13 maio, 2006

Antes era melhor?

Volto a textos que apareceram na lista de correio electrónico do Pedro Aniceto, e que muito o devem ter agoniado no seu dever de as publicar.

1. "Em Portugal só houve um fascismo light"

A esta, o PA não resistiu e perguntou: qual é a sua régua para medir fascismos? Esqueçamo-nos, por exercício de discussão, do componente holocáustico do nazismo. Fica a haver grande diferença? Muito mais mortos de socialistas e comunistas nos campos de concentração hitlerianos, mas a partir de quantos mortos é que começa o fascismo? Para mim, de um único. O fascismo italiano até não foi tão assassino, não se compara aos milhares de mortos pela repressão franquista. Em Portugal, algumas dezenas: os mortos à fome e à doença do Tarrafal, Alex e Dias Coelho baleados em plena rua. E, já agora, o preso incógnito em Angola, na minha unidade de fuzileiros, entregue à Pide e cujos gritos só me permitiram o sono ao se extinguirem, não tendo eu compreendido logo que era porque o homem tinha morrido. E aqueles de cujo nome não me lembro agora, que se "suicidaram" lançados do terceiro andar da sede da Pide, de que o seu proprietário, o pobre "rei", quer fazer um hotel de luxo?

E as torturas? Afinal, hoje banais em Guantánamo, a privação do sono e a "estátua". Sabem o que isto é? Também há uma régua com medida para a tortura? Há torturas aceitáveis e inaceitáveis? E por onde andam hoje, neste pais de brandos costumes, São José Lopes, Sachetti, Passos, Cardoso e muitos mais? Talvez tenham filhos e sobrinhos a quem o 25 de Abril tenha dado a liberdade de poderem – e muito bem – despejar alarvidades na net, desde que haja sempre quem lhes responda, sem se acomodar com o pântano ideológico actual.

Também leio as desculpas ao salazarismo, como não-fascismo, por falta da encenação politica. Estupidez! Claro que a tivemos, com toda a encenação do império, mas também, nos anos 40, com as típicas paradas, Marcelo Caetano fardado à fascista, a Legião e a Mocidade Portuguesa, a exposição dos centenários (com a cumplicidade de "futuristas" como Almada). Se são filatelistas, vão ver os célebres selos "Tudo pela nação", desenhados pelo Almada. A diferença foi que tudo isto desapareceu nos perdedores, Alemanha e Itália, e Salazar compreendeu que os tempos tinham mudado. Mas, ainda em 1960, as comemorações henriquinas trouxeram a Portugal, num acampamento no Jamor e com muitos pagodes festivos, a nata das juventudes fascistas europeias.

Concluindo esta parte, vou ao essencial: fascismo é a violência contra os opositores mas também toda a castração da alma de um povo. Censura rigorosa e até estúpida, proibição da venda de livros que fazem parte do património cultural da humanidade, indoutrinação pela comunicação social oficial, demissões da nata dos professores intelectuais, proibição de exercício profissional de jovens licenciados, etc., etc. Isto é fascismo light?!

2. "Antes vivia-se melhor"

Esta é uma versão mais envergonhada do neo-salazarismo, que prefere omitir a politica, mas que ainda é mais facilmente desmontável, porque há números.

Vou falar só dos anos 60. Vivia-se muito bem! As pessoas demonstravam-no com os pés: engrossavam os novos bairros de lata de Lisboa e davam o salto para a França e a Alemanha. É claro que vivia muito bem, no obscurantismo, quem ia pela cartilha rural e de pároco de aldeia de Salazar: "se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida", "Deus, Pátria e família"; "o vinho dá de comer a um milhão de portugueses". Toda a gente da minha geração tinha estas coisas e muitos mais afixadas nas paredes dos nossos liceus.

Lia eu isto, no meu liceu, porque morava a dois passos. Mas lembro-me dos meus amigos residentes a 20 km da cidade que tinham que lá se hospedar porque, à hora do fim das aulas, já não havia camioneta para o Pico da Pedra. Neo-salazaristas de hoje, bem gostava de vos mandar para uma viagem ao passado!

E isto era para quem andava no liceu, obrigatoriamente só nas capitais de distrito. O resto, já esqueceram. Porque é que as campanhas rurais, depois do 25 de Abril, se centraram muito nas infra-estruturas básicas? Porque grande parte do nosso povo vivia em condições inimagináveis (que valia a pena dar a experimentar, em estilo "Quinta das celebridades", aos actuais escribas): sem electricidade, sem esgotos, sem telefone, água só do poço, caminhos de lameiro.

Os possíveis pais licenciados desses escribas provavelmente lhes dizem que, no seu tempo, tinham emprego assegurado. É verdade, mas esquecem-se de que, no meu tempo, esses estudantes universitários não ultrapassavam 20.000, hoje são quase 400.000. Isto chama-se democracia, também económica e social, e é por isto que o 25 de Abril ainda está no coração de muita gente.

Muito mais me apetecia escrever, mas não vale a pena gastar mais cera com tão ruins defuntos.

07 maio, 2006

E outra nota de fim de semana

Um artigo de Jorge Braga de Macedo (JBM) sobre Galbraith, no Expresso, fez-me lembrar uma velha conversa do agudíssimo Corino de Andrade.
"Na ciência e na vida académica, continuamos os comerciantes do sec. XVI [JVC: eu acrescentaria, e o Oliveira de Figueira do Tintim]. Vamos a um congresso e trazemos uma ideia e um novo conhecido sem significado. Regressamos e usamos isto internamente para efeitos curriculares. Voltamos a outro congresso, com efeito multiplicador, em que essa informação anterior e esse contacto nos granjeiam outros, e assim sucessivamente".
O artigo de JBM é muito à nossa moda. É uma evocação sobre a importância da obra de Galbraith, mas misturada com recordações das suas amizades, das viagens conjuntas, da mulher de Galbraith, de algumas coisas que dão a entender que se trata de confidências a um amigo português muito especial. Em Portugal, não é necessário ser-se alguém, mas amigo de alguém, JBM de Galbraigth, o inefável Espada de Karl Popper. Não se vale por si mas pelos amigos, mesmo que só auto-apregoados e de impossível confirmação.

06 maio, 2006

Notas soltas

As notas de hoje ocorrem-me pela leitura do Público de ontem.

1. A crise no Irão está a originar artigos, notícias e colunas dando uma no cravo e outra na ferradura. Insiste-se na necessidade de conversações bilaterais, em posições e sanções da ONU. Mas, pelo meio, vêm as ameaças de intervenção militar. Começo por deixar claro que não simpatizo nada com o regime iraniano e que não vou na conversa, à PCP ou BE, de que o programa nuclear "pacífico" do Irão não representa nenhuma ameaça à paz mundial. Mas lembro o Iraque. Ninguém aprendeu? E, comparado, o Irão, militarmente, não é pêra doce.

A acompanhar uma notícia, o jornal publica uma infografia de origem americana com alvos, armas, aviões. É para, subliminarmente, irem preparando os leitores?

2. Foi lançado um livro de Livro de Maria Inácia Rezola que desmonta algumas ideias feitas sobre o 25 de Abril, nomeadamente sobre a "prepotência" do Conselho da Revolução. Há uma passagem da notícia que me interessou:
"O livro revela ainda "a descrença de Álvaro Cunhal no V Governo provisório. Desde muito cedo que ele [o histórico secretário-geral do PCP] ensaiou uma demarcação de Vasco Gonçalves para se aproximar dos militares moderados", frisou ainda António Reis. "
É verdade e posso testemunhá-lo. Tenho mesmo boas razões para supor que, para além destes contactos de "mensageiros de base", houve conversas ao mais alto nível, mas não posso garantir. Também é sabido que, no verão quente, regressado da sua hospitalização – ou férias, já não me lembro bem – em Moscovo, Cunhal "puxou as orelhas" aos seus camaradas dirigentes, alinhados entretanto na frente esquerdista. Mais ainda, os responsáveis por células foram instruídos para transmitirem moderação em relação à rejeição de base de um possível e frustrado governo Fabião. Mas também é verdade que Cunhal jogou em dois tabuleiros e que os conhecidos membros do V Governo comunistas ou próximos nunca o teriam sido sem a sua concordância.

Daí também a prudência do PCP no dia 25 de Novembro.

3. Na última página, vem a notícia de uma senhora de 63 anos que está grávida, por inseminação artificial, depois de um tratamento que lhe repôs (?) a sua fisiologia pré-menopáusica. É por estas e outras que hoje há tanta desconfiança pública em relação às magníficas conquistas da biomedicina reprodutiva. São médicos e cientistas, frequentemente, os piores malfeitores à sua ciência e arte. Não brinquem com a natureza!

4. Ainda na última página, fez-me pensar a crónica habitual de Vasco Pulido Valente. Como de costume, niilista, derrotista, sobranceiro. Mas não será que este retrato secular de Portugal que ele e outros (Barreto, Mónica, Bonifácio, etc.) transmitem não será visto, daqui a cem anos, como hoje lemos os escritos da geração de 70? Em parte sim. Lamento prensar que, nesse futuro, talvez ainda se continuem a reconhecer como reais, com a mesma actualidade, Gouvarinhos, Acácios, Pachecos, Abranhos, Cavalões, até (agora mais na moda) Salcedes, acrescentados dos seus sucessores dos tempos que correm. Também os iluminados que não lutam e que são objectivamente cúmplices, Carlos Eduardo, João da Ega, Fradique, Craft (mas, enfim, este era estrangeiro).

No entanto, há uma grande diferença, a da intervenção, sua forma e qualidade. É certo que a intervenção prática da geração de 70, exceptuando as de Antero, quando a doença lho permitia e a passagem malograda de Oliveira Martins pelo governo, foram fugazes. No entanto, mesmo em relação aos outros, lembremo-nos que actuaram pela positiva, principalmente como escritores, obviamente que com realce para Eça. As Farpas, os Maias, Fradique não são apenas um choro, revelam autores que têm um sonho e uma atutude de progresso, que não precisam de formular explicitamente. Ganharam autoridade intelectual para que muita gente se interesse pelas ideias de progresso que saltam da critica. Os nossos actuais derrotistas têm a mesma autoridade intelectual?

03 maio, 2006

O que é um intelectual?

