23 fevereiro, 2007

Choque tecnológico

Ou oito ou oitenta: competitividade por salários baixos, para chinês ouvir (eles que têm salários altíssimos...), ou então discurso grandiloquente do choque tecnológico. No meio de todo este ruído politico, ainda me dá grande prazer ler opiniões racionais, objectivas, sensatas. Um exemplo foi o que disse Campos e Cunha ao Público (4.2.2007):
"Não bate a bota com a perdigota, andarmos a falar de salários baixos eao mesmo tempo de choque tecnológico".
(...) "Se calhar o mal não está naquela frase, está em ter-se andado a propagandear o choque tecnológico. A evolução tecnológica dos países é por definição lenta, logo é o contrário de um choque. Do meu ponto de vista há nesta ideia uma contradição nos seus próprios termos."
Localizando esta ideia na educação superior, centro por excelência da alimentação directa e indirecta (formação de quadros) da tecnologia, há como que um teorema. "Quando a economia tem uma solicitação a prazo de x anos, a educação superior responde a prazo de x+n anos". Qual é o valor de n?

Quando se fala em milagres de choque tecnológico, vêm logo os exemplos da Irlanda e da Finlândia. Vejamos alguns dados (Eurostat, 2006) que julgo serem relevantes.


PortugalIrlandaFinlândiaUE (27)
ID % PIB0,811,253,481,84
Empresas % despesa ID31,758,769,354,5
Formados em C&T % empregos23,444,653,541,9


Comecemos pela Irlanda. Repare-se que não se afasta flagrantemente da média da UE. Completamente diferente é o caso da Finlândia. A meu ver, há uma diferença importante. A Irlanda teve um choque tecnológico, a Finlândia um choque educativo (repare-se na terceira linha) em boa harmonia com o investimento tecnológico.

Simplesmente, o choque tecnológico irlandês é caso único. Conheço melhor um sector de grande sucesso, o da biotecnologia. O progresso dependeu essencialmente da instalação de sucursais de grandes multinacionais, mas por factores que nos são alheios: uma hora de distância em ferry de Liverpool, domínio generalizado da língua inglesa, grandes relações entre as empresas de ambos os países, uma importante e economicamente importante comunidade de origem irlandesa nos EUA. Só a seguir é que vieram as correspondentes mudanças no sistema de educação superior, que garantiram a sustentabilidade do choque.

O caso finlandês também não pode ser bem entendido sem a enorme importância de coisa muito "simples", Nokia. Mas, muito mais importante, e para concluir, o choque educativo.

21 fevereiro, 2007

Memento II

Lembrei-me a seguir de uma coisa que talvez não conheçam. Quando se entra no cemitério de Ponta Delgada, logo a primeira campa à esquerda é a de Antero. Simples, um pequeno obelisco e uma lápide com uma quadra magnífica de João de Deus.
Aqui jaz pó, eu não, eu sou quem fui,
Raio animado dessa luz celeste
À qual a morte as almas restitui,
Restituindo à terra o pó que as veste.

Memento

Não em termos de calendário civil, mas sim de calendário litúrgico, a minha mãe morreu há um ano, em quarta feira de cinzas. Julgo que, para religiosos tão sabiamente profundos como foram os meus pais, perante cuja grandeza espiritual se curva humilde um incréu como eu, há dois grandes dias para se morrer, a sexta feira santa e a quarta feira de cinzas.

Memento, homine, qui pulvis est et in pulverem reverteris.

Isto é só cultura cristã? Ou melhor, a cultura permite adjectivos?

O espaço Público

Estou com "mixed feelings" em relação ao meu jornal desde há muito anos, o Público. Como já aqui escrevi, gosto do novo aspecto, mas, pessoalmente, sinto-me mais clássico, mais leitor a sério, com um jornal à antiga.

O que hoje me faz escrever uma breve nota é um receio, que me parece já confirmado pela prática. O espaço de opinião provavelmente vai ser ocupado exclusivamente pelos colunistas contratados. Isto vai contra a nossa velha tradição dos artigos enviados pelos leitores, muitas vezes bem mais originais e interessantes do que a escrita a tender para o rotineiro de quem é obrigado a uns tantos milhares de caracteres por semana.

Já me era bem difícil fazer passar um artigo de opinião. Com o novo formato e fazendo as contas às páginas e aos compromissos com os colunistas contratados, parece-me que passará a ser impossível.

