20 outubro, 2008

Universidade de Nobeis

Uma pequena notícia no DN de hoje:
O ex-presidente do BCP Paulo Teixeira Pinto defende que Portugal deveria apostar em colocar uma universidade no topo dos rankings internacionais das melhores instituições de ensino superior, "bastando" para isso contratar vários Prémios Nobel. "O conceito não é uma universidade portuguesa para portugueses, seria uma universidade em Portugal para o mundo", disse à Lusa Paulo Teixeira Pinto, que tinha já defendido a mesma ideia numa entrevista recente ao DN. Na visão do antigo docente universitário, essa universidade teria capacidade de "atracção de talentos, de cérebros, os melhores investigadores. Independentemente dos países onde estejam". Para Paulo Teixeira Pinto, deviam procurar-se "os melhores entre os melhores de todas as áreas do saber", entre os quais alguns Prémio Nobel. "Um Prémio Nobel custa menos que um razoável jogador de futebol." "Não me parece uma tarefa impossível".
Concordo no essencial, embora não veja muito bem o que é que Portugal pode oferecer como atracção a um Nobel. Em todo o caso, isto não se afasta muito da proposta que fiz há anos a um grande grupo empresarial português. Mas o que pensava sobre isto Paulo Teixeira Pinto quando presidia ao BCP? Como é fácil dizer “bocas” quando se está na reforma dourada!

19 outubro, 2008

Nota gastronómica (LXVI)

Risoto de cogumelos e bacon

Uma cara amiga minha é grande cozinheira, com um toque especial de origem para cozinha africana. Mas ninguém pode saber de tudo e escreveu-me a dizer que um dos seus filhos, em lua de mel italiana, apesar disto se lembrou de que a mãe é lambareira e trouxe-lhe um pequeno pacote de risoto pronto a servir. O desafio é aproveitar esta oferta, cheia de valor afectivo, mas acrescentá-la para um jantar a quatro. Aqui vai a sugestão. E fico a pensar porque é que ela me pede uma receita para quatro, afinal para ela e para os dois filhos. Será que está a preparar-se para me convidar para a prova? Não vou, nunca vou a experiências sempre falhadas de quem não consegue reproduzir as minhas receitas!...

Acho que não correspondi mal ao pedido. Vejam!

18 outubro, 2008

Eutanásia e suicídio assistido (I)

Hoje a CNN noticiava a investigação lançada sobre a morte de Daniel James, um jovem britânico de 23 anos, paraplégico desde que tinha sofrido um acidente desportivo, que morreu na Suíça alegadamente na sequência de um suicídio assistido.

Em Agosto deste ano os jornais noticiaram a morte de Rémy Salvat, um jovem francês, também de 23 anos, que sofria desde os 6 anos de uma doença degenerativa rara, que o estava a conduzir à incapacidade total. Rémy tinha escrito ao Presidente Nicolas Sarkozy solicitando uma alteração da legislação que visasse a despenalização do suicídio assistido. A resposta do Presidente francês foi a seguinte: "Por razões filosóficas pessoais (…) não temos o direito a interromper voluntariamente a vida." O jovem suicidou-se sozinho em Valmondois, a norte de Paris.

Ainda em França suicidou-se em Março deste ano Chantal Sébire, de 52 anos, que sofria de um estesioneuroblastoma, um tumor raro do sinus e das cavidades nasais. O seu rosto estava gravemente deformado e tinha perdido o paladar, o olfacto e a visão. As dores físicas que sofria eram atrozes. Após mais de 6 anos a lutar contra a doença Chantal Sébine apelou ao Presidente Sarkozy e ao Tribunal da Grande Instance de Dijon para que um médico, da Association pour le Droit de Mourir dans la Dignité, fosse autorizado a administrar-lhe pentotal. Chantal desejava morrer juntos dos seus filhos, que apoiavam a sua vontade. O tribunal recusou a sua pretensão, propondo-lhe em alternativa a aplicação da Lei Léonetti, que consistia em mergulhá-la em coma, não a alimentando e hidratando durante um período previsível de 10 a 15 dias, no final do qual morreria. Dois dias após a sentença Chantal aparecia morta na sua casa. Tinha-se suicidado com recurso ao pentobarbital sódico.


Pelo menos nos dois últimos casos as pessoas que reclamaram o direito a morrer junto dos seus tiveram uma morte solitária e indigna. Vem-me à memória a frase final de O Processo, de Franz Kafka, quando Joseph K. é executado sem saber porquê:
"‑ Como um cão! ‑ disse. Era como se a vergonha devesse sobreviver‑lhe."

17 outubro, 2008

cortar, dobrar, soldar e furar

Hoje, no Diário Económico, Edição impressa, Margarida Peixoto subscreve um artigo, com o incinerante título Empresas não querem Licenciados, redigido com base num Estudo da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP).
O referido artigo corrobora um outro, datado de 19 de Novembro de 2007, pelo qual Luís Reis Ribeiro, do mesmo Jornal nos dizia: Portugal perdeu 167 mil empregos qualificados.
Os dois textos parecem desmoralizantes, mas - pensando melhor - são consistentes, alinham e traduzem o espírito e a cota empresarial, possível no nosso país; começa a valer a pena prestar atenção a afirmações como estas, porque são cíclicas.

Nem de propósito, ouvi eu ontem a um empresário: lá na minha zona precisamos só de enquadrar e organizar com rigor as nossas competências tácitas - cortar, dobrar, soldar e furar. Penso que se referia às vantagens de rentabilizar a tradição regional na preparação e treinos, quase inatos, a bem dizer hereditários, de excelentes serralheiros mecânicos...