Há tempos escrevi no meu Bloco de Notas um texto, "Pensadores, precisam-se", em que aludi á confusão que entre nós se faz entre pensador e simples colunista. Volto ao assunto, e desta vez, porque certamente há leitores que não lêem todos os meus três "blogues", vou escrever isto tanto no Bloco de Notas como nos Apontamentos, porque também tem muito a ver com a educação superior.

Entre vários exemplos de pensadores da minha especial predilecção, referi então Thimoty Garton Ash. É dele um artigo recente para que chamo vivamente a atenção: "Are there British intellectuals? Yes, and they've never had it so good". Vale bem a pena ler também as dezenas de comentários, de alta qualidade. Para abrir o apetite, transcrevo parte da definição de intelectual, segundo TGA:
"Last, and most important, is the characterisation of a cultural role. Collini attempts to pin this down in a careful definition. An intellectual, in this sense, is someone who first attains a level of creative, analytical or scholarly achievement and then uses available media or channels of expression to engage with the broader concerns of wider publics, for some of which he or she then becomes a recognised authority - or at least a recognised figure and voice. My own attempt at defining the role of the intellectual, in a debate with Czech intellectuals some years ago, was not dissimilar: "It is the role of the thinker or writer who engages in public discussion of issues of public policy, in politics in the broadest sense, while deliberately not engaging in the pursuit of power." That last normative caveat seems to me very important, though it is rejected by intellectuals such as Vaclav Havel who have gone into politics with a large P.

Since the 1980s we have come to describe such persons as "public intellectuals", a term imported from the US - as was "highbrow". But if one means by "intellectual" someone who plays the role just described, then "public intellectual" is a pleonasm while "private intellectual" is an oxymoron. A hermit or recluse may be "a bit of an intellectual", but engagement with a wider public is the defining feature of an intellectual in this sense. The story is complicated by the fact that you may reach a wider public only after your death. Only 11 people attended Karl Marx's funeral, but he became one of the most influential political intellectuals of all time. There are, so to speak, posthumous publics."
Reparem na frase "while deliberately not engaging in the pursuit of power". Se entendermos "power" em sentido lato, influência política, clubes de elogio mútuo, narcisismo, favoritismos cruzados, dependência dos vários poderes, etc., então volto ao que escrevi sobre muitos dos nossos opinadores.

A terminar, mais uma vez o agradecimento à DK, infatigável em fornecer-me informação importante.

29 abril, 2006

O que se escreve sobre o 25 de Abril

Faço parte de uma lista bem conhecida da comunidade Mac, o Correio dos Outros. Por volta do 25 de Abril, vários membros escreveram depreciativamente. Foi um direito que o 25 de Abril lhes deu e muito bem. A uma dessas mensagens, de PauloSR, que não sei quem é nem que idade tem, resolvi responder. O seu texto vai em "indent".
É bom que se diga que os famosos “capitães” que têm a fama de terem feito o libertador 25 de Abril de 74, não o fizeram com o altruísmo de libertar a população do jugo ditatorial em que na realidade se encontrava, mas sim o fizeram a pensar nos seus bolsos e, goste-se ou não, apenas por razões salariais...
Isto é mentira e uma enorme injustiça. É verdade que, ainda em 1973, as primeiras movimentações dos capitães foram corporativas (não salariais, antes de antiguidade na carreira), mas logo evoluíram, surpreendentemente, para a contestação à guerra colonial, primeiro, e a seguir para a consciência de que esse drama só se resolveria com uma mudança de regime. É por isto que muitos militares, de posto superior e de maior consciência política, desconfiaram inicialmente do movimento mas depois o conduziram com grande apoio de "base". Não é por acaso que inicialmente se falava do "movimento dos capitães" e depois ficou como MFA. No 25 de Abril, saíram à rua oficiais, sargentos e soldados. Do quadro e milicianos, muitos dos quais meus companheiros do movimento associativo. Também a Armada, nada corporativa e muito politizada.

Cito três exemplos de militares do 25 de Abril: Vasco Gonçalves esteve envolvido na revolta da Sé. Varela Gomes esteve preso vários anos pelo golpe de Beja. Melo Antunes foi, entre muito mais, candidato pela CDE nas eleições de 1969, embora a Pide o tivesse vetado.

É certo que houve alguns casos lamentáveis. Para mim, homem de esquerda, fica-me para a vida o desgosto do percurso de Otelo, que condeno inteiramente. Mas também houve ao contrário. Por exemplo, José Bernardo Canto e Castro - por alguma razão era protegido de Salazar! - passou de membro da coordenadora do MFA a militante do ELP e fornecedor de bombas assassinas (lembram-se de que o terrorismo do ELP matou gente, até um bebé?).
O que eles nunca julgaram foi serem “apanhados” pelo povo (e por alguns partidos políticos, mais ou menos organizados) o que acabou por transformar um Golpe de Estado em uma Revolução (desorganizada, mas uma revolução)... Revolução essa que caminhou rapidamente para a anarquia e na prática, de novo para uma nova ditadura, só que agora de outra vertente (para não dizer mesmo de uma outra cor)...
A arrogância intelectual de quem julga que a história é desenhada a régua e esquadro. Quem é que hoje rejeita a imensa herança da revolução francesa? e, no entanto, houve Robespierre, o terror, a guilhotina, o processo de Lavoisier. Mas também a revolução francesa teve o seu 25 de Novembro, o 18 Brumaire, Napoleão, o domínio de uma nova oligarquia, a guerra e a miséria levadas a toda a Europa.
É exemplo de liberdade e bem saber governar a maneira como se deu a já devida independência às antigas colónias ultramarinas, levando para a desgraça e miséria milhões de indivíduos lá e cá???!!! Criando uma vaga de Retornados e Refugiados (refugiados sim... porque os nascidos e criados lá são refugiados e não retornados como foram e ainda são chamados), criando o desenraizar e mutilação de populações inteiras...
Tinha de vir a descolonização. Não sei se PauloSR teve contacto com as "províncias ultramarinas". Eu tive porque, sendo antifascista, segui a orientação de irmos para a guerra. Foi acertadíssimo. Creio que não teria havido consciencialização dos capitães se não fosse o "brainstorm" que lhes fazíamos entre um poker e um uísque, no meio do mato.

Voltando às colónias, é preciso lembrarmo-nos do que foi o colonialismo português. Franceses e ingleses criaram elites locais, universidades, infra-estruturas, etc. Em Angola e Moçambique, tudo isto era primitivo, nas outras vestigiais. Já alguma vez foi a Luanda? Agora ainda está pior, mas, no meu tempo, era um miolo de cidade desenvolvida só branca, rodeada por um imenso musseque miserável. Fui assistente da universidade, aliás muito tardia. Em uma centena de alunos, não chegavam a meia dúzia os alunos pretos.

Há de facto grandes culpas pela situação actual dos PALOP, que muito me entristece. Mas a culpa não foi da descolonização, foi da colonização. A descolonização foi a possível. Eu pessoalmente, nunca pensei que até corresse tão "bem".
Desrespeitando por completo o esforço e sangue dos que lá morreram e lutaram...
Isto é chantagem psicológica. A grande maioria dos nossos mortos, a quem devemos homenagem, morreram sacrificados, por uma causa em que não acreditavam. Como disse, estive no mato, em companhias de fuzileiros. Com algum risco da minha parte, tentava fazer acção política e tinha conversas com muitos marinheiros. Eram raros os que acreditavam no "império". Suspiravam era pelos 24 meses que os aliviariam daquele inferno.
Pois à excepção da Guine os restantes territórios estavam o suficientemente controlados para se dar uma independência em condições para os novos países de África.
Outra falácia. Vou falar do que conheço, Angola, mas sabendo que ainda era pior em Moçambique. Fora as cidades, não havia nenhuma zona segura. As principais vias de comunicação, rodoviárias e ferroviárias, estavam sob vigilância permanente. O leste, onde estive, só estava relativamente seguro graças à cumplicidade da Unita com a Pide. Claro que em Luanda se comia lagosta, mas isso era como em Havana, quando Baptista acordou num reveillon com as tropas de Fidel a atirarem sobre o casino.

Aceito, no entanto, que Angola não estava na iminência da tomada de poder pela força principal, o MPLA, aliás a passar por uma crise grave. Mas estava-se num empate. Já era impossível o controlo estratégico pelas forças armadas portuguesas.
E repugna-me e deixa-me revoltado ouvir as desculpas dos intervenientes da altura: “... foi a independência possível...”... Foi a independência possível entregar a minorias DITATORIAIS o controlo e os desígnios de vários povos nos novos países daí nascidos... É isto o exemplo de Liberdade que queriam dar entregando as chefias e governos dos novos países a ditaduras do partido único???
Mas, depois de décadas de fascismo de partido único, quem é que habituou esses povos às virtudes da democracia pluripartidária, que, aliás, não têem correspondências aos seus valores civilizacionais?
Revolta-me é o medo que já começa a haver hoje de expor a nossa revolta e as nossas ideias contra as posições de um governo que se aproveitando da sua posição maioritária se comporta de modo “ditatorial”, atacando os direitos dos indivíduos de uma forma mais grotesca do que seria de pensar hoje em dia.
Curioso, isto, quando toda a direita escreve na comunicação social com maior facilidade do que a esquerda! E quem é que limitou este escrito de PauloSR? Ninguém pode acusar o PA [nota, JVC - PA é o moderador da lista onde este texto foi publicado] de não ser democrata e, veja bem o que ele escreve, não me parece que seja um democrata nascido no 25 de Novembro.
Ou será que ainda ninguém reparou na estratégia que têm de antes de atacar os direitos de uma classe profissional, atacam-na e desacreditam-na na praça publica e quando a opinião pública está contra ela lá vai “facada”, com todos os outros a bater palmas... O pior é quando esse ataque nos bate à porta, aí revoltamo-nos mas já estão todos os outros contra nós... E as pessoas ficam caladas que nem presas amedrontadas, com medo de que lhes possa acontecer alguma coisa... Isto sim eu já começo a ver como um ataque à nossa tão demorada e conquistada Liberdade... (Ai... Se arrependimento matasse...)
Ah, já esperava, os direitos de uma "classe profissional". Eu aprendi a discutir "classes sociais". A sua expressão tresanda a corporativismo. É um problema que me atormenta, ver como essa herança salazarista ainda está tão presente, mesmo que sob formas mais modernas.
Isto já vai longo demais... Por isso digo “LIBERDADE SEMPRE”
Paulo (PauloSR)
Também eu digo LIBERDADE SEMPRE, mas, para não falar do 25 de Abril, não a isolo da trilogia "liberté, égalité, fraternité", que hoje poderia actualizar como "liberdade, igualdade de oportunidades, solidariedade social".