Espanha, aqui tão perto

Uma nota anterior transcrevia algumas observações de Miguel Sousa Tavares sobre a nossa diferença com a Espanha. O registo era jocoso, mas parece-me que justifica uma discussão mais a sério, embora eu não tenha credenciais para isso. Vivemos décadas de fascismo comum, de miséria, de atraso. Porque é que hoje somos tão diferentes?

Vamos às origens, que logo nos distinguem. É verdade que tivemos uma matriz comum, celtibérica (Viriato é tão português como espanhol), romana, visigótica, moura. Há uma pequena diferença, que não sei discutir, a influência sueva, só em Portugal. Diferença mais marcante é que a reconquista começa na actual Espanha muito antes da que ocorre no actual Portugal. Creio que isto significa que, nessa época, as estruturas sócio-políticas feudais específicas da reconquista começam a afirmar-se muito mais em Leão, sendo apenas um reflexo periférico no território que hoje é Portugal.

Por outro lado, para desgosto do nosso orgulho, parece-me evidente que a resistência moura sempre foi muito mais forte em relação a Leão-Castela do que a Portugal. Os míticos reis mouros de Ourique devem ter estado muito longe, em poder, do que Afonso VI defrontou na tomada de Toledo.

Saltando séculos, outro aspecto essencial, o da construção do estado. Emparelharam, D. João II e os reis católicos, mas estes mantiveram a herança, enquanto que o nosso D. Manuel voltou a favorecer a nobreza. Mais importante, a nova Espanha unificada tem uma dimensão europeia, com a ligação à casa de Áustria.

A seguir, a expansão. Também aí uma grande diferença. Nós fomos descobridores e comerciantes. Só nos aventurámos nas bandeiras brasileiras e um pouco em Angola. Os espanhóis foram conquistadores. O nosso império foi de caricatura, uma pequena faixa costeira, o espanhol foi o de todas as américas, do ouro e da prata. Lembro aqui uma curiosidade, coisa que me dizia um grande amigo espanhol. "Os portugueses basearam-se em fidalgos da corte, nós em aventureiros duros, principalmente gente da seca Estremadura".

Outro grande salto para os tempos agónicos dos dois fascismos. No fim dos anos sessenta, nós estávamos apantanados na guerra colonial, os espanhóis conseguiram que Franco, apesar de provavelmente muito mais estúpido do que Salazar, abrisse portas em vida a um "marcelismo" do Opus Dei que, cá, foi uma coisa patética.

Tudo isto é charla de amador. Importante é ir a Madrid ou a Barcelona, ver e pensar. Ou, mais proximamente, ver no dia-a-dia o que é hoje o domínio espanhol da nossa vida quotidiana. Não é preciso saber ler os suplementos económicos dos jornais. Espanha, não há nada com quem eu tenha uma tão óbvia relação de amor-ódio!

18 fevereiro, 2007

LOL!!!

Viram o gato fedorento, que acabou há minutos? É imperdível, ainda há grande humor português e inteligente. LOL, ou, em português, à LA-C, RACC, ri-me alto como o c... Do programa de hoje, palpita-me que há dois momentos que vão dar milhares de visionamentos no YouTube. Primeiro, o jantar surrealista de novela brasileira em que o gay anuncia o seu namoro. Depois, a coisa mirabolante do padre: "deixem-me ir já, porque acabei de comungar e depois pode-me cair mal".

Fuge, ministre!


Fuge, vá depræssa, como se diz na minha térra. O ministre Manel Pinhe que s'apræsse. Na China, ficou por umas bocas, mas é importante competir com este anunce publicado em todo o mündo. Atão samos piores qu'a macedonhos, quê julguê qu'eram só salada russa?

Nota – a partir de agora, todas as notas jocosas serão em transliteração de pronúncia da minha terra. Assim, ficarão sempre a saber se estou a escrever a sério ou a brincar. Mas eu sei lá quando é que escrevo a sério ou a brincar!

Miguel Sousa Tavares

Não conheço pessoalmente Miguel Sousa Tavares (MST), mas tenho uma grande relação com ele, como leitor. Relação ambígua. Não vou falar do escritor, do "Equador", seria coisa longa. Agora vou falar do MST jornalista. Não gosto do MST arrogante, sobranceiro, com tiques de "menino bem". Mas acho piada à sua verve, à sua acutilância, e admiro a sua coragem, ao lutar, muitas vezes, contra o mais fácil e confortável.