15 outubro, 2008

Separação total de bens e «adquiridos»

Ora bem, pois muito lhes posso contar: hoje foi um grande dia para o subsistema politécnico. Ocorreu um acontecimento verdadeiramente excepcional - O MCTES deu-se ao incomodo de ir à sessão de abertura do Ano lectivo 2008/2009, de um politécnico. Estaremos finalmente no bom caminho, o termo politécnico começou a entrar no vocabulário subconsciente da nossa governação? parece mesmo haver já um certo entendimento da governance que também possa ter alguma coisa a ver com a sua política de desenvolvimento...
Não lhes digo qual o politécnico visitado não Senhores.
Têm que advinhar....
Não vale!....Como é que adivinharam? É esse politécnico mesmo!
Os meus caros e raros leitores são génios!

Sabem o que o MCTES por lá disse?
De acordo com o que aqui consta, o Senhor Ministro disse que há agora quase o mesmo número de alunos nos Politécnicos e nas Universidades. Sim senhores! Pareceu satisfeito, porque está «tudo» a portar-se como «manda o figurino»!
Bom tudo, tudo, tudo... nem por isso! Esta cindarela tem um lado negro... Através do jornal Público (aqui) o Senhor Ministro até deixou um recado, para alguns outros politécnicos que andam a «pular um bocado as cercas».
Para resolver o assunto dessas instituições sem fronteiras - não só dos politécnicos - proponho algumas medidas de persuasão:
- Uso de Espantalhos. Esta não é muito boa ideia... pois não? [E, os meus caros e raros leitores, ainda me perguntam porquê? ... Oh meus amigos, está bem de ver, porque....]
- Cercas resistentes munidas de equipamentos de electrocução - os cercados que existem estão a precisar de manutenção urgente, mas não será só do lado dos politécnicos...; Sabem como é? A galinha da minha vizinha...
- Engodos e iscos certos distribuídos dos lados corretos das cercas e nas proporções adequadas e por objectivos. É que, bem vistas as coisas, houve durante este tempo bens adquiridos de ambos os lados das cercas de dunas... quero dizer, uma cerca que se preze precisa de ser fixada de través e não de cutelo.

Esta última proposta, não desfazendo, seria uma ENORME ideia, mas aqui temos um busiliszinho: O MCTES também disse que «apresento o orçamento na Assembleia da República quando lá for» -, avançou, contudo, que o documento «contempla um aumento muito significativo de verbas para o ensinou superior público em Portugal». Mas não falou no mais importante - dos montantes e sobretudo de «shares», que seria o que interessa!
Queremos que Politécnicos leccionem cursos CET? Pague-se-lhes muito bem para isso! E muito mal o resto.
Queremos que Universidades leccionem bem Doutoramentos? Pague-se-lhes muito bem para isto! E muito mal o resto.

Um destes dias - que não hoje - vou ter que voltar à proposta dos Espantalhos! fica para depois...

Orgulhosamente nós

Um amigo meu, professor universitário, quis apresentar um projecto a Bruxelas, mas só podia fazê-lo por intermédio de uma direcção geral portuguesa. O formulário implicava uma justificação, que ele entendeu, e muito bem, que ficava fortalecida se fosse um excerto de um projecto já aprovado. Enganou-se, a tal direcção geral não aceitou, porque estava em inglês.

Mas a cereja no bolo foi a pomposa afirmação de um alto quadro dessa direcção geral: "A Constituição não me obriga a saber ler inglês". Pobre Constituição, já para isto és chamada. Que dizes, meu caro Vital?

IF-THEN-ELSE

Só quem não se lembra das peripécias que aconteciam quando nem há uma década ainda se usavam infernosas linguagem de "programação" - FORTRAN e familiares, é que é insensível e pode pensar que um Orçamento de Estado de um país está, actualmente, imune aos estados de espírito de Drive-pens e lap-tops com personalidades vincadas...
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Claro que ninguém percebeu nada do OE 2009.
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No entanto, fui ouvindo a abalizada opinião da oposição sobre o assunto, e percebi que as «coisas» estão mais ou menos neste pé:
SE tudo estiver bem no FIM.
ENTÃO estará tudo OK.
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Também já equacionei e transcrevi os meus passos de programação sobre o assunto mas - como sou um bom pedaço mais lerda - gasto mais que o dobro dos passos e das linhas:
SE tudo estiver bem no FIM.
ENTÃO estará tudo OK.
SE NÃO!
ENTÃO não chegámos ao FIM!
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Um apelo:
Valha-nos o Plano Tecnológico...
e, pelo menos, emprestem um "Magalhães" ao Ministro das Finanças.

12 outubro, 2008

Nota gastronómica (LXV)


David Lopes Ramos, ontem, no Fugas do Público, recordou-me a moreia. No continente, nunca vi moreia à venda e sei que muitos amigos meus nunca comeram este peixe. É muito popular nos Açores e na Madeira e tem para mim um significado especial, apesar de normalmente, em miúdo, não a comer. O meu pai gostava muito de moreia e era pescador amador. Pescar uma moreia dava-lhe prazer, porque o bicho faz-se difícil. Vivendo normalmente nos interstícios entre rochas, e sendo afilado, enrosca-se nas pedras e luta muito contra o pescador. Pescador vencedor e ainda por cima apreciador do peixe, como o meu pai, regalava-se depois ao almoço. Nanja a descendência, influenciada por avó e mãe que achavam que aquele peixe repelente parecia cobra.