P. S. Esta entrada merece uma dedicatória. Vai dedicada, com muita saudade, a um querido amigo, que teve grande influência em mim: Ernesto Melo Antunes. Nunca chegou a general, nunca teve a Torre e Espada, sentiu-se ultrapassdo pela direita no 25 de Novembro, morreu amargurado por nunca ter visto concretrizado o Portugal com que sonhou, muito antes do 25 de Abril, mas um dia a história há-de lhe fazer justiça.

12 abril, 2006

Notas soltas

Hoje não é sábado mas, no próximo sábado pascal ninguém me lê.

1. Li uma coisa engraçada escrita por Vasco Pulido Valente: na nossa administração pública, o valor de um dirigente mede-se pelo dinheiro, pelo número de funcionários e pelo espaço que domina. Nada de estranho, é visceralmente biológico. Com excepção do dinheiro, qualquer macho dirigente se mede pela dimensão da manada e pelo espaço que conquista. Agora se um dirigente se quer ver apenas como animal, é lá com ele.

2. Será também um comportamento biológico, de defesa de interesses? Há bastante tempo, colaborei intensamente com uma escola universitária e conheci muito bem o seu clima doentio de relações internas baseadas em grandes amizades e ódios de estimação. A isto, estamos todos habituados. Há dias, depois de muito tempo de falta de contacto, tive uma descrição pormenorizada da situação actual. Continua na mesma, mas mudaram os papeis dessa farsa. Grandes amigos são hoje inimigos figadais, grandes e velhos ódios rancorosos converteram-se em amizades de grande cumplicidade. Não faz mal, disse a esse ex-colega, a responsabilidade que certamente todos sentem em relação aos desafios de Bolonha vai pôr toda a gente a proceder superiormente...

3. Já tem sido mais do que discutido: a unidade de missão para a reforma do código penal propõe que vários crimes cometidos por políticos (peculato, abuso de poder, favorecimento em negócios, não estou certo se mais) possam ser punidos com a perda do mandato, em vez da prisão. Foro privado dos políticos?

Parece-me um escândalo e um atentado ao respeito colectivo pela vida democrática, respeito já muito em baixo. Mas que capacidade há em Portugal para um cidadão manifestar a sua indignação? É verdade que os blogues vão sendo importantíssimos, mas só chegam a uma magra minoria dos cidadãos. Nós temos, colectivamente, a democracia que merecemos porque, ao longo dos séculos, não soubemos criar uma sociedade civil forte. O milagre finlandês - e outros - não é de tecnologias, é essencialmente disto. Sociedade civil muito forte, grande cultura democrática interiorizada, aprendizagem da ética desde as primeiras palavras.

08 abril, 2006

Literatura e história

Nos últimos dias, desde 4 de Abril, Pacheco Pereira – licenciado em História, segundo creio – tem publicado no "Abrupto" excertos de um novo livro de Agustina Bessa Luís, "Fama e Segredo da História de Portugal". Não percebo bem o que será o livro. À primeira vista parece uma coisa de tipo "a história contada aos coitadinhos que nunca a estudaram". Literariamente é pobre, pela amostra; historicamente é pouco séria.

Como alguns leitores do Abrupto chamaram a atenção, abundam os erros ou, pelo menos, as fantasias. Muitos dos que vou apontar são referidos por leitores do Abrupto. Ao menos, Pacheco Pereira teve a honestidade de publicar essas criticas. O tema também tem sido discutido no blogue "Um prego no sapato".

Segundo o primeiro texto, D. Afonso Henriques poderá muito bem ter sido filho bastardo de Egas Moniz. O conde D. Henrique pode ter sido filho do rei da Hungria e veio para Espanha, coisa que não existia na época. O conde Sisnando é sempre tratado por capitão, coisa que nunca li e termo que, se não estou em erro, não era usado na época. Há uma ama de leite, Ausenda Dias, que recebe de ABL o nobilíssimo e então muito raro título de Dona. Mais mirabolantemente, D. Teresa amantizou-se (ou ter-se-á casado, segundo ABL) não com o galego Fernão Peres de Trava, mas sim com um conde Pedro Trastâmara, inventado séculos antes do primeiro Trastâmara, Henrique, rei e pai do João de Castela que o mestre derrotou em Aljubarrota. Ainda por cima, esse conde Pedro Trastâmara tinha por pai o Fernandes (qual o nome próprio?) de Trava. Sem ABL referir o patronímico do tal Trastâmara, fica uma grande confusão de condes. Finalmente, a troca de um infante aleijado de nascença por uma obscura criança aldeã pode ser fantasia imaginativa mas duvido de que seja história.

Outro texto fala de D. Filipa de Lencastre. Para não alongar mais isto, só a referência de ABL aos seus "quatro filhos rapazes". Como toda a gente sabe, foram Duarte, Pedro, Henrique, João e Fernando, para só falar dos que sobreviveram até adultos. Faz-me lembrar um antigo politico pomposo e caricato que explicava sempre "por três razões", que, afinal, ou eram duas ou quatro, nunca três. Mas já chega de exemplos e passe-se ao importante.

Que direito tem um escritor ficcionista de "usar" a história? A meu ver, todo, desde que o jogo seja limpo. Ninguém tem dúvidas de que o bispo negro de Herculano não é uma figura histórica, embora o conto se enquadre magnificamente na história da época. Ninguém tem dúvidas de que o romance entre Ana de Áustria e o duque de Buckingham não tem base histórica sólida, mas "Os três mosqueteiros" nunca sofreram por isso. Mais recentemente, os fascinantes livros de Dan Brown têm muitas fantasias "históricas", mas deliciosas, e que ninguém considera como impostura e que, por isso, levam ao ridículo os protestos do Opus Dei.

Este triste caso de ABL, a quem se exigem grandes responsabilidades intelectuais, não é nada disto. Não é ficção, nem sequer a recriação de um ambiente de época. É pseudo-história, perigosa porque, para muita gente, avalizada pelo prestígio da autora. É mais um caso para nos lembrarmos de que "não suba o sapateiro além da chinela".

Lembram-se de um caso inconcebível, já aí há uns vinte anos, de um "historiador" chamado Magalhães Barreto e de um seu livro "top seller" sobre Colombo português e agente secreto de D. João II? ABL fica agora com boa companhia. A propósito, lembro-me de que esse "historiador" de fados e touradas escrevia sempre Cólon-Zargo. Aqui está uma boa sugestão para ABL: escrever Trava-Trastâmara. Daria muitas teses "académicas"!

Pena é que talvez não haja agora cá para zurzir em ABL pessoas como as que afrontaram o "colombólogo", Luís de Albuquerque e Luís de Távora. Com isto, sofreram vexames de uma canalha "intelectual". O que seria agora com quem arrostasse com a áurea de ABL? Afinal, estou a fazê-lo mas, como toda a gente sabe, eu sou um "desbocado" que ninguém leva a sério, salvo os amigos que conhecem o gozo que isto me dá.

Toda a direita, os sectores mais tradicionalistas, algumas mentes brilhantes que se consideram moderníssimos, criticam a ausência de um verdadeiro ensino de conhecimentos fundamentais sobre a nossa história. É certo que ainda não li nada de ABL sobre isto, mas conhecendo-se a sua posição ideológica, não parece abusivo pensar-se que ela partilhe dessa opinião. Com isto, ela está a dar um enorme tiro nos pés. Por mim, agradeço. E até me dá gozo, porque tenho sempre alguma "vergonha" em afirmar que não gosto nada da sua escrita literária, questão de meu gosto pessoal. Também não de Saramago e de Lobo Antunes, mas "porra, sou lúcido!" Agora, fico reconfortado e vou dormir hoje que nem menino embalado.

E já que estou embalado, recordando Almada e o manifesto anti-Dantas: ABL merece "pim"! De mim não leva um tostão de direitos de autora.

25 março, 2006

Esquerda e direita

Conheci Fernando Gil creio que apenas uma vez e, da sua obra, sou conhecedor limitado, embora sempre o tenha lido com muito agrado. Sublinho o valor que atribuía ao conhecimento das ciências por um filósofo, conhecimento em que não incorria em erros graves ou em abusos de utilização tão vulgares nas vigarices intelectuais da escola filosófica francesa.

Do pouco que li dele nos últimos anos ("Impasses") e de notícias sobre algumas intervenções suas na política, fico com a impressão, talvez injusta, de um "desvio para a direita". A expressão, aliás, não é minha, mas sim de Eduardo Prado Coelho, na sua coluna do Público. Isto serve-me de pretexto para alguma reflexão ligeira sobre a esquerda e a direita.

Só um fanático é que não se coloca hoje esta questão e continua preso aos esquemas de há um século. Em primeiro lugar, não vejo lugar para uma distinção baseada no sistema económico. O modelo de "socialismo real" mostrou-se inadequado, fracassou e não adianta dizer que se pode aceitar o mercado sem o capitalismo. Não sendo economista, não percebo qual é a diferença. A questão essencial parece-me ser: pode-se imaginar um capitalismo de esquerda e um capitalismo de direita?

Parece-me que a questão não faz sentido, do ponto de vista puramente económico. Teremos então de colocar a questão esquerda-direita noutros planos, o ideológico, o politico e o social.

Há um velha fórmula pretensamente definidora que diz que, no binómio liberdade-igualdade, a esquerda privilegia a igualdade e a direita a liberdade. É meia verdade, porque, a não ser que se entenda liberdade como sinónimo da concorrência capitalista selvagem, a esquerda (esquecendo o estalinismo e o maoísmo, como aberrações históricas, embora com herdeiros) não pede meças na defesa das liberdades. É fácil verificar que, nos últimos anos, a restrição securitária da liberdade vem da direita. Que eu saiba, o "Patriot Act" não é obra de esquerda.

Por outro lado, para a esquerda, a igualdade tem hoje um sentido menos retórico e mais operacional. A igualdade, na nossa actual sociedade possível, é a igualdade de oportunidades, pela qual ainda há muito que lutar, e que é indissociável, política e ideologicamente de outro valor que julgo definidor da esquerda, a solidariedade (não se venha com a caridade de direita, que é coisa bem diferente). Neste sentido, parece-me ainda adequada a velha fórmula da revolução francesa. De "liberté" e de "égalité", já falei. A "fraternité" é hoje a solidariedade e a recusa da exclusão.