Reproduzo parte da sua crónica no último Expresso, "Prova de vida". Um mimo de sabor queiroziano (e lá volto a pensar no "Equador", queirozianismo muito mal conseguido, a meu ver, mas fica fora desta conversa).
"Façam para aí umas sondagens, perguntem aos portugueses na rua, e eles estão todos de acordo com tudo o que lhes cheire a 'modernidade': os fumadores agradecem que os proíbam de fumar em todo o lado; os pacientes das filas de trânsito em Lisboa estão de acordo com os novos radares municipais que os vão explorar até ao tutano, nos raros locais e ocasiões em que possam circular a mais de 50 kms/hora; os gordos agradecem que lhes acabem com o queijo da Serra amanteigado e se preparem para fazer o mesmo às horríveis sardinhas assadas; os "pacientes" (extraordinária palavra!) do colesterol estão reconhecidos a quem determinou que o azeite tem de ser todo igual, de marca, inviolável e sem sabor; os sedentários suspiram por um decreto que os obrigue a correr três quilómetros por dia, como o engenheiro Sócrates; os noctívagos estão mortinhos pelo dia em que só lhes sirvam pirolitos e sumos naturais nos bares; os caçadores nada mais desejam do que a hipótese de se curarem clinicamente desse instinto homicida que os leva a querer matar animaizinhos que voam ou correm por essa natureza fora; os doentes do futebol querem que os castiguem de cada vez que chamarem nomes à mãe do árbitro ou rogarem pragas ao presidente do outro clube. Todos, se perguntados, vão querer um país novo, livre de pecado e vício, de cheiro a sardinhas assadas ou jaquinzinhos fritos, um país assim... como Bruxelas, essa cidade empolgante. Só escapam os casinos - que esses são modernos, cheios de «glamour», «design», cultura, «soshi», «smokings», «jackpots» e «nouvelle cuisine». Os portugueses adoram que os flagelem, que os proíbam, que os controlem, que os persigam, que tomem conta deles, como nos bons velhos tempos do senhor de Santa Comba.

É por estas e por outras que eu cada vez admiro mais os espanhóis. Disseram-lhes que tinham de adoptar os horários e hábitos de vida europeus e eles continuaram com a sua sesta. Quiseram-nos proibir de fumar em todo o lado e eles não levaram a sério. Deram-lhes uma lei do aborto igual à que nós tínhamos e eles levaram-na a sério e não deixaram que o lóbi dos médicos católicos a boicotasse. Ousaram sugerir a proibição dos touros de morte e eles responderam "nem se atrevam!" E, com tanta resistência pacífica e cívica, a Espanha é hoje um dos mais modernos e civilizados países do mundo. Continuando fiel à sua identidade e orgulhosa dela. Um país que não respeita as suas tradições não presta. Um país que não res¬peita os seus hábitos e a sua cultura, não existe: é assim uma espécie de alforreca, sem cor, nem cheiro, nem identidade. Uma Maria vai com todos."
É claro que tudo isto tem margem para discussão séria, mas é difícil darem-me esta margem, os novos puritanos, sem me irritarem e fazerem vir ao de cima o espírito de criança reguila. Falem-me em politicamente correcto e eu dou logo um grande traque em dó maior.

17 fevereiro, 2007

Ética republicana


Uma das coisas mais bonitas de domingo passado. Cincinato terá gostado. Não me lembro de coisa tão mais simbólica de um profundo espírito democrático. Deve ser caso único no mundo.

Futilidade de fim-de-semana


O fim de semana permite o relaxamento propício a que escrevamos coisas ligeiras e fúteis, sem o risco de nos chamarem parvos. E nem sempre o fútil é parvo!

Escreve hoje (17.2.2007) José Pacheco Pereira, no Público, que "a rápida mudança do tempo vivido dos objectos torna obsoleto qualquer filme de ficção científica que tenha mostradores analógicos em vez de digitais, porque nós sabemos que o futuro não substituiu apenas as alavancas por botões, mas acabou com os mostradores redondos em que um ponteiro podia indicar um drama quando se aproximava do vermelho. Hoje, só para os filmes de submarinos da segunda guerra mundial."