Na minha terra, moreia come-se frita. O senão é que, já de si, a moreia é muito gorda. Nunca experimentei, mas iria antes para um assado bastante seco ou, melhor, para a preparação a seco numa sertã ou numa chapa. Mesmo assim, molho e guarnição a “cortar” a gordura. Com isto, proponho uma receita.

Moreia assada na sertã sobre cama de legumes azedos e com crocante de batatas
1 moreia (normalmente, dá para 6 pessoas), 2 dl de vinho branco seco, 1 limão, 1 cebola, 3 dentes de alho, 1 folha de louro, 1 ramo pequeno de salsa, sal grosso, pimenta branca e preta, moídas a fresco, em partes iguais. Farinha de milho, q. b.
2 cebolas médias, 3 tomates grandes, 3 caiotas (chuchus), 4 c. sopa de azeite, 1/2 dl de vinho generoso (verdelho açoriano ou Madeira meio seco), 1/2 dl de sumo de limão galego (na falta, de sumo de lima) e 1/2 dl de sumo de laranja, sal, pimenta, pimenta da Jamaica.
4 batatas, 3 batatas doces.
Cortar de véspera a moreia às postas e deixar no frigorífico a marinar com o vinho, o sumo de limão, a cebola e o alho às rodelas finas, o louro e a salsa, sal e pimenta. Quando tudo o resto estiver quase pronto, polvilhar ligeiramente a sertã com farinha de milho e aquecer bem. Escorrer as postas de peixe e secar com pano ou papel absorvente. Assar dos dois lados, a lume bem forte e reservar.

Cortar em brunesa a cebola, o tomate sem pevides e a caiota e saltear no azeite a lume forte, durante um minuto. Regar com o vinho e sumos, temperar, tapar, baixar o lume e estufar até amolecerem bem. No fim, se necessário e a gosto, um toque de mel ou de melaço de cana a compensar a acidez. Esmagar ligeiramente, a misturar os legumes, como um "concassé" grosseiro. 

Semi-cozer as batatas, com sal. Com um laminador, cortar em lascas pequenas, amassar separadamente e espalmar, em camadas alternadas. Cortar bolos cilíndricos com uma forma e levar ao forno a acabar a cozedura, sobre tapete siliconado. 

Enfeitar com um raminho de salsa frisada e um fio de aveludado de peixe com bastante sumo de limão e um toque de caramelo, malagueta e pimenta da Jamaica moída.

Enquanto não encontro um sapo ou um príncipe desencantado que desperte a nossa FCT da sua sestazinha plurianual, pelo menos, para publicar os resultados das Avaliações das Unidades de Investigação pertinentes ao longínquo triénio 2004-2006,... já lá vão 9 meses e muito tal (já um verdadeiro «parto de égua») das avaliações pelos júris internacionais, «achei» muito boa ideia enriquecer um portfólio restrito de projectos inovadores, à nossa moda - isto é, copiar umas quantas as ideias dos outros pela internet afora!
A «minha» genial e «originalíssima» ideia incluía ocupar todas as cotas disponíveis dos possíveis eixos dos zzzz... com plantações horto-frutícolas ou horto floricultura em arranha-céus, na progressista linha da vertical farming; um skyscraper, de 20 a 100 andares, por cada sub e hipermercado - façam lá as vossas continhas...
Depois, para além do entusiasmo característico dos empreendedores nacionais, pensava atrair para esta «minha ideia totalmente inovadora» investidores de nomeada, e tinha até colocado a Sonae num lugar cimeiro da minha lista de potenciais parcerias para o efeito.
Queria à viva força também - o que me está a cheirar tornar-se no objectivo nacional dominante, um sub-prime só meu, ...vá lá,... quanto muito... magnanimamente só «nosso»...Mas... Mas... depois de executar uma exaustiva pesquisa sobre o estado da arte do assunto cá do sítio, verifiquei que afinal esse meu potencial parceiro para aquele «meu projecto», estava já engajado com a Quercus, numa linha concorrente, a da «nova agricultura urbana nacional» mas a tradicional dos eixos x e y.
Bom,... Agora vou mudar o meu objecto de investigação - vou «desenvolver» um vinho frutado qualquer, com um flavor de umas bagas em extinção...desde que seja muito caro!
Não precisa sequer de ser uma zurrapa razoável, basta ser muito caro, e ter um rótulo catita colado ou apenso!
Desmoralizante?
Não!
São contingências estruturais, estas sim, são exclusivamente nossas!

Hipocrisia

Morreu, num acidente destinado a quem conduz a alta velocidade, o bem conhecido pró-nazi austríaco, Jörg Haider. Ainda há poucos anos, quando integrou um governo austríaco, originou quase um corte de relações geral com o seu país, por parte da UE.

Agora, segundo o DN, "as principais figuras da política austríaca lamentaram a "tragédia humana" que foi a perda "de um homem político de grande talento", que suscitou "entusiasmo mas também críticas duras", afirmou o Presidente Heinz Fischer. Por seu lado, o primeiro-ministro indigitado, o social--democrata Werner Faymann, definiu Haider como "um político de excepção". Também o actual presidente do Partido da Liberdade (FPÖ), Heinz-Christian Strache, a quem Haider foi forçado a ceder a liderança, considerou este "como uma das figuras mais marcantes da II República" austríaca."