Também se faz a distinção, com frequência, em termos da concepção do papel de intervenção do estado. A esquerda favoreceria o estatismo, a direita o papel da sociedade civil. Começa logo por um equívoco histórico: se alguém teorizou muito sobre a sociedade civil, na sua herança hegeliana, foi o próprio Marx. Depois, na prática, a desestatização não é só uma bandeira de direita que, aliás, a vê apenas como privatização empresarial. A esquerda moderna defende com ênfase a importância da proximidade aos cidadãos da decisão política, o papel das ONG, etc. A esquerda não pode deixar à direita a posse da fórmula hoje tão usada, "menos Estado, melhor Estado".

Destacaria também, embora com reservas, os "problemas transversais", no sentido de um progressismo humanista: o ambiente, uma nova ordem internacional, a igualdade de géneros e orientações sexuais, a abertura às inovações de progresso científico e médico, etc. No entanto, conheço pessoas de direita, conservadoras em termos económicos, que partilham dessa minha "visão de esquerda".

Depois, temos a prática. Quem vota CDS é, para mim, seguramente de direita. Quem vota PCP ou BE é de esquerda. Mas quem vota PS é de esquerda e quem vota PSD é de direita? Já não me parece tão linear.

Se calhar, tenho de me limitar a uma velha fórmula definidora: "é certamente de direita quem diz que já não faz sentido falar de direita e de esquerda".

11 março, 2006

A importância de se ser "earnest"

Há dias, ao traduzir um texto de Berverly Trayner, deparei-me como uma grande dificuldade: como traduzir "earnestness"? Isto fez-me pensar em como a língua traduz em muito as idiossincrasias psicológicas e culturais do seu povo falante. Também temos as nossas: saudade, desenrascar, não são linearmente traduzíveis por "nostalgy" ou "to improvise". "Alone" também não atende ao valor do sufixo de sozinho. Por alguma razão temos duas palavras, só e sozinho.

Como é bem sabido, uma peça importante, e deciosa, de Oscar Wilde intitula-se "The importance of being earnest", fazendo um trocadilho com o nome Ernest da personagem. Geralmente, traduziu-se para português como "A importância de se chamar Ernesto", o que anula completamente o trocadilho e o significado. Releia-se a peça e logo se vê.

O Webster define o adjectivo "earnest" como "characterized by or proceeding from an intense and serious state of mind". O Dicionário Inglês-Português da Texto Editora traduz por um conjunto de termos que não são obrigatoriamente sinónimos: "sério, diligente, sincero, cuidadoso, zeloso". Poder-se-ia continuar com "dedicado, motivado" e mais. Tanto quanto conheço os meus amigos ingleses que se consideram "earnest", são tudo isto.

Cinjamo-nos ao "sério" e note-se a diferença. Em português, parece-me denotar mais uma atitude ou um temperamento. Facilmente se associa a sisudo, circunspecto, distante do humor. Raramente a sinceridade e nem sempre a motivação. Ora eu conheço muita gente "earnest" que é alegre e divertida.

O resultado prático da minha dificuldade foi a minha amiga Beverly ter modificado o seu texto e, em vez de "earnestness", acabei por traduzir, muito mais facilmente, o que ela acabou por escrever, desdobrando a palavra: "candour, enthusiasm and a sense of humour".

No Público de hoje

1. São José Almeida, cuja leitura costumo apreciar, comete hoje um erro que desvirtua a sua argumentação. Critica Jorge Sampaio por ter desrespeitado a Constituição ao dissolver a AR no período Santana Lopes, dado que esse seu poder só podia ser exercido em condições de mau funcionamento das instituições democráticas. Ora esta limitação só vale para outro poder, o de exoneração do primeiro ministro. O poder de dissolução é discricionário, dependendo apenas, formalmente, da consulta ao Conselho de Estado.

2. Um novo Maio de 68? Creio que não, a ajuizar pela fraca dimensão do movimento. Mas mais interessante é atentarmos aos fundamentos. Em 68, as reivindicações eram de natureza educativa, embora rapidamente diluídas numa movimentação política geral. Agora, sinais das dificuldades sociais, os protestos estudantis vão para além da sua educação e visam as limitações postas ao sistema de favorecimento do primeiro emprego para os jovens. Não quero dizer com isto que não têm razão.

3. Delors afirmou que o investimento no social é o que mais contribui para o desenvolvimento. Não sou economista e não sei analisar a validade científica da afirmação. Mas, política e ideologicamente, diz-me muito.

04 março, 2006

Pensadores, precisam-se

Este apontamento é sobre os fazedores de opinião. Mais especificamente, quero discutir a diferença entre pensadores ("thinkers") e fazedores de opinião ou, como é mais vulgar entre nós, colunistas ou comentadores. Um pensador reflecte nos seus escritos uma grande sabedoria vivida e uma larga concepção do mundo, do homem e das sociedades. Nem sempre, ou até raramente, é um filósofo, a menos que chamemos de filosofia "espontânea" a toda a sabedoria que ultrapassa e integra os conhecimentos sectoriais. Os seus escritos têm dimensão de "universalidade" e fazem-nos pensar para além da nossa esfera espacial e temporal do quotidiano. Com eles, sentimos que, virtualmente, estamos a viajar para além das nossas fronteiras.

Obviamente que não me refiro aos muitos autores de livros de pensamento transversal e global. Cinjo-me aos que verdadeiramente fazem opinião porque estão presentes nos media, com muito mais leitores, e particularmente aos que aparecem nos nossos jornais. O primeiro exemplo que me vem à ideia é Lord Dahrendorf. Numa geração posterior, Timothy Garton Ash. De certa forma, também Kofi Annan e Gorbatchov, embora numa esfera mais política. Muitos mais, embora nem todos das minhas simpatias: Frank Furedi, Fukuyama, o "Spengler" do Asian Times (em registo humorístico), etc. Em Portugal, curiosamente, só vejo hoje, nestas condições, um político, mas com bastante superficialidade: Mário Soares. Outro caso conhecido, com maior profundidade de visão, é o de José Gil, mas limitado por uma reflexão limitada a Portugal e pelo risco de generalização abusiva de que os grandes pensadores se devem defender.

Em situação diametralmente oposta, temos a maioria dos nossos colunistas locais. Abro excepções, que ficam ao critério de cada um. Dos restantes e muitos, alguns são inteligentes, escrevem bem, até são saudavelmente provocadores. Mas não me ensinam a ser mais sabedor, que é a minha pedra de toque (e, com isto, a ser melhor professor). Raramente saem do comentário à situação diária e conjuntural da nossa realidade portuguesa. Quando abordam problemas internacionais é, geralmente, para uma transposição para Portugal. Pior ainda, têm geralmente uma abordagem classicamente politica, quando não transparentemente partidária.

"Pensadores" portugueses, precisam-se! Parodiando expressões na moda, "é a sabedoria, stupid" ou "há a cultura, para além do défice".

Uma questão de género

Já escrevi milhentas vezes que tenho grande aversão pela linguagem politicamente correcta, mas abro hoje uma excepção. Em relação ao execrável assassinato de um/a transsexual no Porto, devo escrever Gisberto ou Gisberta? Oficialmente, era um homem. Para sua infelicidade, nunca conseguiu os meios para a sua conversão física e civil ao género em que se sentia psicologicamente feliz.

Os jornais estão a referi-la no feminino e chamando-a Gisberta. Parece-me ruma bonita homenagem e associo-me a ela. Pobre e infeliz Gisberta! Mas também pobres e infelizes crianças, transformadas tão cedo em monstros. Não teremos todos um pequeno grão de culpa por esta sociedade?

18 fevereiro, 2006

Filosofia para todos

Um grupo de professores americanos de filosofia criou um "site", AskPhilosophers, para responder, rigorosa e pedagogicamente, às mais diversas perguntas dos leitores, algumas tão estranhas como "é ético mudar de clube porque o meu está na cauda do campeonato?".

A pergunta de hoje é:
Is nothing impossible? Is it just that a lot of things have infinitely small probabilities of occurring?
E a resposta:
I'm not sure what an infinitely small probability would be. Perhaps just a probability of 0? But that sounds like an impossible event. So perhaps you're asking whether all events have some finite non-zero probability of occurring — and whether the events we call "impossible" really just have a very small finite probability.

Philosophers have spent a lot of time trying to figure out what we're actually saying when we assign a probability to an event. Are we making some claim about the world? Or are we making a claim about our degree of confidence in some judgment about the world? I won't go into that here and instead will say a few words about impossibility.

Philosophers often distinguish between different kinds of impossibilities. Some situations would conflict with the laws of logic: for instance, the state of affairs in which I am over thirty years old and not over thirty years old is one that conflicts with the law of logic that says that "A and not-A" is false for every statement A. We might say that that state of affairs is logically impossible, or impossible relative to the laws of logic. By contrast, some situations conflict only with the laws of physics: for instance the state of affairs in which I am moving faster than the speed of light is not a possible one according to contemporary physics. It's one that is logically but not physically possible, one that is impossible relative to the laws of physics. Likewise, we might have situations that we would describe as impossible relative to the laws of chemistry, and so on. And perhaps, when someone suggests that your spouse is having an affair you will find yourself exclaiming that that's impossible, meaning not that such perfidy is inconsistent with the laws of logic or physics, etc., but that it's incompatible with what you believe to be true about your spouse.

If this is the right way to think about impossibility, then nothing is impossible — tout court. A situation is possible or impossible only relative to certain assumptions. And relative to any given body of assumptions, many situations will be impossible.
Vale a pena uma lição diária de filosofia, principalmente quando exposta em termos tão simples, ao contrário da forma detestável de expressão da moderna filosofia francesa (IMHO, na minha modesta opinião).

12 fevereiro, 2006

Notas soltas

Sobre o Público de hoje:

1. Escreve Frei Bento Domingues : "Se houvesse, nas religiões, mais humoristas do que apologetas e fanáticos, talvez elas pudessem manifestar melhor o humor de Deus". Muito interessante, escrito por um padre. Mas acho que se Deus tem humor, é um humor negro "infinitamente divino", quando se vê a humanidade que ele criou.

2. Mário Mesquita, exemplificando a volubilidade das convicções em função de experiências concretas, refere um amigo marroquino, muito moderado no seu islamismo, mas que virou ao contrário com o caso Rushdie. Não é só entre muçulmanos. Tenho um bom amigo americano que é exemplo do "liberal", senão mesmo do "radical". Depois do 11 de Setembro, passou sempre a usar a bandeira americana na lapela e converteu-se em grande defensor do "Patriot Act".

