomada de planos, o volume de som, a iluminação, etc? Entre a demagogia e o delírio vai por vezes uma curta distância.
Isto provoca-me uma reflexão. Se eu andar aí pela rua a dar pontapés em toda a gente que veja, é certo que vou preso. Mas um pontapé nas canelas é mais grave do que um pontapé na mente?
Isto provoca-me uma reflexão. Se eu andar aí pela rua a dar pontapés em toda a gente que veja, é certo que vou preso. Mas um pontapé nas canelas é mais grave do que um pontapé na mente?
11 março, 2007
Ainda o Público
Desde a recente remodelação do Público que me tenho interrogado sobre a publicação diária de uma grande fotografia de duas páginas, as do meio do caderno principal. É certo que têm sido fotografias em que se merece reparar, pelo tema ou pela qualidade artística, ms não será desperdício de papel, diz-se que um dos factores importantes do custo de um jornal?
Ontem percebi e confirmei hoje. Habituados os leitores a olharem para aquelas páginas, passaram agora a encontrar lá é publicidade. Não será que a remodelação do Público foi um tiro no pé?
Ontem percebi e confirmei hoje. Habituados os leitores a olharem para aquelas páginas, passaram agora a encontrar lá é publicidade. Não será que a remodelação do Público foi um tiro no pé?
A PIDE não torturava
No Público de ontem.
A lei sobre o tratamento de presumíveis terroristas, aprovada no outono passado nos EUA, reitera a condenação da tortura, mas permite ao presidente determinar quais os métodos de interrogatório compatíveis com as convenções de Genebra. Essa lei apoia-se num memorando do Departamento de Justiça dos EUA, de 2004, que cita a convenção das Nações Unidas contra a tortura para dizer que práticas como a privação do sono, de comida ou de bebida, e sujeição dos prisioneiros a barulhos excessivamente altos ou a manterem-se em posições e ambientes desconfortáveis muito tempo podem ser comportamentos desumanos, mas não tortura. Só pode ser tortura, recorda o jornal The New York Times, se esse tratamento resultar "em danos mentais prolongados".Pides, estão absolvidos! A vossa especialidade era a tortura do sono e a estátua, apenas comportamentos desumanos. As vossas vítimas vão ter de pensar que afinal não foram torturadas, porque, felizmente e porque tinham "estaleca", não sofreram danos mentais prolongados. Às vezes, apetece-me escrever um grande palavrão!
10 março, 2007
Denúncias anónimas
A presidente da Câmara de Salvaterra de Magos, eleita pelo BE, está a ser alvo de inquérito da Judiciária, devido a uma denúncia anónima. A este propósito, Francisco Louçã afirmou que "se há uma denúncia anónima, o que a Policia Judiciária tem de fazer é investigar".
Confesso o meu incómodo. Fui educado, como muita gente, na regra de que carta anónima é lixo e só pode ter o lixo como destino. Também fui alvo de uma denúncia anónima, até nem tão anónima como isso, para quem conhecia o meio. O resultado foi um inquérito da Inspecção Geral de Finanças, que me indignou, não obstante a extraordinária correcção dos inspectores. Fez-me perder tempo precioso da minha actividade de dirigente. No fim, interroguei-me, sem resposta definitiva: não teria sido melhor esse inquérito, que me ilibou totalmente, do que uma acção murmurante de calúnia corrosiva?
E não será que muita coisa ficaria impune, a alimentar o clima geral de corrupção, se não se tentasse averiguar da possível consistência das denúncias anónimas? Ficam-me ainda duas perguntas. Não há forma prática menos ostensiva de apurar isso? E qual a percentagem das denúncias caluniosas que se demonstram consistentes?
Confesso o meu incómodo. Fui educado, como muita gente, na regra de que carta anónima é lixo e só pode ter o lixo como destino. Também fui alvo de uma denúncia anónima, até nem tão anónima como isso, para quem conhecia o meio. O resultado foi um inquérito da Inspecção Geral de Finanças, que me indignou, não obstante a extraordinária correcção dos inspectores. Fez-me perder tempo precioso da minha actividade de dirigente. No fim, interroguei-me, sem resposta definitiva: não teria sido melhor esse inquérito, que me ilibou totalmente, do que uma acção murmurante de calúnia corrosiva?
E não será que muita coisa ficaria impune, a alimentar o clima geral de corrupção, se não se tentasse averiguar da possível consistência das denúncias anónimas? Ficam-me ainda duas perguntas. Não há forma prática menos ostensiva de apurar isso? E qual a percentagem das denúncias caluniosas que se demonstram consistentes?
09 março, 2007
Celebridade efémera
Já tenho surprendido alguns amigos ou conhecidos com mensagens inesperadas de parabéns nos seus aniversários. Isto vem de uma pequena mania minha, a de ler no Público a pequena secção "Hoje fazem anos". Hoje, fiquei a pensar sobre a efemeridade. Fazem anos Ornella Muti, Irene Papas e Bobby Fisher, pessoas que disseram muito à minha geração. E a geração seguinte à minha, faz ideia de quem eles são?
Simplex?