É sabido que para muitos portugueses, que não eu, o respeito pelos mortos faz calar as críticas. Parece que é o mesmo na Áustria e levado a ponto extremo, neste caso. Aliás, quanto a coisas relacionadas com este caso, a Áustria é "interessante": um dos casos de maior impacto da extrema direita, voto muito considerável de jovens nessa extrema direita, mas também coisas provavelmente marcantes como herança histórica, como seja um apoio entusiástico ao Anschluss, um número considerável de figuras destacadas do nazismo de origem austríaca, a começar por Hitler.

10 outubro, 2008

It’s only Porta da Ravessa but I like it…

Agosto de 2006. Os Rolling Stones chegam ao Porto, cidade na qual dariam um concerto integrado na Bigger Band Tour. À volta da mítica banda inglesa instala-se o circo mediático do costume. Os músicos são seguidos por todo o lado, descrevem-se os pormenores dos seus aposentos nos hotéis da cidade, conta-se, pela enésima vez, os pormenores da sua longa carreira.

Numa das noites Mick Jagger decidiu, após uma visita às caves de vinho do Porto, ir jantar ao D. Tonho, um dos restaurantes de referência da Invicta. Jagger e os seus convidados optaram por um Robalo ao Sal, uma das especialidades do D. Tonho. Depois de encomendada a comida a pessoa que tomou nota dos pedidos aproxima-se com a monumental carta de vinhos do restaurante. Jagger disse simplesmente: “I want a bottle of Porta da Ravessa.” Perante a situação o chefe de mesa ainda tenta sugerir uma alternativa mais sofisticada mas o músico manteve-se firme na exigência do vinho alentejano.

Parece que o vocalista dos Stones gostou da experiência gastronómica portuense. No dia seguinte, antes do concerto, todos os membros da banda foram de novo jantar no D. Tonho. Não sei se tornaram a pedir Porta da Ravessa…  

08 outubro, 2008

Sarilhos Grandes

Hoje, no IC 32, o trânsito esteve cortado entre a Moita e Montijo devido a um camião-cisterna que derramou ácido clorídrico. O acidente ocorreu ao início da manhã, no sentido Moita-Montijo, a seguir à saída de Sarilhos Grandes… 

Não consigo imaginar nenhuma localidade em Portugal com um nome tão apropriado para acidentes desta natureza. 

05 outubro, 2008

Possibilidades ou Utopias?

Vale a pena LER E PENSAR sobre o post publicado hoje, por Cadima Ribeira, no seu Blog Universidade Alternativa:

Princípios de boa gestão de uma universidade (enunciados a partir de uma vivência particular)

04 outubro, 2008

Querem ver que não consigo explicar "a energia negativa"?

Hoje, venho aqui só de passagem, não como é meu hábito, para pedir compreensão aos meus caros e raros leitores perante uma ausência justificável, antes porém, por mor de lhes conceder uma ou duas satisfações, para ausências um pouco mais prolongadas…
É simples e assim: Durante bem mais do que 15 dias, consegui uma proeza digna de um Nobel qualquer, por ser um caso inédito no campo da optimização de coisas, diria que, e passe a imodéstia, atingi o patamar de cota mínima no ranking da escala anti-divina - rigorosamente, consegui, nesse intervalo de tempo, não estar, nem ir a lado nenhum, e não fazer nada de nada!

Acham impossível? Ai acham? Mas não foi!

Esse meu prodígio pessoal é irrelevante se o compararmos com a altíssima frequência de outras improbabilidades: mantêm-se as mesmíssimas lamentações dos responsáveis institucionais de educação superior à-cerca das situações financeiras deficitárias; e, estas meus amigos são só nano dificuldades, se as compararmos com a manutenção ad eternum das condições que originam esses eternos deficits, e que nos levam a todos à conclusão que a exeguidade financeira é único problema da nossa educação…analisem outras exiguidades e concluímos que o deficit financeiro é só café dos pequenos... o problema "são" os Outros deficits....
Experimentem perceber as fundamentações e decisões do MCTES para as suas opções, experimentem compreender a distribuição de tarefas e de funções do pessoal das nossas instituições de ensino superior, experimentem iniciativas para lançar estratégias de actuação nos vossos pequenos círculos de intervenção…Experimentem ainda estimar o deficit de racionalidade e de lógica necessárias para se resolver de forma mais sistemática essas queixinhas constantes, cujas causas não são meras circunstâncias, e sim debilidades de estruturas das pesadas, e tudo isso aponta para onde?

Deficit de Finanças? Ou Deficit de Recursos Humanos?....

Pois...

Penso que a nossa eternidade nacional vai, obrigatoriamente, tornar-se um pouco maiorzinha e mais perpétua do que a Outra. Assim, manter-se-ão, entre nós, e por sinal bastante frequentes, episódios de «probabilidades e energia negativas»… Acham que reze?