3. Álvaro de Vasconcelos lembra muito bem que a onda actual de fundamentalismo islâmico tem muito a ver com o fracasso do nacionalismo árabe laico, progressista e muito radicado em lutas anti-coloniais ou anti-imperialistas. Se o ocidente tivesse lidado de outra forma com Ben Bella, Nasser, os primeiros líderes do Baas, Soekarno, Mossadegh, até Khadafi, a história hoje seria outra. E seria interessante recuar até à 1ª guerra, no fim da qual os nacionalistas árabes foram traídos em relação às expectativas que Lawrence (o da Arábia) lhes tinha transmitido.

4. Um grupo de gente conhecida de direita está a tentar recolher assinaturas para um referendo com as seguintes perguntas:
"Concorda que a lei permita a criação de embriões humanos em número superior àquele que deva ser transferido para a mãe imediatamente e de uma só vez?"
"Concorda que a lei permita a geração de um filho sem um pai e uma mãe biológicos unidos entre si por uma relação estável?" e
"Concorda que a lei admita o recurso à maternidade de substituição permitindo a gestação no útero de uma mulher de um filho que não é biologicamente seu?"
Responderei que sim às três perguntas, embora com algumas dúvidas quanto à última.

11 fevereiro, 2006

As caricaturas de Maomé

Para além deste espaço de escrita sobre assuntos gerais, vou tentando alimentar a discussão entre amigos que fazem parte de uma lista restrita de correio electrónico. Como se imagina, muita discussão temos tido sobre a questão dos "cartoons". Tenho deixado sedimentar as minhas ideias. Creio que só é possível exprimi-las com uma distinção de níveis e aspectos.

1. Do ponto de vista pessoal. O meu sentido de humor é muito largo. Apesar de cientista, nunca me ofendi com a célebre caricatura do macaco Darwin. No meu livro de curso, fizeram-me uma caricatura devastadora, enfatizando vícios meus que cada vez mais reconheço e tento corrigir. Mas ri-me, porque sem riso não há vida que valha a pena viver. Pessoalmente, ri-me às gargalhadas com a célebre caricatura do António com o papa e o preservativo no nariz, embora admitindo que alguns católicos se ofendessem. Não, por exemplo, a minha ultra-religiosa mãe, que sempre diz que é um crime contra os filhos não se usar contracepção e não se ter meios para os sustentar. Tem 90 anos, é profundamente católica.

Mas não abdico de uma maneira sensata de ver as coisas. Imagino-me dinamarquês, quando um jornal publicou as caricaturas e ninguém adivinhava esta guerra. Soube então que as caricaturas não eram iniciativa de um desenhador, mas que tinham sido encomendadas por um pasquim xenófobo e de acordo com os objectivos do jornal. Estou certo de que eu teria escrito violentamente contra isso, e o mesmo faria se se tivesse passado em Portugal. Entretanto, muito se passou, mas creio que não devemos esquecer este ponto de partida.

2. Do ponto de vista de eu na sociedade. O meu pai, "very british", habituou-me a uma regra: nunca discutir, fora do círculo de amigos, política e religião. Há anos, a minha mulher e eu fizemos um cruzeiro no Nilo, com um simpático acompanhante egípcio. Tivemos antes nós dois uma conversa. Quando estávamos os três juntos, com o guia, ela não usava calções nem falava, apesar de toda a vontade que lhe vinha à boca, sobre a execrável situação da mulher nas sociedades muçulmanas. A viagem correu muito bem.

Se eu fosse caricaturista, tinha publicado algumas daquelas caricaturas, deliciosas, por exemplo, a das virgens esgotadas. Mas não teria figurado Maomé com uma bomba, identificando-o com o terrível terrorismo islâmico. Também, se fosse o director do jornal, não teria permitido a publicação dessa caricatura, muito menos encomendá-la. Quem, como eu, manda com frequência artigos para os jornais, sabe que muitos são rejeitados e respeitamos isto. É o direito do jornal. A liberdade de expressão está em foco, mas há algum jornalista que nunca tenha tido essa liberdade coarctada pelo director ou pelo chefe de redacção?

3. Do ponto de vista da nossa civilização. Tudo o que se tem escrito é à volta da liberdade de expressão. Muito bem, mas não é o único valor civilizacional que temos de defender, nesta situação, é também o do laicismo ou laicidade do estado. Bem sei que seria deitar mais achas na fogueira, mas não devemos esquecer isso.

Os meus leitores habituais sabem como eu abomino o politicamente correcto, no pensamento e, mais ridículo, na linguagem. Assim, ninguém me leva a dizer que todas as civilizações são iguais. Elas nem sequer são iguais a si próprias: todas nascem, sobem ao apogeu e degeneram. Se não, ainda vivíamos no império romano. A árabe foi uma grande civilização, hoje, para mim, claramente que já não é. Aceito é que seja muito difícil medir um civilização, mas sempre usámos alguns critérios base: prosperidade, hegemonia, poder (estes os aspectos "criticáveis"); mas também cultura, ciência, artes, pensamento humanista, e, hoje, desenvolvimento humano.

Para mim, a teocracia é uma característica diminuidora do mérito de uma civilização. É certo que a tivemos, mitigada na partilha de poder entre o rei e a igreja. Por alguma razão a revolução francesa impôs como valor fundamental a separação e o laicismo, porque a ligação era um elemento essencial do antigo regime. A dificuldade é que, no caso do Islão, é difícil falarmos apenas de religião. Se assim fosse, a "intocabilidade" dos sentimentos religiosos teria, neste caso, outra dimensão. O problema é que o islão é, indissociavelmente, uma ordem social e uma política e, em boa parte, intrinsecamente agressiva (não, não estou a esquecer as cruzadas!). E hoje, neste mundo globalizado e interdependente, toda a gente tem o direito de discutir a política de qualquer estado, mesmo que, com isto, esteja a discutir uma religião.

4. Do ponto de vista dos estados europeus. Há dias, o nosso MNE alinhou na onda europeia das meias tintas e da "realpolitik". Defendeu vagamente a liberdade de imprensa mas manifestou a sua simpatia pela indignação dos que se sentiram ofendidos, criticando a irresponsabilidade do jornal dinamarquês, chegando mesmo a usar palavras de clara condenação. Para mim, é uma atitude à Munique de 1939. Eu bem sei que há petróleo e o medo generalizado dos ataques terroristas. Mas lembremo-nos de Churchill. Ceder ao medo e à chantagem é logo a perda da primeira batalha. Um governo não tem nada que fazer declarações valorativas sobre actividades privadas. Que a publicação das caricaturas foi infeliz, estou de acordo, mas é tema da vida privada e nenhum ministro, em nome do estado, tem de se pronunciar.

Dos comunicados europeus que li, o do nosso MNE é o mais lamentável. Para além da parolice da referência a "Cristo e a sua Mãe, a Virgem Maria" (sic; só faltava ter-se benzido ao dizer isto) e da "lição" de história sobre a raiz comum das religiões monoteístas em Abraão, nem uma palavra a condenar os desmandos que esta questão está a provocar nos países islâmicos.

5. Do ponto de vista do confronto de civilizações. Tendo a alinhar com os que escrevem que, com a geopolítica, o petróleo, a mundialização das novas ameaças (ie, terrorismo internacional), estamos a entrar numa "guerra de civilizações", ocidental e islâmica (enquanto não aparece a oriental).

Esta guerra tem dois terrenos: o primeiro é mundial, o segundo é a nível de cada pais com comunidades islâmicas relevantes. Não vou falar agora sobre isto, embora seja um problema indissociável do problema internacional.

Claro que não tenho receitas, porque o problema não é apenas cultural; as tensões culturais acabam sempre por se resolver. Veja-se o exemplo paradigmático da excelente síntese cultural feita pelo Japão após a 2ª Guerra. Agora, o problema é muito mais fundo, porque a religião, sendo elemento também da cultura civilizacional, é muito mais funda.

Desde o 11 de Setembro que toda a gente se interroga: como dar relevo ao mundo islâmico que, como entre nós, segue as instruções de ulemas inteligentes, modernos e mundividentes? Confronto-me com alguns problemas. Em primeiro lugar, eu que até não vou muito com hierarquias, reconheço que as figuras máximas das igrejas desempenham um papel regulador muito importante. O Islão não tem uma autoridade máxima.

Li há tempos um relato pouco difundido de uma reunião com Bento XVI (e bem bom, senão a guarda suíça teria de ser reforçada). Segundo o papa, há uma diferença essencial entre os textos revelados. No judaísmo (Moisés e os profetas) e no cristianismo (os evangelistas), Deus transmite uma revelação a homens para as escreverem para o seu tempo, mas sem prejuízo da reinterpretação ao longo dos tempos. Pelo contrário, o arcanjo Gabriel ditou, textualmente, o Corão a Maomé. É a palavra de Deus infalível. Há margem para interpretação? Pode assim essa religião actualizar-se e reformar-se?

Lembro-me de uma excursão estragada quando visitei Israel. O guia, israelita de esquerda e muito inteligente, foi massacrado por uma turista malaia. Quando ela o defrontava com uma tese, ele respondia que aquilo era velha história bíblica e que precisava de ser reactualizada. Ela abria o Corão, lia uma passagem e dizia, a terminar a conversa, "isto é a palavra de Deus único, que também tem de ser o seu".

6. Do ponto de vista do direito internacional. Incendiar embaixadas, com óbvia complacência das policias? Quem pode pactuar com isto, sem renegar os princípios mínimos da ordem internacional? Muitos protestam contra as intervenções bushianas à margem da ordem internacional, eu próprio. Mas como é que temos autoridade para afirmar essa ordem se contemporizamos, "politically correct", com este populismo obviamente fomentado por estados?

Finalmente, uma nota cínica. Li hoje (dia em que escrevo) uma notícia importante que talvez passe despercebida. Desde há muito tempo que parece haver na Dinamarca uma rivalidade pessoal feroz entre dois candidatos à supremacia da influência na comunidade islâmica. Um deles foi descobrir estas caricaturas já de há alguns meses e lançou uma hábil campanha político-religiosa junto dos países árabes. Coisa pequenina e mesquinha, a rivalidade entre dois pequenos líderes locais, mas é o efeito borboleta.