É verdade, tudo é digital à minha volta, o despertador, a televisão e anexos, o micro-ondas, o manómetro da caldeira de gás, até o temporizador dos cozinhados. Uma coisa não, em que sou irredutível gaulês, o relógio. E nem é porque me possa dar ao luxo de ter um Rollex.

E não se ficam...

A intolerância, com alguma dose de fanatismo, acompanha-se muitas vezes da incapacidade de reconhecer uma derrota. Em linguagem futebolística, tentam sempre ganhar na secretaria o que perderam no campo. Enganavam-se os que pensaram que os movimentos do "não" iriam ficar tranquilamente resignados, democraticamente, com a sua derrota. Já começou a guerra do aconselhamento.

Antes de comentar o assunto, anoto que esta campanha do aconselhamento promete ser tão "séria" como a do "não". São repetidas as alegações de que o PS e, designadamente, Sócrates estavam a trair o que prometeram na noite de 11. Posso estar enganado, mas nunca ouvi qualquer promessa em relação ao aconselhamento, apenas em relação ao estudo das boas práticas europeias. Mesmo que se queira ir tão longe que se pretenda que isto inclua o caso alemão, ele é muito mais do que a simples questão do aconselhamento. E porque é que o exemplo de um só pais há-de valer mais do que todos os outros?

Mais desonesto é outro argumento, surrealista. Afinal, quem está agora a ser defraudado é o votante no "sim" porque se sabe (!) que este voto só ganhou pelo convencimento de que a lei iria incluir o aconselhamento. Não sabia que o professor Chibanga tinha sido consultado pelos movimentos do "não".

A referência ao caso alemão não é inocente. Os agora lutadores pelo aconselhamento não gostam de deixar claro que na Alemanha as comissões de aconselhamento incluem representantes religiosos. Não tenho dúvidas de que, se aprovado cá o princípio do aconselhamento, o passo seguinte seria a exigência dessa participação.

Não consigo perceber a lógica do aconselhamento. Aconselhar só faz sentido como sabemos quando procuramos conselho, no caso determos dúvidas ou dificuldade de tomar uma decisão. Por princípio, o conselho é simétrico, ou para sim ou para não. Isto quer dizer que, hipoteticamente, uma grávida indecisa podia ser aconselhada a fazer um aborto, coisa que só a ela, estritamente, compete ter como intenção. Gato escondido com o rabo de fora, o que se pretende é que o aconselhamento seja sempre no sentido da dissuasão do aborto.

Coisa diferente, como aliás em qualquer procedimento médico, é haver uma consulta, estritamente médica, que permita à mulher uma decisão informada, um princípio hoje comum a praticamente todas as intervenções médicas. Também diferente é o acompanhamento posterior, tanto no que se refere a eventual apoio psicológico, se necessário, ou a ajuda no planeamento familiar. A meu ver, isto nada tem a ver, directamente, com uma lei do aborto.

Finalmente, e claramente relacionada com este assunto, a questão das declarações do Presidente da República. Não concordo de todo. Quando os partidos convergiram em declarações no sentido do desejo de busca de entendimentos, as declarações do PR são redundantes e configuram, não digo que propositadamente, uma intromissão na actividade parlamentar. O PR tem muitas formas de fazer chegar aos partidos as suas opiniões. Se o faz publicamente, tem de ser por razões importantes. Pergunto-me se não significa isto um aviso prévio em relação a um eventual veto politico, com base numa possível margem pequena de maioria. Se é, o PR corre um sério risco, porque creio que, num caso desta importância política, certamente seria desautorizado a seguir por uma confirmação da votação anterior.

15 fevereiro, 2007

E a seguir? (II)

Bem me palpitou! Segundo o JN, "Juventude Socialista reapresenta lei para casamentos gays". Volto a dizer que não tenho nada contra, mas que é mau "timing".

14 fevereiro, 2007

Gente fina é outra coisa

Quem escreve com nome e cara públicos tem de ser honesto e confessar todos os pecados, para que os leitores dêem o devido desconto aos escritos. Aqui vai uma confissão. Tenho o enorme desgosto de não pertencer ao "jet set" e de não receber todos os dias telefonemas dolicodoces do sr. Castro, uma ternura. Isto vem a propósito de uma notícia do público de 10.2.2007 (provavelmente, como é costume, isto vai sair ao retardador, quando me lembrar de o ir buscar ao meu enorme arquivo).