Mas onde é que nós estamos?
Óh meu Deus tem dó da gente.
Mundo velho já deu flor carunchou toda a semente
virou um rolo de cobra, serpente engole serpente.
quem vive lesando outro dando pulo de contente,
o pobre trabalhador..... é o escravo na corrente

Estão matando e roubando, é conflito permanente
um bandido entrou no banco armado até os dentes
chorou no colo da mãe a criancinha inocente
mas ele achou que a criança perturbava o ambiente,
matou a mãe e a filha... foi um quadro comovente

Tem família num bagaço fingindo viver contente
a alegria é só por fora mas por dentro é diferente
é filha desmiolada que casou com delinqüente
é um genro pé-de-cana que não gosta do batente,
onde tem ovelha negra.... desmorona um lar decente

O mundo virou um vulcão e cada vez fica mais quente
não há nada que esfrie quero ver quem me desmente
um grande estoque de bombas crescendo diariamente
quando estourar todas as bombas ninguém fica pra semente
mundo velho não tem jeito... vira cinza brevemente

O mundo já está encardido e não adianta detergente
a sujeira desafia até soda e água quente
num lugar morre de sede e no outro morre de enchente
ó mestre lá nas alturas meu senhor onipotente,
seu poder é infinito..... protegei a nossa gente

Tião Carreiro e Pardinho

Nota gastronómica (LXIV)

Ingredientes açorianos

No Expresso deste fim de semana escreve-se sobre o interesse de compra nos supermercados continentais dos produtos ilhéus. Concordo, são muitos os meus leitores a perguntarem-me onde encontrar produtos de que falo. No entanto, em relação à gastronomia açoriana, ficamo-nos cá pelos lacticínios.

Ao lado, conseguimos cá comprar coisas típicas açorianas mas com outras origens: batata doce, inhames, caiotas (chuchus), tomate de capucho (fisálias) e até, creio que exclusivamente no Corte Inglês, o bolo lêvedo.

Ficam de fora os vinhos, principalmente os três brancos, de excelente relação preço/qualidade, o Frei Gigante, do Pico e os Donatário e Da Resistência, da Terceira (Biscoitos, Casa Brum).

Depois, ou talvez antes, os produtos de porco, vendidos aos quilos todos os dias em qualquer supermercado de Ponta Delgada, é só metê-los no avião: morcela, linguiça, debulho, pé de torresmo. E, imprescindivelmente a massa de malagueta e a açaflor.

Eutanásia

Diz hoje no Expresso o presidente da Associação Portuguesa de Bioética, Rui Nunes, que 40% dos oncologistas portugueses apoiam a eutanásia. Conhecendo o meio médico, e até ver o estudo que tira esta conclusão, custa-me a acreditar. Infelizmente.

Mas isto suscita-me uma reflexão: porque são os médicos portugueses tão conservadores, em matéria deontológica? Dou por mim a pensar que, de entre os que conheço, boa parte dos "progressistas" trabalham em exclusividade no SNS, ou são académicos ou estão envolvidos em coisas de saúde pública sem interesses privados. Não será que o conservadorismo deontológico é um álibi para disfarçar, mesmo que inconscientemente, a promiscuidade ambígua e desconfortável com os interesses da medicina privada? Isto pode parecer extremo, mas recordo que muito do que legitima a privada são coisas do tipo "relação médico-doente", que alimentam o código deontológico.

Pérolas jornalísticas

Tendo decidido não comprar mais o Público, passei a escrutinar com cuidado o DN, possível alternativa para quem desde há muitos anos o jornal em papel é tão obrigatório como o café (valha que já não a cigarrilha). Nanja, como diz o meu povo. Aqui vão algumas pérolas, parafraseando o meu amigo Pedro Aniceto.

1. Ontem, noticia-se que "para combater a poluição microbiológica vão (JVC - itálico meu) haver novas normas".

2. Hoje, um jornalista escreve uma peça correcta em que refere com frequência o Tribunal de Contas como TC, identificando claramente a abreviatura logo na primeira linha. A notícia não permite qualquer ambiguidade, por se referir a coimas aplicadas a autarcas por irregularidades de contas. No entanto, quem depois escreveu a epígrafe e a legenda da fotografia entendeu que era o Tribunal Constitucional.

3. Mais grave, também hoje, o título e o texto de uma pequena notícia sobre um assalto realça que se trata de assaltantes romenos. Se fossem portugueses, tal facto teria tido honras de chamada de atenção?

Será que ainda vou ter de experimentar o Correio da Manhã? 

Portugal no seu melhor

02 outubro, 2008

Cursos de Medicina nas privadas

Declaração de interesses: sou director indigitado do curso de medicina proposto pela Universidade Lusófona e tive um papel relevante na elaboração do projecto.

Há dias o MCTES declarou que nenhuma das propostas de cursos de medicina apresentadas pelas universidades privadas tinha qualidade. Isto tem especial gravidade porque passa para a opinião pública a ideia de que o ministério até estaria aberto a cursos privados, numa situação em que há já falta de médicos, em que o SNS vai recrutar médicos uruguaios e de outros países latino-americanos (como são os cursos de medicina no Uruguai?) e em que centenas de estudantes portugueses procuram estudos médicos no estrangeiro, até nas provavelmente excelentes escolas médicas da República Dominicana.

Porque não formar estes mais médicos em Portugal, nas privadas se as públicas não correspondem à procura? Porque, MCTES dixit, os projectos das privadas não têm qualidade. É uma afirmação grave, proferida com autoridade e sem possibilidade de contestação. Não posso aceitar isto, pessoalmente. Quando houver uma decisão e o processo deixar de estar em reserva administrativa, pedirei à Universidade que me autorize a divulgá-lo, sujeitando a sua qualidade ao escrutínio de todos os meus leitores.

29 setembro, 2008

O que não se pode dizer

Mas que eu, independente, posso! António Nóvoa, reitor da UL, deu há dias uma excelente entrevista à SIC. A certa altura, perguntou porque é que o MCTES tem uma boa política de flexibilidade contratual a prazo com os laboratórios associados, de investigação, e não com as universidades. Eu respondo. Porque o MCTES é dirigido por um homem que julga que sabe é de ciência, embora eu ainda esteja por ver quem é o cientista que está com o mesmo chapéu do ministro. Mas que certamente é muito ignorante e distante em interesses da educação superior. 