PS – Isto já vai longe. Peço desculpa, mas não me parece assunto para tratar em duas linhas. Acrescento ainda uma nota. Estou a escrever numa espécie de blogue e ninguém duvida da influência da blogosfera. Nestas semanas, tenho feito pesquisas intensas acerca de sítios ou blogues que expressem o ponto de vista de muçulmanos "modernos". Alguém já os encontrou? Eu não.

04 fevereiro, 2006

Reforma administrativa

Alinho com os que dizem que a redução do défice passa primeiro pela redução da despesa pública. Do lado da receita, dou prioridade à eficiência da cobrança das receitas fiscais e ao combate à evasão, bem como a regularização das dívidas à segurança social, mas parece-me ser um processo mais moroso e longe da plena eficácia. Numa fase imediata e urgente, até compreendo que a redução da despesa se faça em dimensão "macro", olhando para os grandes sectores da despesa: funcionalismo público, saúde, segurança social, serviço da dívida. Mas acho que o imediato não deve prejudicar outras políticas, também a serem lançadas no imediato, até por só terem efeitos a prazo.

Já tenho escrito que uma delas seria a da adopção de orçamentos zero. Isto é, fazer tábua rasa dos orçamentos históricos que se vão mantendo com aumentos acríticos em função da inflação e nunca discutidos. Dir-me-ão que, se estes orçamentos forem cumpridos sem saldos é porque estão ajustados. Quem teve alguma experiência de direcção na função pública, sabe que isto não é verdadeiro: gasta-se indiscriminadamente até ao último euro do orçamento.

Por razões que seria longo explicar, eu fui defrontado com a necessidade de elaborar um orçamento zero. Teve de se fazer uma estimativa real de todas as despesas, rubrica a rubrica. Para maior rigor, foi necessário introduzir contabilidade analítica, que não existia, e discutir extensivamente com cada centro de custo as suas necessidades orçamentais. No fim, foi divertido comparar esse orçamento com o orçamento "histórico" anterior.

Mesmo antes dos orçamentos zero, diz-me a experiência de gestão que há coisas imediatas muito úteis. Tudo o que se segue passa pela indexação, coisa que julgo nunca ter sido feito. Seria um valor padrão, para cada despesa, que, em caso de ultrapassagem, teria de ser justificado com fundamentação criteriosa. Vou começar pelas menores.

a) Cartão de crédito do dirigente e despesas de representação: julgo que devia ser fixada uma percentagem máxima em relação ao orçamento total. Já me falaram de um caso de um director-geral que todos os dias almoça com a sua secretária (?) num restaurante de luxo, debitando a esse cartão.

b) Correio e telefones: também fixação de uma percentagem máxima em relação ao orçamento.

c) Transportes: conjugado com a despesa de combustíveis, traduz (com importantes excepções de alguns organismos específicos) o uso e abuso do automóveis de serviço pelos dirigentes. Outro aspecto a inspeccionar.

d) Limpeza, em geral em outsorcing: facilmente indexável à área total das instalações.

Passo agora à grande fatia da despesa, a do pessoal. Os organismos diferem muito. Alguns são simples secretarias, outros tecnicamente complexos, com quadros de pessoal forçosamente mais qualificados. Mas três componentes da despesa de pessoal são facilmente indexáveis, independentemente da característica do organismo:

1. Pessoal de contabilidade: é preciso distinguir três tipos de operações. Umas são regulares mas espaçadas e independentemente do tipo de organismo, já quase automáticas com informatização mínima: processamento de vencimentos, mapas para a segurança social, mapas de execução orçamental (será que alguém no Ministério das Finanças os lê?). Depois, a contabilização das ordens de despesa, cabimentos, facturação, autorizações de pagamento. Operação de tesouraria. Tudo depende do número de ordens de despesa. Donde, o pessoal de contabilidade é facilmente indexável. O mesmo para a facturação, no caso de organismos com receitas próprias.

2. Serviço de pessoal: há tarefas básicas, mas menores. O grosso é o processamento de abonos e descontos, de faltas, de férias, de despesas da ADSE, etc. Obviamente, isto é directamente proporcional à dimensão do organismo. Uma vez mais, o pessoal encarregado destas tarefas é facilmente indexável.

3. O mesmo em relação ao pessoal da secretaria geral. O seu número deve ter um índice médio, em função do número de processos administrativos.

É assim tão difícil uma reforma administrativa?

À margem, a coisa mais surrealista com que me defrontei enquanto dirigente da função pública. Um organismo com autonomia administrativa e financeira dispõe de um orçamento de receitas próprias - prestação de serviços, propinas, análises clínicas, só para dar exemplos do instituto de que fui director. A cada mês, tem de se entregar no tesouro o produto das receitas. No mês seguinte, faz-se uma requisição de fundos para devolução dessas receitas. Surrealista!

30 janeiro, 2006

O novo bloco central: Cavaco-Sócrates

Se Cavaco Silva fosse primeiro ministro, em vez de Sócrates, provavelmente estaria a fazer a mesmíssima política para a redução do défice orçamental. Por isto, creio que não vai haver grandes problemas na coabitação. Vão-se entender, melhor talvez do que Sócrates se entenderia com Soares e, muito mais, com Alegre. Creio mesmo que, ao contrário do que alguns temem, esse entendimento vai ser mais importante para o próximo PR do que qualquer plano de relançamento da direita partidária. Um homem como Cavaco só se interessa pelas suas próprias ideias e política, até tem algum desprezo pelos partidos.

Com isto, ambos correm graves riscos. Julgo que Cavaco pode gerir bem algum distanciamento em relação a Sócrates e à política do governo mas, pelas razões que disse, provavelmente vai dar uma imagem de sintonia com ela que o corresponsabilizará perante a opinião pública. Não é assunto que muito me interesse.

Interessa-me mais o que isto pode significar para o PS, não tanto por ele próprio mas sim pelas repercussões em toda a esquerda. Começo por dizer que tenho uma atitude aparentemente paradoxal em relação a este governo, quando encaro as suas medidas tanto no plano técnico como no politico. No primeiro plano, concordo. No segundo, considero a actuação do governo totalmente inábil, mesmo desastrosa. Parece-me que não haverá remédio, isto está na natureza de Sócrates. O problema é que isto se pode reforçar pelo que julgo vir a ser o apoio de Cavaco. Vão-se juntar a fome e a vontade de comer.

Um dos riscos que vejo é o da formação a curto prazo de um "bloco central" camuflado, uma mistura de Blair e Merkel em que os rótulos partidários pouco contam. Com isto, provavelmente o governo aguentará a legislatura, mas as próximas eleições serão de um pasmo como nunca vimos. A decisão pantanosa entre PS e PSD, prevejo, não se fará por diferenças politicas essenciais mas sim por coisas menores, simpatias pessoais, telegenia, marketing da campanha, expectativas de "jobs for the boys". Possivelmente, o CDS à direita e o PCP e o BE à esquerda lucrarão com isto, mas não se afectará o resultado essencial.

A afirmação de uma alternativa realista, nestas eleições presidenciais, quando Soares se identificou tanto com o PS de Sócrates, poderia ter vindo de Alegre. Fui seu apoiante e seu eleitor, embora, afirmando a minha atitude crítica, não tenha sido chamado a qualquer participação na campanha e, agora, no que fazer do milhão de votos. Mas, nesse aspecto do distanciamento em relação a Sócrates, fiquei frustrado. Não vi uma afirmação clara de como Alegre poderia ser um moderador da inabilidade e falta de sentido social da política do actual primeiro ministro, afinal ainda seu companheiro de partido.

Segui com atenção os trabalhos deste fim de semana do movimento "alegrista". Fiquei satisfeito pela exclusão da fundação de um novo partido, porque julgo que seria uma aventura condenada ao fracasso. Quanto ao clube ou associação, muito bem, embora tenha dúvidas sobre a sua viabilidade (é ilusório pensar em um milhão de membros virtuais) e sobre o efeito que nele vai ter a decisão de Manuel Alegre de continuar ou não com a sua vida partidária a alto nível. Tenho a minha opinião, mas a decisão é dele e certamente bem pensada.

Mas mais me preocupam as linhas orientadoras desse movimento: "o objectivo é o debate e defesa de causas políticas já defendidas por Manuel Alegre durante a campanha ou outras que, entretanto, venham a surgir. Por agora os temas e as causas são, por exemplo, a justiça, a desertificação do território, a igualdade de género, a corrupção." Muito bem, mas isto reflecte uma perspectiva política clássica. É importante discutir tudo isto, mas ainda estaremos a fazê-lo daqui a vinte anos. Anoto, todavia, o "outras que, entretanto, venham a surgir".

Não sei ainda se virei a ser membro desse clube politico. Se for, bater-me-ei pelas "que venham a surgir". A minha prioridade seria tudo o que combatesse, nas ideias, o novo bloco Cavaco-Sócrates: Como ter uma política de equilíbrio financeiro-orçamental compatível com a justiça social e civicamente compreensível pelos necessariamente afectados? Como promover a competitividade nacional, equilibrando isto com a defesa ou remobilização dos milhares de postos de trabalho obsoletos nas empresas condenadas à falência ou à deslocalização? Como qualificar os portugueses, do ensino básico ao superior, sem exclusões sociais? Como harmonizar as regras económicas comunitárias com um desenvolvimento sustentado e, principalmente, com o desenvolvimento humano?

Para isto, vale a pena um novo centro de reflexão e influência política à esquerda. No entanto, para debates vagos ou tradicionais, não adianta. Gostaria de pensar, vou ver, que os apoiantes mais activistas de Alegre se diferenciam por coisas estruturais, mais do que bandeiras, por muito valor simbólico que tenham. Se sim, alinho.

29 janeiro, 2006

Teresa e Lena

Antes de falar sobre a Teresa e a Lena, umas considerações prévias. Ao contrário do modo anglo-americano, pragmático e partindo frequentemente do caso particular para o geral, nós, pelo menos os latinos, temos sempre uma atitude sistemática. Quero dizer com isto que temos dificuldade em olhar para o concreto, para o caso particular e daí partir para uma solução geral. Ficamos sempre à espera da grande lei, da grande reforma. Por isto, estamos sempre a fazer essa coisa inútil que é culpar o sistema. Contra isto, falo sempre da atitude à engenheiro. Se uma máquina está a trabalhar mal, não se revê todo o seu projecto, substitui-se é o parafuso ou o transístor que estão a funcionar mal.