Foi presa uma senhora, Maria das Dores Pereira da Cruz, suspeita da autoria do homicídio do marido.
De acordo com pessoas próximas de Maria Pereira da Cruz, a relação da ex-bancária com o marido encontrava-se degradada há já "algum tempo". Para além de problemas sentimentais, a mulher do administrador da Campotec, uma importante central de distribuição de produtos hortícolas da região de Torres Vedras, debater-se-ia também com problemas financeiros, devido a uma "vida de luxos".

A última actividade de Maria Pereira da Cruz fora a representação da marca Kenneth Turner, especialista em velas aromáticas, que veio a revelar-se um fiasco comercial. O negócio terá transitado do seu primeiro filho, fruto de outro casamento. José David, de acordo com declarações de José Castelo Branco, seu amigo, está ligado à moda e é actualmente estagiário na revista Vogue, em Nova Iorque.
(...)
Ela amante de luxos, ele amante de piano José Castelo Branco conta que foi através de José David que conheceu Maria Pereira da Cruz. A célebre figura do jet-set descreve a mulher como "uma pessoa divertida, que adora vestir-se e arranjar-se". "Era um pouco doida, mas no bom sentido, no sentido em que era extrovertida", precisou Castelo Branco, acrescentando que o casal esteve uma única vez em sua casa, numa festa, "mas nem sequer foi fotografado".
Esta proximidade com Castelo Branco, mas sobretudo com os cabeleireiros Duarte Menezes e João Chaves, de cujas casas seria visita frequente, não significa contudo que Maria Pereira da Cruz fosse uma figura recorrente do jet-set.
Isto começa a baralhar-me. Moda, cabeleireiros, e ainda por cima o conde de Chateau Blanc? Finalmente, o juízo de que afinal a senhora não era assim tão Caras. Mas quem melhor para decidir?
Líli Caneças, assídua em eventos deste tipo, afirma não a conhecer. "É o segundo jornalista que me telefona por causa disso, não sei porquê. De nome, não a conheço", salientou.
Fico mais tranquilo, porque destas coisas quem sabe é a Lili, muito querida, aí vai um beijinho, não sei bem onde, escolhe, em sítio que não desmanche a plástica.

Nota final – alguém conhece o jornalista fofoqueiro responsável por esta brilhante peça, Ricardo Dias Felner?

13 fevereiro, 2007

O novo visual do Público

Gosto da nova apresentação do Público. Até nem sou muito sensível ao aspecto visual de um jornal, o que me interessa é o conteúdo e leio com prazer os ainda bastante clássicos NYHT ou El País. No novo Público, só me fica a nota estranha de alguma parecença com o Expresso. Foram ambos à mesma fonte (ainda se lembram do Guardian cor-de-rosa?). Também me falta o logótipo de tantos anos. Creio que vai ser das coisas mais controversas nesta remodelação gráfica.

Mudou o tipo de letra, embora de forma talvez não muito perceptível parra a maioria dos leitores. Gosto do novo tipo mas não da diminuição significativa da dimensão. O Público esqueceu-se de que uma margem importante dos seus leitores já usa óculos para o perto. Concluindo acerca do grafismo, a minha maior pena é o domínio do laranja, que até se pode prestar a conotações. As cores têm significados afectivos. O laranja é menos adequado do que o azul, por exemplo, para transmitir uma ideia de seriedade, objectividade, visão desapaixonada. E era o azul a cor dominante do Público, desde logo no acento do logótipo. Tomado que já está pela antecipação do Expresso, o Público teve de escolher outra cor, mas eu preferiria então um verde azulado, como exemplifico na figura. Aliás, é a cor de marca do caderno 2.

Mais importante é a organização do jornal. Gostei do desaparecimento da secção Sociedade e sua divisão pelas muito mais directas e significativas Portugal e Mundo. Em contrapartida, não gosto nada de ver o espaço de opinião no fim do jornal, quase que despromovido. Gostava de o ler pelo menos antes do desporto. Finalmente, notável, para mim, é o caderno 2. Consegue ser a leitura típica dos suplementos de fim de semana, mas acessível à maior pressa da leitura diária. Ainda por cima, os conteúdos estão mais extensos e diversificados. Que mais não seja pelo 2, os meus parabéns ao Público.