Há muito tempo que venho dizendo isto. JMG ainda não contribuiu com alguma coisa que se veja para a evolução do nosso sistema de educação superior. Fala-se do RJIES, mas é tipicamente um exercício político de ignorantes. Coisa politicamente crítica, que acaba por ser o ponto forte da entrevista de AN, a gestão de carreiras, é coisa a que JMG tem fugido como diabo da cruz. E, no entanto, parece ser um ministro seguro de pedra e cal, quando se discorre sobre remodelações.

P. S., 30.9.2008 - Reparo que usei duas vezes nesta entrada o termo ignorante. Não me arrependo e nem é ofensivo, porque define uma situação objectiva que não diminui as características pessoais de quem se fala. No entanto, convém explicar. Escrevi que JMG é ignorante no que se refere à educação superior, em comparação com o que conhece de política científica. É verdade. Onde é que está publicado algum escrito seu relevante sobre este tema?

Escrevi que o RJIES é um exercício de ignorantes. Creio que é verdade e julgo tê-lo demonstrado. É uma mistura incoerente de modelos, está desfasado de muitos conceitos básicos da teoria das organizações, desconhece aspectos fundamentais da cultura institucional, proopõe um modelo alternativo, fundacional, sem o mínimo de fundamentação e esclarecimento, e muitos etc.

28 setembro, 2008

A Madeira de que tanto gosto...

A Universidade da Madeira (UMa) desperta-me sentimentos contraditórios. A ela dediquei muito e estimulante trabalho, com um projecto inédito em Portugal de educação liberal. Lá conheci colegas de excepcional qualidade, de que destaco, com toda a justiça, Nuno Nunes e José Castanheira da Costa. Ao mesmo tempo, é uma universidade que se expõe ao público da pior maneira. Agora, em vários sítios da “net”, chama-se a atenção para um inconcebível processo de nomeação definitiva de um professor auxiliar. Vejam aqui e aqui toda a história.

Isto envolve duas personagens bizarras. Primeiro, a directora do Departamento de Ciências de Educação, Jesus Maria Sousa, pessoa que não tenho o desgosto de conhecer pessoalmente mas que, lamentavelmente, bem conheci como intransigente opositora da nossa proposta de reforma da UMa. Especialista em ciências da educação, só não percebo como é que as universidades de Harvard, Cambridge, Oxford, muitas mais, adeptas do modelo da educação generalista e integral, nunca repararam nesta senhora, ainda por cima notável por, em espaço de meses, dar um parecer entusiasticamente favorável e depois pedir para o retirar, substituindo por um parecer negativo. Só não digo que já chegámos à Madeira porque é muito injusto para todos os colegas de grande qualidade que lá conheci.

Depois (ou antes) o reitor especialista em disparates, Pedro Telhado Pereira (e que telhado de vidro ele tem!…). Começou por quase fracturar a universidade, quando demitiu o vice-reitor Nuno Nunes e fez um braço de ferro tonto com o resto da equipa reitoral, levando à sua demissão. Depois, a história triste que identificou na opinião pública a UMa com um certo lóbi (é pena que já não esteja na “net” o “site” pessoal de um dos vice-reitores). Mais recentemente, os conflitos insensatos com os membros externos da assembleia dos estatutos. Finalmente, a coisa inconcebível de, sendo ainda reitor de uma universidade, estar envolvido numa história pequenina de concurso a um lugar de professor de uma escola do continente. Mas o que é verdade, meus caros amigos madeirenses - e desculpem-me a provocação amiga - vocês é que o elegeram!

P. S. (19:54) - E há mais, segundo mensagem acabada de receber da Madeira.

26 setembro, 2008

Ordem dos professores

O De Rerum Natura tem publicado umas crónicas de Rui Baptista em defesa da criação de uma Ordem de Professores. Na sua última entrada Rui Baptista coloca 10 questões sobre a Ordem dos Professores. Deixo aqui as respostas que dei às referidas perguntas.


1. Porque será que tantos estratos laborais de formação académica superior se estruturaram em ordens profissionais e outros, com formação escolar de igual exigência, se limitam a ansiar por idêntico estatuto?

Para que determinados profissionais se organizem numa Ordem ou numa Associação Profissional não basta terem uma formação superior. Devem cumprir um conjunto de exigências que se encontram explanadas na Lei nº 6/2008 de 13 de Fevereiro. O facto de, no passado, algumas profissões terem conseguido constituir Ordens Profissionais sem que, de facto, reunissem essas condições (estou a pensar, por exemplo, na Ordem dos Economistas) não deve justificar a criação de outras Ordens profissionais. 

2. Porque será que os psicólogos lutaram anos a fio pela sua Ordem e se regozijam hoje por a terem finalmente conseguido?