O casamento de homossexuais, que tem toda a minha concordância, vai ficar encravado durante muito tempo em discussões políticas, considerações da oportunidade, equilíbrios partidários. A Teresa e a Lena, que vivem juntas, vão atirar uma pedrada ao charco. Vão-se apresentar numa conservatória do registo civil a requerer o seu casamento. Claro que lhes vai ser negado, com base no Código Civil. Daí passarão para o Tribunal Constitucional e, a seguir, para o Tribunal Europeu. Pode parecer um disparate quixotesco, mas todas as avalanches começam numa pequena bola de neve.

28 janeiro, 2006

Os dislates do rescaldo

Nos últimos dias, tenho lido coisas espantosas, como comentário aos resultados das eleições presidenciais. Não fosse o humor fino (muito pouco correspondido nos comentários) de Luís Aguiar-Conraria em "A destreza das dúvidas", ficaria confrangido. O pior exemplo é o incrível escrito de José Medeiros Ferreira, no "Bicho carpinteiro". Lamento pessoalmente, por ser um velho amigo. "Merece" transcrição:
"Muitos foram os que declararam que dormiriam bem com qualquer PR que fosse eleito. A declaração soporífera foi a mais das vezes feita por gente de esquerda a apresentar o seu atestado de sabedoria democrática.
Contados os votos, e numa interpretação selvagem, só os setecentos mil em Mário Soares parecem sólidos em termos de defesa do regime democrático representativo. Do mais de um milhão que cifrou Manuel Alegre, por muito cívicos que sejam, ninguém saberá quantos se apresentariam para soerguer o sistema de partidos.Os populistas que levaram Cavaco Silva aos ombros, desde que este escondesse os apoios do PSD e do CDS-PP, também não morrem de amores por aparelhos partidários e gostariam de ver o PR eleito ao leme. Embora Jerónimo de Sousa tenha andado de Constituição na mão, ninguém em consciência acha que se deve pedir aos comunistas que sejam convictos defensores dos regimes pluralistas, representativos e ocidentais, ou meramente europeus. Descontados esses quatrocentos mil votos, resta-nos os trezentos mil de Francisco Louçã cuja estadia no pórtico do sistema não permite um sono prolongado ao relento.
Agora já podem ir para a cama."
Mal vai uma democracia cuja defesa só assenta em setecentos mil votos. Como eleitor de Manuel Alegre, sinto-me ofendido por esta minha exclusão da defesa sólida da democracia. O que me vale é conhecer, desde os nossos tempos de liceu, o gosto de JMF pela "boutade". Ou estará a falar a sério?

23 janeiro, 2006

Notas sobre as presidenciais

1. A formalidade banal mas necessária: Sr. Presidente, não votei em si, lamento pessoalmente que tenha ganho, mas, a partir deste momento, é o Presidente da República que respeitarei como tal.

2. Nestas eleições, aflorou de vez em quando a questão de uma maioria de esquerda definidora da nossa sociedade. Julgo que é uma ideia falsa e politicamente perigosa. Trinta anos depois do 25 de Abril, a nossa democracia "serenou" e apresenta um traço comum às democracias actuais: não há maioria estrutural de esquerda nem de direita. Tudo se decide pela movimentação sempre muito imprevisível e conjuntural do "centrão". Há meses, deu maioria absoluta a Sócrates, agora a Cavaco. Como homem de esquerda, isto preocupa-me porque muito provavelmente vou assistir a uma tendência da esquerda predominante para atenuar as suas posições, visando a conquista do "centrão" - ou o pântano, o "marais", como costumam dizer os franceses.

3. A esquerda apresentou-se auto-diminuída a estas eleições. Há muito tempo que se perfilava a candidatura de Cavaco, com boas perspectivas de vitória. A frase de Soares, "não deixarei que haja o passeio triunfante de Cavaco pela Avenida da Liberdade" revela, no fundo, essa convicção. Porque é que o PS não encarou a sério essa candidatura e se remeteu a uma posição frouxa, quase acomodatícia? A meu ver, Sócrates é o grande derrotado destas eleições (a não ser que, como se diz, não lhe desagrade muito o resultado). Teve um clamoroso erro de "casting", como é moda dizer. No entanto, como escreverei adiante, creio que nada lhe acontecerá.

4. E é a Sócrates que se deve o momento mais desagradável desta noite eleitoral, coisa que nunca tinha visto, o abafamento da intervenção de Manuel Alegre. Um primeiro ministro tem de ter maneiras. Quando não as tem, isto revela alguma coisa má do seu carácter.

5. Apoiei publicamente Manuel Alegre e, claro, votei nele. Mas nunca pensei que tivesse uma votação tão expressiva. Que vai fazer Manuel Alegre? Em primeiro lugar, no PS se, como é provável, nele se mantiver. Creio que pouco, a não ser capitalizar este resultado para uma eventual nova candidatura a secretário geral. Nessa altura, duvido de que tenha muita legitimidade para o fazer, porque estes seus eleitores não se reverão num candidato agora para-partido, contestatário da lógica e poder dos aparelhos mas que, depois, regressa à luta pelo poder partidário. Por outro lado, não estou certo de que a diferença Alegre-Soares, no eleitorado, tenha equivalente no partido. Todo o aparelho e os notáveis do PS estiveram com Soares e Sócrates. Infelizmente, no PS, e não só, os jobs são muito mais importantes do que as ideias e os valores.

6. E o que fazer de um milhão de votos, fora do PS? Também aqui estou pessimista. Lembro-me do movimento em torno da candidatura Pintasilgo - é certo que com menos votos - que se desvaneceu no dia seguinte. São, em muito, movimentos de protesto, dificilmente convertíveis numa intervenção futura positiva. E sob que forma? Uma associação política? O pragmatismo actual leva a que as pessoas só se empenhem no eficaz e, queiramos ou não, o eficaz são os partidos. Um novo partido socialista com verdadeira imagem de esquerda? Depois do BE, apesar de algumas fragilidades e incongruências, o espaço ficou reduzido.

7. Manuel Alegre vai ser acusado de ter dividido a esquerda, diga-se PS. Pelo contrário, estou convencido de que a opção de Sócrates por Soares iria causar grande abstenção à esquerda. Alegre fixou esse eleitorado.

8. A república (romana) respeita os seus heróis. Soares é-o. Por isto, não digo mais nada.

9. Jerónimo de Sousa mostrou novamente ser uma mais-valia do PCP. Pergunto-me se um homem com tal capacidade intelectual e com grande sentido humano será de facto um ortodoxo do estilo duro e intelectualmente medíocre que conheci em outros funcionários do PCP (nunca falei com Jerónimo de Sousa). Não virá a ser o Gorbatchov do PCP?

10. Finalmente, Louçã, que foi, para mim, a surpresa negativa destas eleições e, juntamente com Soares, um derrotado em termos pessoais. Tudo indicaria que, com as suas qualidades, ultrapassaria em eleições muito personalizadas os resultados do BE nas legislativas. Há homens que apresentam em alto grau tanto qualidades como defeitos. Creio que Louçã foi vítima destes últimos.

11. Garcia Pereira, do PCTP/MRPP: isto ainda existe?!

15 janeiro, 2006

O meu governo

Fim de semana é para descontrair e para algum humor. Esta campanha tem-me dado que pensar. Já assumi que nunca vou ser PR, mas, PM, quem sabe, se der para o jeito o meu próximo Partido Surrealista. Acho que um mínimo de transparência é divulgar desde já o que seria a composição do meu governo.

Presidência – Alberto João Jardim, obviamente.

Negócios Estrangeiros – Emb. Jorge Ritto.

Defesa – Jaime Neves.

Administração interna – o presidente da Securitas.

Moralização pública – Isaltino de Morais.

Justiça – Rui Guerra ou Fátima Felgueiras.

Finanças – José Braga Gonçalves.

Economia – Pina Moura, outra vez, agora em grande consagração.

Educação superior e ciência – Queriam que eu dissesse?!

Agricultura e pescas – Quem mais sobreiros tiver desbastado no ano passado, que isto é que é coragem.

Obras públicas – Avelino Torres.

Educação – M. Fátima Bonifácio.

Cultura – Quim Barreiros.

Ambiente – Miguel Champalimaud.

Igualdade – João César das Neves.

Trabalho e segurança social – Luís Delgado

Saúde – O residente na cave do HSMaria, ninguém deve perceber mais de hospitais.

SE porta-voz – Manuela Moura Guedes.

14 janeiro, 2006

Incompetência

O caso em foco dos registos telefónicos de altas figuras do Estado é, obviamente, muito grave, em termos políticos. No entanto, há outra perspectiva, igualmente preocupante, a da incompetência, factor de descredibilização da coisa pública e de toda a nossa vida social. Já que se fala na justiça, tendo a pensar que muitas das suas falhas não representam intenções malévolas ou menos democráticas, muito menos falta de integridade ou cabalas, mas principalmente incompetência. Até na actividade legislativa ela se nota: leis com disposições ambíguas, até contraditórias, para além de péssima redacção.

O nosso nível educacional, quantitativo e qualitativo, é muito baixo e isto reflecte-se obviamente no nível geral de competência, a todos os níveis. Pode ser só o canalizador que nos deixa o tubo mal apertado, o electricista que troca a polaridade de uma ligação, a empregada doméstica que me estraga uma camisa porque não sabe ler qual a temperatura máxima de lavagem. Mas também é o médico que considera como indigestão uma peritonite em começo, o advogado que manda o cliente para a prisão porque se esqueceu de uma formalidade essencial num recurso, a directora de serviços que faz o responsável incorrer em processo disciplinar porque se esqueceu de que um determinado despacho exigia publicação no Diário da República. Uma ministra publica um despacho com uma fórmula matemática reitertiva e incalculável. E ninguém é verdadeiramente responsabilizado, porque tudo isto faz parte natural da nossa vida.

Este caso começa por a PT só ter registo de facturação detalhada por cliente e não por número de telefone. Apesar de tudo, é aceitável, porque o cliente é que determinante para o fim em vista. Aqui, diz-se que o cliente era o Estado. Claro que não, porque então sairiam milhares de contas. Presumo que seja um cliente Estado muito excepcional, o que contrata e paga os números confidenciais das altas figuras. Merecia cuidado muito especial.