Envelope 9

No Público de 10.2.2007, algumas declarações interessantes de Souto Moura, ex-PGR.
"Olhei para o ecrã e vi números que não me diziam nada. (...) Aliás, confessou ter sido a primeira vez que ouviu falar "de conta-Estado, filtro protector ou selector e coisas do tipo".
Que não me venha pedir emprego. Não admito nem como aprendiz, numa das "minhas" empresas, quem não saiba trabalhar minimamente com Excel. Mas será só ele? Quantos ministros, directores gerais, juízes conselheiros?

Vejo novamente na notícia uma palavra que me tem surpreendido, em toda esta história: "disquetes". Será mesmo? Ou será CD? Já não me lembro há quantos anos usei a última disquete. A PT ainda trabalha com disquetes? Se sim, merece mesmo ser "opada".

12 fevereiro, 2007

E a seguir?

E agora, o que vem a seguir? Creio que a vitória do "sim" animará os defensores do debate de outras questões sócio-culturais importantes. Penso logo no casamento homossexual, que também afecta directamente, com boa probabilidade, dezenas de milhares de portuguesas e portugueses. Também na eutanásia. No entanto, tenho fortíssimas dúvidas sobre se já há receptividade cultural no nosso país para a sua discussão.

Diferente me parece o caso de outras duas chagas sociais, talvez mais relevantes do que o aborto clandestino: o consumo de drogas e a prostituição. Creio que, em ambos os casos, haverá, como no aborto, uma atitude afectiva geral de simpatia para com as vítimas. No entanto, a meu ver, há uma diferença essencial em relação ao aborto. Descriminalização só do agente "directo" (o tóxico-dependente ou a prostituta), mas nenhuma contemplação para com o traficante ou o agente de lenocínio. Até vou mais longe, penalização de quem solicita os serviços sexuais.

É claro que vejo estes dois casos na mesma perspectiva do aborto. Não se trata de simples liberalização, mas sim de um instrumento de combate à clandestinidade e de políticas mais amplas, de desintoxicação e de saúde pública (basta lembrar a Sida), num caso, de reinserção social no outro.

E pur si muove

Às vezes, é preciso que acontecimentos marcantes nos façam apercebermo-nos de como, apesar de tudo, este país está a mudar.

11 fevereiro, 2007

LOL!!!

"Lon Pressnall, um actor praticamente siamês de Abraham Lincoln (...)". Isto lê-se hoje no Público, numa notícia assinada por Rita Siza. Siamês? Ia-me partindo de riso, mas concluo, mais a sério, por um "viva o direito à asneira!"

Mandar e obedecer

As paredes dos corredores do meu liceu, "in illo tempore", estavam profusamente decoradas com quadros, obra prima de arte, as máximas de Salazar. Uma era, mais letra menos letra, "se soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida". Deve ser das coisas mais execráveis que já li. Veio-me à lembrança por causa de um escrito de São José Almeida ("Liberdade"), no Público de 10.2.2007:
"A propósito de um concurso de televisão sobre o maior português de sempre (seja isso lá o que for), na segunda-feira à noite, Maria Elisa Domingues moderou um debate, na RTP1, em que foram apresentados argumentos e desenvolvidos raciocínios diversos sobre o pendor que os portugueses terão para serem mandados, para obedecerem, para aceitarem com docilidade e complacência o autoritarismo de um líder. Querendo tão-só questionar o problema, não estará esta conclusão um pouco desfasada da realidade? Não será que a questão está posta ao contrário? Isto é: não serão as elites portuguesas que têm um forte pendor autoritário e uma mentalidade e hábitos mentais de actuação social e cultural não democráticos, pouco tolerantes e pouco respeitadores do direito à individualidade do outro?"
"Elementary, my dear Watson!" Tenho alguma dúvida sobre essa propensão do português para a obediência. Até aos anos 70, a sociedade portuguesa de que Salazar se assenhorou era essencialmente rural e de cultura camponesa. Nessa cultura, sempre foi importante a rábula, a manhosice, a hipocrisia, a humildade fingida. Tudo isto a levar à imagem de obediência inata, mas só pública. No privado, o camponês sempre foi o ditador da família. E, ao contrário da imagem popularizada por Rafael, era portas a dentro que o Zé Povinho fazia manguitos, não em público.