Sou psicólogo de formação e fiquei satisfeito pelo facto de o Estatuto da Ordem dos Psicólogos ter sido recentemente aprovado pela Assembleia da República, embora os referidos estatutos contenham algumas lacunas e especificidades que considero negativas. De qualquer das formas, a psicologia é, pelas suas características, uma área científica e profissional que se adequa em absoluto ao seu enquadramento numa associação profissional ou ordem. Resulta de uma formação superior e os psicólogos não só devem pautar a sua intervenção por exigentes por critérios científicos como devem obedecer a um código deontológico que obrigue, por exemplo, ao segredo profissional. Este código até ao momento não existe. 
Por outro lado, a atribuição da carteira profissional de psicólogo é actualmente uma prerrogativa do Estado, ao abrigo de uma legislação do Estado Novo. O resultado desta situação fez com que fossem atribuídas milhares de carteiras profissionais a pessoas cuja formação de base não era Psicologia, por exemplo, a licenciados em Filosofia que tivessem defendido uma tese de licenciatura em psicologia…Os psicólogos constituem um grupo profissional que, de facto, pela especificidade da sua área, requer uma ordem profissional que, através de mecanismos de auto-regulação, se substitua ao Estado que tem sido um péssimo regulador da sua profissão. 

3. Porque será que a Fenprof, o sindicato com maior representatividade em número de associados, se inquieta tanto só de ouvir falar na criação da Ordem dos Professores?

Não faço a mínima ideia. Se isso sucede penso não compreendo porquê. A Lei nº 6/2008, de 13 de Fevereiro, é clara ao afirmar, no ponto 2 do Art.º 4º, que as Ordens “estão impedidas de exercer ou de participar em actividades de natureza sindical ou que tenham a ver com a regulação das relações económicas ou profissionais dos seus membros.”

4. Porque será que o partido com a responsabilidade da maioria absoluta parlamentar não deu provimento, na Assembleia da República, a uma petição, apresentada em 2 de Dezembro de 2005, para a criação da Ordem dos Professores, subscrita por 7857 docentes?

Provavelmente porque entendeu, e na minha opinião bem, criar previamente uma lei-quadro da criação das Associações Profissionais antes de proceder à autorização de criação de novas ordens. Foi essa a razão que fez com que o projecto de Estatutos das Ordem dos Psicólogos estivesse tanto tempo na Assembleia da República, tendo dado entrada no Parlamento antes da actual legislatura.  

5. Terá sido por a Ordem dos Engenheiros não ter permitido a inscrição de licenciados pela Universidade Independente que a recente legislação regulamentadora de novas ordens profissionais retirou a essas associações a validação dos respectivos cursos de acesso?

Não foi só a Ordem dos Engenheiros que colocou entraves à acreditação de cursos. A Ordem dos Arquitectos fez o mesmo, sendo obrigada a admitir como associados, em sede de decisão judicial, arquitectos licenciados pela Universidade Fernando Pessoa. A actual legislação fez bem em retirar esse poder às Ordens passando-a para a actual Agência de Avaliação e Acreditação para a Garantia da Qualidade do Ensino Superior

6. Porque será que outras profissões, de idêntica projecção e responsabilidade sociais, se subordinam a um código deontológico específico que lhes impõe direitos e lhes exige deveres, responsabilizando os seus membros por uma prestação de serviços qualificados à comunidade, e os professores não?

Os professores são abrangidos pela Carta Deontológica do Serviço Público, aprovada pela Resolução 18/93 do Conselho de Ministros publicada no Diário da República em 17 de Março de 1993. A questão reside em saber se um outro código deontológico deveria ser aplicado aos professores e quem o deveria aplicar e fazer cumprir.  

7. Não serão merecedores de igual tratamento os usufrutuários de um sistema de ensino consignado como um direito constitucional?

Existem outros direitos consagrados na Constituição. Sugere que todos os profissionais que de alguma forma se encontrem ligados a estes direitos devem ter uma Ordem Profissional? 

8. Será que os professores se resignam ao papel de escravos ao serviço dos mandarins da Avenida 5 de Outubro?

É uma pergunta que deverá colocar aos professores. Mas acrescentaria uma outra: a existência de uma Ordem de Professores asseguraria que os professores deixassem de ser escravos ao serviço dos mandarins da 5 de Outubro?

9. Será que os resquícios de uma política sindical mercantilista, que inscreveu sem qualquer critério de formação académica minimamente exigente indivíduos que lhes batiam às portas na defesa de direitos bastardos e deveres não cumpridos, não contribuíram para a perda de prestígio da classe docente e para a perda da sua identidade profissional?

Estará eventualmente a referir-se a professores não profissionalizados que começaram a leccionar nos Ensinos Básico e Secundário sem a respectiva profissionalização. Mas saberá que, essencialmente ao longo das décadas de 70 e 80, a necessidade de professores que o sistema educativo reclamava era de tal forma avassaladora que ou sistema de ensino público admitia esses professores profissionalizando-os depois ou enfrentaríamos o colapso do sistema com uma falta generalizada de professores. É certo que foram cometidos muitos erros de natureza política e que uma exigência de qualidade ao nível da formação inicial de professores nunca foi uma prioridade da política educativa até, pelo menos, à criação do Instituto Nacional da Acreditação da Formação Inicial dos Professores (INAFOP) no consulado do Eng.º Marçal Grilo. O INAFOP viria a desenvolver um trabalho meritório mas, infelizmente, foi extinto pelo governo de Durão Barroso sendo à altura ministro da educação o Prof. David Justino.

10. Finalmente, considerando um silêncio que, infelizmente, parece não prenunciar a máxima de quem cala consente, qual é a posição dos Ministérios da Educação e da Ciência e Ensino Superior sobre a criação da Ordem dos Professores?

Relativamente a esta pergunta não lhe sei responder. 