O Público de 2.3.2007 traz cinco páginas surrealistas, ocupadas com 40 anúncios, praticamente iguais. A Direcção Regional de Lisboa e Vale do Tejo do Ministério da Economia e da Inovação (Inovação?...) faz público que uma batelada de projectos de linhas eléctricas aéreas, anunciados um a um, anúncio a anúncio, oitavo de página, estão patentes nas secretarias dos municípios, para reclamação.
E eu a julgar que havia uma coisa chamada internet! Viva o Simplex! E aqui vai uma aspirina virtual para Maria Manuel Leitão Marques.
E eu a julgar que havia uma coisa chamada internet! Viva o Simplex! E aqui vai uma aspirina virtual para Maria Manuel Leitão Marques.
07 março, 2007
Os tambores da guerra
Já soam, bem audíveis, em relação ao Irão. Condoleezza Rice, diz que não, é o seu papel de "polícia bom". Mas os patrões, Bush e Cheney, esclarecem direitinho que nenhuma hipótese está fora da mesa. A bom entendedor...
Desde a grande convulsão do sistema internacional soviético, implosiva, que me interrogo se ainda não vamos ter saudades do sistema bipolar. Hoje vivemos numa ordem internacional unilateral, tanto mais perigosa quanto pode estar nas mãos de mentecaptos. O sistema anterior tinha o aspecto horroroso da guerra fria, da ameaça da catástrofe nuclear. Mas quem é que acreditava que isso fosse possível, de facto, a não ser na ficção do "Dr. Strangelove"?
Mas, nessa época, alguma vez teria sido possível a estupidez da guerra do Iraque? (À margem, quando é que o governo dá o sinal político, simbólico mas muito importante, de retirar imediatamente a GNR do Iraque? Zapatero, dá lá umas liçõezinhas ao Sócrates!).
Podem acusar-me de cinismo. É verdade que considerar historicamente negativo o desaparecimento do equilíbrio de forças (afinal, tudo é "checks and balances") significa aceitar que ainda milhões de pessoas continuassem subordinados aos regimes de tipo soviético, perversão de um verdadeiro mundo novo sonhado por tantos génios da humanidade, nos últimos dois séculos.
Finalmente, a declaração de interesses. Este texto não é a malvada América contra o bom Irão. Tenho enorme admiração por tanto de excelente que tem a América e os americanos, entre os quais conto dos maiores amigos. Sempre vi com muita reserva a revolução iraniana, cada vez mais detestando a sua essência teocrática. E quanto ao seu inefável presidente actual, só não digo que os iranianos têm o que merecem porque sei o que me desgostava ouvir tal coisa em relação a nós, até ao 25 de Abril.
Desde a grande convulsão do sistema internacional soviético, implosiva, que me interrogo se ainda não vamos ter saudades do sistema bipolar. Hoje vivemos numa ordem internacional unilateral, tanto mais perigosa quanto pode estar nas mãos de mentecaptos. O sistema anterior tinha o aspecto horroroso da guerra fria, da ameaça da catástrofe nuclear. Mas quem é que acreditava que isso fosse possível, de facto, a não ser na ficção do "Dr. Strangelove"?
Mas, nessa época, alguma vez teria sido possível a estupidez da guerra do Iraque? (À margem, quando é que o governo dá o sinal político, simbólico mas muito importante, de retirar imediatamente a GNR do Iraque? Zapatero, dá lá umas liçõezinhas ao Sócrates!).
Podem acusar-me de cinismo. É verdade que considerar historicamente negativo o desaparecimento do equilíbrio de forças (afinal, tudo é "checks and balances") significa aceitar que ainda milhões de pessoas continuassem subordinados aos regimes de tipo soviético, perversão de um verdadeiro mundo novo sonhado por tantos génios da humanidade, nos últimos dois séculos.
Finalmente, a declaração de interesses. Este texto não é a malvada América contra o bom Irão. Tenho enorme admiração por tanto de excelente que tem a América e os americanos, entre os quais conto dos maiores amigos. Sempre vi com muita reserva a revolução iraniana, cada vez mais detestando a sua essência teocrática. E quanto ao seu inefável presidente actual, só não digo que os iranianos têm o que merecem porque sei o que me desgostava ouvir tal coisa em relação a nós, até ao 25 de Abril.
04 março, 2007
Em defesa do rigor científico
Saio em defesa da honra da minha dama, a ciência. Segundo o Público de 24.2.2007, o ministro da Agricultura admite, e bem, que ainda possa a aparecer em Portugal um ou outro caso de nova variante da doença de Creutzfeld-Jakob, a variante causada por transmissão da BSE ao homem. Mas diz tolice, e perigosa, ao afirmar que esse provável baixo número contradiz o alarmismo dos cientistas.
Começo por salientar a contradição de termos: se há alarmismo, só pode vir de pseudo-cientistas. Ciência e alarmismo são incompatíveis. Segui muito bem a literatura científica sobre este asunto. O que se passou foi que a modelação não dispunha de alguns parâmetros epidemiológicos essenciais. Por isto, os resultados sempre foram "entre algumas dezenas e alguns milhares".