Muito menos agora se pode esperar obediência instintiva de um povo que, bruscamente, se terciarizou, desertou do mundo rural, aprendeu com a Europa, primeiro na emigração agora nos negócios. São José Lopes tem razão: quem parece que nunca evolui são os que têm tendência para o autoritarismo ou para o qual se sentem predestinados, vá-se lá saber porquê.

10 fevereiro, 2007

Racismo (II)

Um comentário deixado à minha nota precedente sobre o racismo fez-me ir ler a crónica de Clara Ferreira Alves, no último Expresso, "A praga chinesa". Começa logo pelo título, de muito mau gosto. Obriga-me a alguma escrita, que há coisas que não se podem deixar passar em claro, quando escritas com grande difusão e por uma pessoa que até, normalmente, gosto de ler.

Vou correr o risco, espero que bem controlado, de fazer citações retiradas do contexto. O contexto, neste caso, é importante, o da critica a uma sociedade aparentemente sem escrúpulos, contraditória, que pretende conjugar a modernidade económica com o maior atraso politico e do respeito pelos direitos humanos. No entanto, julgo que isto não desculpa que, a propósito, se escrevam coisas como as seguintes, para mais ofensivas de uma nossa comunidade imigrante pacífica, trabalhadora, que não tem nada a ver com os desmandos do regime chinês. Que se diria de um artigo do mesmo tipo, nos anos 60, num jornal francês, misturando salazarismo e colónia portuguesa em França?
(...) não podemos negar que os chineses se interessam violentamente pelo território português nos últimos anos. Violentamente, a meu ver, porque as lojas com lanternas vermelhas à porta, género «papier machê», são as lojas mais esquálidas e desgraçadas que alguém se lembraria de implantar em território europeu.
(...)
Por qualquer razão que me escapa, que nos escapa e que, diz-se à boca pequena, tem a ver com os interesses colonizadores da China e a nova versão do perigo amarelo, as lojas chinesas reproduzem-se como coelhos por esse Portugal fora, e no Alentejo abrem exacta mente no mesmo lugar onde fecharam, por falta de clientes, as lojas portuguesas. Vêem-se lojas chinesas à beira da estrada, nas ruas principais, nos centros comerciais. Vêem-se lojas chinesas encostadas a restaurantes chineses e sem estar encostadas a restaurantes chineses, cobertas de flores de plástico e de cartazes a dizer que está tudo a menos de 1 euro, ou de 10 euros, ou qualquer quantia irrisória. Lá dentro é o bazar desarrumado e sintético, exemplo milagroso do crescimento económico destinado a produzir lixo. As lojas chinesas são inestéticas, são concorrência desleal e estão a matar o equilíbrio do mercado e das lojas tradicionais portuguesas. Se esta frase parece racista é provavelmente porque ela é racista [JVC: e é!].
(...)
Na verdade, é impossível não perguntarmos o que diabo fazem tantas lojas chinesas em território português e quem sustenta e apoia estes comerciantes que resolvem vir para Portugal e para uma região de Portugal que está nos antípodas da sua sensibilidade, como o Alentejo. Quem sustenta e apoia estes imigrantes que não sabem falar português e que não são de Macau nem são sobras do império, e lhes diz para vir inundar zonas economicamente deprimidas com quinquilharia ambulante. A China, além de poluir a terra (e toda a gente sabe que já não se consegue respirar em Hong Kong), polui o mundo com o seu modelo de negócio. Talvez pudéssemos retribuir abrindo umas lojas de pastéis de bacalhau e galos de Barcelos na China, mas, até lá, somos inundados com óculos de ver ao perto, rosas artificiais, brinquedos, vestidos de poliéster, cabides, bugigangas, enfeites, paisagens amarelas e cor-de-rosa, sacos, tapetes, sapatos, altifalantes, relógios, colares, contas, cartas... e montras de entulho.
Já tenho escrito muita asneira, mas creio que nunca mais sairia de casa, escondido com vergonha, se me tivesse saído uma coisa destas.

Racismo

Notícia do Público, 2.2.2007.