Parece-me que o Rui Baptista, à semelhança de outros, sustenta que a criação da Ordem dos Professores permitiria fazer subir a exigência do sistema educativo português e combater as políticas oriundas da 5 de Outubro. Penso que está enganado. 
Mas, essencialmente, estou contra a criação de uma Ordem de Professores porque julgo que a profissão de professor não se enquadra, pelas suas características, nas profissões que exigem a regulação de uma ordem. Os professores dos ensinos básico e secundário do ensino público leccionam programas cuja concepção não são da sua responsabilidade. O currículo também não é da sua responsabilidade. Os seus alunos transitam de ano de acordo com regras emanadas superiormente e são, em muitas circunstâncias, avaliados por exames oriundos de serviços do Ministério da Educação. O enquadramento legal que condiciona a profissão de professor é bastante restritivo da sua actuação. Isso não sucede com algumas profissões que são enquadradas por ordens profissionais. O único grupo de docentes a quem, eventualmente, se poderia admitir ser enquadrado por uma associação profissional seriam os professores do ensino superior. Francamente não vejo nenhuma vantagem nisso.

25 setembro, 2008

Praxe

Início de ano lectivo. Nos corredores e nos jardins os caloiros são praxados. Estão em fila, encostados a uma parede, com a cabeça baixa. Por vezes, nas suas cabeças, vejo umas orelhas de burro feitas de cartão.
No início a praxe chocava-me. Considerava-a um ritual ofensivo e sem qualquer utilidade. Continuo a pensar assim. Mas essencialmente o que agora sinto é indiferença. Não sinto orgulho nisso.

23 setembro, 2008

As duas faces da medalha

Obviamente, não dispenso hoje a net. Com algum sentido crítico e com alguns controlos de qualidade (avaliação da origem da informação, comparação com outras fontes, etc.) é nela que acabo por encontrar mais facilmente a informação que desejo, em vez de horas de procura nos meus livros e papéis. Isto fora o acesso gratuito ou muito barato a jornais estrangeiros em que estou já viciado, à leitura de grandes articulistas, à obtenção de leis que antes tinha de pedir a amigos da função pública, como fotocópias, ou até à reserva de hotéis, de voos, de compra de livros e tanto mais. Tudo isto, evidentemente, já é lapalissada.

No entanto, não há bela sem senão. Hoje dei por um caso exemplar. Ainda ontem tinha recebido um mail de uma amiga minha, culta, bem informada e socialmente muito responsável, a alertar-me e a convidar-me a protestar contra a delapidação de azulejos de Maria Keil em estações do Metro. Esta mensagem via-se que resultava de uma grande cadeia de “forwards”. Hoje, Júlia Coutinho chamou-me a atenção para o abuso que isto representava em relação a uma entrada do seu blogue “As causas da Júlia”. Como não nos conhecemos pessoalmente e nunca nos tínhamos correspondido, imagino que ela deve ter enviado isto a muitos bloguistas. O trabalho que deve ter tido. Mas recomendo que não deixem de ler o seu texto a que me refiro. É um bom exemplo de honestidade e rigor intelectual.

A blogosfera começa a saturar-me e cada vez menos leio blogues. A maioria dos blogues políticos são colecções de “sound bites” ou manifestações de indignação virtuosa, apaixonada e sem objectividade. Os culturais são pobres. Ficam alguns temáticos. Mesmo assim, começo a notar que a leitura e escrita de blogue me prejudicam em relação ao estudo e escrita mais elaborada sobre temas que me são caros e em que penso que posso contribuir com alguma reflexão. Fico também com a impressão de que isto é um exercício um pouco circular, como vejo pelos comentários. Comparando com o número de visitantes, e principalmente com a lista de visitantes regulares, parece-me claro que estou a escrever principalmente para leitores que já pensam como eu, que não têm tempo para comentários de simples concordância, do estilo que por aí se vê, “que lindo, muitos beijinhos”. Aliás, é a minha experiência como leitor de blogues que raramente faz comentários e que, se os faz em relação a coisas que me merecem reparo, ficam submersos no coro de apreciação amiguista.

Esta de comentários evoca-me um exemplo paradigmático, o dos comentários a notícias do Público “online”. São instrutivos. Na sua esmagadora maioria, são desabafos de protesto emotivo e irracional, de mal-dizer, de processos de intenção, de calúnia generalizada sobre a política, a sociedade, o país. São de um primarismo indigente, de óbvia deficiência cultural - a julgar pelos erros de português. Não sei o que o jornal ganha com isto. Minto, estou a ser ingénuo. Deve dar-lhe muitos visitantes ao “site”, coisa que os anunciantes apreciam.

22 setembro, 2008

Nota gastronómica (LXIII)

Pelar batata

Estou sempre a aprender, na cozinha como no resto. Gosto de batatas cozidas com casca. Não em pratos de sabor refinado, mas em pratos rústicos, de bacalhau, de peixe frito, de porco frito, por exemplo. Aborrece-me é pelar as batatas, depois de cozidas. Há dias, por acaso das minhas deambulações pela net, descobri uma técnica num vídeo do YouTube falado e legendado numa língua oriental. Mas creio que percebi. Dá-se um corte pouco profundo, praticamente só na pele, a toda a circunferência do eixo menor. Coze-se a batata e passa-se para um recipiente com água muito gelada, com muitos cubos de gelo. Ao fim de alguns minutos, segura-se a batata entre as duas mãos com o corte ao meio e puxa-se a pele para um lado e outro. Já experimentei e funciona muito bem. Tenho dúvidas é como será com batatas com muitos olhos. Hei-de experimentar.