Um funcionário ou técnico da PT passa os dados para um ficheiro Excel. Incrivelmente, em vez de apagar os dados não solicitados ("select rows > delete rows", nada mais simples), limita-se a aplicar um filtro. O magistrado do MP lê-os no ecrã e não consegue ver que há ali um filtro. Não tem toda a culpa. Nada na sua formação de direito o habilitou para esta competência transversal hoje tão básica que é o domínio geral das tecnologias da informação. E ainda há quem considere como bizarria o paradigma de Bolonha!

PS - A propósito de responsabilização, uma história pessoal ilustrativa. O IHMT, de que fui director, tinha uma actividade clínica importante. Numa inspecção, fui censurado por ter feito para o instituto um seguro de responsabilidade civil a cobrir indemnizações por erros médicos. Era ilegal! Quase que tive que o pagar do meu bolso. Mas, mais uma vez, a incompetência. Este processo passou por várias mãos responsáveis e ninguém detectou essa ilegalidade. É perigoso ser-se dirigente.

13 janeiro, 2006

A culpa do PS

Desacreditar as sondagens é uma patetice, mas é preciso saber lê-las e, principalmente, ter em conta os intervalos de confiança. Assim, não vou falar de Cavaco. Se não houver uma grande alteração decorrente da campanha, vai ganhar as eleições à primeira volta, por muito que isto me desagrade. Diferente é o caso da disputa Alegre-Soares.

As posições relativas na primeira volta vão-se alternando nas sucessivas sondagens, mas sempre dentro da margem de erro. Mais significativa é a diferença sobre qual deles obteria melhor resultado contra cavaco, numa segunda volta. A vantagem, significativa e constante, vai para Alegre. Podem dizer-me que isto não interessa e que é contraditório com a minha previsão de eleição logo à primeira volta. Penso que não, porque há lições políticas a tirar.

Adivinho que a noite de 22 vá ser de "facas longas" para o campo, partidário e eleitoral, do PS. As culpas serão atiradas, principalmente, contra os candidatos, quando julgo que o principal responsável é a direcção do PS. O que as sondagens sobre a segunda volta mostram é que Alegre é um candidato que não só divide quase a meias o eleitorado do PS como, principalmente, é mais abrangente contra Cavaco. Imagine-se o que seria se tivesse em campanha todo o apoio do PS, embora talvez alienando com isso alguma parte do seu actual apoio. Para mim, Sócrates errou na escolha e é ele que deve ser questionado pelo PS.

08 janeiro, 2006

Notas soltas

1. Desde há algum tempo que sou leitor habitual do blogue Bicho Carpinteiro, principalmente por causa dos escritos do meu velho amigo José Medeiros Ferreira. Agora, transformou-se num panegírico acrítico e inflamado da campanha de Mário Soares. Nele pontifica Joana Amaral Dias, cada dia mais irreconhecível como dirigente do BE.

Hoje creio que atingiu o máximo. Descredibiliza a última sondagem da Universidade Católica, que volta a colocar Alegre à frente de Soares. E descredibiliza com o argumento de que a sondagem é feita pela UCP, universidade em que ensina Cavaco Silva. A jovem senhora não percebe como isto é ofensivo para os profissionais sérios e competentes do centro de sondagens da UCP? Ou é porque "fazer fretes" é para ela coisa de somenos e banal?

2. Um pequeno facto mas elucidativo. Ontem, na campanha de Soares, os jovens gritavam "Belém é para um doutor, não para um professor". Demagogia, estupidez, mau gosto, ou tudo isso junto?

3. Ainda uma piada do Bicho Carpinteiro, sobre a entrevista da SIC a Manuel Alegre, por ele aparecer com a sua espingarda de caça. Fui pescador, mas nunca gostei de matar caça. Não importa. Há muitos milhares de portugueses apaixonados pela caça, coisa visceral da nossa civilização. Se a entrevista fosse comigo, achava muita graça a ser filmado com um taco de golfe, no fim do 18º buraco e antes de passar ao 19º na "club house" (sabem o que é?).

Mas isto tem a ver com a ideia com que fiquei dessa entrevista. Para mim, foi o melhor momento de Manuel Alegre. Descontraído, mostrando-se como pessoa até ao ponto critico em que, para além dele, é devassidão da intimidade. Mas, com isto, fiquei com uma dúvida. Será que a cultura e formação intelectual de Manuel Alegre lhe permite uma eficiência de campanha que, por natureza, vai contra a sua personalidade? Conseguirá ele dominar os rodriguinhos medíocres de uma campanha eleitoral? Lembro-me de outra grande personagem, Maria de Lurdes Pintasilgo. Pagou o preço da sua qualidade intelectual e ética.

4. Muito se tem escrito sobre os poderes presidenciais. Com graça, António Barreto lembra hoje mais um, o "chamar a Belém". Sampaio já chamou a Belém Souto Moura, os chefes militares, Marcelo Rebelo de Sousa, agora os participantes nisso que, para mim, é o escândalo EDP-Iberdola (hei-de escrever sobre isto). No entanto, é um "poder" que tem sido mal exercido. Excita a comunicação social, mas depois tudo fica opaco, nada se sabe sobre o que o PR concluiu. Era bom que fosse exercido só quando o PR está seguro de que, depois da chamada a Belém, pode fazer uma declaração pública com impacto.

07 janeiro, 2006

Necrofilia cultural

Na sua crónica habitual no Público de hoje, Vasco Pulido Valente (VPV) escreve, a propósito da candidatura de Mário Soares:
Mas nem por tudo isso Mário Soares deixou de ser parte e parcela de uma cultura burguesa que morreu [JVC, itálico meu]. Uma cultura em que a arte, a história, a filosofia, a política, a conversa, o conforto e a cozinha contavam. Uma cultura cosmopolita, que lhe permitia estar em casa em Itália ou em França, em Inglaterra ou em Espanha, na Alemanha ou até na América "liberal" da costa leste. Um homem destes não podia perceber (e não percebeu), nem se podia adaptar (e não se adaptou) a uma civilização de "massa". Principalmente, um homem destes não podia ter a mais remota empatia pelo "novo homem", reduzido a uma educação técnica, com ideias sumárias sobre a sociedade e a vida, imitativo, grosseiro e dedicado a uma ambição primária e pessoal.
O que motiva esta minha nota não é a campanha mas a referência a uma cultura burguesa que morreu. Como, em grande parte, é a minha, isto dá-me que pensar. Serei, como muitos outros, VPV incluído, um dinossauro cultural em extinção?

Quando muito, posso interrogar-me sobre a tendência para extinção, por perda de hegemonia (leia-se Gramsci). Que tenha já morrido essa cultura, é mais uma "boutade" a que VPV já nos habituou. Não creio que alguma vez na história uma cultura tenha morrido, em termos absolutos, de desaparecimento. Cada nova formação cultural vai apagando os aspectos em que a cultura antes dominante entra em contradição com novas configurações sociais, mas, ao mesmo tempo, mantém delas valores essenciais, a que, talvez pomposamente, chamamos o património cultural da humanidade. A revolução francesa decapitou Luís XIV mas não destruiu o palácio de Versalhes.

Creio mesmo que a tendência actual é para a vitalização em coexistência de várias formas de cultura. É certo que hoje, principalmente graças às variadas formas de informação e de comunicação social, há grande pressão para uma certa homogeneização cultural. No entanto, vejamos o caso dos EUA. A sua globalização interna não impede que haja a cultura de bota e chapéu de cowboy, de budweisser e de mau gosto, mas também, ao mesmo tempo, principalmente em ambas as costas, os melhores museus, os melhores concertos, as grandes exposições, tudo a abarrotar de gente. E são todos da velha burguesia os milhões de turistas que hoje nos impedem de ver bem a Gioconda ou a Capela Sixtina?

Pelo contrário, a massificação da educação o que está causar é o acesso de cada vez mais pessoas à tal cultura "morta". O que admito é que ela não reflecte, ao ritmo da vida, as mudanças sociais e a enorme mudança da "outra cultura", que não quero adjectivar. Claro que esta dicotomia cultural sempre existiu. Os metecos conheciam Homero? O padeiro de Paris era capaz de ler Diderot?

Mesmo isto se tem atenuado. Os intelectuais snobs de hoje acham-se cada vez mais um grupo restrito de elite, perante uma massa de jovens (vou servir-me deles como exemplo) incultos. É certo que isto pode causar um desequilíbrio na relação-sobreposição entre elite intelectual e elite social e económica (prefiro não falar da "elite" politica...). A ascensão à elite social foi explosiva, e bem bom. Muitos destes não estão preparados para ter igual nível em termos de elite cultural, provieram de meios menos propícios, fizeram-se por si, formaram-se numa educação superior massificada, fábrica de profissionais. Terem ascendido é o seu grande mérito e não se pode continuar a vê-los por um padrão ultrapassado.

Por outro lado, também há nisto um equívoco, na comparação dos tempos. Nos meus tempos de estudante universitário, em que a selecção social era muito maior, mesmo assim quantos dos meus colegas nunca liam nada de qualidade, nunca conheceram S. Carlos, não tinham a mínima ideia de quem tinha sido Demócrito, de jornais só liam a Bola. E até nunca tinham lido os Lusíadas, do primeiro ao último verso.

O que não nos apercebemos, muitas vezes, é como essa "outra cultura" tem evoluído. Nesse meu tempo, ouvia-se o António Calvário, hoje, entre muita coisa, há excelente "música ligeira". Hoje, há quem se delicie com a Margarida Rebelo Pinto, mas havia colegas minhas que liam Corin Tellado, creio que muito pior. E, depois, a net, nem vale a pena dizer mais nada.

Com tudo isto, o que me repugna é a atitude arrogante dos que se fecham cada vez mais no seu umbiguismo "cultural", ao ponto de, como nesta declaração de VPV, se assumirem como mortos vivos. Volto a lembrar o mestre Bento de Jesus Caraça, quando escrevia que um dever das elites era o de lutar pela cultura como património da comunidade inteira, de lutar pela tarefa essencial de "despertar a alma colectiva das massas".

VPV, Filomena Mónica, muitos outros, são exemplo do oposto. Criticam, ou até ridicularizam, do alto do pedestal, a "canalha" de mau gosto, que, no fundo, se calhar, invejam pelo seu sucesso na vida de hoje. Não produzem uma ideia nova, não ensinam ninguém. Julgam-se novos Eças ou Ramalhos, mas estes só ridicularizavam como instrumento de pedagogia cívica e cultural, nunca como forma de narcisismo. Infelizmente, há uma coisa muito nossa, a decadência. Pior, a decadência auto-satisfeita.