"Um casal belga recusou-se recentemente a casar na cidade flamenga de Saint-Nicolas, no Norte do país, por causa da cor da pele do magistrado municipal designado para oficializar a união, noticiou ontem o jornal de língua holandesa De Morgen, citado pela AFP. Wouter Van Bellingen foi o primeiro magistrado municipal eleito na Flandres, na sequência das eleições de Outubro do ano pas-sado. O casal de Saint-Nicolas, que tinha começado a tratar do processo antes das eleições, explicou ao burgomestre (equivalente ao presidente da câmara) Freddy Willockx que não queria ser casado por um homem negro, como Van Bellingen. "Este é um verdadeiro exemplo de racismo", criticou Willockx, que se recusou a designar um outro magistrado para celebrar o casamento."

Sem comentários!

09 fevereiro, 2007

Abuso de poder

No Público de hoje:
Na sequência de afirmações de psiquiatras ligados aos movimentos pelo "não", que falavam de uma "síndrome pós-aborto", mais de 50 psiquiatras subscreveram um abaixo-assinado, no qual rejeitam a existência de diagnósticos psiquiátricos resultantes do aborto, realçam que o conceito não existe em nenhum compêndio científico e tomam posição a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas.

Subscrito por vários chefes e directores de serviço de psiquiatria (...) o documento começou a circular, apenas no meio psiquiátrico, em reacção às declarações de Adriano Vaz Serra, director do serviço de psiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra, que corroborou a ideia de uma "síndrome pós-aborto", primeiramente referida pela psiquitra e mandatária da Plataforma Não Obrigada! Margarida Neto. O que mais indignou os subscritores do abaixo-assinado foi o facto de Adriano Vaz Serra ter falado como presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. Ao PÚBLICO, a psiquiatra Ana Matos Pires, mandatária dos Médicos pela Escolha, adiantou ter já enviado um pedido de esclarecimento ao colégio de psiquiatria da Ordem dos Médicos e acrescentou que também vai dirigir a mesma solicitação à Sociedade Portuguesa de Psiquiatria.
Acho que fazem muito bem. Descontando algum exagero, parec-me estar-se perante o análogo criminal do abuso de poder. Aqui, não se trata do aproveitamento de um cargo para fins ilegítimos de antureza material, mas não fica muito longe. É o aproveitamento de um cargo e de uma credibilidade por ele conferida para enganar a opinião pública. Ai, o tão apregoado código deontológico dos médicos!

Incompetência ou manipulação?

O destaque de hoje, no Público, com um artigo principal de Nuno Sá Lourenço, vai para a última sondagem e tem o aparente rigor de até relembrar as margens de confiança. Transcrevo.
"54 por cento de intenção directa de voto manifesta-se a favor do "sim", enquanto 33 por cento diz ir votar "não".
(...). Uma vez que a margem de erro da sondagem se situa nos 2,5 por cento, o "sim" fica muito próximo dos 50 por cento."
Tolice. Na página seguinte, vê-se que estes valores se referem ao universo dos eleitores, incluindo os abstencionistas. Sabe-se bem que, num referendo, é necessário separar as duas situações.

Primeiro, a abstenção, que determina se o referendo é ou não vinculativo. Mesmo com a margem máxima de erro estatístico da sondagem, fica-se com a ideia, para mim surpreendente, de que a abstenção não ultrapasará os 14%. Não quero crer, porque, numa sondagem de voto em urna, há uma certa pressão psicológica para que os sondados votem. De qualquer forma, a sondagem é sugestiva de um resultado vinculativo.

Para a vitória do sim ou do não, as abstenções são irrelevantes. O que conta são os votos expressos. O jornalista esqueceu-se de coisa tão elementar, que salta à vista na figura da página seguinte: 62% para o sim, 38% para o não. Não há erro de amostragem que mude o resultado final, embora estejamos a falar apenas de uma sondagem.

A meu ver, o Público teve grande correcção e isenção durante esta campanha. Mas no melhor pano cai a nódoa.

Citações, sobre o referendo (6)

(Enquanto não tenho de respeitar o período de reflexão).

"35% das mulheres que vão abortar à Clínica Los Arcos completaram o ensino secundário, 2,5 o ensino profissional, 6,56 bacharelato e 25,4 a licenciatura." (Público, 8.2.2007).

Igualdade social em relação ao aborto em condições sanitárias e, na praática, impunível?

Encerramento da campanha


(Como considero os blogues como uma forma de comunicação social, sujeito-me às regras e encerro hoje a minha escrita sobre o referendo)