Isto pode parecer estranho e perguntarão, o que adianta tal previsão tão imprecisa? Adianta muito, retira aos políticos a possibilidade de, com honestidade, garantirem que serão só algumas dezenas. Hoje, tudo indica que sim. Bem bom, mas sem se esquecer que, não fora o "alarmismo" dos milhares, não teriam sido tomadas as medidas que muito devem ter contribuído para, afinal, serem só dezenas.
Começo por salientar a contradição de termos: se há alarmismo, só pode vir de pseudo-cientistas. Ciência e alarmismo são incompatíveis. Segui muito bem a literatura científica sobre este asunto. O que se passou foi que a modelação não dispunha de alguns parâmetros epidemiológicos essenciais. Por isto, os resultados sempre foram "entre algumas dezenas e alguns milhares".
Isto pode parecer estranho e perguntarão, o que adianta tal previsão tão imprecisa? Adianta muito, retira aos políticos a possibilidade de, com honestidade, garantirem que serão só algumas dezenas. Hoje, tudo indica que sim. Bem bom, mas sem se esquecer que, não fora o "alarmismo" dos milhares, não teriam sido tomadas as medidas que muito devem ter contribuído para, afinal, serem só dezenas.
03 março, 2007
Amigo de Peniche
Carlos César, presidente do Governo Regional dos Açores, tem um excelente amigo no seu correligionário Jacinto Serrão, líder do PS madeirense. Em entrevista ao Expresso de hoje, JS manifesta simpatia por um estudo de Augusto Mateus que, visando a optimização das negociações com a UE, dependentes do PIB regional, advogava a fusão das duas regiões insulares.
Fui logo fazer umas contas elementares, com base em resultados eleitorais. Inevitavelmente, os Açores passariam a ser governados pelo inefável Alberto João. Salvo seja! Do mal o menos, antes o mais civilizado Mota Amaral.
E o que me gozariam os meus amigos madeirenses, a quem eu passo a vida, pérfida mas afectuosamente, a chateá-los com o seu rei das bananas?
Fui logo fazer umas contas elementares, com base em resultados eleitorais. Inevitavelmente, os Açores passariam a ser governados pelo inefável Alberto João. Salvo seja! Do mal o menos, antes o mais civilizado Mota Amaral.
E o que me gozariam os meus amigos madeirenses, a quem eu passo a vida, pérfida mas afectuosamente, a chateá-los com o seu rei das bananas?
E não se ficam... (II)
Logo a seguir ao referendo, escrevi aqui:
"A intolerância, com alguma dose de fanatismo, acompanha-se muitas vezes da incapacidade de reconhecer uma derrota. Em linguagem futebolística, tentam sempre ganhar na secretaria o que perderam no campo. Enganavam-se os que pensaram que os movimentos do "não" iriam ficar tranquilamente resignados, democraticamente, com a sua derrota. Já começou a guerra do aconselhamento."Agora, o gato com o rabo de fora até deixou de estar escondido, conforme notícia do Público, de 2.3.2007:
"O grupo parlamentar do PSD mandatou ontem o seu presidente e este não perdeu tempo: Marques Guedes apresenta já hoje as propostas de alteração ao projecto de lei do aborto. subscritas pela "generalidade dos deputados" sociais-democratas. Com uma preocupação essencial: garantir que o aconselhamento das mulheres que pretendem abortar seja obrigatório e dissuasor."É espantoso. Dissuasor?! Ganhou o sim a uma pergunta que incluía a expressão "por opção da mulher". Afinal, isto queria dizer "por opção irredutível e lamentável de uma mulher teimosa, sem respeito pela vida, que, mesmo depois de dissuadida num aconselhamento isento, continuou na sua".
01 março, 2007
Há coisas que já não se usam

Coisas de mau gosto, que já não se usam. Deixar crescer a unha do dedo mindinho, muito menos para tirar cera dos ouvidos, usar peugas brancas com fato escuro, exigir jaquinzinhos fritos com molho de natas, falar na "minha esposa", dizer "o glorioso", também, já agora, andar sempre a dizer "prontos", viajar 300 Km para ir buscar ao compadre um azeite óptimo de 10º, andar sempre a falar em tomates, sem ser agricultor, ter no banco traseiro do carro a almofada bordada pela sogra, ir de fato de treino roxo com barras fosforescentes passear ao shopping, com a mulher com casaco de gola de pele artificial, etc., etc.
Também, no outro lado da escala pirosa, tratar os filhos por você, usar madeixas, vestir blazer com calças vermelhas, tratar por tio o amigo do pai, achar que Sand's é muito melhor do que champanhe bruto, dizer palavrões no "green" do golfe, ostentar com a camisa bem decotada um bruto cordão de ouro, e, claro, ler a Caras ou, pior ainda, suspirar por aparecer na Caras.
Mas também já não se usa um político com esta imagem, que a muitos deve lembrar o terrível professor primários dos velhos tempos e as suas reguadas (nanja eu, que felizmente tive por professor a jóia do Sr. Barbosa). Nem sabem como eu sou empático com o sofrimento de um bom número de excelentes amigos madeirenses.
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